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Capítulo XIV: Tudo que Reluz Tem um Preço

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
1 de jun.
17 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

A luz dourada que emanava da Flauta Dourada continuava a expandir-se pelo templo, preenchendo cada coluna, cada degrau e cada fresta do antigo santuário com um brilho quase sagrado. A melodia tocada por Marvin parecia reverberar no próprio ar, como se as paredes do templo estivessem cantando junto com o instrumento.


Então, do centro daquele feixe de luz pulsante, algo começou a se formar. Primeiro uma silhueta difusa. Depois contornos. Uma figura feminina. A luz começou a se condensar em torno dela, tomando forma lentamente até que, diante de todos, uma loba de pelagem clara e postura elegante surgiu completamente materializada no centro do templo, era Clarissa. Os combatentes espalhados pelo chão ergueram a cabeça com dificuldade, incrédulos com o que estavam testemunhando. Camilo, ainda ajoelhado, arregalou os olhos. Guillard, mesmo ferido, piscou várias vezes como se tentasse confirmar que aquilo era real. Senhor Macaco, coberto de sangue, parou completamente imóvel. Até Laércio deixou escapar um ruído baixo de espanto.


Marvin foi o único que parecia incapaz de respirar. A flauta ainda estava em suas mãos, mas ele havia parado de tocar. A loba diante dele olhava ao redor com uma expressão fria, quase entediada, como alguém que tinha acordado abruptamente de um sono muito longo. Seus olhos finalmente pousaram em Marvin. O silêncio que tomou conta do templo parecia absoluto. Os segundos se arrastaram. Depois viraram minutos. Ninguém ousava falar. Marvin deu um passo à frente. Seus olhos brilhavam. O corpo ainda tremia pela batalha, mas agora havia algo diferente nele. Algo quase infantil. Esperança.


— Eu… — murmurou Clarissa, olhando para ele com uma expressão vazia. — Eu não posso acreditar...


Marvin abriu um sorriso emocionado. Era talvez a primeira vez que alguém ali via aquele lobo sorrir sem malícia. Ele avançou alguns passos com os braços abertos.


— Meu amor… — disse ele, com a voz embargada. — Tudo o que eu fiz… foi por você. Tudo isso foi para trazê-la de volta!


Ele tentou abraçá-la. Mas Clarissa o empurrou com força. O movimento foi seco e instintivo. Marvin cambaleou um passo para trás, completamente desconcertado. O silêncio que se seguiu foi ainda mais constrangedor. Os presentes trocaram olhares discretos. Senhor Macaco fez uma careta. Guillard desviou os olhos. Desnatado apenas observava, em silêncio absoluto. Clarissa deu alguns passos para trás, como se precisasse manter distância física do lobo. Seu rosto se contorceu lentamente em puro desgosto.


— Você tem algum problema, Marvin?! É retardado?!


A voz dela agora carregava uma irritação crescente.


— Eu deixei bem claro — continuou ela, apontando para ele com irritação — ao me atirar aos leões naquele dia, que estava encerrando qualquer vínculo contigo!


Marvin ficou completamente imóvel. Sua boca abriu, mas nenhuma palavra saiu. Ele piscou algumas vezes, tentando reorganizar os pensamentos.


— Mas meu amor… — ele finalmente conseguiu dizer — eu lutei por você. Eu atravessei o mundo por você! Eu devastei um reino inteiro por você!


Ele apontou para a flauta.


— Eu fiz tudo isso por nós!


Clarissa explodiu. Ela puxou os próprios pelos da cabeça com frustração, andando de um lado para o outro como alguém que havia perdido completamente a paciência.


— Por nós?!


A loba virou-se para ele com os olhos arregalados de raiva.


— Eu sinto nojo de você, Marvin!


A voz dela ecoou pelo templo inteiro.


— Você não fez isso por nós! Você fez isso por você!


Ela apontou para o corpo ensanguentado do lobo.


— Você sempre faz tudo por você!


Ela caminhou alguns passos em direção a ele, furiosa.


— Você destruiu minha vida com aquele maldito circo! Com seus surtos de controle! Com sua obsessão ridícula!


Ela fez um gesto agressivo com as mãos.


— E com esse pênis insignificante que você tanto adora exibir como se fosse algum tipo de troféu!


O templo inteiro ficou em silêncio absoluto. Ninguém ousou sequer respirar. Senhor Macaco lentamente virou a cabeça para Guillard. Guillard olhou para o chão. Desnatado levou uma das mãos à boca, tentando esconder a reação. Camilo piscou várias vezes, completamente sem saber o que fazer diante daquela situação surreal. Laércio apenas observava, imóvel.


Marvin não reagia. Ele permanecia parado no mesmo lugar, olhando para Clarissa como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés. O lobo que havia atravessado reinos, massacrado exércitos e enfrentado todos ali agora parecia pequeno. Fragilizado. Os olhos dele começaram a perder o brilho. Sua respiração ficou irregular.


— Eu… — ele tentou falar novamente.


Mas as palavras não vinham. Ao redor, todos continuavam estáticos. Porque naquele momento, dentro do Templo Celestial, ninguém estava vendo o monstro que quase conquistou um poder absoluto. Eles estavam vendo algo muito mais estranho. Um tirano. Um conquistador.Um assassino. Com o coração completamente despedaçado.


Clarissa permaneceu parada por alguns instantes depois de terminar sua explosão de raiva. Sua respiração estava pesada, os pelos desalinhados, e o olhar carregado de um desprezo profundo que parecia atravessar Marvin como uma lâmina invisível. Então ela começou a observar o templo ao redor. Seus olhos percorreram lentamente o cenário.


Primeiro os combatentes caídos. Guillard apoiado contra uma coluna, tentando recuperar o fôlego. Desnatado ajoelhado no chão, ainda limpando o sangue que escorria pelo canto do copo. Senhor Macaco parado alguns passos atrás, o corpo coberto de manchas escuras da luta recente. Os patos completamente atônitos. E Laércio, ainda processando tudo em silêncio. Depois seu olhar encontrou o guardião Camilo, ajoelhado e derrotado.


Então ela viu a escopeta da família Quebra-molas caída no chão, abandonada após a luta. Seu olhar seguiu adiante. Até parar nos restos de Licurgo. O corpo do dodô estava dilacerado onde havia sido cortado pela serra elétrica. Penas sujas de sangue estavam espalhadas pelo chão, misturadas a pedaços de carne e vísceras. O cheiro metálico de sangue impregnava o ar pesado do templo.


Clarissa observou aquilo tudo em silêncio. Seu rosto endureceu. Então seus olhos finalmente encontraram a serra elétrica caída alguns metros adiante. O motor ainda estava silencioso, manchado de sangue. Clarissa caminhou até ela. Cada passo ecoava pelo templo silencioso. Ninguém tentou impedi-la. Ninguém parecia sequer entender o que estava acontecendo. Ela se abaixou, pegou a serra elétrica com as duas mãos e ficou parada por alguns segundos, segurando o peso da ferramenta. Marvin ergueu o olhar lentamente. Ele parecia ter compreendido. Ou talvez não quisesse compreender.


— Clarissa… — sua voz saiu rouca.


A loba não olhou para ele. Antes de qualquer coisa, ela murmurou com um tom cansado:


— Por favor, Marvin… não faça mais tentativas de me trazer de volta.


Ela respirou fundo. Então finalmente virou o rosto para ele. O desprezo em seus olhos era absoluto.


— Você é uma figura desprezível.


O silêncio que se seguiu pareceu infinito. Então ela puxou o cordão da serra. O motor rugiu violentamente. O som rasgou o ar do templo como um trovão mecânico. Alguns dos presentes deram um passo involuntário para trás. Marvin não se moveu. Clarissa ergueu a serra. Por um breve segundo, todos ali entenderam o que estava prestes a acontecer. Clarissa pressionou a lâmina giratória contra o próprio abdômen. A corrente dentada rasgou imediatamente a carne e os músculos com um som grotesco. O corpo da loba se arqueou enquanto o sangue começou a jorrar violentamente, espirrando pelo chão de pedra do templo.


O motor da serra continuava rugindo. Clarissa não soltou. Ela empurrou ainda mais fundo. A lâmina atravessou o ventre, abrindo um rasgo largo que expôs vísceras e tecidos internos. Sangue quente escorreu em cascata pelo corpo dela e se espalhou pelo chão. Guillard virou o rosto imediatamente. Desnatado ficou completamente imóvel. O Senhor Macaco arregalou os olhos, incapaz de reagir. Clarissa caiu de joelhos. Mas mesmo assim manteve as mãos firmes na máquina. O corte se aprofundou. A serra subiu pelo torso, rasgando carne, abrindo o peito, espalhando fragmentos de tecido e sangue pelo altar próximo. O som da lâmina mastigando ossos misturou-se ao motor rugindo e aos gritos horrorizados que começaram a ecoar pelo templo.


Por fim, o corpo de Clarissa desabou. A serra escapou de suas mãos e caiu ao lado, ainda girando por alguns segundos antes de parar. O chão do templo agora estava coberto de sangue, vísceras e pedaços do corpo da loba. O silêncio que tomou conta do lugar foi absoluto. Ninguém falava. Ninguém se movia.


No centro daquele cenário grotesco, Marvin permanecia ajoelhado. O lobo olhava fixamente para os restos espalhados de Clarissa. Seu rosto não demonstrava raiva. Nem fúria. Nem desespero explosivo. Apenas um vazio profundo. Seus ombros começaram a tremer lentamente. Então ele abaixou a cabeça. E permaneceu ali. Inclinado sobre si mesmo. Em silêncio. Diante daquilo que restava do único motivo que havia movido toda a sua destruição.


Guillard demorou alguns segundos para reunir forças suficientes para se levantar. Cada músculo de seu corpo protestava, e o impacto da luta contra Marvin ainda reverberava em seus ossos. Mesmo assim, ele se ergueu. Respirando com dificuldade, o tigre caminhou lentamente até o lobo ajoelhado no centro do templo.


Marvin ainda segurava a Flauta Dourada. Seus olhos estavam vazios, fixos no chão ensanguentado onde os restos de Clarissa estavam espalhados. Seus ombros tremiam em pequenas convulsões silenciosas. Guillard parou diante dele.


— Marvin… — disse o tigre, com a voz cansada, mas firme. — Acabou.


O lobo não respondeu. Guillard continuou.


— Entregue a Flauta Dourada ao guardião. Venha conosco de volta ao Vale do Sussurro. Ainda dá tempo de você responder pelos seus crimes sem destruir mais nada.


Por alguns segundos, Marvin permaneceu imóvel. Então ele começou a rir. Primeiro um riso baixo. Depois um riso que cresceu lentamente, ganhando volume até ecoar pelo templo inteiro. Era um riso instável. Quase histérico. Marvin ergueu a cabeça devagar, seus olhos estavam completamente tomados por uma insanidade febril.


— Acabou? — ele repetiu.


Ele começou a se levantar.


— Você acha que isso acabou?


Marvin olhou ao redor do templo destruído. Para os feridos. Para o altar. Para o sangue espalhado. Então ergueu a Flauta Dourada diante dos olhos.


— Isso aqui — disse ele — é o começo.


Ele abriu um sorriso torto.


— Eu vou me tornar mais poderoso que Pit Mangueira.


O nome ecoou pelo templo.


— Eu vou reescrever a realidade inteira.


Marvin apertou o instrumento com força.


— Vou reconstruir tudo do meu jeito. Vou apagar esse mundo patético e criar um novo.


Ele apontou para os restos de Clarissa.


— E nesse mundo, ela vai me amar.


Do outro lado do salão, Laércio não conseguiu se conter.


— Seu imbecil!


O aspirador avançou alguns centímetros.


— Ela se matou duas vezes para não ficar com você!


O silêncio caiu novamente. Então Marvin virou lentamente a cabeça para Laércio. E começou a rir outra vez.


— Duas vezes?


Ele deu de ombros.


— Se for preciso, ela vai se matar infinitas vezes.


Ele ergueu a Flauta Dourada até os lábios.


— Até aprender a me amar. Nem que seja na marra.


Guillard não esperou. O tigre avançou. Em um salto explosivo, ele atravessou o espaço entre eles e colidiu contra Marvin com toda a força do corpo. O impacto pegou o lobo completamente desprevenido. Os dois foram arremessados para trás. Seus corpos bateram contra o início da escadaria do templo e começaram a rolar violentamente pelos degraus de pedra. Degrau após degrau. Batendo. Rolando. Se chocando contra as paredes.


A Flauta Dourada escapou momentaneamente da mão de Marvin enquanto os dois despencavam pela escada em uma queda caótica. Por fim, ambos despencaram no nível inferior do templo. O impacto contra o chão foi brutal. Por um segundo, os dois ficaram imóveis.


Então Marvin foi o primeiro a se mover. Ele avançou imediatamente. O lobo lançou um soco pesado contra o rosto de Guillard, fazendo a cabeça do tigre girar violentamente para o lado. Guillard respondeu com um golpe no estômago de Marvin, forçando o ar para fora de seus pulmões.


Os dois se levantaram ao mesmo tempo. Agora estavam sozinhos naquele nível inferior do templo. A troca de golpes começou imediatamente. O espaço estreito amplificava cada impacto, fazendo os golpes ecoarem pelas paredes de pedra como pequenos trovões. Marvin avançava com pura brutalidade. Guillard respondia com técnica e precisão. Punhos colidiam. Corpos se chocavam. Sangue respingava pelo chão. Acima deles, no salão principal, os outros ouviam os impactos da luta ecoando pelo templo enquanto o confronto final entre tigre e lobo se desenrolava nas profundezas do santuário.


A luta no nível inferior do templo já havia perdido qualquer traço de técnica elegante. Agora era apenas brutalidade crua. Guillard e Marvin trocavam golpes a poucos metros da escadaria, seus corpos já exaustos, mas nenhum dos dois disposto a recuar. O som seco dos socos ecoava nas paredes de pedra como pequenas explosões.


A poucos metros dali, a Flauta Dourada permanecia caída no chão. O artefato irradiava uma luz suave e pulsante, como se observasse silenciosamente o destino daqueles que lutavam por ela. Guillard desviou de um soco pesado de Marvin e respondeu com um golpe direto no maxilar do lobo. O impacto fez a cabeça de Marvin virar violentamente, mas ele continuou avançando.


— Você não percebeu ainda?! — gritou Guillard entre os golpes, tentando recuperar o fôlego.


— Ela não queria você por perto! Desista disso!


Marvin respondeu com um soco brutal no rosto do tigre, fazendo Guillard cambalear alguns passos. Os olhos do lobo estavam completamente transtornados.


— Se eu não posso tê-la… — rosnou ele, avançando novamente — eu preciso me apegar a alguma coisa!


Ele lançou outro golpe.


— Eu vou usar essa flauta, e reescrever a realidade inteira!


Guillard tentou bloquear, mas o impacto ainda o fez recuar. Marvin apontou para o artefato caído no chão.


— Eu vou moldar tudo do jeito que eu quiser!


Ele abriu um sorriso perturbado.


— Se eu quiser, posso até fazer a vagabunda da sua mãe virar minha mulher, e comer ela de ladinho!


Guillard estava prestes a responder. Mas naquele instante, um disparo ecoou pelo templo. O som da escopeta reverberou pelas paredes como um trovão. Por uma fração de segundo, Marvin ficou completamente imóvel. Então o impacto aconteceu. A bala atingiu o lado da cabeça do lobo com violência devastadora. O crânio se abriu no mesmo instante, rasgando carne, osso e pele em um estilhaço grotesco. Um jorro violento de sangue e fragmentos de matéria cerebral explodiu para os lados. Parte da cabeça simplesmente deixou de existir.


O corpo de Marvin ficou rígido por um breve segundo, os olhos ainda arregalados, como se o cérebro tentasse compreender o que havia acontecido. Depois ele desabou. O corpo caiu pesado contra o chão de pedra com um baque seco. O sangue começou a se espalhar rapidamente pelo piso. Guillard permaneceu parado, respirando pesado, ainda coberto pelos respingos de sangue e pelos fragmentos de tecido que haviam atingido seu rosto e seu peito no momento do disparo. Lentamente, ele virou a cabeça.


No topo da escadaria, uma figura permanecia imóvel. Senhor Macaco. O primata estava parado no primeiro degrau, segurando a escopeta da família Quebra-molas ainda apontada para baixo. O cano da arma soltava um fio fino de fumaça. Seu olhar era firme. Decidido. Sem qualquer traço de hesitação. Por alguns segundos, ninguém disse nada. Então o macaco abaixou lentamente a arma. Guillard permaneceu alguns segundos olhando para o corpo sem vida de Marvin espalhado pelo chão de pedra. Sua respiração era pesada. Cada músculo do seu corpo doía.


O Senhor Macaco começou a andar lentamente. O primata segurava a escopeta ainda quente, mas agora caminhava com calma, como se todo o peso da batalha tivesse desaparecido de seus ombros. O templo, que minutos antes vibrava com gritos e golpes, agora estava tomado por um silêncio quase sepulcral. Guillard limpou parte do sangue do rosto com o antebraço.


Quando o macaco chegou perto do corpo de Marvin, ele se abaixou. Seus olhos pousaram na Flauta Dourada caída no chão, ainda emitindo aquele brilho suave e misterioso. Sem pressa, ele pegou o artefato. A luz dourada refletiu em seus olhos grandes e vazios. Então ele abriu a pochete presa à cintura e colocou a flauta dentro dela, fechando o zíper com cuidado. Guillard observava tudo. Por fim, o tigre conseguiu sorrir. Um sorriso cansado, mas aliviado.


— Senhor Macaco, conseguimos! — disse ele, respirando fundo. — Eu percebi que você estava muito quieto, seu sem vergonha. Sabia que estava tramando alguma coisa!


O macaco permaneceu em silêncio. Ele olhava para a escopeta em suas mãos. Girava a arma lentamente, como se examinasse cada detalhe do metal. Guillard deu um passo à frente.


— Senhor Macaco? Conseguimos! Vamos comemorar, seu filho de uma puta!


O tigre tentou rir, mas havia algo estranho no ar. Quando o primata finalmente ergueu o rosto, sua expressão era completamente diferente. Fria. Sombria. Guillard sentiu um arrepio subir pela espinha. Então, de repente, o Senhor Macaco ergueu a escopeta. O cano da arma apontou diretamente para o peito do tigre. Guillard congelou.


— Que porra é essa, Senhor Macaco? — perguntou ele, recuando um passo, completamente confuso.


O primata começou a bufar. Seus lábios se abriram lentamente em um sorriso torto, carregado de sarcasmo.


— Idiota…


Ele inclinou a cabeça.


— Achou mesmo que eu ia deixar você viver depois de me ver estuprando a porra de um mendigo?


Guillard ficou imóvel. O macaco deu mais um passo à frente.


— E não tente ficar forçando amizade, seu monte de bosta mofada.


Seus olhos estavam frios.


— A gente nunca foi amigo.


Ele apontou a arma com mais firmeza.


— Você sempre me desprezou, listrado. Sempre fez aquela cara de superioridade moral, como se estivesse fazendo um favor ao andar comigo.


O macaco deu uma pequena risada.


— Como se eu fosse um peso que você precisava tolerar.


Guillard balançou a cabeça lentamente. Os olhos do tigre estavam úmidos.


— E a história do seu pai? — perguntou ele com a voz trêmula. — E a flauta azul-turquesa da Flautolândia?


O macaco começou a rir. Uma gargalhada aberta. Ele jogou a cabeça para trás.


— Aquilo?


Ele voltou a encarar Guillard.


— Aquilo era mentira, listrado.


Ele bateu na própria virilha.


— Eu roubei aquela flauta no Gueto das Marmotas.


Ele deu de ombros.


— Fiquei puto quando aquele melão quebrou ela.


O sorriso do macaco ficou ainda mais perverso.


— Eu guardava minha cocaína dentro dela.


Guillard não respondeu. Ele apenas ficou parado. Processando. Cada palavra parecia quebrar alguma coisa dentro dele. Depois de alguns segundos, o tigre finalmente conseguiu falar.


— Então… — murmurou ele — toda essa jornada…


Ele engoliu em seco.


— Não significou nada pra você?


O macaco caminhou mais alguns passos, aproximando o cano da escopeta do peito de Guillard.


— Claro que não.


Ele abriu um sorriso sinistro.


— O que importa é que agora eu vou ser o todo poderoso.


Seus olhos brilharam.


— E ninguém nunca vai saber o que aconteceu aqui.


Ele inclinou a cabeça.


— Ninguém vai lembrar do único carteiro de bosta do Vale do Sussurro. O sorriso desapareceu.


— Você vai virar só mais uma história esquecida.


Guillard abriu a boca para dizer alguma coisa. Mas não houve tempo. O macaco puxou o gatilho. O disparo ecoou pelo nível inferior do templo. A bala atravessou a cabeça de Guillard a curta distância. O impacto destruiu o crânio do tigre instantaneamente. Sangue, fragmentos de osso e matéria cerebral explodiram para trás, espalhando-se pelas pedras e pelas colunas próximas.


O corpo do tigre caiu pesadamente no chão. Imóvel. Seus restos se espalharam pela base da escadaria. O eco do disparo desapareceu lentamente nas profundezas do templo. E então tudo voltou ao silêncio. Senhor Macaco permaneceu parado por alguns segundos. A escopeta ainda apontada para onde Guillard estava. Depois ele abaixou a arma lentamente. O andar inferior do Templo Celestial agora estava completamente silencioso. Cheio de sangue. Cheio de mortos. E apenas um sobrevivente. Senhor Macaco permaneceu alguns instantes observando o cenário no nível inferior do templo.


O chão de pedra estava coberto de sangue. O corpo mutilado de Marvin permanecia estendido perto da escadaria, parte do crânio destruída pelo disparo da escopeta. Alguns metros adiante, os restos de Guillard estavam espalhados onde o tiro o atingiu. O silêncio naquele lugar era absoluto. O primata soltou um suspiro longo.


Então largou a escopeta no chão. Ele estalou os dedos, depois os ombros, esticando os braços acima da cabeça como alguém que acabara de terminar um dia particularmente cansativo de trabalho. Em seguida arqueou as costas, bocejando.


— Que jornada… — murmurou para si mesmo.


Ele caminhou alguns passos entre os corpos. Parou diante de Marvin. Observou o cadáver por um momento. Depois virou-se para o que restava de Guillard. O macaco fez uma careta breve, como se estivesse entediado. Então ergueu o próprio pênis e começou a se masturbar. Em um gesto de puro desprezo, ejaculou primeiro sobre o corpo do lobo, depois virou-se e fez o mesmo sobre os restos de Guillard. O som do líquido escorrendo pela pedra ecoou no silêncio cavernoso do templo. Quando terminou, ele sacudiu o corpo, largou o pênis murcho, e respirou fundo novamente.


— Pronto.


Sem olhar para trás, caminhou até a escadaria. Subiu os degraus devagar, cada passo ecoando pelas paredes antigas do santuário. A expressão em seu rosto era calma, quase entediada, mas seus olhos carregavam uma arrogância fria. Quando chegou novamente ao salão principal do templo, os sobreviventes ainda estavam espalhados pelo local. Feridos. Exaustos. Desorientados.


Laércio estava apoiado contra uma coluna. Desnatado permanecia sentado no chão tentando conter rachaduras no próprio vidro. Héctor e Elias ainda recuperavam o fôlego ao lado da escada. Camilo permanecia ajoelhado, segurando o braço ferido. Quando viram o primata surgir no topo da escada, todos reagiram imediatamente. Elias foi o primeiro a falar.


— Vejam! É o primata! — exclamou o pato, visivelmente aliviado.


Os demais ergueram o olhar. O Senhor Macaco caminhou até o centro do salão. Ele suspirou profundamente. Baixou a cabeça. E fingiu tristeza.


— Pessoal… — disse ele, em tom grave. — Marvin foi derrotado.


Os rostos dos sobreviventes demonstraram alívio imediato. Mas o macaco continuou.


— Só que aconteceu algo terrível.


Camilo ergueu o rosto, ainda pálido pela perda de sangue.


— O que aconteceu, pequeno símio encardido? — perguntou ele.


O Senhor Macaco levantou lentamente a cabeça. O silêncio caiu novamente. Então seus lábios começaram a se curvar. Um sorriso largo. Cruel. Seu pênis começou a se erguer, endurecido e rígido. Seus olhos brilharam com uma malícia quase infantil. Ele soltou uma risada curta.


— Eu.


O sorriso ficou ainda maior.


— Eu aconteci.


Antes que qualquer um pudesse reagir, o primata abriu a pochete. Retirou a Flauta Dourada. O artefato irradiava aquele brilho suave e pulsante. Ele levou o instrumento aos lábios. E começou a tocar. A primeira nota ecoou pelo templo como um trovão silencioso. Imediatamente o ar ao redor começou a vibrar. As colunas do templo tremeram. As paredes antigas começaram a rachar.


— Corram! — gritou Desnatado.


Mas já era tarde. A melodia da flauta se intensificava, cada nota mais poderosa que a anterior. A luz dourada se expandiu pelo salão inteiro, engolindo colunas, escadas e corpos em uma onda luminosa. O chão começou a se dobrar como se fosse feito de papel. As paredes se distorceram. A arquitetura inteira do templo parecia ser reescrita em tempo real. Pedras se erguiam no ar. Degraus se torciam. O próprio espaço parecia curvar-se diante da música. Laércio tentou avançar, Héctor puxou Elias pelo braço, Camilo tentou erguer o cajado, mas a luz já havia tomado tudo.


O templo inteiro tremia. A realidade estava sendo dobrada. Reescrita. E no centro daquele caos luminoso, o Senhor Macaco continuava tocando. Seus olhos brilhavam de êxtase. O mundo ao redor começava a se transformar de acordo com sua vontade. O símio agora segurava em suas mãos o poder que Marvin havia buscado. E, diferente do lobo, ele não tinha nenhuma intenção de parar.


Quatro meses haviam passado desde o colapso do Templo Celestial. O mundo já não era mais o mesmo. Sobre as terras que antes formavam o Vale do Sussurro, agora se estendia o Reino dos Primatas, um território distorcido pela vontade caprichosa do novo soberano. Florestas haviam crescido onde antes existiam casas, colunas de pedra gigantescas brotavam do chão como ossos antigos, e enormes estátuas grotescas de macacos dominavam o horizonte.


No céu acima daquele território deformado, um avião cruzava lentamente as nuvens turbulentas. Dentro da aeronave, na classe superior, o contraste com o caos lá fora era quase absurdo. Poltronas largas de couro acolchoado ocupavam o espaço, separadas por divisórias elegantes. Garrafas de vinho caro descansavam em suportes dourados, e uma luz suave iluminava o ambiente silencioso. Sentado em uma dessas poltronas, relaxado como alguém que havia finalmente escapado da miséria, estava Quivi Otapas.


O pequeno kiwi já não parecia o mesmo mendigo desesperado de meses atrás. Agora ele vestia um terno elegante, embora ligeiramente desalinhado. Presos aos ombros, dois braços mecânicos cromados substituíam os antigos cotocos enfaixados. As próteses eram sofisticadas, articuladas com precisão quase natural, e brilhavam sob a iluminação da cabine. Quivi levantou um dos braços metálicos e flexionou os dedos com orgulho.


— Coisa fina… — murmurou satisfeito.


Ao seu lado, acomodado em uma cadeirinha adaptada presa ao assento, estava um pequeno embrulho envolto em uma coberta colorida cheia de desenhos infantis. Ali dormia seu filhote. Uma criatura estranha, pequena e peluda, com um bico curto de kiwi, mas também traços evidentes de símio. As orelhas eram arredondadas, o rosto parcialmente coberto por penugem escura, e uma pequena cauda enrolada surgia sob a coberta. O bebê soltava pequenos sons enquanto dormia. Quivi abriu um jornal sobre a mesinha retrátil à sua frente.


O papel estava completamente manchado por leite e por um pouco de vômito de bebê, mas ainda era possível ler as manchetes. Com a outra mão mecânica, ele ergueu uma taça de vinho tinto e tomou um gole tranquilo. Então seus olhos pararam em uma notícia. Ele franziu o cenho. Leu novamente. Depois abaixou lentamente o jornal.


A manchete ocupava quase metade da página. Ela anunciava que o Supremo Líder Pirocudo, o Senhor Macaco, instituiu o "Dia Mundial da Masturbação em Público" na Pangeia inteira. Quivi piscou algumas vezes. Tomou outro gole de vinho. Respirou fundo. Então olhou para o bebê ao seu lado, que continuava dormindo tranquilamente. O kiwi apoiou o jornal sobre a mesa, ajeitou a gravata torta e falou com um tom calmo, mas carregado de determinação.


— Não dá mais, filho.


Ele encostou a taça de vinho na mesa e cruzou os braços mecânicos.


— Eu, você, o Torresminho, e os outros.


Quivi olhou pela janela do avião. Lá embaixo, as terras deformadas do Reino dos Primatas se estendiam até o horizonte. Seus olhos se estreitaram.


— A gente ainda vai acabar com o arrombado do seu pai.


O bebê soltou um pequeno resmungo. Quivi pegou novamente o jornal, mas agora o sorriso em seu rosto era diferente. Não era mais o sorriso tímido de um mendigo sobrevivendo. Era o sorriso de alguém que planejava uma guerra. Enquanto o avião seguia o seu curso sobre os céus da Pós-Terra, uma nova rebelião começou a tomar forma. Porque o reinado do Supremo Líder Pirocudo talvez estivesse apenas começando, mas a sua queda também.

 
 

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