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Capítulo XII: Antes que Ele Fosse Assim

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
3 de jun.
8 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

Enquanto Desnatado e Laércio caminhavam alguns metros à frente, discutindo em voz baixa sobre possíveis armadilhas no templo, Guillard decidiu que não podia mais ignorar aquilo que vinha observando desde o início da jornada. O comportamento do Senhor Macaco estava cada vez mais errático. Sempre fora impulsivo, vulgar e caótico, isso era parte da natureza dele. Mas havia algo diferente ultimamente. Algo mais pesado, mais instável. Como se um peso antigo estivesse transbordando em cada explosão de raiva. Tigre diminuiu o passo até emparelhar com o primata.


— Senhor Macaco, posso te perguntar uma coisa?


O macaco caminhava chutando pequenas pedras pelo caminho, aparentemente despreocupado.


— Perguntar você pode. Se eu vou responder já é outra história.


— Tenho notado seus acessos de raiva — continuou Tigre, mantendo a voz firme. — E aquela parada com a sua flauta azul-turquesa, qual é a importância dela pra você?


O macaco parou de caminhar por um momento. A cabeça abaixou ligeiramente. O silêncio que se seguiu foi estranho. Não era o tipo de silêncio típico dele, cheio de sarcasmo ou provocação. Era algo mais pesado. Depois de alguns segundos, ele coçou a nádega esquerda de forma quase automática e soltou um suspiro longo.


— Sabe, listrado. Quando eu era pequeno, meu pai… bom, ele não era exatamente o que você chamaria de um cara legal.


O tom da voz havia mudado. Estava mais baixo. Mais distante.


— Ele me espancava. Pra caralho.


O macaco continuou andando lentamente enquanto falava, olhando para o chão como se estivesse assistindo a lembranças antigas passando diante dos olhos.


— Me deixava mal, sabe?


Ele respirou fundo antes de continuar.


— Uma vez ele me levou num lugar chamado Flautolândia. Era um parque temático de flautas que tinha no Vale do Sussurro. Um lugar cheio de vitrines com instrumentos coloridos, música tocando em todo canto, um monte de criança catarrenta correndo por lá. Um lugar muito foda, mas foi fechado por causa de lavagem de dinheiro.


O macaco deu um pequeno sorriso triste.


— Foi lá que eu vi ela.


Tigre permaneceu em silêncio.


— Uma flauta azul-turquesa, linda pra cacete — continuou o primata. — Estava numa vitrine, girando devagar num pedestal. Eu fiquei parado olhando aquilo por um tempão.


Ele levantou os olhos por um momento.


— Então pedi pra ele comprar.


O sorriso desapareceu.


— Em vez de me ouvir, ele me bateu ali mesmo.


O macaco soltou uma pequena risada seca.


— Na frente de todo mundo.


Ele fez uma pausa.


— Disse que tocar flauta era coisa de boiola e que o filho dele não ia crescer com esse tipo de viadagem.


Tigre caminhava ao lado dele sem interromper. O primata continuou.


— Uma semana depois, minha mãe apareceu em casa com a flauta.


A voz dele suavizou um pouco.


— Ela tinha comprado escondido.


Ele ergueu a mão, como se ainda segurasse o instrumento invisível.


— Me deu de presente e pediu que eu guardasse segredo. Disse que meu pai nunca poderia descobrir.


Tigre olhou para ele.


— E ele acabou descobrindo, não foi?


O Senhor Macaco fechou os olhos por um instante. Quando falou novamente, sua voz estava mais pesada.


— Sim, descobriu pra caralho.


Ele respirou fundo.


— Quando ele descobriu…


O macaco ficou em silêncio por alguns segundos.


— Ele perdeu o controle.


A caminhada continuava, mas o ambiente parecia mais frio.


— Agrediu a mim e a minha mãe.


Ele apertou os punhos.


— E ela… ela não resistiu.


O vento soprou entre as pedras da trilha.


— Foi o último presente que ela me deu antes de morrer.


Tigre sentiu o peso daquelas palavras. O macaco continuou, como se estivesse apenas relatando algo distante.


— Depois a polícia chegou.


Ele olhou para frente.


— Os policiais metralharam meu pai na minha frente.


O silêncio que se seguiu era quase sufocante. Nenhum dos dois falou por alguns instantes. Tigre caminhava ao lado do primata tentando processar o que tinha acabado de ouvir. Aquela história revelava um lado do Senhor Macaco que ele nunca tinha imaginado existir. Por trás da vulgaridade, da violência e das piadas absurdas, havia um trauma profundo. Talvez aquele caos emocional que o macaco carregava fosse apenas o reflexo de algo muito mais antigo. E muito mais doloroso.


Os dois continuaram caminhando em silêncio por alguns instantes. O peso da conversa ainda pairava no ar, e Tigre decidiu não pressionar mais o assunto. O Senhor Macaco havia dito mais do que provavelmente pretendia, e qualquer tentativa de aprofundar aquilo naquele momento poderia apenas reabrir feridas desnecessárias. Alguns metros adiante, eles finalmente alcançaram Desnatado e Laércio, que caminhavam observando a trilha com cautela.


— Resolveram o clube do desabafo, bichinhas? — perguntou Desnatado sem olhar para trás.


Tigre apenas assentiu discretamente, enquanto o Senhor Macaco voltava ao seu semblante habitual, como se nada tivesse acontecido. Foi então que um som estranho começou a ecoar pelo vale. Primeiro veio um ronco distante de motor, irregular, como um carro sendo forçado muito além do que deveria. O grupo parou.


— Vocês estão ouvindo isso? — perguntou Laércio.


O som aumentou rapidamente. Um instante depois, um táxi surgiu na trilha atrás deles completamente desgovernado, vindo em velocidade absurda. O carro vinha saltando sobre as pedras, levantando poeira e quicando como se estivesse prestes a se despedaçar a qualquer momento.


— Saiam da frente! — gritou Tigre.


O veículo desenfreado perdeu completamente o controle ao atingir uma pedra maior. A traseira levantou, o carro girou no ar e capotou violentamente, rolando várias vezes pela trilha. O metal rangia e se retorcia a cada impacto contra o chão, até que finalmente o táxi deslizou de lado por alguns metros antes de parar de vez, com o motor ainda tossindo e soltando fumaça.


O grupo ficou imóvel, olhando para o carro destruído. Uma das portas do táxi simplesmente se desprendeu da carroceria e caiu no chão com um barulho seco. Por alguns segundos nada aconteceu. Então duas figuras pularam para fora do veículo. Eram Héctor e Elias. Os dois patos emergiram do carro meio cambaleantes, mas rapidamente assumiram o que pareciam considerar uma postura profissional. Cada um ergueu uma pequena faquinha de manteiga como se fossem armas letais, enquanto com a outra asa exibiam distintivos amassados.


— Parados! — gritou Héctor. — Departamento de Segurança do Vale do Sussurro!


Elias apontou sua faquinha para o grupo com grande autoridade.


— Todo mundo no chão agora!


O grupo apenas piscou, confuso. Desnatado reagiu primeiro. Antes que os dois patos terminassem de se posicionar, o copo avançou num movimento rápido e preciso. Ele aplicou uma rasteira simultânea que derrubou os dois agentes no chão quase sem esforço. Em seguida, sacou um estilingue e apontou diretamente para eles.


— Quem são vocês? Já enfrentamos ataques o bastante hoje! — disse ele, com a voz firme.


Héctor e Elias, atordoados pela queda, levantaram imediatamente as asas em rendição.


— Calma aí, moço! Estamos a trabalho! — disse Héctor, tentando recuperar alguma dignidade. — Viemos investigar Marvin, o lobo. Recebemos informação de que ele veio atrás de um objeto super poderoso.


Elias tentou se levantar, ainda claramente abalado.


— Isso mesmo! — completou ele. — Agora quem são vocês?


Ele fez uma pausa constrangedora.


— E por favor não reparem, mas eu me caguei inteiro.


O grupo trocou olhares. Tigre suspirou. Desnatado manteve o estilingue apontado por mais alguns segundos antes de abaixar lentamente a arma improvisada. O felino então deu um passo à frente.


— Somos viajantes em uma missão — respondeu ele de forma cautelosa. — E se vocês estão aqui para deter Marvin, então talvez estejamos do mesmo lado.


Os dois patos se entreolharam. Héctor inclinou a cabeça.


— Espera, vocês também estão atrás do lobo?


— Estamos — respondeu Laércio.


Elias apontou para a direção do templo que já podia ser visto ao longe entre as formações rochosas, com os portões completamente devastados.


— Então temos um problema maior do que pensávamos.


O Senhor Macaco cruzou os braços.


— Ele já está lá dentro.


O silêncio caiu sobre o grupo por alguns segundos. Por fim, Héctor levantou-se e limpou a poeira da roupa.


— Então é melhor a gente se mexer.


Elias assentiu.


— Porque se aquele maluco colocar as mãos nesse artefato…


Ele apontou para o templo.


— Vai dar uma merda monumental.


Sem mais discussão, o grupo improvisado começou a caminhar em direção ao Templo Celestial. A caminhada era silenciosa e tensa. Olhares desconfiados ainda eram trocados entre os integrantes daquele novo e estranho grupo. Quando finalmente alcançaram o Templo Celestial, a primeira coisa que viram foram os portões completamente destruídos. As duas enormes placas metálicas estavam retorcidas para dentro, arrancadas das dobradiças e espalhadas no chão como se uma força monstruosa tivesse simplesmente decidido que portas não eram um problema. O grupo parou por um instante diante da entrada.


— Isso não parece bom — murmurou Héctor.


Sem perder mais tempo, eles atravessaram o portão arrebentado e finalmente entraram no templo. Laércio caminhava ao lado de Tigre, observando atentamente a vastidão do salão principal. Seus sensores internos analisavam cada detalhe da arquitetura ao redor.


— Chegamos ao templo. É hora de entrarmos — declarou ele com seriedade.


O interior do santuário era vasto e silencioso. Colunas imensas sustentavam o teto elevado, e as paredes estavam cobertas por símbolos antigos misturados a linhas metálicas brilhantes que pulsavam suavemente. A luz azulada que emanava dessas estruturas criava sombras longas e inquietantes que se arrastavam pelo chão de pedra polida. O grupo avançou com cautela. Cada um observava uma direção diferente, procurando sinais de movimento, armadilhas ou qualquer pista da Flauta Dourada. De repente, um som ecoou pelo templo. Vozes. Vindas de uma ala inferior.


— Lá embaixo — disse Desnatado.


O grupo trocou olhares e, sem discutir, avançou em direção à escadaria. Um a um começaram a descer os diversos degraus de pedra, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Quando alcançaram o salão subterrâneo, a cena que encontraram imediatamente capturou sua atenção. No centro do recinto, diante do altar, Marvin estava em um confronto direto com o guardião do templo. O sacerdote Camilo, com seu corpo humano e cabeça de pug, mantinha o cajado erguido enquanto discutia furiosamente com o lobo.


— Pela quadringentésima trigésima segunda vez, você não é digno! Retire-se daqui, aberração! — declarou Camilo, sua voz ecoando pelas paredes do salão.


Marvin estava claramente no limite da paciência. Num movimento brusco, ele avançou e agarrou o sacerdote pelo colarinho, levantando-o a alguns centímetros do chão. As veias saltavam nos braços do lobo enquanto ele apertava a garganta do guardião com força.


— Eu não tenho medo de te descer o cacete, seu saco de bosta seca! — rosnou ele, os dentes expostos.


Camilo tentava se soltar, debatendo-se enquanto o Cajado Celestial ainda brilhava em sua mão. Alguns metros ao lado, Licurgo observava a cena com tranquilidade quase irritante. Foi então que o dodô percebeu algo. Seus olhos se moveram discretamente. No topo da escadaria. Ali estavam seis figuras observando a cena. O grupo. Licurgo sorriu levemente. Inclinou-se para perto de Marvin e falou em tom baixo.


— Marvin, parece que temos companhia.


O lobo soltou o pescoço de Camilo imediatamente. O sacerdote caiu de joelhos, tossindo e tentando recuperar o fôlego. Marvin virou-se lentamente. Seus olhos encontraram as silhuetas no alto da escadaria. Tigre, Senhor Macaco, Desnatado, Laércio, Héctor e Elias. O olhar de Marvin escureceu. Um por um, os seis começaram a descer as escadas em direção ao salão, encarando o lobo enquanto se aproximavam do altar onde a Flauta Dourada brilhava silenciosamente atrás do guardião.

 
 
Capítulo XI: O Guardião do Dourado

Depois de atravessarem a trilha que serpenteava entre rochas escuras e vegetação rala, Marvin e Licurgo finalmente chegaram ao destino. O Templo Celestial. Os dois pararam. Mesmo Marvin, normalmente i

 
 

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