Capítulo X: Há Algo Errado com o Macaco

Atualizado: 16 de ago.
Depois de atravessarem o Desfiladeiro das Almas Desesperadas, o quarteto finalmente alcançou o final da trilha. A paisagem começou a mudar. As rochas agressivas deram lugar a terrenos mais suaves, caminhos bem definidos e muralhas claras que surgiam entre vinhedos e plantações organizadas.
À frente deles erguia-se o Reino dos Melões. Mas algo estava errado. Logo na entrada, o portão principal permanecia aberto. Escancarado. E no chão, bem diante das muralhas, estavam os dois guardas. Ou o que restava deles. Jurandir e Alessandro estavam reduzidos a uma mistura grotesca de casca quebrada, polpa espalhada e sementes coladas na pedra. A armadura ainda estava ali, deformada, como se tivesse sido atravessada por uma força absurda. O grupo parou.
— Isso não parece normal — murmurou Laércio.
Tigre abaixou, observando os restos.
— Não é.
Desnatado não disse nada. Apenas começou a caminhar para dentro do reino. Os outros o seguiram. E conforme avançavam pelas ruas principais, o cenário se tornava cada vez mais perturbador. O Reino dos Melões, conhecido por sua organização impecável, parecia agora um campo de massacre. Corpos de Douracucas estavam espalhados pelas ruas. Alguns rachados. Outros completamente esmagados. A polpa escorria pelas pedras claras como tinta espessa, formando poças vermelhas que grudavam nas solas e patas de quem passava. Sementes estavam espalhadas por toda parte, como testemunhas silenciosas da violência que havia passado por ali. Algumas portas estavam abertas. Outras fechadas com tábuas improvisadas. O silêncio era pesado.
O Senhor Macaco, naturalmente incapaz de lidar com qualquer situação de forma digna, agachou-se ao lado de um dos corpos. Abriu sua pochete. Tirou o celular dobrável.
— Caralho, isso aqui rende um álbum sinistro.
Ele começou a fotografar o melão caído de vários ângulos.
— Esse aqui tá bem artístico, inclusive.
Tigre não teve paciência. Deu um tapa seco na cabeça do primata.
— Senhor Macaco, que falta de respeito, seu imbecil! Guarda isso agora!
O macaco soltou um rosnado irritado. Fechou o celular com força.
— Estraga-prazeres…
Resmungando, ele simplesmente enfiou o aparelho inteiro na boca e engoliu com um gesto exagerado, como se fosse um truque de mágica. Depois lançou um olhar cheio de rancor para Tigre.
— Eu ainda vou processar você por censura artística.
Ignorando a discussão, Desnatado parou. Algo havia chamado sua atenção. No centro do grande pátio do palácio, havia uma figura caída. Os outros olharam. No meio da praça devastada, entre manchas de polpa e pedaços de armadura, estava o Rei Orestes.
Seu corpo estava rachado em vários pontos. As pernas estavam deformadas. E seu rosto estava coberto por fezes aviárias, que claramente não eram parte natural da anatomia de um Douracuca. Laércio fez um ruído de choque mecânico.
— Meu Pit Mangueira…
Tigre aproximou-se lentamente. O rei ainda estava vivo. Respirava com dificuldade, mas seus olhos estavam abertos. Cheios de desespero. E humilhação. O quarteto parou diante dele. O silêncio que caiu sobre o pátio era pesado. Porque todos sabiam uma coisa naquele momento. Eles estavam atrasados. Marvin Quebra-molas já havia passado por ali.
Laércio avançou alguns centímetros à frente do grupo. A postura era curiosamente formal para um aspirador de pó amassado e ainda parcialmente sujo de lixo. A voz saiu calma, quase gentil.
— Saudações, majestade. Parece que algo de proporções devastadoras ocorreu por aqui. Poderia nos informar sobre a situação atual?
O Rei Orestes levantou lentamente o olhar. Os olhos estavam opacos. Cansados. Ele tentou falar. Mas, antes que qualquer palavra se formasse, seu corpo convulsionou. Um jorro espesso de sangue misturado com polpa escapou de sua boca, respingando no chão já manchado da praça. Laércio deu um pequeno salto para trás.
— Acho que ele não está nada bem…
Tigre, tentando ser útil à sua maneira, pegou no chão um pano que já havia sido utilizado anteriormente para fins bastante questionáveis. Era um pano completamente sujo de urina. Ainda assim, ele se agachou e limpou cuidadosamente a boca do rei.
— Pronto, pronto… respira.
Orestes assentiu fracamente.
— Agradeço, nobre felino…
Ele tentou se manter ereto, apoiando-se em um dos braços.
— Aproximadamente… trinta e quatro minutos se passaram desde que ele partiu.
Respirou fundo, com dificuldade.
— Um lobo insano com um pênis microscópico devastou meu reino, matou minha esposa, dizimou minha guarda, e seguiu em direção ao Templo Celestial.
Os olhos do rei se fecharam por um momento.
— Era a missão dos Douracucas proteger aquele templo e proteger o artefato escondido ali, mas eu falhei…
Antes que pudesse continuar, o Senhor Macaco soltou uma gargalhada curta.
— Que bichinha!
Tigre virou-se imediatamente. Um cruzado de direita atingiu o rosto do primata. O macaco caiu sentado.
— Respeito, seu idiota!
O Senhor Macaco esfregou a bochecha, indignado.
— Eu só tava comentando!
Desnatado, que observava tudo em silêncio desde que chegaram, finalmente falou.
— Majestade.
O copo de leite caminhou alguns passos à frente.
— Poderia nos dizer onde fica exatamente esse Templo Celestial?
O Rei tentou erguer o corpo novamente. Mas a tentativa falhou. Ele caiu de volta ao chão com um baque mole. Mais sangue escorreu de sua boca. Ele respirou com dificuldade. Então ergueu lentamente um dos braços trêmulos. Apontou para o norte, para além do castelo.
— Atrás da muralha norte há uma trilha estreita que sobe pela encosta rochosa…
Ele respirou novamente.
— Sigam essa trilha até uma montanha de pedras. Parece apenas um amontoado comum, mas no centro há vinhas secas cobrindo uma fenda. Ali está a entrada…
A mão dele caiu novamente no chão.
— O templo foi escavado dentro da montanha, protegido desde os tempos antigos, pelos Mentalistas…
O olhar dele vagou pelo céu acima da praça destruída.
— Se aquele lobo alcançar o artefato, nada poderá detê-lo…
O silêncio caiu novamente sobre o pátio. A direção estava clara. E o tempo já estava correndo. Desnatado cruzou os braços, olhando primeiro para o rei quebrado no chão e depois para o resto do grupo. A voz saiu firme, carregada de urgência.
— Mas que cacete de agulha. Devemos agir com celeridade. Marvin já tem vantagem suficiente.
Tigre assentiu. Laércio emitiu um pequeno ruído mecânico de concordância antes de acrescentar:
— No entanto, na visão que tive, eu vi que existe um guardião da flauta no templo. Talvez isso possa nos dar tempo suficiente para alcançá-lo e impedir o pior.
Desnatado ajeitou a alça da mochila.
— Então vamos torcer para que esse guardião seja competente.
O Rei Orestes estava claramente no limite. Sua respiração vinha em intervalos curtos e dolorosos. A casca rachada continuava vazando lentamente. Ele não tinha mais forças para levantar o braço. Sabendo que não havia mais nada que pudessem extrair dali, o grupo começou a se afastar. Mas, é claro, o Senhor Macaco não conseguiria simplesmente ir embora sem uma última estupidez. Ele voltou dois passos. Passou a mão pelo próprio pênis, esfregando-o de forma teatral. Então inclinou-se até o rosto do rei e aproximou a mão da face dele.
— Presentinho. Pra você nunca esquecer da gente.
Empurrou a mão na direção do nariz do monarca.
— Cheira bem, né?
O sorriso dele era puro deboche. Tigre fechou os olhos por um segundo. Desnatado apenas suspirou. Laércio fez um pequeno ruído constrangido. Ninguém disse nada. Eles simplesmente começaram a andar. Deixaram o Senhor Macaco ali por mais dois segundos antes de ele correr para alcançá-los. O grupo atravessou novamente o pátio devastado do palácio, passou pelos restos da batalha e seguiu pela direção apontada pelo rei. Norte. Além da muralha. A trilha estreita já podia ser vista entre as rochas. O Templo Celestial estava à frente. E Marvin Quebra-molas já estava a caminho dele.
Enquanto atravessavam o que restava do Reino dos Melões, desviando de pedaços de casca, armaduras abandonadas e manchas espessas de polpa seca, o grupo entrou em um daqueles silêncios estranhos que surgem depois de presenciar uma tragédia grande demais para ser processada imediatamente. Talvez por tédio, talvez por desconforto, ou talvez porque ninguém queria pensar que estavam prestes a enfrentar um lobo homicida prestes a alcançar um artefato de onipotência. Foi o Senhor Macaco quem quebrou o silêncio. Como sempre.
— Vocês já pararam pra pensar — começou ele, esfregando o queixo com falsa profundidade — que talvez se esses vagabundos não fossem tão frágeis, teriam sobrevivido? Eles se esconderam tanto do resto da Pangeia, e tiveram esse final ridículo.
Desnatado soltou um suspiro pesado.
— Eles não têm culpa disso.
Ele chutou uma semente que rolava pela pedra.
— Os Douracucas fizeram o que qualquer civilização sensata faria depois que o mundo virou esse caos que é a Pangeia. Predadores, impérios quebrados, cultos estranhos e mercenários vagando por todo lado. Eles escolheram estabilidade. Produção. Comércio.
Ele ajeitou a mochila no ombro.
— Exportam polpa, organizam a própria sociedade e evitam guerras. É um modelo de sobrevivência perfeitamente racional. Nem todo mundo nasce para ser um aventureiro armado ou um psicopata genocida.
O Senhor Macaco fez uma careta.
— Que discurso bonito, copo. Vou até chorar.
Laércio avançou um pouco entre os dois. Seu corpo metálico ainda carregava marcas da batalha com Madame Brígida.
— Eu entendo os dois lados.
Ele hesitou antes de continuar.
— Eu fui alguém que fugiu a vida inteira. Fugi do meu propósito, fugi de decisões, e fugi até de mim mesmo.
O aspirador de pó fez um pequeno ruído mecânico, como um suspiro.
— É uma tristeza profunda quando nada parece dar certo. Quando você tenta encontrar um lugar no mundo e sempre acaba no lixo. Literalmente.
O grupo ficou em silêncio por um segundo. Guillard revirou os olhos.
— Vocês são uns poetas de quinta, é isso que são.
Ele continuou andando sem olhar para trás.
— A vida é simples. Um dia você tá relaxado num banco de praça, no outro tem que salvar o mundo de um lobo insano.
Ele deu de ombros.
— No fundo, é só questão de estar no lugar errado na hora errada.
O Senhor Macaco deu um empurrão leve em Tigre.
— Típico de quem não gosta de se comprometer.
Ele abriu os braços dramaticamente.
— E se a gente for como esses melões? Só esperando o momento de sermos esmagados por um monstro peludo armado com uma escopeta?
Desnatado parou de andar. Virou-se lentamente. Endireitou a boina.
— Melões?
A voz saiu quase ofendida.
— Fale por si, primata. Eu, pelo menos, não vou sair por aí me comparando a uma fruta suculenta.
Ele apontou para o próprio peito.
— Eu sou um copo de leite de valor.
Laércio levantou a mangueira como quem tenta mediar uma discussão diplomática.
— Amigos, talvez não devêssemos nos comparar a nada.
Ele falou com um tom quase filosófico.
— Afinal, a vida é algo que simplesmente escapa de qualquer lógica. Quem realmente entende a vida?
Tigre bufou.
— É, realmente ninguém aqui tem a menor ideia do que está falando.
Ele chutou um pedaço de armadura de melão que rolou pelo chão.
— Isso aqui é só a gente tentando não pensar que estamos caçando um cara que explodiu um monte de melões.
O Senhor Macaco parou. Estalou os dedos.
— Acho que é isso mesmo, listrado!
Ele abriu um sorriso.
— No fundo, a vida é só uma desculpa pra rir da desgraça e fazer o que der na telha. Filosofia é o caralho!
Ele apontou para frente.
— Eu quero é ver o Marvin tomando no cu!
Desnatado soltou um suspiro de alívio.
— Finalmente. Uma resposta que faz sentido.
Ele começou a subir a trilha que levava para fora do reino.
— Vamos acabar logo com isso e garantir que minha reputação não termine no meio de um reino devastado por um maníaco.
Assim, entre uma risada, uma provocação e uma filosofia de quinta categoria, o quarteto deixou para trás o Reino dos Melões destruído. E começou a subir a trilha estreita que levava à montanha camuflada do Templo Celestial. Cada um caminhava à sua maneira, tentando, discretamente, não pensar demais no que os aguardava no topo. O Senhor Macaco caminhava alguns passos à frente, chutando pedrinhas da trilha que subia em direção à montanha do Templo Celestial. De repente, um brilho curioso apareceu em seus olhos. Ele coçou a virilha com força e lançou a pergunta como quem não quer nada:
— Então, rapazes. Como foi que vocês perderam a pureza?
Tigre soltou um suspiro longo, como se já previsse o desastre daquela conversa.
— Isso não é da sua conta — resmungou primeiro.
Mas depois deu de ombros.
— Mas já que perguntou, foi com uma leitoa. Uma leitoa robusta, digamos, com alguns quilinhos a mais.
O Senhor Macaco já começava a rir antes mesmo do resto da história.
— O nome dela era Perséfone. Foi minha professora — continuou Tigre, caminhando sem olhar para ninguém. — Eu era jovem, curioso, e ela tinha paciência comigo.
O macaco simplesmente perdeu o controle. Ele se dobrou de tanto rir, quase tropeçando na trilha e se apoiando na lateral metálica de Laércio.
— Você com uma leitoa?! — disse entre gargalhadas. — E ainda por cima obesa? Por essa eu não esperava, listrado!
Tigre bufou. Desnatado então limpou discretamente a borda da própria superfície, ajeitando a boina com elegância.
— No meu caso, foi com o meu primeiro amor.
Ele falou isso como quem conta algo digno de poesia.
— Uma belíssima xícara de café chamada Olívia.
O Senhor Macaco parou de rir, curioso.
— A gente ficou perdidamente apaixonado… — continuou Desnatado — até o dia em que ela rachou completamente.
Ele suspirou de leve.
— Depois disso, participei de experiências muito mais sofisticadas. Inclusive orgias exclusivamente homoafetivas. Verdadeiras celebrações de sabores e texturas.
Tigre bateu levemente nas costas do copo de leite, tentando segurar o riso.
— Refinado. Quem diria. Isso explica muita coisa, Desnatado.
Laércio, que vinha ouvindo tudo com um ar absolutamente entediado, respondeu sem qualquer emoção:
— Eu sou um aspirador de pó. Eu não tenho esse tipo de interesse.
O Senhor Macaco piscou várias vezes.
— Como assim, cheirador de pó? Você quer dizer que nunca teve uma experiência de, você sabe, molhar o biscoito?
Laércio soltou um pequeno ruído mecânico que parecia um suspiro.
— A energia elétrica já é o suficiente para mim. Para que complicar? Além disso, fui obrigado a presenciar Marvin fazendo coisas com a esposa dele.
Houve um silêncio breve.
— Isso já foi traumático o suficiente.
Tigre virou-se para o macaco com um sorriso malicioso.
— E você, Macaco? Como foi sua primeira vez?
O Senhor Macaco ficou vermelho. Coçou a cabeça. Olhou para o chão.
— Bom… — murmurou. — Eu ainda sou virgem, tá bom?
Então o grupo inteiro caiu na gargalhada. Mas não era uma risada cruel. Desnatado foi o primeiro a bater palmas.
— Nunca é tarde, Macaco — disse ele com um tom quase paternal.
Laércio fez um pequeno som de concordância. Tigre deu um tapinha no ombro do primata.
— Quem sabe depois dessa missão você não encontra novas inspirações.
O Senhor Macaco até tentou parecer entretido, mas acabou se sentindo ofendido.
— Ah, vão todos se foder.
Entre risadas, provocações e comentários absurdos, o quarteto continuou subindo a trilha. A trilha finalmente se estreitava entre duas paredes de pedra. À frente, parcialmente escondida por trepadeiras secas e rochas empilhadas de forma natural demais para ser coincidência, estava a entrada da caverna que levava ao Templo Celestial. O grupo desacelerou. Desnatado analisava o terreno. Laércio fazia pequenos ruídos elétricos de apreensão.
Foi então que uma figura surgiu. Simplesmente apareceu no meio da trilha, como se estivesse esperando há horas. Um indivíduo baixo, coberto por um manto escuro e um capuz pesado que escondia o rosto. A postura era rígida, firme, bloqueando completamente o acesso à caverna. A voz que saiu de dentro do capuz era grave.
— Qual é o destino de vocês?
O grupo parou. Antes que qualquer um pudesse responder com um mínimo de diplomacia, o Senhor Macaco abriu a boca.
— A gente veio visitar a bucetinha cabeluda da sua mãe!
Ele abriu um sorriso enorme.
— Quer indicar o caminho?
Foi feito um silêncio tão profundo que até o vento pareceu parar por um segundo. Tigre fechou os olhos. Desnatado piscou lentamente. Laércio emitiu um pequeno ruído metálico de incredulidade. O encapuzado suspirou. Um suspiro longo. Pesado.
— Você acha isso engraçado, não é?
A voz agora tinha um tom cansado.
— Mas eu não permitirei que continuem adiante sem me entregarem tudo que possuem.
Ele inclinou a cabeça.
— Pretendo eliminá-los.
Então ele puxou o capuz para trás. O que apareceu por baixo não era um Douracuca comum. Era um melão saqueador. Sua casca estava marcada por cicatrizes profundas, rachaduras antigas que haviam cicatrizado de maneira irregular. Uma grande fenda atravessava o lado esquerdo do rosto, revelando parte da polpa endurecida por cicatrização. Um dos olhos estava deformado, quase fechado permanentemente. Metade da superfície do corpo parecia ter sido queimada ou esmagada em algum momento do passado. O resultado era uma aparência brutal. Algo entre sobrevivente e predador. Nas mãos, ele empunhava duas pistolas pesadas, já apontadas diretamente para o grupo.
— Última chance.
O Senhor Macaco levantou um dedo.
— Posso responder de novo?
O tiro estourou a pedra ao lado da cabeça dele.
— Corre, cambada! — gritou Tigre.
E o grupo disparou. A trilha virou um caos de passos, pedras rolando e respiração acelerada. Os tiros começaram a ecoar pelo ambiente. Fragmentos de pedra explodiram perto deles enquanto o melão desfigurado avançava pela trilha com velocidade surpreendente, disparando sem hesitar.
— Eu não me arrependo de ter falado da vagabunda da mãe dele! — gritou o Senhor Macaco.
— Você nunca se arrepende! — respondeu Tigre correndo.
Desnatado já corria à frente, desviando entre as rochas com precisão. Laércio vinha logo atrás, sendo praticamente arrastado quando tropeçava. Mais tiros. Uma bala passou zunindo entre Tigre e o macaco. O melão saqueador continuava vindo. Durante a corrida desesperada pela trilha pedregosa, o Senhor Macaco tropeçou em uma raiz saliente. A pochete que carregava na cintura abriu um pouco mais. Algo escorregou. A flauta azul-turquesa. O instrumento deslizou pela trilha, girando entre as pedras até parar alguns metros atrás, exatamente aos pés do melão saqueador.
O criminoso parou. Olhou para o chão. Abaixou-se. Pegou a flauta com uma das mãos, ainda segurando a pistola na outra. Girou o instrumento entre os dedos com curiosidade, observando o acabamento brilhante. O sorriso torto que surgiu em sua casca cicatrizada era puro deboche. Quando o Senhor Macaco percebeu o que havia acontecido, ele freou a corrida de forma abrupta. Virou-se. Os olhos arregalados. A expressão transformada.
— Seu bosta! — berrou ele, com a voz carregada de fúria verdadeira. — Se ousar fazer qualquer coisa com essa flauta, eu vou fazer você se arrepender profundamente!
O melão desfigurado soltou uma risada áspera.
— É mesmo?
Ele levantou o instrumento.
— Vamos ver se consigo quebrar isso aqui no joelho.
Sem qualquer hesitação, ele posicionou a flauta entre as pernas. O estalo ecoou pelo ambiente. A madeira refinada partiu ao meio. Os dois pedaços caíram no chão. Por um instante, houve silêncio. Então algo mudou no Senhor Macaco. O rosto dele se deformou em pura fúria. Sem dizer uma palavra, ele disparou de volta pela trilha. O movimento foi tão rápido que os outros mal tiveram tempo de reagir.
— Senhor Macaco! — gritou Tigre.
Tarde demais. O primata saltou. Colidiu contra o melão saqueador com violência total, derrubando-o no chão pedregoso. As pistolas voaram para o lado. O criminoso tentou reagir. Não conseguiu. O Senhor Macaco agarrou um dos pedaços da flauta quebrada e cravou diretamente no olho do melão. O grito foi imediato. Foi um som agudo e grotesco. A ponta improvisada do instrumento atravessou a casca e entrou profundamente na polpa interna. Suco vermelho e fibras macias começaram a escorrer pelo rosto da criatura. O macaco puxou. E enfiou de novo. E de novo. E de novo. Cada golpe acompanhado por um estalo úmido e um novo jorro de polpa misturada com sementes esmagadas.
— Isso é pelo desrespeito! — ele rosnava.
O melão tentava se debater. Mas o macaco estava por cima dele, esmagando seu torso contra as pedras. O Senhor Macaco então agarrou a pálpebra deformada do outro olho e puxou. A casca rasgou com um som viscoso. A pálpebra inteira veio junto. A polpa interna exposta pulsava de forma grotesca. O melão gritava. Ou tentava. Porque no instante seguinte o macaco cravou os dentes na perna dele. A mordida foi brutal. A casca estourou. Polpa espessa escorreu entre os dentes do primata enquanto ele arrancava um pedaço inteiro da estrutura da perna. O saqueador soltou um grito sufocado. O Senhor Macaco cuspiu o pedaço. Depois agarrou a boca da criatura e forçou-a a abrir. Enfiou a mão dentro. E puxou. A língua viscosa do melão saiu inteira, escorregadia, pendendo grotescamente antes de ser arrancada com um puxão final.
O criminoso já estava quase inconsciente. Mas o macaco não parou. Ele começou a esmurrar. Punhos subindo e descendo com força animal. Cada golpe esmagava mais a estrutura da cabeça do melão. A casca rachava, afundava, quebrava sob o impacto repetido. O som era horrível. Pedra. Polpa. Casca se partindo. Em poucos segundos, a cabeça da criatura estava completamente deformada. Uma massa irreconhecível de sementes, suco e fragmentos de casca espalhados pela trilha.
O corpo parou de se mover. O melão saqueador estava morto. Mas o Senhor Macaco ainda respirava pesado. O olhar ainda selvagem. Então ele fez algo que deixou o resto do grupo ainda mais paralisado. Ele começou a comer. Arrancou pedaços da polpa aberta com as mãos. Levou à boca. O suco escorria pelo queixo enquanto ele mastigava, lambuzado de vermelho espesso e fibras de fruta esmagada. Era um espetáculo grotesco e silencioso.
Tigre, Desnatado e Laércio apenas observavam. Incapazes de reagir. Quando terminou, o Senhor Macaco se levantou. Ofegante. Passou o braço pela boca, limpando o suco e a polpa grudados no rosto. Não olhou para ninguém. Apenas disse, com a voz baixa e seca:
— Não quero falar sobre isso.
Ele ajustou a pochete.
— Vamos andando.
E começou a caminhar em direção à entrada da caverna do Templo Celestial. O grupo caminhava em silêncio atrás do Senhor Macaco. O clima era pesado. Ninguém parecia muito disposto a comentar o que havia acontecido minutos antes. O primata seguia na frente, ajustando a pochete como se nada tivesse acontecido, enquanto os outros três trocavam olhares discretos, tentando fingir que aquela explosão de violência grotesca não tinha acontecido. A trilha se estreitava naquele ponto. Logo adiante, um pequeno desvio formava algo parecido com um beco natural entre duas paredes de pedra cobertas por musgo úmido.
Foi ali que eles viram a figura. Uma pequena ave kiwi. Baixa, arredondada, com penas marrons desgrenhadas que pareciam mais um emaranhado de fios de coco seco do que plumagem. Seu bico era longo e curvado, com pequenas narinas na ponta. Os olhos eram grandes e escuros, carregados de um cansaço profundo. Onde deveriam estar seus braços, havia apenas dois pequenos cotoquinhos enfaixados. As bandagens estavam gastas, amareladas pelo tempo.
A pequena criatura estava sentada sobre um amontoado de papelões rasgados, improvisando um tipo de cama miserável. Ao lado havia um saco velho com algumas roupas e restos de comida. Na frente dele repousava uma caneca de metal amassada, e dentro dela, apenas três unipanges. Fichas que claramente pareciam ter sido colocadas pelo próprio kiwi para incentivar doações.
O pássaro tinha uma expressão sofrida, mas mantinha a postura ereta, como alguém tentando preservar algum tipo de dignidade. Intrigado, Tigre se aproximou. Ele agachou levemente para ficar na altura do pequeno animal.
— Amigo, como se chama? E por que precisa de unipanges? — perguntou, tentando não parecer desconfiado.
O kiwi levantou os olhos. Eles brilharam imediatamente com esperança.
— Oi pessoal… — disse ele, com uma voz frágil. — Eu me chamo Quivi Otapas.
Ele olhou para os cotoquinhos enfaixados.
— Eu estou juntando unipanges para comprar braços mecânicos. Com eles finalmente poderei arrumar algum emprego. A economia está foda, vocês sabem como é.
Ele empurrou a caneca levemente na direção deles.
— Vocês podem ajudar com alguma quantia?
O Senhor Macaco imediatamente deu um passo à frente. Um sorriso travesso abriu lentamente em seu rosto.
— Claro, meu amigo aleijado. Claro que podemos ajudar.
Quivi inclinou a cabeça, esperançoso.
— Sério?
— Claro — continuou o macaco. — Mas tem uma condição.
O kiwi piscou duas vezes.
— Qual condição?
O primata fez uma pausa dramática. Seus olhos brilhavam de pura sacanagem.
— Você vai ter que tocar a minha flauta.
Quivi franziu o cenho.
— E onde está sua flauta?
O Senhor Macaco abriu um sorriso largo e teatral. Apontou lentamente para o seu pênis pulsante e enrijecido, que continuava estranhamente rígido desde o episódio no desfiladeiro.
— Aqui mesmo, amigo. E digo mais…
Ele inclinou o corpo para frente.
— É uma flauta com som de primeira.
Quivi ficou olhando. Em silêncio. Claramente tentando entender se aquilo era algum tipo de metáfora ou se o primata simplesmente era um completo idiota. Desnatado suspirou profundamente. Deu um leve tapa na cabeça do macaco.
— Dá pra parar de enrolar e ajudar o pobre pássaro?
Ele se inclinou para a caneca. Tirou algumas unipanges do bolso interno da mochila e colocou dentro. O som das moedas ecoou na caneca metálica. Quivi arregalou os olhos.
— Muito obrigado! — disse ele, quase emocionado.
Tigre também pegou algumas fichas e jogou na caneca.
— Boa sorte com os braços, amigo.
Laércio se aproximou por último. O aspirador observou o kiwi por alguns segundos.
— Eu não tenho bolsos, então infelizmente não posso contribuir financeiramente.
O kiwi assentiu.
— A intenção já vale.
Todos então olharam para o Senhor Macaco. O primata estava parado, com os braços cruzados. Olhar sério. O macaco apontou novamente para o próprio pênis.
— Toque a flauta.
O kiwi piscou, confuso.
— Eu acho que ainda não entendi.
O Senhor Macaco caminhou até ele.
— Não entendeu?
Ele se agachou.
— Eu explico melhor, então.
Ele ergueu novamente o pênis pulsante, apontando para ele com orgulho grotesco. Quivi empalideceu.
— Eu acho que não quero tocar isso.
O macaco ergueu o punho e deu um tapa seco no rosto do kiwi, que rolou alguns centímetros sobre os papelões.
— Presta atenção quando eu falo, pássaro!
Ele aproximou o rosto do pássaro, os dentes à mostra.
— Quando eu mandar você tocar a flauta, você toca a flauta!
Quivi tremia.
— Por favor, eu só estou tentando juntar dinheiro…
O macaco apontou o dedo na cara dele.
— E eu estou tentando educar você.
Ele deu mais dois tapinhas ameaçadores na cabeça do kiwi.
— Agora presta atenção.
De repente, o primata mudou completamente de atitude. Devagar, abriu um sorriso estranho. Saltou em cima de Quivi, penetrou o pênis no ânus dele, e começou a estuprar o pobre coitado. Quivi imediatamente começou a se contorcer, o pequeno pássaro se debatia no monte de papelões, gemendo involuntariamente enquanto o macaco atacava suas laterais e barriga com dedos rápidos. O grupo inteiro ficou em choque absoluto, e então, Tigre arregalou os olhos.
— Mas que porra é essa?!
Guillard avançou.
— Chega!
Ele tentou puxar o macaco para longe. Mas Desnatado estendeu o braço e o segurou pelo ombro.
— Deixa.
Guillard olhou para ele, indignado.
— Deixar?
Desnatado deu de ombros.
— O cara está liberando dopamina.
Ele ajeitou a boina.
— Deixa ele gozar. Faz parte do rock.
Guillard ficou completamente sem palavras. Enquanto isso, o Senhor Macaco continuava a sessão absurda de erotismo.
— Pode gemer, pássaro! Pode gemer!
Quivi estava vermelho, lágrimas escorrendo pelos olhos de tanta dor. Depois de um tempo que pareceu interminável, o macaco finalmente ejaculou dentro do ânus. Quivi caiu para trás nos papelões, ofegante. O primata então pegou um pequeno pedaço de algodão que encontrou em uma das bandagens do kiwi. Molhou com saliva. E começou a enfiar no ânus do pássaro como se fosse um cotonete improvisado. Quivi estava completamente confuso e machucado demais para reagir.
— Tem que limpar a bundinha — disse o macaco. — Usar proteção.
Depois de alguns segundos de limpeza anal completamente desnecessária, ele se levantou. Antes de ir embora, olhou seriamente para o kiwi.
— Escuta aqui, Quivi Otapas.
Ele apontou o dedo.
— O jeito de superar isso…
Ele fez uma pausa dramática.
— É não chorar e comer muita batata.
O kiwi ainda estava tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
— Eu não sei o que isso significa…
Então o macaco deu um chute no kiwi, fazendo o pequeno pássaro rolar alguns centímetros sobre os papelões.
— Boa sorte, seu filho de uma puta.
E saiu andando pela trilha. O grupo inteiro ficou parado por alguns segundos. Ninguém dizia nada. O silêncio era pesado. Desnatado foi o único que se aproximou do kiwi. Ele abriu a mochila lentamente. Revirou algumas coisas lá dentro. Então tirou um pequeno saco de tecido grosso. Amarrado com uma corda. Colocou ao lado da caneca. O saco caiu com um peso absurdo. O kiwi olhou para aquilo, confuso.
— O que é isso?
Desnatado ajustou a boina.
— Uma pequena contribuição. Eu devia entregar para um mafioso, mas acho que você merece mais.
Ele deu meia volta. E voltou para a trilha. Quivi abriu o saco com o bico. Dentro havia cinquenta milhões de unipanges. A ave simplesmente congelou. Sem conseguir processar.
Enquanto isso, o resto do grupo já seguia atrás do Senhor Macaco. Em completo silêncio. Ninguém parecia ter energia para comentar mais nada. O grupo continuou caminhando pela trilha pedregosa que levava à caverna do Templo Celestial. O vento que vinha das montanhas soprava frio, levantando pequenas nuvens de poeira entre as pedras. Ninguém falava. O episódio com Quivi Otapas havia deixado um clima estranho no ar. À frente, o Senhor Macaco caminhava como sempre. Mãos atrás da cabeça, assobiando de forma despreocupada, a pochete balançando no quadril. Para quem o observava de longe, parecia apenas um sujeito despreocupado seguindo viagem. Mas Tigre sabia melhor.
Enquanto caminhava, o felino franziu o cenho. Ele conhecia o primata há tempo suficiente para entender quando algo estava errado, e aquilo estava diferente. O macaco sempre foi impulsivo, vulgar e imprudente. Isso era parte da natureza dele. Mas nos últimos eventos havia algo além disso. Uma inquietação, uma agressividade mais crua, quase instintiva. Tigre diminuiu o passo. Desnatado e Laércio, caminhando logo atrás, perceberam.
— O que foi? — perguntou o copo de leite.
Tigre falou em voz baixa, quase um sussurro.
— Estou começando a achar que o Macaco não está bem.
Laércio inclinou ligeiramente o corpo metálico.
— Ele nunca esteve particularmente equilibrado.
— Eu sei — respondeu Tigre. — Mas isso está diferente.
Ele lançou um olhar para o primata caminhando alguns metros à frente.
— Ele sempre foi um idiota. Mas agora parece que está fora de controle.
Desnatado cruzou os braços, pensativo.
— Talvez a missão esteja mexendo com ele.
— Ou talvez seja algo pior — murmurou Tigre.
Ele respirou fundo.
— Se ele perder completamente a cabeça, pode sobrar pra gente.
Laércio assentiu devagar.
— Você o conhece há mais tempo.
— Pois é — disse Tigre.
Ele olhou novamente para o primata.
— Talvez eu devesse tentar entender o que se passa naquela cabeça antes que a situação piore.
Desnatado e Laércio trocaram um olhar rápido. Depois assentiram.
— Faz sentido — disse Desnatado.
— Alguém precisa tentar — acrescentou Laércio.
Tigre suspirou. Então acelerou o passo. Caminhou até alcançar o Senhor Macaco.
— Escuta, Senhor Macaco.
O primata olhou de lado.
— Fala, listrado.
— Precisamos conversar.
O tom sério fez o macaco erguer as sobrancelhas.
— Lá vem sermão.
Mesmo assim, ele parou. Tigre fez um gesto com a cabeça, indicando um pequeno desvio da trilha. Os dois se afastaram alguns metros. Desnatado e Laércio ficaram para trás, observando à distância enquanto os dois se posicionavam entre algumas pedras maiores, longe o suficiente para que a conversa não fosse facilmente ouvida. O Senhor Macaco cruzou os braços.
— Vai desembuchar ou não?!
Tigre manteve o olhar firme. O vento da montanha soprava entre eles. A entrada escura da caverna do Templo Celestial já podia ser vista logo adiante. E ali, naquela trilha silenciosa, começava uma conversa que, com sorte, poderia colocar algum juízo na cabeça do símio antes que a missão saísse completamente do controle.