top of page

Capítulo IX: O Reino sob os Pés do Lobo

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
6 de jun.
14 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

Uma tampa de esgoto explodiu para fora do chão com um estrondo metálico. Ela girou no ar, quicou duas vezes na estrada de pedra e parou alguns metros adiante. Da abertura escura, primeiro surgiram duas patas encharcadas. Depois um focinho. Então, com esforço e respiração pesada, Marvin Quebra-molas emergiu do subterrâneo, arrastando-se para fora como algo que não deveria ter sobrevivido ao que enfrentou lá embaixo. Ensopado. Sujo. Coberto por uma mistura de lama, fuligem antiga e resíduos indeterminados.


Sobre seu ombro esquerdo, equilibrando-se com surpreendente elegância, estava Licurgo Noronha de Assis e Albuquerque. O dodô saiu logo em seguida, descendo com cuidado, segurando a cartola para não perdê-la. Por um momento, os dois ficaram ali, apenas respirando o ar aberto. Marvin balançou o corpo inteiro como um animal saindo da água. Gotículas sujas voaram em todas as direções. Enfiou o dedo na orelha e puxou um fiapo viscoso de esgoto.


— Finalmente.


Licurgo retirou a cartola com dignidade. Virou-a. Um jorro de água turva, lodo e pequenas sujeiras acumuladas escorreu para o chão. Ele observou o conteúdo com expressão levemente desapontada.


— Desnecessário.


Sacudiu o fraque, ajustou o monóculo e recolocou a cartola como se estivesse prestes a entrar em um salão nobre, e não emergido de um esgoto intercontinental. Marvin passou a mão pelo rosto. Respirou fundo. E olhou para frente. Ali estavam. Os Portões do Reino dos Melões. Imponentes. Grandiosos. As portas eram feitas de madeira maciça reforçada com placas de bronze polido. Entalhes detalhados representavam videiras, folhas largas e frutos arredondados. O símbolo central, um melão perfeitamente esculpido, ocupava a parte mais alta do arco. As muralhas que cercavam o reino eram altas, lisas e claras, construídas com blocos de pedra cuidadosamente alinhados, nenhuma rachadura aparente, e nenhuma improvisação.


Era arquitetura de prosperidade. De organização. De orgulho. À frente do portão principal, dois guardas permaneciam imóveis. Eram melões amarelos antropomórficos, de casca lisa e brilhante. Usavam armaduras metálicas adaptadas aos seus corpos arredondados, placas segmentadas que protegiam a parte frontal e traseira, com ombreiras bem ajustadas. Empunhavam lanças longas com pontas reluzentes. Os olhos, pequenos cortes escuros na casca, estavam fixos e sérios. Não havia humor ali. Nem medo. Apenas disciplina. Marvin observou a estrutura. Depois os guardas. Depois novamente o portão.


— Chegamos.


Licurgo inclinou a cabeça, avaliando a construção.


— Arquitetura admirável. Solidez institucional.


Marvin não respondeu. Ajustou a escopeta nas costas.


— Me acompanhe.


E começou a caminhar em direção aos portões do Reino dos Melões. O chão sob suas patas ainda estava úmido do esgoto. Mas seus olhos ardiam com algo muito mais perigoso que sujeira. Ambição. Os Douracucas, como se autodenominavam, eram conhecidos no restante da Pangeia como o Povo Melão. Uma sociedade paradoxal extremamente organizada. Administrativamente eficiente. Culturalmente refinada. E, ao mesmo tempo, biologicamente frágil.


Seus corpos eram compostos por casca firme, porém sensível, e interior de polpa suculenta. Um golpe mal direcionado podia causar rachaduras. Uma queda podia significar vazamento irreversível. Fadiga física era um risco real. A exposição prolongada ao calor excessivo ou impactos constantes podia comprometer sua integridade estrutural.


Por essa razão, escolheram se estabelecer longe do tumulto da Pangeia central. Distantes de conflitos. Distantes de guerras. Distantes de predadores oportunistas. O Reino dos Melões foi erguido como um refúgio geográfico e estratégico, protegido por muralhas sólidas e acesso limitado. Em vez de expandir militarmente, os Douracucas expandiram economicamente. E dominavam um mercado específico. Eram os maiores exportadores de polpa processada da Pangeia. Polpa pura, concentrada, misturas especiais, derivados culinários. Sua economia prosperava na eficiência logística e na padronização quase obsessiva da produção. Frágeis fisicamente. Fortíssimos administrativamente. E ali estavam os portões que protegiam esse equilíbrio. Marvin continuava se aproximando, os dois guardas mantiveram as lanças erguidas. Um deles inclinou-se levemente para o outro.


— Jurandir, é impressão minha ou é um coiote enorme e uma cacatua esnobe vindo na nossa direção?


O outro respondeu sem desviar o olhar:


— Não é impressão sua, Alessandro. Realmente é isso.


Marvin parou a alguns metros dos portões. Ergueu as mãos lentamente, mostrando que não segurava a escopeta.


— Paz.


Licurgo, com a naturalidade de quem frequenta recepções diplomáticas subterrâneas, retirou do bolso interno do fraque uma pequena bandeira branca dobrada. Desdobrou-a com elegância. Ergueu-a com a ponta da bengala. O vento leve do Reino dos Melões fez o tecido balançar suavemente. Os guardas permaneceram imóveis. As lanças não abaixaram. O silêncio que se seguiu não era hostil. Era protocolar. Jurandir ajustou levemente a lança.


— O que o coiote deseja?


Marvin soltou uma risada curta e áspera.


— Frutinha boba, eu sou um lobo. E eu vim buscar algo. Quero falar com o rei e a rainha.


Alessandro deu um passo à frente, a ponta da lança alinhada ao peito de Marvin.


— Para falar com Sua Majestade, o Rei Orestes, e Sua Alteza, a Rainha Filomena, é necessário agendamento prévio.


Licurgo inclinou levemente a cabeça.


— Senhor Marvin… o senhor, por acaso, possui horário marcado?


Marvin virou o rosto lentamente para o dodô.


— Lógico que não, imbecil.


Jurandir respondeu com frieza protocolar:


— Sem horário marcado, os senhores não entrarão.


Marvin aproximou-se um passo.


— Cala a boca, semente de merda. Não se intromete.


Os dois guardas se entreolharam, visivelmente ofendidos. A disciplina formal deu lugar à indignação. Alessandro avançou meio passo, a voz grave vibrando na armadura.


— E quem pensa que é para falar conosco desse jeito, criatura? Retire-se imediatamente, antes que sejamos obrigados a desmembrá-lo!


Marvin parou. O sorriso que surgiu não era educado. Era predatório. Ele moveu a escopeta num gesto tão rápido que o ar pareceu não acompanhar. O primeiro disparo atingiu Jurandir no centro da armadura. A placa metálica cedeu. A casca rachou com um estalo úmido. No segundo seguinte, o corpo do melão explodiu para trás em uma erupção grotesca de polpa vermelha, fibras internas e sementes projetadas como estilhaços orgânicos. A lança caiu ao chão enquanto metade superior do corpo simplesmente deixava de existir, espalhando uma chuva viscosa pelo portão. Alessandro mal teve tempo de reagir. O segundo disparo acertou a lateral do corpo. A pressão interna fez o resto. A casca abriu como fruta madura esmagada, liberando uma massa espessa de polpa e líquido açucarado que escorreu pela pedra clara da entrada do reino, sementes quentes e fragmentos de casca colaram-se às muralhas. Os restos dos dois Douracucas tombaram no chão com sons moles e desagradáveis.


O cheiro adocicado da polpa fresca misturou-se ao ar. Marvin abaixou a escopeta lentamente. Riu. Um riso gutural. Passou a língua pelos dentes manchados de respingos vermelhos.


— Desmembrar? — murmurou. — Vocês não fazem ideia do que isso significa.


Licurgo observava a cena em silêncio absoluto. As sementes dos melões ainda rolavam pelo chão. Ele ajustou o monóculo.


— Eficiente, embora dramaticamente excessivo.


Marvin olhou para ele.


— Tá pronto pra entrar nessa vida, Licurgo?


O dodô respirou fundo. Olhou para os portões. Depois para os restos no chão, e então, endireitou a cartola.


— Por ioiôs infinitos, faço quase qualquer coisa.


Marvin sorriu. A porta do Reino dos Melões estava agora sem guardas. E a invasão havia começado. Marvin apoiou o ombro contra um dos portões e o empurrou. A madeira reforçada gemeu, mas resistiu. Ele recuou dois passos. Avançou correndo. O impacto ecoou pela muralha. As dobradiças vibraram. Licurgo recuou para o lado, protegendo a cartola.


— Estruturalmente robusto — comentou.


Marvin rosnou. Desferiu uma sequência de golpes com as patas, cravando as garras nas frestas da madeira, forçando a abertura. A madeira começou a rachar sob a pressão repetida. Ele recuou novamente. Correu. A tranca interna partiu com um estalo grave, e as portas cederam alguns centímetros. Marvin enfiou os dedos na abertura e puxou com força descomunal. A madeira estilhaçou. Placas de bronze se desprenderam. Com um último empurrão brutal, os portões se abriram completamente, batendo contra as muralhas com estrondo. E ele entrou.


O Reino dos Melões era organizado, simétrico e limpo. Ruas largas de pedra clara, construções arredondadas com varandas delicadas, jardins meticulosamente alinhados. E agora havia respingos vermelhos no chão. A presença de Marvin era uma mancha escura naquele cenário ordenado. Os Douracucas, de tamanhos variados, alguns menores e mais ovais, outros grandes e quase perfeitamente esféricos, pararam onde estavam. O pânico se espalhou como rachadura em casca madura.


Do alto da torre central, o Rei Orestes observava. Ele era imponente. Maior que os demais. Casca amarela profunda e lustrosa, quase dourada sob a luz do reino. Usava uma coroa de metal leve incrustada com pequenas pedras verdes que imitavam pequenas folhas. Sua armadura cerimonial cobria a parte frontal, com detalhes gravados em espiral. Ao lado dele, sentada em um trono ornamentado com entalhes de vinhas, estava a Rainha Filomena. A casca dela era mais clara, com tonalidade suave e delicada. Usava um manto translúcido que repousava sobre sua forma arredondada. O ventre, levemente mais proeminente, denunciava a gestação do primeiro herdeiro. Os olhos de ambos estavam arregalados. Orestes ergueu a mão.


— Soldados Douracuca! Enfrentamos uma invasão! Detenham essa ameaça imediatamente!


As tropas se moveram. Fileiras de guerreiros com lanças e escudos circulares desceram as escadarias centrais em formação organizada. Seus movimentos eram coordenados, disciplinados. Marvin levantou a escopeta. Sorriu.


— Vocês acham que vão fazer o quê? Me picar em cubinhos? Vocês não passam de saladas ambulantes!


O primeiro grupo avançou em sincronia, lanças direcionadas ao torso do lobo. Marvin desviou lateralmente com velocidade inesperada. A primeira lança passou raspando seu ombro. Ele agarrou a haste com uma pata e puxou o soldado com força. O corpo do melão colidiu contra seu joelho. A casca rachou. Ele apertou. A estrutura interna cedeu com um som úmido e grotesco. O soldado explodiu em uma mistura espessa de polpa vermelha e sementes que se espalharam pela rua pavimentada. Outro investiu. Marvin girou a escopeta como bastão e acertou lateralmente. A armadura dobrou para dentro. A pressão interna fez o resto. O Douracuca estourou como fruta esmagada contra parede, respingando soldados ao lado.


Três vieram ao mesmo tempo. Marvin mergulhou sob as lanças, agarrou dois pelas bordas da armadura e os bateu um contra o outro. As cascas colidiram, e ambas cederam. Uma chuva viscosa caiu sobre a praça. O cheiro adocicado da polpa misturava-se ao cheiro metálico do sangue de pequenos cortes que Marvin já acumulava.


Um soldado conseguiu atingir sua perna. A lança perfurou superficialmente. Marvin rosnou. Quebrou a haste com as próprias mãos. E enfiou o fragmento restante na lateral do atacante, atravessando a casca até que a polpa vazasse violentamente pelo outro lado.


A praça virou um cenário grotesco. Escudos rolavam. Armaduras amassadas. Sementes espalhadas como chuva orgânica. Marvin avançava sem hesitar. Dilacerava e arremessava corpos contra paredes claras que agora estavam manchadas de vermelho profundo.


Do alto da torre, o Rei Orestes observava a destruição de sua guarda com incredulidade transformando-se em horror. O Reino dos Melões, tão cuidadosamente isolado do resto da Pangeia, estava sendo invadido. E destruído. Por um único lobo ensopado de esgoto e sangue. Do alto da torre, o Rei Orestes sentiu a estrutura da própria confiança rachar como casca sob impacto. Ele virou-se para Filomena. A Rainha mantinha a postura, apesar do tremor leve que percorria sua superfície brilhante. A mão repousava sobre o ventre, protegendo o herdeiro ainda por nascer.


— Pit Mangueira nos protegerá — disse ela, com voz suave, mas firme. — A nós, e ao nosso filho.


Orestes assentiu, mas seus olhos já não carregavam a mesma certeza. Abaixo, o caos era absoluto. No meio da multidão que tentava fugir, um simples camponês Douracuca, menor, com a casca levemente manchada pelo trabalho nos campos, parou. Respirava rápido. Mas não recuou. Encarou Marvin com desprezo.


— Você não entende o valor de nossas terras, estrangeiro! — gritou. — Você morrerá aqui, sem sentido, sem sabor!


Marvin virou o rosto lentamente. Riu. Aproximou-se. Agarrou o melão pelo pé, ou pelo que equivalia a isso em sua anatomia arredondada, e o ergueu até a altura do próprio rosto.


— Sabor? — murmurou. — Vocês têm a profundidade emocional de uma vitamina.


Ele apertou. A casca começou a rachar sob a pressão brutal. O suco escorreu por entre suas garras. As fibras internas cederam. Com um último aperto, o corpo do camponês colapsou, a polpa vazando em fios espessos que pingaram no chão. Marvin o arremessou contra uma pedra. E esmagou o restante com um pisão. O som foi úmido e final. Os poucos sobreviventes próximos recuaram, horrorizados. Licurgo, que estava equilibrado no ombro do lobo, observava tudo com expressão analítica.


— O senhor tem uma abordagem direta.


Marvin não respondeu. Do alto, Orestes sentia a própria cor esmaecer. A praça que antes simbolizava organização e prosperidade agora estava coberta por manchas vermelhas e fragmentos de casca. Ele virou-se para os guardas restantes.


— Tragam os arqueiros! Preparem as tropas restantes! Esse invasor não vai nos desolar!


Mas a ordem ecoou sobre um reino já em desordem. Marvin avançava. Não corria. O chão escorregadio sob as patas. O corpo respingado de sangue próprio e polpa alheia. A escopeta pendia em suas mãos como extensão natural da violência. Cidadãos tentavam fugir pelas laterais. Alguns escorregavam. Outros se escondiam atrás de barris e colunas. Ele não desviava. Quem cruzava seu caminho tornava-se mais um respingo na arquitetura clara do reino. O cheiro doce tornava o ar quase nauseante. O Reino dos Melões, isolado, meticuloso, protegido por protocolos, estava em completo colapso.


Marvin chegou aos portões internos do castelo. Empurrou. As portas ornamentadas cederam sob sua força. Ele entrou. O salão principal era alto, iluminado por janelas amplas. Escadarias curvas levavam ao topo da torre central. Sem hesitar. Ele começou a subir. Cada degrau manchado com o rastro que deixava para trás. O brilho nos olhos não era apenas raiva. Era obsessão.


Marvin empurrou as portas finais do salão real com violência contida. O trono central estava à sua frente. O Rei Orestes desceu os degraus com o pequeno cetro cerimonial erguido. Uma haste dourada com uma esfera verde no topo, símbolo da autoridade do Reino dos Melões. Com um grito de fúria desesperada, ele avançou. Tentou atingir o peito do lobo com o cetro. Marvin sequer desviou. Com um simples tapa lateral, atingiu o corpo do rei com força brutal. Orestes foi lançado contra uma das colunas laterais, rachando a própria casca no impacto. O cetro caiu, rolando pelo chão polido. Licurgo desceu calmamente do ombro de Marvin. Caminhou até o trono. Posicionou-se atrás da Rainha Filomena. Encostou a ponta metálica da bengala na lateral delicada de sua casca.


— Majestade — disse com voz educada — peço que mantenha a compostura.


Filomena tremia. Uma pequena fissura já surgiu onde a bengala pressionava. Marvin caminhou lentamente até o rei caído. As mãos agora atrás das costas, postura quase formal.


— Vamos simplificar.


Ele inclinou levemente a cabeça.


— Diga onde fica o templo que guarda a Flauta Dourada, e o dodô deixa sua esposa ilesa.


Orestes tossiu, polpa escorrendo pela lateral do corpo.


— Eu… eu não sei de nada…


Marvin não levantou a voz. Apenas fez um gesto com dois dedos. Licurgo entendeu. A bengala pressionou com mais força. A ponta metálica começou a penetrar a casca de Filomena, lentamente, girando. A superfície começou a rachar. Uma linha vermelha começou a escorrer. A Rainha soltou um gemido agudo. Orestes gritou.


— Por favor, pare!


Licurgo girou a bengala mais uma vez, criando uma fissura maior, expondo polpa fresca.


— Eu conto! — berrou o rei. — Eu conto!


Licurgo interrompeu a pressão, mas manteve a bengala encostada. Orestes respirava descontrolado.


— O Templo Celestial… — começou, com a voz falhando — fica além do castelo. Atrás da muralha norte. Há uma trilha estreita que sobe pela encosta. No topo há uma formação rochosa que parece apenas uma montanha comum, pedras sobre pedras, mas no centro há uma abertura camuflada por vegetação seca e vinhas artificiais.


Ele engoliu seco.


— O templo foi escavado dentro da própria montanha. Não se vê de longe. Não se vê de perto. Só quem conhece o ponto exato encontra a entrada.


Marvin arqueou a sobrancelha.


— Não entendo como um lugar tão importante fica num reino tão tosco.


Orestes ergueu o olhar, agora cheio de ódio.


— Quando os Mentalistas esconderam os artefatos, escolheram lugares onde ninguém jamais procuraria. Locais isolados. Específicos. O Reino dos Melões era invisível ao resto da Pangeia. Era perfeito.


Marvin ficou em silêncio por um segundo. Depois virou-se.


— Licurgo. Solte a rainha.


O dodô retirou a bengala. Filomena caiu parcialmente no trono, a fissura ainda aberta, polpa escorrendo lentamente. Marvin sorriu.


— Como prometido, Licurgo não a matará. Mas eu irei.


Orestes suspirou de alívio por um segundo. Foi o único segundo que teve. Marvin ergueu a escopeta. Apontou para o peito da Rainha, e disparou. O impacto foi devastador. A parte frontal do corpo de Filomena simplesmente deixou de existir. A polpa explodiu contra o trono e as paredes atrás, sementes espalhando-se pelo chão do salão real. O manto translúcido ficou encharcado de vermelho profundo. O corpo restante tombou. Imóvel. O grito de Orestes ecoou pelo salão. Marvin começou a rir, e Licurgo, após um breve silêncio, também riu. Não por prazer, mas por nervosismo aristocrático diante da violência irreversível. O rei caiu de joelhos. O salão real do Reino dos Melões estava agora irreconhecível. E o caminho até o Templo Celestial estava aberto. O Rei Orestes, ajoelhado entre respingos de polpa e restos de trono, ergueu o olhar para Marvin. A voz saiu quebrada, mas firme.


— Você é pura maldade, não merece nada de bom, nada que este mundo tenha a oferecer.


Marvin caminhou até ele lentamente. Sem pressa. Agarrou-o pela lateral da casca já rachada e o arremessou contra a parede do salão. O impacto abriu novas fissuras. A polpa escorreu mais espessa. Marvin aproximou-se novamente. Ajoelhou-se na frente do rei.


— Pessoas boas? — riu baixo. — Pessoas boas não são recompensadas.


Ele inclinou a cabeça.


— Pit Mangueira é Injusto. Sempre foi. Quem segue regra, quem reza, quem pede proteção, apodrece esperando milagre.


Ele apontou para o próprio peito.


— Eu faço o que precisa ser feito. Eu tomo. Eu arranco. Eu queimo. E você chama isso de maldade?


Marvin levantou-se e chutou o corpo do rei, que rolou alguns centímetros pelo chão manchado. Licurgo observava em silêncio. O monóculo refletia a cena grotesca. Marvin virou-se para ele.


— Venha aqui, sua ave imunda.


Licurgo aproximou-se. Marvin agarrou as pernas do rei. Com um movimento seco e brutal, torceu-as para lados opostos. O estalo foi alto. A casca rachou nas articulações. A estrutura interna colapsou. Orestes gritou. Um som agudo e desesperado que ecoou pelo salão vazio. Marvin soltou-o no chão.


— Esse pode ser o seu destino também, Licurgo.


O dodô permaneceu ereto.


— Temos um trato — disse, controlado.


Marvin sorriu.


— Foda-se o trato.


Ele se aproximou do dodô. O olhar era frio.


— Desonre o rei. Faça um ato de escárnio. Prove que ainda merece viver. Mesmo depois de me ver cometer tantos delitos.


Silêncio. Licurgo respirou fundo. Ajustou a cartola. Sem hesitação aparente, caminhou até o corpo do rei. Virou-se de costas para ele. Inclinou levemente o corpo. O som foi úmido. Asqueroso. O gesto, deliberado. Licurgo defecou diretamente sobre o rosto do monarca ferido. Orestes soltou um grito de indignação misturado com dor. Marvin explodiu em gargalhadas. Uma risada maníaca que ecoou pelas paredes ensanguentadas do salão real. Licurgo manteve-se imóvel por um segundo. Depois endireitou-se, e ajeitou o fraque. Marvin ainda ria quando olhou para Licurgo.


— E então, como você se sente?


O dodô manteve o queixo erguido. O monóculo refletia o corpo quebrado do rei no chão. Houve um breve silêncio. Então Licurgo respondeu, com algo novo nos olhos, algo mais escuro.


— Eu me sinto poderoso.


Marvin abriu um sorriso amplo.


— Gosto disso.


Licurgo subiu novamente ao ombro esquerdo do lobo com naturalidade. Marvin caminhou até Orestes, que ainda gemia no chão, pernas inutilizadas, o rosto coberto por humilhação e sujeira. Sem dizer nenhuma palavra, Marvin o agarrou pela lateral rachada da casca. Caminhou até a grande janela do salão real. E o arremessou para fora. O corpo do rei girou no ar, despencando do alto da torre. Caiu no pátio central do palácio com um impacto seco e úmido, rolando alguns metros antes de parar. Ainda vivo. Mas completamente destruído. Orestes permaneceu ali, olhando para o céu do próprio reino que não podia mais proteger. Marvin virou-se.


— Vamos, Licurgo.


Ele e Licurgo desceram as escadas do castelo sem pressa. Passaram por corredores antes impecáveis, agora marcados por respingos vermelhos e pegadas sujas de esgoto misturado com polpa. Saíram pela entrada traseira. Atrás do castelo, a muralha norte dava lugar a uma trilha discreta que serpenteava entre formações rochosas. Era ali. O caminho para o Templo Celestial. Enquanto avançavam, Marvin comentou.


— Depois do que você fez lá em cima, além dos ioiôs, acho que você merece algo mais.


Licurgo inclinou a cabeça. Marvin continuou:


— Você será o meu assistente pessoal.


Visivelmente satisfeito, Licurgo sorriu de canto.


— Considero uma honra.


Eles seguiram pela trilha. Atrás deles, o Reino dos Melões estava irreconhecível. As ruas claras agora estavam manchadas de vermelho escuro. Armaduras amassadas e escudos abandonados se misturavam a pedaços de casca espalhados. Poças de polpa começavam a escorrer pelos canais de drenagem. Cidadãos sobreviventes se escondiam atrás de portas fechadas, tremendo. Alguns carregavam fragmentos de parentes. Outros apenas olhavam, incapazes de compreender o que havia acontecido.


O pátio central ainda tinha o corpo do rei, quebrado e humilhado, tentando arrastar-se alguns centímetros de cada vez. A torre, outrora símbolo de estabilidade, parecia agora apenas um monumento ao fracasso. O Reino dos Melões, isolado por séculos para evitar o caos da Pangeia, havia sido devastado em minutos. E o responsável já caminhava para algo ainda maior. À frente, a montanha de pedras camuflada começava a se revelar. O Templo Celestial aguardava. E Marvin Quebra-molas estava cada vez mais próximo da onipotência.

 
 
Capítulo VIII: Onde o Desfiladeiro Termina

O vento subia do abismo como um suspiro antigo. O quarteto estava parado diante do fim do Vale do Sussurro. Atrás deles, os destroços da antiga fábrica de palmitos ainda soltavam pequenos estalos estr

 
 
Capítulo X: Há Algo Errado com o Macaco

Depois de atravessarem o Desfiladeiro das Almas Desesperadas, o quarteto finalmente alcançou o final da trilha. A paisagem começou a mudar. As rochas agressivas deram lugar a terrenos mais suaves, cam

 
 

© 2018 Planoverso™ — Todos os direitos reservados.

bottom of page