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Capítulo XI: O Guardião do Dourado

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
4 de jun.
12 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

Depois de atravessarem a trilha que serpenteava entre rochas escuras e vegetação rala, Marvin e Licurgo finalmente chegaram ao destino. O Templo Celestial. Os dois pararam. Mesmo Marvin, normalmente incapaz de demonstrar qualquer tipo de reverência, ficou imóvel por alguns segundos, observando. Licurgo desceu lentamente do ombro do lobo.


— Cacilda… — murmurou o dodô, ajeitando o monóculo. — Impressionante.


Diante deles erguia-se uma construção colossal. O templo parecia ter sido esculpido diretamente na montanha, como se fosse parte viva da própria rocha. Grandes blocos de pedra formavam degraus monumentais que levavam a um portão central gigantesco. A arquitetura erguia paredes inclinadas com entalhes geométricos, colunas grossas cobertas de inscrições antigas, e plataformas escalonadas que subiam em direção ao céu.


Mas havia algo estranho. Entre as pedras antigas, surgiam linhas metálicas prateadas que percorriam a estrutura como circuitos. Placas lisas de um material desconhecido estavam embutidas nas paredes. Alguns símbolos brilhavam levemente com uma luz azulada pulsante. Era como se uma civilização ancestral tivesse encontrado tecnologia de outro mundo e decidido incorporá-la ao próprio templo. Totens gigantes guardavam a escadaria. Cada um deles misturava estética tribal com design futurista. Máscaras de pedra com olhos iluminados por pequenos cristais energéticos. No centro de tudo estava o portão principal. Uma porta colossal de metal escuro, perfeitamente lisa, com cerca de quinze metros de altura. Nenhuma dobradiça visível. Nenhuma fechadura. Apenas uma superfície sólida e silenciosa. Licurgo caminhou até ela.


— Fascinante. Absolutamente fascinante…


Ele aproximou o rosto da superfície. Ali estavam gravadas runas antigas. O dodô passou o dedo sobre os desenhos.


— Curioso.


Ele ajustou o monóculo para observar melhor. As figuras eram estranhas. Uma delas parecia uma almôndega com braços e pernas, desenhada de forma simplificada, quase infantil. Outra representava algo parecido com um cogumelo antropomórfico, também com braços e pernas. As duas figuras apareciam repetidas em padrões geométricos ao redor do portão. Licurgo levou a asa ao queixo. Marvin estava atrás dele, impaciente.


— Vai falar ou vai ficar admirando a porra da parede?


Licurgo apontou para os símbolos.


— Observe.


Ele tocou na figura da almôndega.


— Isso parece algum tipo de linguagem simbólica.


Depois apontou para o cogumelo.


— Provavelmente há um desafio lógico ou algum mecanismo oculto aqui. Algo que exige interpretação.


Ele começou a caminhar de um lado para o outro, analisando as inscrições.


— Talvez uma sequência, ou uma combinação ritualística.


Licurgo ergueu um dedo.


— Precisamos pensar.


Marvin ficou olhando para o portão por alguns segundos. Então suspirou.


— Aqui está o meu pensamento.


Ele caminhou até a porta. E começou a descer a porrada. O primeiro soco ecoou pela montanha. A superfície metálica não se moveu nem um milímetro. Marvin socou de novo. Depois chutou. Depois começou a golpear repetidamente, alternando socos, chutes e cabeçadas contra o portão colossal.


— Abre essa buceta!


Os golpes ecoavam pelo ambiente inteiro. Licurgo observava atentamente, completamente imóvel. Marvin pegou a escopeta.


— Sai da frente.


Ele disparou. A bala ricocheteou no portão com um som metálico agudo. O lobo olhou para o impacto. Não havia sequer um arranhão. Marvin respirava pesado. Licurgo limpou o monóculo com um lenço.


— Como eu estava dizendo… — comentou calmamente — provavelmente existe um desafio intelectual aqui.


Marvin encarou o portão. Depois encarou Licurgo. Depois voltou a olhar para a porta.


— Eu não tenho tempo para portas inteligentes.


Marvin ficou alguns segundos encarando o portão. Respirando pesado. Os punhos ainda estavam fechados. Então algo mudou em sua expressão. Os olhos do lobo começaram a arregalar lentamente, como se uma faísca de pura teimosia tivesse sido acesa dentro da cabeça dele. Ele deu um passo para trás. Depois outro. Flexionou o pescoço, e depois os ombros. Estalou os dedos. Licurgo observava com curiosidade científica.


— Senhor Marvin, talvez seja melhor usarmos uma abordagem mais contida.


E então o lobo avançou. O primeiro impacto foi brutal. O punho de Marvin colidiu contra o metal com força absurda. O som ecoou pelo vale como um trovão. Ele socou de novo. E de novo. E de novo. Cada golpe fazia a montanha inteira reverberar. O lobo começou a alternar socos com cotoveladas violentas, chutando a base do portão, arremessando o próprio peso contra a estrutura. Licurgo recuou alguns passos. Marvin não parava. Agora ele batia com as duas mãos ao mesmo tempo, golpeando o metal repetidamente como um animal possesso. Os músculos do lobo começaram a pulsar sob a pele. As veias saltavam no pescoço. Os olhos estavam completamente arregalados. Ele começou a gritar enquanto batia.


O portão ainda não se movia. Mas Marvin não diminuía. Ele começou a dar cabeçadas na porta. Depois chutou novamente. Depois socou mais. A respiração do lobo virou um rugido contínuo. Licurgo observava completamente hipnotizado. De repente Marvin parou. Ofegante. O peito subia e descia violentamente. Então ele aproximou o rosto do portão. Rosnou. E cravou as garras entre as duas placas metálicas que formavam a junção central da porta. As unhas do lobo rasparam o metal. Ele forçou. Os músculos dos braços incharam. O dorso se arqueou. As veias saltaram.


Licurgo arregalou os olhos. O metal começou a ceder com um rangido grotesco. Marvin gritou mais alto. As garras se aprofundaram. O lobo puxou. Forçou. As articulações estalaram. Os dentes estavam completamente expostos. Uma pequena fresta surgiu entre as duas placas. Licurgo deixou cair o monóculo.


— Inacreditável…


Marvin puxou novamente. Os músculos dos braços pareciam prestes a rasgar. Com um último esforço monstruoso, o lobo arrebentou o portão na base da força bruta. As duas metades gigantescas da porta se dobraram violentamente para dentro, arrancadas das travas internas. O som ecoou pelo local inteiro. Silêncio. Marvin ficou parado na entrada. Respirando pesado. Os braços tremendo. Licurgo olhava para o portão destruído como se estivesse presenciando um milagre grotesco da engenharia reversa.


— Senhor Marvin…


O dodô piscou.


— Isso foi absolutamente impressionante.


Marvin cuspiu no chão.


— Lógica é coisa de baitola.


Ele estalou o pescoço.


— Força resolve tudo.


Licurgo pegou o monóculo do chão e recolocou no olho. Ainda parecia chocado.


— Confesso que estou profundamente impressionado.


Marvin olhou para ele.


— Se você tivesse interesses de macho em vez de ficar brincando com ioiô igual um boiola…


Ele flexionou o braço. Os músculos ainda tremiam.


— Talvez fosse tão forte que nem eu.


Licurgo ajeitou a cartola.


— Discordo respeitosamente.


Ele levantou um dedo.


— Todo homem de respeito admira ioiôs.


Marvin encarou o dodô por alguns segundos. Depois bufou.


— Você é o animal mais estranho que eu já conheci.


Licurgo sorriu.


— E ainda assim estamos prestes a conquistar onipotência.


Os dois olharam para o interior do Templo Celestial, agora aberto. A escuridão do interior parecia respirar. Algo os aguardava lá dentro. Os dois atravessaram o portão arrebentado. As placas metálicas destruídas ainda rangiam lentamente atrás deles, como se o próprio templo estivesse reclamando da violência sofrida.


Do outro lado havia um salão monumental. O interior do Templo Celestial era ainda mais impressionante que o exterior. O espaço era vasto, com um teto altíssimo sustentado por colunas colossais de pedra escura. Cada coluna estava coberta por inscrições antigas e circuitos luminosos que serpenteavam entre os símbolos primitivos como veias tecnológicas. Algumas superfícies eram completamente lisas, feitas de um metal desconhecido que refletia a luz azul suave que emanava de pequenos cristais embutidos nas paredes.


Era como se duas civilizações completamente diferentes tivessem construído o lugar juntas. Uma arquitetura sagrada ancestral, cheia de símbolos tribais e relevos esculpidos, ao mesmo tempo, com uma tecnologia avançada, com superfícies perfeitas e energia pulsante. O chão era formado por grandes placas de pedra polida, formando um mosaico geométrico gigantesco que representava constelações. O ar estava frio. Pesado. E silencioso. No fundo do salão principal havia uma escadaria larga, feita de blocos de pedra escura que desciam para um nível inferior do templo. Licurgo caminhou alguns passos, observando tudo com fascinação científica. Marvin não parecia impressionado, ele apenas caminhava.


— Onde está a maldita flauta?


Os dois seguiram até a escadaria. Desceram. Cada passo ecoava pelas paredes do templo. Quando chegaram ao nível inferior, o ambiente mudou. Ali havia um grande salão subterrâneo, mais fechado, com colunas mais próximas e uma iluminação ainda mais fraca. Licurgo olhou ao redor. Ele apontou para uma abertura lateral. Além da escadaria que haviam descido, existia outra passagem ainda mais profunda, levando a um segundo subsolo do templo. Um nível ainda mais escuro. Mais antigo. Mais silencioso.


— Há um nível inferior adicional — comentou o dodô.


Marvin nem olhou. Ele apontou para frente.


— Primeiro aquilo.


No fundo daquele salão subterrâneo havia um altar elevado. Uma pequena plataforma circular de pedra. E sobre ela, uma figura imóvel. Estática. Com os olhos completamente arregalados. Sem piscar. Sem demonstrar qualquer expressão. Era o Guardião. A figura era alta e robusta. Com os ombros largos e uma postura perfeitamente ereta. Vestia uma toga grená profunda, amarrada na cintura por uma corda grossa de tecido trançado.


Mas o que realmente chamava atenção era sua cabeça. O corpo era humano. Mas a cabeça era a de um cachorro da raça pug. Pequena, enrugada, achatada. Acoplada diretamente na clavícula, sem qualquer pescoço. A cabeça parecia emergir diretamente do torso. Os olhos grandes do pug estavam completamente abertos e fixos. Sem piscar, e sem emoção. Nas mãos ele segurava um cajado longo. Na ponta do cajado havia um minério luminoso que emitia uma energia suave e pulsante. Atrás dele havia um pequeno púlpito de pedra.


No topo do púlpito estava instalado um compartimento de vidro quadrado, perfeitamente transparente. Dentro dele repousava o objeto. A Flauta Dourada. Uma flauta doce esculpida em ouro maciço, com inscrições antigas gravadas ao longo de toda sua extensão. O metal parecia emitir uma aura própria. Uma energia sutil que vibrava no ar. Poder. Antigo. Inquestionável. Marvin parou. Licurgo também. Os dois se entreolharam. O silêncio no templo parecia prender a respiração.


Marvin caminhou lentamente até o guardião, analisando-o de cima a baixo. O indivíduo permanecia completamente imóvel, com os olhos arregalados e fixos em um ponto distante, como uma estátua grotescamente viva. O lobo aproximou o rosto do dele e rosnou baixo, esperando algum tipo de reação. Nada aconteceu. O guardião não piscou, não respirou de forma perceptível e sequer moveu um músculo.


Irritado, Marvin levantou a mão e bateu palmas bem na frente do rosto do pug humanoide. Ainda assim, nenhuma resposta veio. A expressão do guardião continuava exatamente a mesma, congelada em uma neutralidade perturbadora. O lobo então deu alguns passos para trás, pegou a escopeta e disparou para o alto, o barulho ecoando pelas paredes do templo. Mesmo assim, o guardião permaneceu parado, como se fosse apenas um manequim abandonado ali. Marvin virou-se para Licurgo com uma expressão de desprezo.


— Esse imbecil deve estar morto.


Os dois se aproximaram do corpo do guardião com cautela. Licurgo ajustou o monóculo e inclinou-se para examinar o rosto do sacerdote, observando os olhos fixos e a rigidez da postura. O dodô tocou levemente o braço dele, como quem testa uma peça de mobiliário antigo. Foi então que, sem qualquer aviso, o guardião despertou abruptamente. Ele gritou com uma intensidade que ecoou pelo salão, fazendo os dois invasores saltarem para trás.


— Mas que cargas d'água está acontecendo aqui?!


Licurgo tropeçou para trás, derrubando o monóculo por um instante, enquanto Marvin levantava a escopeta por puro reflexo. O sacerdote respirava fundo, claramente irritado por ter sido despertado de forma tão brusca. Seus olhos agora estavam vivos e atentos, encarando os dois visitantes com indignação.


— Quem são vocês dois crápulas? — perguntou ele, apontando o cajado em direção a eles. — E o que estão fazendo dentro do Templo Celestial?


Marvin abaixou a arma lentamente, já recuperando a postura arrogante.


— Meu nome é Marvin Quebra-molas — respondeu ele com desdém. — E eu vim buscar a Flauta Dourada.


Licurgo, ainda ajeitando a cartola e recolocando o monóculo, ergueu uma das asas em cumprimento educado.


— Licurgo Noronha de Assis e Albuquerque, ao seu dispor.


O guardião endireitou a postura e bateu o cajado no chão com firmeza. A ponta brilhante do objeto emanava uma energia suave, mas claramente poderosa.


— Eu sou Camilo, o Cachorro Sacerdote — disse ele, com voz firme.


Ele então abriu os braços, posicionando-se de forma a bloquear completamente o acesso ao púlpito onde o artefato repousava dentro do compartimento de vidro.


— Fui escolhido pessoalmente pelos Mentalistas para proteger este artefato sagrado — continuou ele, olhando de um para o outro com evidente desprezo. — E posso garantir que não vou simplesmente entregá-lo de bandeja para dois imbecis aleatórios que arrebentaram a porta do templo como bárbaros.


Camilo permaneceu firme diante do altar, segurando o cajado com autoridade, deixando claro que a Flauta Dourada não seria entregue sem resistência. Atrás dele, o artefato brilhava silenciosamente dentro do vidro, irradiando um poder antigo que parecia pulsar no ar do templo. Marvin e Licurgo trocaram um olhar breve, entendendo sem precisar dizer nada que aquele sacerdote seria um obstáculo muito mais incômodo do que eles esperavam. Licurgo ajeitou o monóculo com delicadeza e inclinou ligeiramente a cabeça, observando o sacerdote com curiosidade genuína.


— Uma pergunta, senhor Camilo — disse o dodô, com seu tom sempre educado. — Como exatamente o senhor sabe que fomos nós que destruímos o portão do templo? Afinal, quando chegamos aqui, o senhor parecia profundamente indisponível para qualquer tipo de observação.


Camilo estreitou os olhos enrugados do pug e levantou um pouco o cajado que segurava.


— Porque este não é um cajado qualquer, criatura — respondeu ele com firmeza. — Este é o Cajado Celestial. Ele está interligado com o próprio templo. Cada pedra, cada sala, cada corredor. Tudo o que acontece aqui dentro chega até mim através dele.


Ele ergueu o cajado um pouco mais, como quem demonstra um instrumento de autoridade.


— Eu sei quando alguém entra. Sei quando alguém pisa nas escadarias. E, principalmente, sei quando dois idiotas resolvem arrebentar a porta principal na base da força bruta.


Marvin soltou um riso curto e debochado.


— Ótimo. Então você já sabe o resto da história também.


Ele apontou com o queixo para o púlpito atrás do sacerdote.


— Eu vim pegar a Flauta Dourada.


O lobo cruzou os braços, o olhar frio e impaciente.


— E vou te poupar trabalho. Se você simplesmente me entregar o artefato agora, ninguém precisa sair machucado.


Camilo inclinou a cabeça lentamente. Então começou a rir. Não era uma gargalhada alta, mas uma risada cheia de desprezo.


— Você me poupar trabalho?


Ele olhou Marvin de cima a baixo com evidente desdém.


— Escute bem, seu animal musculoso com problemas evidentes de controle sexual. Eu fui escolhido pelos Mentalistas para proteger este artefato. Você realmente acredita que eu vou entregá-lo porque um lobo com disfunção erétil decidiu fazer ameaças?


O sacerdote apontou o cajado para Marvin.


— Você não passa de um pau mole que resolveu invadir um templo antigo porque não sabe resolver seus problemas com o próprio cérebro.


Licurgo deu dois passos discretos para o lado, observando a troca de insultos com interesse quase acadêmico. Marvin sorriu devagar. Um sorriso cheio de dentes.


— Engraçado você falar de cérebro — respondeu ele. — Porque até agora o único cérebro que eu vi aqui foi o seu. Dormindo em pé igual um espantalho.


Camilo apertou o cajado com mais força.


— Aquilo se chama meditação profunda, seu ignorante.


— Aquilo se chama tirar cochilo no trabalho, respondeu Marvin.


Camilo bufou.


— Você realmente acredita que vai sair daqui com a Flauta Dourada?


Marvin inclinou a cabeça.


— Eu realmente acredito que você fala demais para alguém que está sozinho no meio de um templo vazio.


O sacerdote apontou para ele novamente.


— Eu estou sozinho porque sou suficiente.


Marvin abriu um sorriso ainda maior.


— Isso é exatamente o tipo de frase que alguém diz cinco segundos antes de apanhar.


Os dois ficaram se encarando por um momento. Licurgo cruzou as asas atrás das costas e observou a cena com tranquilidade.


— Devo admitir — murmurou o dodô — que esta discussão está tomando um rumo extremamente promissor.


A troca de insultos terminou quando Marvin perdeu a paciência. Sem dizer mais nada, ele levantou a escopeta e puxou o gatilho diretamente contra o peito de Camilo. O disparo ecoou pelo salão subterrâneo, e a bala atingiu o sacerdote em cheio. Por um breve instante, o impacto pareceu prometer algum resultado.


Mas então algo estranho aconteceu. A bala simplesmente bateu no corpo de Camilo e caiu no chão, como se tivesse atingido uma parede de pedra. O projétil rolou alguns centímetros sobre o piso polido do templo antes de parar, completamente inútil. Camilo nem sequer se moveu. Ele olhou para o próprio peito, depois para o chão, onde a bala repousava, e então voltou o olhar lentamente para Marvin. E começou a gargalhar. Era uma gargalhada alta, escancarada, cheia de deboche.


— É sério isso? — disse ele entre risadas. — Você realmente achou que uma escopeta resolveria isso?


Ele deu um passo à frente, ainda rindo.


— Você é muito pequeno, lobo. Pequeno demais para entender onde está pisando.


Marvin abaixou a arma devagar, o olhar escurecendo.


— Pequeno?


— Pequeno — repetiu Camilo.


— Pequeno de força, pequeno de espírito e, pelo que estou vendo, pequeno de pênis também.


O lobo mostrou os dentes.


— Você tem coragem de falar bastante para alguém com cabeça de cachorro careca.


Camilo abriu os braços com desprezo.


— Tente, então.


Enquanto Marvin e Camilo continuavam se provocando, cada um tentando falar mais alto que o outro, o sacerdote mantinha o cajado firme nas mãos. Apesar da postura provocadora, havia algo que ele sabia e que os dois invasores ainda ignoravam. O Cajado Celestial estava conectado ao templo. E alguns minutos antes, enquanto Marvin socava o portão com força bruta, o cajado havia lhe transmitido outra informação.


Ajuda estava a caminho. Algum grupo estava se aproximando do templo naquele exato momento. Camilo sabia que não precisava vencer aquela luta imediatamente. Tudo o que precisava fazer era ganhar tempo. Por isso ele continuava discutindo, provocando, insultando e mantendo Marvin ocupado ali diante do altar. Enquanto isso, em algum ponto das trilhas do templo, aqueles que o cajado havia identificado como os possíveis salvadores se aproximavam cada vez mais do santuário onde a Flauta Dourada aguardava silenciosamente.

 
 
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