Capítulo XIII: Quando Todos os Caminhos se Encontram

Atualizado: 16 de ago.
A atmosfera dentro do Templo Celestial parecia comprimida, como se o próprio ar estivesse esperando o que aconteceria a seguir. As colunas gigantes projetavam sombras longas pelo salão subterrâneo, e a luz azul que emanava das estruturas antigas dava ao ambiente uma aparência quase sobrenatural.
No centro do recinto, atrás de Camilo, repousava o púlpito de vidro. Dentro dele, silenciosa e reluzente, estava a Flauta Dourada. O grupo inteiro percebeu aquilo ao mesmo tempo. E Marvin também. O lobo olhou para cada um dos seis que desciam a escadaria. Seus olhos se moviam lentamente de rosto em rosto, como se estivesse catalogando cada aberração que tinha diante de si. Então ele bufou.
— Engraçado… — murmurou ele.
O sorriso que surgiu em seu rosto era puro desprezo.
— Eu trabalhei durante anos em um circo. Um circo de verdade. Cheio de aberrações, gente torta, palhaços idiotas e animais que não sabiam o próprio lugar.
Ele abriu os braços, apontando para o grupo.
— E mesmo assim, eu nunca vi tanta aberração junta ao mesmo tempo.
Marvin começou a apontar. Ele deu uma pequena risada.
— E tudo isso vindo até aqui achando que pode me impedir.
Laércio avançou um passo. O aspirador posicionou-se à frente do grupo, seu tubo de sucção erguido como se fosse um gesto de firmeza.
— Marvin… — disse ele com calma.
O lobo imediatamente estreitou os olhos.
— Não é tarde demais para desistir.
Laércio continuou:
— Você precisa aceitar que Clarissa tomou uma decisão.
O nome ecoou pelo salão. Por um segundo, o rosto de Marvin mudou. Então explodiu.
— Não fale o nome dela, sua porcaria desgraçada!
O grito reverberou pelas paredes do templo. Marvin avançou um passo, apontando para Laércio com ódio puro.
— Nunca mais abra essa boca podre pra falar dela!
Ele tremia de raiva. Laércio recuou um pouco, mas não respondeu. Antes que Marvin avançasse mais, o Senhor Macaco deu um passo à frente. Ele ergueu a mão lentamente e mostrou o dedo do meio.
— Vai tomar no seu cu, lobo.
Licurgo, que estava ao lado de Marvin, ficou completamente estupefato.
— Meu Pit Mangueira…
O dodô ajustou o monóculo.
— Que grosseria absolutamente desnecessária.
Marvin apenas riu. Uma risada baixa. Perigosa.
— Tudo bem.
Ele levantou a escopeta lentamente.
— Eu vou matar cada um de vocês.
Seus olhos brilharam.
— E depois que eu pegar a Flauta Dourada…
Ele olhou para todos eles.
— Vou trazer vocês de volta. Só pra deixar cada um preso em sofrimento eterno.
O silêncio caiu por um instante. Então Desnatado deu um passo à frente. O copo de leite ajeitou a boina com calma. E falou com absoluta naturalidade:
— Eu vou ajudar aquele cachorro feio do caralho contra o Marvin.
Camilo olhou para ele. Desnatado apontou para o lobo.
— Tigre e Macaco, cuidem do dodô.
Ele virou o rosto para Laércio.
— Laércio, fique aqui seguro com os patos.
Então apontou para Héctor e Elias.
— Patos, cuidem do aspirador.
Os dois agentes assentiram imediatamente.
— Pode deixar com a gente — disse Héctor.
— Segurança máxima — acrescentou Elias, ainda tentando parecer profissional.
O grupo se separou. Tigre e Senhor Macaco começaram a se mover lentamente em direção a Licurgo, bloqueando qualquer tentativa do dodô de interferir. Laércio recuou alguns passos com os dois patos. No centro do salão ficaram apenas Marvin, Camilo, e Desnatado. O ar parecia vibrar ao redor deles. Camilo ergueu o Cajado Celestial, a ponta do artefato brilhando intensamente enquanto ele assumia uma postura de combate. Ao lado dele, Desnatado abriu a mochila lentamente, os olhos fixos no lobo.
Marvin sorriu, e havia algo naquele sorriso que misturava pura confiança com uma ambição quase febril. Seus olhos percorriam o altar, a Flauta Dourada, os dois adversários diante dele, e parecia claro que, em sua mente, tudo aquilo já estava decidido. Ele avançou com uma agilidade inesperada para alguém com seu porte, o corpo se movendo como uma máquina perfeitamente ajustada para a violência. A luta começou de forma abrupta, quase caótica.
Camilo ergueu o Cajado Celestial e deu o primeiro passo, posicionando-se entre Marvin e o púlpito que guardava a flauta. Ao mesmo tempo, Desnatado deslizou lateralmente, abrindo um ângulo de ataque. Os dois se moviam com surpreendente coordenação, como se já tivessem lutado juntos antes. Enquanto Camilo mantinha o lobo ocupado na linha de frente, Desnatado circulava ao redor, procurando um ponto vulnerável. Marvin respondeu com brutal eficiência. Ele desviava dos golpes com movimentos curtos e econômicos, ora recuando um passo, ora inclinando o corpo apenas o suficiente para que o ataque passasse raspando. Em seguida, contra-atacava com investidas rápidas, garras abertas e dentes à mostra, obrigando os dois defensores a se reorganizarem constantemente.
Desnatado foi o primeiro a atacar com intenção real de ferir. Ele avançou num salto controlado, retirando duas adagas finas e reluzentes de dentro da mochila. As lâminas refletiam a luz azul do templo enquanto o copo de leite executava uma sequência precisa de estocadas, mirando primeiro o abdômen, e depois o flanco do lobo. Mas Marvin se movia rápido demais. Ele girou o corpo para o lado, deixando a primeira lâmina cortar apenas o ar, e inclinou-se para trás quando a segunda passou perto de seu peito. O lobo então deslizou para dentro da guarda de Desnatado com um movimento inesperado, agarrando o pulso do adversário e tentando torcê-lo. Desnatado conseguiu se soltar no último instante, rolando para trás e recuperando a postura antes que Marvin pudesse agarrá-lo novamente. Camilo aproveitou a abertura. O sacerdote avançou com o cajado, que começou a emitir um brilho mais intenso. Ele girou a arma num arco poderoso e desferiu um golpe lateral contra o ombro do lobo.
Marvin ergueu o antebraço para bloquear o impacto, mas ainda assim o golpe o empurrou alguns passos para o lado. Por um instante, o equilíbrio da luta pareceu pender contra ele. Mas Marvin apenas sorriu novamente. Seus músculos se tensionaram, e ele voltou à carga com uma explosão de velocidade que fez o ar ao redor parecer vibrar. A luta, que já era intensa, transformou-se num verdadeiro turbilhão de movimentos, golpes e esquivas enquanto o lobo enfrentava simultaneamente o cajado de Camilo e as lâminas velozes de Desnatado.
Enquanto isso, alguns metros ao lado do altar, outro confronto começava a se desenrolar. Tigre e Senhor Macaco haviam se posicionado diante de Licurgo, bloqueando o caminho entre o dodô e o combate principal. A ave os observava com uma calma inquietante, os olhos brilhando por trás do monóculo. Por alguns segundos, ninguém se moveu. Então Licurgo sorriu. Era um sorriso fino, quase elegante, mas carregado de uma malícia evidente. Ele colocou a asa dentro do bolso interno do casaco e começou a puxar algo de dentro.
O objeto parecia longo demais para caber ali. Mesmo assim, Licurgo continuou puxando até revelar uma serra elétrica inteira, que emergiu do bolso como se desafiasse completamente as leis da física. Guillard recuou instintivamente um passo.
— Que porra é essa? Como isso é possível? — exclamou Tigre, incrédulo.
Licurgo apenas riu. A risada era aguda, quase estridente, ecoando pelo salão subterrâneo enquanto ele puxava a corda de ignição da máquina. O motor respondeu imediatamente com um rugido violento, e a corrente metálica começou a girar em alta velocidade.
— Bolsos bem organizados fazem milagres — respondeu o dodô com naturalidade.
Tigre manteve a postura firme.
— Você devia parar de obedecer o Marvin — disse ele. — Isso não vale a pena.
Licurgo inclinou a cabeça, como se considerasse seriamente aquela ideia. Então deu de ombros.
— Eu faço tudo por ioiôs.
Ele ergueu a serra elétrica acima da cabeça.
— E Marvin me prometeu infinitos ioiôs.
Antes que Tigre pudesse responder, Licurgo avançou. A serra elétrica desceu em um arco brutal, cortando o ar onde o tigre estava um segundo antes. Guillard saltou para o lado com agilidade felina, aterrissando já em movimento e deslizando pelo chão de pedra.
— Cuidado, listrado! — gritou Senhor Macaco.
Tigre avançou de volta imediatamente. Seu estilo de luta era rápido e preciso. Ele atacava em rajadas curtas, desferindo socos e chutes calculados enquanto se mantinha fora do alcance da lâmina giratória. Um golpe rápido acertou o peito de Licurgo, fazendo o dodô recuar meio passo. Mas a ave reagiu rápido. Ele girou o corpo e varreu o espaço com a serra elétrica, obrigando Tigre a saltar para trás novamente para evitar que a corrente rasgasse seu torso.
— Você é rápido, felino — comentou Licurgo com admiração.
— E você é um pau mole — respondeu Tigre.
Enquanto os dois trocavam golpes e esquivas, o Senhor Macaco entrou em ação. O primata não avançou diretamente. Em vez disso, começou a saltar de um lado para o outro ao redor do combate, como uma sombra errática. Ele pegou uma pedra do chão e arremessou contra a cabeça de Licurgo. O dodô desviou por pouco.
— Como ousa?!
Outra pedra veio logo em seguida. Depois uma fruta podre que estava esquecida em algum canto do templo. Licurgo tentou acompanhar os dois ao mesmo tempo, mas o movimento caótico do macaco tornava isso difícil.
— Para de pular, seu imbecil! — gritou o dodô.
O Senhor Macaco apenas sorriu.
— Tô ajudando, porra!
Ele então pegou algo do chão e lançou com força. Licurgo percebeu tarde demais o que era.
— Isso é o que eu estou pensando?
O objeto atingiu diretamente seu rosto. Era um cocô do Senhor Macaco.
— Desculpa aí! — gritou o macaco, rindo. — Munição limitada!
Licurgo ficou completamente furioso.
— Seu primata imundo!
A distração foi suficiente. Tigre avançou novamente e acertou um golpe forte no braço de Licurgo, fazendo a serra elétrica oscilar por um instante. A luta entre os três continuava, rápida e caótica, enquanto no centro do salão o confronto entre Marvin, Camilo e Desnatado sacudia o templo inteiro. O guardião canino manejava o Cajado Celestial com uma habilidade impressionante, girando-o em arcos precisos e desferindo golpes calculados que buscavam atingir articulações, costelas e pontos vulneráveis do lobo. Cada movimento de Camilo era disciplinado, quase ritualístico, como se cada ataque seguisse uma lógica aprendida ao longo de anos de treinamento dentro daquele templo.
Marvin, porém, lutava de maneira completamente diferente. Seus movimentos eram brutais e imprevisíveis, respondendo à técnica de Camilo com pura agressividade. Ele desviava por centímetros, bloqueava com os antebraços e contra-atacava com golpes pesados que obrigavam o sacerdote a recuar. Desnatado aproveitava cada abertura possível, avançando com suas adagas para atacar pelos flancos, forçando o lobo a lutar em duas frentes. Por alguns instantes, o trabalho em conjunto de Camilo e Desnatado pareceu funcionar. O lobo recuava lentamente, pressionado pelos ataques coordenados.
Foi então que Marvin mudou de estratégia. Com um movimento rápido, ele recuou dois passos, ergueu a escopeta e disparou diretamente contra Camilo. Desta vez, o resultado foi diferente. A bala atingiu o braço do sacerdote e atravessou a carne, fazendo-o perder o equilíbrio e cair de joelhos. Camilo soltou um grito de dor que ecoou pelo salão, o Cajado Celestial escorregando de sua mão por um instante. A diferença entre aquele disparo e o anterior estava no próprio cajado. Quando Marvin havia atirado pela primeira vez, o Cajado Celestial estava erguido, ativando o campo de proteção místico que ligava Camilo ao templo. Aquela aura defensiva tornava seu corpo praticamente impenetrável enquanto o artefato estivesse ativo e preparado.
Mas durante a luta, Camilo estava usando o cajado ofensivamente, canalizando sua energia para os ataques. No momento em que Marvin disparou novamente, o campo protetor havia sido momentaneamente interrompido. E a bala encontrou carne. Camilo caiu apoiando uma das mãos no chão, o braço ferido sangrando enquanto ele tentava recuperar o fôlego. Marvin sorriu.
— Viu? Agora fez cócegas.
Do alto da escadaria, Héctor assistia à cena com olhos arregalados. Por mais incompetente que fosse em muitos aspectos, o pato ainda carregava um senso de dever que às vezes surgia nos momentos menos esperados.
— Isso foi baixaria! — exclamou ele.
Sem pensar muito nas consequências, Héctor saiu correndo em direção ao guardião ferido. Seus passos ecoavam pelo piso do templo enquanto ele atravessava o salão.
— Aguenta firme aí, cachorro!
Ele chegou até Camilo e se ajoelhou ao lado dele, tentando avaliar o ferimento da melhor forma que conseguia.
— Isso parece ruim — murmurou o pato.
Camilo apertava os dentes, tentando ignorar a dor enquanto procurava recuperar o controle do Cajado Celestial.
— Afaste-se — disse ele, com a voz tensa.
Mas Héctor já estava rasgando um pedaço da própria roupa para improvisar um curativo.
— Fica tranquilo, eu já vi coisa pior na delegacia.
Enquanto isso, o combate no templo só se intensificava. Desnatado avançou novamente contra Marvin, girando as adagas em movimentos rápidos enquanto tentava impedir que o lobo se aproximasse do altar. Laércio observava a batalha ao lado de Elias, seus sensores registrando cada movimento com preocupação crescente.
Mesmo com a serra elétrica girando perigosamente no ar, Guillard e Senhor Macaco continuavam enfrentando Licurgo com uma determinação feroz. O dodô atacava com movimentos amplos e agressivos, a lâmina dentada rasgando o ar em arcos ameaçadores que obrigavam Tigre a se mover constantemente para evitar ser atingido. Ainda assim, o felino mantinha a calma e a disciplina em seus movimentos, desviando por pouco enquanto observava atentamente os padrões de ataque da ave.
O Senhor Macaco contribuía à sua maneira caótica. Saltava de um lado para o outro, chutando o chão, lançando pequenas pedras e insultos em igual medida, dificultando a concentração de Licurgo. Em determinado momento, o primata acertou o dodô com mais um projétil improvisado. Uma pedra pontuda que explodiu contra o olho do inimigo, causando um incômodo que fez Licurgo hesitar por um breve segundo. Esse segundo foi suficiente.
Guillard avançou com a velocidade de um predador. Com um movimento giratório poderoso, ele desferiu um golpe lateral contra o braço de Licurgo. O impacto fez a ave perder o controle da serra elétrica, que escapou de suas asas e deslizou pelo chão de pedra até parar alguns metros adiante. Antes que Licurgo pudesse reagir, o Senhor Macaco aproveitou a abertura. O primata saltou nas costas do dodô, enrolando os braços ao redor de seu pescoço em um mata-leão firme e técnico, apertando com toda a força.
Licurgo se debatia violentamente, tentando alcançar o macaco com as asas, mas o estrangulamento o impedia de respirar direito.
— Anda, listrado! Mata logo esse merdinha! — gritou o macaco, com os dentes cerrados enquanto mantinha o aperto.
Guillard caminhou até a serra elétrica caída e a pegou. O motor ainda rugia baixo, a corrente metálica girando com um som ameaçador. Tigre parou. A mão tremia. Ele olhou para Licurgo, que se debatia tentando se libertar, e por um momento hesitou.
— Eu… eu não sei se consigo — murmurou, a dúvida estampada em seu rosto.
— Vai logo, porra! — berrou Senhor Macaco, apertando ainda mais o estrangulamento. — Eu não vou aguentar por muito tempo!
Guillard respirou fundo. O peso da decisão parecia esmagar seus pensamentos por um instante. Então ele avançou. Ergueu a serra elétrica. E desferiu o golpe. A lâmina dentada rasgou o corpo de Licurgo na região do diafragma. O som metálico da corrente cortando carne ecoou pelo salão, e o corpo do dodô se contorceu violentamente antes de perder toda a força. O sangue jorrou sobre o chão de pedra e respingou no rosto de Tigre e Senhor Macaco. Licurgo caiu sem vida. O macaco soltou o corpo e se levantou, completamente coberto de sangue, respirando pesado. Ele olhou para Guillard e abriu um sorriso torto.
— Viu? Não doeu nada em você, certo?
Guillard ainda segurava a serra elétrica, o peito subindo e descendo enquanto tentava processar o que havia acabado de fazer. Mas antes que pudesse responder, uma voz ecoou do outro lado do salão.
— Parem de enrolar, seus burros! Ajudem o Desnatado!
Era Laércio. Os dois olharam imediatamente para o centro do templo. Marvin havia conseguido recuperar vantagem sobre Desnatado. O copo de leite tentava manter distância com suas adagas, mas o lobo pressionava com ataques brutais, empurrando-o cada vez mais para trás.
Sem hesitar, o Senhor Macaco disparou em direção ao combate. Ele saltou pelo ar com agilidade impressionante e caiu diretamente sobre Marvin. Antes que o lobo pudesse reagir, o primata cravou os dentes em uma das orelhas do inimigo. Marvin soltou um grito de dor e instintivamente largou a escopeta, que caiu no chão de pedra com um barulho seco enquanto o confronto dentro do templo atingia um novo nível de violência.
Guillard aproveitou o instante de desequilíbrio criado pelo ataque do Senhor Macaco, e assim que Marvin largou a escopeta ao sentir os dentes do primata rasgando sua orelha, avançou com toda a velocidade de que era capaz. Ele cravou as mãos no peito do lobo e o empurrou com força, obrigando-o a recuar alguns passos pelo chão de pedra do templo. Antes que Marvin pudesse recuperar totalmente o equilíbrio, Guillard já estava desferindo socos rápidos e diretos, mirando o rosto e o torso do inimigo.
Os golpes vinham em sequência, secos e precisos, cada um acompanhado pelo movimento ágil do corpo do felino. Marvin absorveu o primeiro impacto no maxilar e respondeu com um sorriso torto, como se aquilo fosse apenas um aquecimento. Guillard continuou atacando, alternando entre socos e joelhadas, tentando impedir que o lobo recuperasse espaço. Desnatado, que ainda se levantava após os golpes anteriores, aproveitou a abertura. Limpando o sangue que escorria de sua boca, ele avançou novamente com as adagas nas mãos. O copo de leite entrou na luta pelo flanco de Marvin, golpeando com movimentos curtos e rápidos, tentando atingir as costelas e os braços do lobo.
Por alguns instantes, o ataque combinado funcionou. Guillard pressionava pela frente, obrigando Marvin a bloquear e recuar, enquanto Desnatado atacava pelos lados, buscando qualquer ponto vulnerável. Mas Marvin não era um adversário comum. Em um movimento brutal, ele girou o corpo e interceptou um dos ataques de Desnatado. O lobo avançou um passo à frente e desferiu um soco direto no estômago do copo de leite com uma força esmagadora. O impacto foi devastador. Desnatado perdeu o ar imediatamente. Seu corpo se curvou para frente e ele caiu de joelhos, as adagas escorregando momentaneamente de suas mãos. Um jorro de sangue escapou de sua boca enquanto ele tentava respirar.
Marvin nem sequer olhou duas vezes. Guillard já avançava novamente. O tigre atacou com velocidade felina, lançando uma sequência de golpes rápidos, alternando entre socos e chutes baixos. Cada ataque buscava atingir articulações e pontos sensíveis, explorando a agilidade superior que ele possuía.
Mas Marvin bloqueava tudo. Seus braços se moviam como placas de aço, interceptando cada golpe com precisão brutal. Quando Guillard tentava atacar por cima, o lobo desviava o torso. Quando vinha um chute lateral, Marvin absorvia o impacto e empurrava o tigre para trás com pura força. Ele era como uma muralha viva. Guillard tentou acelerar ainda mais os ataques, mas Marvin parecia antecipar cada movimento.
Desnatado finalmente conseguiu recuperar o fôlego suficiente para voltar à luta. Com esforço, ele se levantou e correu novamente para o lado do tigre. Os dois se posicionaram lado a lado, respirando pesado, mas ainda determinados. Sem trocar palavras, avançaram juntos. Guillard atacou pelo alto, enquanto Desnatado deslizou pelo lado, tentando novamente encontrar uma abertura. Os golpes vinham em perfeita coordenação, alternando pressão e distração. O tigre forçava Marvin a bloquear ataques diretos enquanto o copo de leite buscava atingir as laterais com as lâminas.
Mesmo assim, Marvin resistia. Cada contra-ataque do lobo vinha com uma força brutal, sacudindo o corpo dos dois adversários sempre que conseguiam bloquear apenas parcialmente seus golpes. Um soco de Marvin atingiu o ombro de Guillard, fazendo o tigre recuar com o impacto. Em seguida, um chute lateral empurrou Desnatado para trás mais uma vez. O chão do templo parecia vibrar com a violência da luta. As sombras das colunas dançavam pelas paredes enquanto os combatentes se moviam sob a luz azulada do santuário. Cada impacto ecoava pelo salão como um trovão abafado.
Com um rugido carregado de pura fúria, Marvin reuniu o que restava de sua força e avançou mais uma vez. Seus músculos tremiam, as veias saltavam sob a pele ensanguentada, e seus olhos queimavam com uma determinação brutal. Em um movimento explosivo, ele girou o corpo e desferiu um golpe devastador. O impacto atingiu primeiro Guillard. O punho do lobo colidiu contra o peito do tigre com força esmagadora, arremessando-o vários metros para trás. O corpo listrado atravessou o ar e caiu violentamente no chão de pedra do templo, rolando até parar contra a base de uma coluna.
Antes que o Desnatado pudesse reagir, Marvin já havia se voltado para ele. O copo de leite tentou erguer as adagas uma última vez, mas o lobo foi mais rápido. Um golpe brutal com o antebraço acertou o lado do corpo de Desnatado, fazendo o vidro do copo ranger de maneira assustadora. O impacto o lançou ao chão com violência. As adagas deslizaram pelo chão. O silêncio caiu no templo. A luta havia terminado. Guillard permanecia caído, respirando com dificuldade. Desnatado tentava se erguer, mas o corpo simplesmente não respondia. Ao redor deles, os outros também estavam feridos, exaustos ou incapazes de continuar.
Marvin era o único que permanecia de pé. Ele respirava pesado, o peito subindo e descendo enquanto o sangue escorria por seu rosto, seu peito e seus braços. Seu corpo estava coberto de cortes, hematomas e sujeira. A orelha rasgada ainda sangrava lentamente. Seu pelo estava empapado de sangue. Parte dele, parte dos inimigos.
Mesmo assim, ele parecia colossal. Uma figura brutal erguida no centro do templo. Seus olhos percorreram lentamente pelo salão. Ele olhou para cada um deles. Para o tigre derrotado, para o copo de leite caído, para o macaco ferido, para os patos tremendo, e para o aspirador de pó, que o encarava com desespero. No olhar de Marvin havia apenas satisfação e desprezo. Então ele começou a caminhar. Cada passo ecoava pelo templo silencioso. Seu corpo mancado denunciava o esforço da batalha, mas ele avançava mesmo assim. Sangue pingava de seus dedos enquanto ele caminhava lentamente até o altar.
A Flauta Dourada repousava dentro do pedestal. Ela brilhava suavemente, pulsando com uma energia quase viva. Marvin ergueu a escopeta caída e a usou como uma alavanca. Com um golpe brutal, estilhaçou a caixa de vidro que protegia o artefato. Fragmentos dourados se espalharam pelo chão. Antes de pegar a flauta, porém, ele parou. Virou-se mais uma vez para os derrotados. Seus olhos passaram por cada rosto. Foi então que uma voz fraca quebrou o silêncio. Laércio. O aspirador de pó tremia levemente, e lágrimas escorriam por seu corpo metálico.
— O que importa… — murmurou ele — é que tentamos...
— Tentaram?!
O lobo caminhou alguns passos em direção ao aspirador, inclinando levemente a cabeça.
— Do que adianta tentar, se no final vocês vão perder para mim?
Ele apontou para o próprio peito.
— Vocês ficam aí falando de destino, de esperança, de tentar fazer a coisa certa, como se isso tivesse algum valor.
Marvin cuspiu no chão.
— O mundo não recompensa quem tenta. O mundo recompensa quem vence.
Seus olhos se estreitaram.
— Eu tentei também, sabia?
Ele abriu os braços.
— Tentei durante anos! Tentei ser paciente. Tentei esperar. Tentei aceitar as decisões dos outros. Tentei confiar que as coisas dariam certo.
O sorriso desapareceu de seu rosto.
— E o que eu ganhei com isso?
Silêncio. Então ele voltou a sorrir. Um sorriso cruel.
— Nada.
Ele ergueu o punho fechado.
— Então eu aprendi a única lição que realmente importa.
Marvin olhou novamente para todos eles.
— Não basta tentar.
Ele se virou novamente para o altar.
— Tem que conquistar. Tem que tomar. Tem que esmagar tudo que estiver no seu caminho.
Ele estendeu a mão.
— Foi isso que eu fiz.
Seus dedos finalmente tocaram o artefato. Marvin segurou a Flauta Dourada. O metal brilhante parecia vibrar em sua mão. Por um instante, o tempo pareceu parar dentro do templo. Então ele levou o instrumento aos lábios. E começou a tocar. A melodia que saiu da flauta era estranhamente bela. As notas ecoaram pelo templo com uma suavidade inquietante, como se cada som carregasse uma força antiga e profunda. O ar ao redor pareceu vibrar. As sombras nas paredes começaram a se mover lentamente, distorcidas pela energia que preenchia o salão. Camilo, o guardião, caiu de joelhos. Seu cajado escapou de suas mãos enquanto ele observava o que havia jurado impedir. O fracasso pesava sobre ele como uma montanha.
A Flauta Dourada estava tocando. E estava nas mãos erradas. A luz começou a surgir no centro do templo. Primeiro como um brilho suave. Depois como uma onda dourada que se expandia lentamente, iluminando colunas, escadas e paredes com uma intensidade crescente. O chão começou a vibrar sob os pés de todos. A melodia se aprofundava. Cada nota parecia penetrar no próprio coração do templo. Como se o lugar inteiro estivesse respondendo ao chamado do artefato. Marvin continuava tocando. Seus olhos estavam fechados agora. Um sorriso de puro triunfo se espalhava em seu rosto ensanguentado. Ele podia sentir. O poder crescendo dentro dele. Algo que parecia despertar ao som da flauta. E enquanto a luz dourada inundava o templo inteiro, os heróis derrotados só podiam assistir.