Capítulo VIII: Onde o Desfiladeiro Termina

Atualizado: 16 de ago.
O vento subia do abismo como um suspiro antigo. O quarteto estava parado diante do fim do Vale do Sussurro. Atrás deles, os destroços da antiga fábrica de palmitos ainda soltavam pequenos estalos estruturais. À frente, o mundo simplesmente desaparecia. O precipício era colossal. As paredes rochosas desciam em camadas irregulares, úmidas e escuras. Uma névoa mais densa que a do vale pairava no fundo, impedindo qualquer noção real de profundidade. Não se via o chão. Apenas o vazio. Do outro lado, recortada na rocha, estava a trilha estreita que marcava o início do Desfiladeiro das Almas Desesperadas. Laércio quebrou o silêncio:
— Por que exatamente se chama Desfiladeiro das Almas Desesperadas?
Antes que alguém respondesse, um grito ecoou de dentro do abismo. O som subiu pelas paredes rochosas e se espalhou pelo vento como um aviso antigo. Guillard piscou devagar.
— Acho que isso responde.
O silêncio voltou. Desnatado colocou a mochila no chão. Abriu-a com precisão cirúrgica. De dentro começaram a surgir itens que, isoladamente, pareciam inúteis. Um cabo de aço enrolado, um rolo de fita isolante preta, dois mosquetões enferrujados, um pedaço de mangueira industrial flexível, um pequeno arco desmontável, três parafusos longos com porcas, uma polia metálica antiga, um martelo compacto, e um gancho curvo de aço pesado. O Senhor Macaco cruzou os braços.
— Não é possível que você tenha tudo de útil nessa merda de mochila.
Desnatado não respondeu. Apenas trabalhou. Primeiro, amarrou uma ponta do cabo de aço ao gancho curvo, reforçando a junção com fita isolante e nós complexos que lembravam técnica náutica. Depois encaixou o cabo na base desmontável do pequeno arco, transformando-o em um lançador improvisado. Ele mirou para o outro lado do abismo.
— Preciso atingir aquela formação rochosa.
Havia um afloramento sólido, um pedaço de pedra saliente com fissuras naturais que poderiam servir como ancoragem. Tigre olhou para o macaco.
— Se quiser voltar, volta agora. Depois que a gente atravessar, não tem retorno fácil.
Senhor Macaco bufou.
— Vai se foder, listrado. Desde que conhecemos esse copo de leite você só fica lustrando o saco dele. Tira as bolas do Desnatado da boca por pelo menos um minuto.
Tigre mostrou os dentes.
— Cala a boca e deixa ele trabalhar.
Desnatado puxou a corda do arco. Respirou fundo. Disparou. O gancho voou cortando o ar, girando sobre si mesmo. Por um segundo pareceu que cairia no vazio. Mas atingiu a rocha. Prendeu-se em uma fenda. Desnatado puxou o cabo de aço com firmeza, e reforçou o tensionamento passando a outra ponta ao redor de uma viga estrutural remanescente da fábrica. Um pilar de aço ainda incrivelmente resistente. Usou os parafusos longos como travas de fixação, martelando-os na base da viga para impedir deslizamento. Em seguida, instalou a polia metálica no cabo e adaptou a mangueira industrial como assento improvisado, cortando-a e moldando-a para encaixar o corpo de quem fosse atravessar. Ele puxou o cabo novamente. A tensão estava perfeita. A linha cruzava o abismo em diagonal, levemente inclinada para baixo, garantindo que quem partisse dali chegaria com impulso suficiente à outra margem. Senhor Macaco observava com expressão ambígua entre inveja e admiração.
— Grande bosta.
Desnatado finalmente falou:
— Um de cada vez.
O vento subiu novamente do Desfiladeiro. E lá embaixo, muito distante, algo parecia se mover na névoa. O vento soprava forte sobre o abismo. A linha de aço vibrava levemente, tensionada, firme. Mas ainda assim assustadora. Desnatado segurou a polia improvisada e olhou para Laércio.
— Você vai primeiro. É o mais leve estruturalmente.
Laércio engoliu seco.
— Eu não fui projetado para aventuras aéreas.
Tigre e Desnatado o posicionaram cuidadosamente na mangueira adaptada, prendendo o corpo metálico com o cabo e garantindo que o tubo de sucção não ficasse enroscado.
— Quando chegar do outro lado, rola pro lado. Não fica parado na linha — instruiu Desnatado.
Laércio fechou os olhos de vidro.
— Pelo bem coletivo.
Desnatado deu um empurrão firme. A polia deslizou pelo cabo com um zumbido metálico. Laércio atravessou o abismo girando levemente, o vento batendo em sua carcaça. Por um momento, ele olhou para baixo. Só viu névoa e vazio.
— Eu não fui feito para isso! — gritou no meio da travessia.
A linha inclinada ajudou no impulso, e ele atingiu o outro lado com um pequeno impacto. Bateu na rocha. Caiu de lado. Rolou. Silêncio por dois segundos. Então sua voz ecoou:
— Está tudo bem! Eu ainda existo!
Tigre sorriu. Desnatado puxou o cabo de volta com técnica eficiente, usando o próprio peso para recolher a polia.
— Próximo.
Guillard tirou o chapéu de carteiro e o encaixou de volta na cabeça com dignidade felina.
— Se eu morrer, pelo menos não vou precisar pagar o aluguel do Albergue.
Ele se posicionou na mangueira improvisada.
— Não olha pra baixo — disse Desnatado.
— Eu sou um tigre, não uma bichinha — respondeu.
Guillard deslizou. O vento bateu no pelo maltratado. A sensação era rápida. A meio caminho, uma rajada mais forte atingiu seu rosto. O chapéu voou. Girou no ar. Desceu lentamente para dentro do abismo, engolido pela névoa.
— Não! — gritou Tigre.
Mas já era tarde. Ele chegou do outro lado com força, aterrissando em um joelho, e levantou-se imediatamente. Laércio aproximou-se.
— Isso foi extraordinário, Guillard!
Tigre riu.
— Foi muito foda.
Os dois bateram levemente, metal contra a pata. Desnatado puxou a linha novamente, e olhou para o Senhor Macaco.
— Sua vez.
O primata cruzou os braços.
— Eu não preciso de ajuda. Desnatado deu de ombros.
— Então pode ir sozinho.
Sem drama, Desnatado encaixou-se na polia e deslizou com técnica impecável. Corpo alinhado, equilíbrio perfeito. Chegou do outro lado sem tropeçar. Agora restava apenas o macaco. O vento parecia mais forte. O abismo mais fundo. Senhor Macaco respirou fundo. Puxou a tirolesa para si. Encaixou-se. Olhou para o vazio. Sorriu.
— Se eu morrer, morro estiloso.
Empurrou-se. O corpo atravessou o ar com leveza quase cômica. A adrenalina percorreu cada músculo. Ele gargalhava alto, o som ecoando pelas paredes rochosas.
— Isso é do caralho!
O vento bagunçava seus pelos ralos. A sensação de queda controlada o fazia vibrar de excitação pura e absurda. Ele chegou do outro lado com um impacto mais desajeitado, rolou duas vezes e ficou deitado olhando para o céu acinzentado. Rindo. Tigre balançou a cabeça.
— Você é um doente.
Senhor Macaco sentou-se, ajeitando o colete sujo.
— Se for pra atravessar o inferno, que seja com estilo.
À frente deles, começava oficialmente o Desfiladeiro das Almas Desesperadas. E atrás, o Vale do Sussurro já parecia distante. O Senhor Macaco levantou-se ainda rindo da própria travessia. Mas então os três perceberam. Algo visualmente desconfortável. O pênis dele estava ereto, rígido, levemente erguido, e pulsando como se tivesse vontade própria. Laércio inclinou os olhos de vidro para o primata.
— Você está exatamente do mesmo jeito que ficou quando viu o retrato da Madame Brígida.
Tigre fez uma careta.
— Você é imundo. Sério. Você precisa de um psicólogo. Ou de um exorcista.
O Senhor Macaco olhou para baixo. Piscou. Depois, gargalhou.
— Relaxa, seus puritanos de merda. Não é tesão.
Apontou para o próprio ventre.
— Eu só preciso urinar.
Ele fez um gesto obsceno com a mão.
— Vão se foder.
E então saiu andando em direção ao mato que crescia irregularmente na borda rochosa do desfiladeiro. As plantas eram secas, retorcidas pelo vento constante. Ele se afastou alguns metros, ainda resmungando algo sobre falta de compreensão artística, até desaparecer parcialmente entre os arbustos. Tigre cruzou os braços. Desnatado mantinha a postura firme, observando o horizonte do desfiladeiro com atenção analítica. Laércio soltou um leve ruído mecânico.
— É sempre assim?
Tigre suspirou.
— Você ainda não viu nada.
O vento voltou a soprar pelo Desfiladeiro das Almas Desesperadas. Lá embaixo, muito distante, algo ecoou novamente. Um som que não parecia humano. E o grupo, por alguns instantes, apenas esperou o primata terminar sua necessidade fisiológica enquanto o vazio à frente parecia observar.
No meio do mato seco, afastado alguns metros da trilha, o Senhor Macaco finalmente encontrou um arbusto torto que lhe pareceu suficientemente privado. Desamarrou parcialmente a pochete. Suspirou. E começou a urinar com evidente alívio, o som quebrando o silêncio tenso do desfiladeiro.
— Olha… — murmurava para si mesmo, em voz alta, como se estivesse dando uma entrevista exclusiva ao próprio ego — eu estou evoluindo espiritualmente.
A urina batia nas folhas secas com um chiado contínuo.
— Tolerar três insuportáveis desses? Isso é crescimento pessoal. Pit Mangueira deve estar orgulhoso de mim agora.
Ele balançou a cabeça, ainda falando sozinho.
— O listrado, então, virou um porre depois que conheceu o copo de leite. Só sabe puxar o saco do lactose. Ah, Desnatado isso, Desnatado aquilo. Dá vontade de dar um nó naquele bigode torto.
Fez um gesto irritado com a mão livre.
— E o lactose, sempre querendo aparecer com aquela mochila. Olha como eu tenho solução pra tudo. Se acha o protagonista da própria saga.
Ele inclinou a cabeça, pensativo.
— O cheirador de pó é até gente boa… — fez uma pausa — mas eu preciso de um motivo pra odiar ele também. Não posso ficar sem equilíbrio emocional no grupo.
Nesse exato instante. Um som. Um estalo leve. Seco. Vindo da moita à frente. O jato de urina diminuiu. O macaco congelou.
— Cheirador de pó? — perguntou, tentando manter o tom casual. — Se for você, é um ótimo motivo pra eu começar a te odiar.
Silêncio. Nenhuma resposta. O vento passou entre os galhos. Mas o som não tinha sido vento. O Senhor Macaco terminou às pressas. Engoliu seco.
— Tá… isso não é engraçado.
Outro ruído. Mais próximo. Algo se movendo por entre as folhas. O coração do primata começou a bater acelerado. O sorriso habitual não estava mais ali. O silêncio ficou pesado. Algo rompeu a vegetação com um movimento seco. Primeiro, dois dedos longos e sujos afastaram os galhos. Depois, um rosto. A criatura era cinzenta, não como pedra, mas como carne que nunca viu sol. A pele parecia esticada demais sobre ossos finos e salientes. Era magra ao ponto de parecer incompleta. Costelas marcadas, clavículas afiadas como lâminas sob a superfície translúcida.
Estava nua. O corpo era alongado, desproporcional. Braços compridos demais para o torso estreito. As pernas finas terminavam em pés retorcidos com dedos alongados e unhas negras, rachadas e cobertas de sujeira antiga. Os olhos eram completamente brancos. Sem pupilas. Sem íris. Apenas duas esferas opacas que refletiam o mundo como vidro morto. A boca se abriu lentamente. Dentes finos, numerosos, pontiagudos, e irregulares. Como se tivessem sido esculpidos para rasgar, não para mastigar. A criatura inclinou a cabeça para o lado com um estalo seco no pescoço. O Senhor Macaco piscou, e suspirou.
— Quer dar uma mamadinha?!
A resposta foi um rugido agudo, quase um chiado estridente. Num movimento absurdamente rápido, o Duende de Seda avançou e cravou os dentes no pênis do primata.
— Que isso, porra?!
O macaco pulou para trás, arrancando o membro da boca da criatura, deixando marcas vermelhas na pele. Ele girou nos calcanhares e saiu correndo desengonçado em direção ao grupo. Desnatado e Tigre se viraram ao ouvir o grito. Laércio inclinou o corpo metálico.
— O que houve?
O Senhor Macaco chegou ofegante, ajeitando a pochete com movimentos nervosos.
— Eu estava tirando a água do joelho, quando um demônio magricela apareceu, e mordeu o meu cacete!
Tigre revirou os olhos.
— Para de inventar história pra boi dormir.
E então. O mato atrás deles se moveu. Silenciosamente. O mesmo rosto cinzento emergiu da vegetação. Mas não estava sozinho. Outro surgiu à esquerda. Mais um à direita. De baixo da trilha rochosa, dedos longos começaram a se erguer. Como se algo estivesse escalando a própria parede do desfiladeiro. Dezenas. As criaturas começaram a se materializar ao redor do quarteto, saindo das fendas na rocha, da vegetação seca, e das sombras. Alguns pareciam ter subido do próprio abismo, as unhas arranhando a pedra. Todos magros. Todos nus. Todos com os olhos brancos, e vazios. Laércio falou em tom baixo, quase reverente.
— Essas devem ser as Almas Desesperadas.
O vento cessou. O grupo ficou estático. E os Duendes de Seda formaram um círculo irregular ao redor deles. Sem atacar. Apenas observando. Como predadores curiosos, ou algo pior. O círculo de Duendes de Seda apertava lentamente. Nenhum deles piscava, e nenhum deles respirava de forma audível. Apenas observavam. Desnatado falou baixo, quase sem mover os lábios:
— Não se movam. Se reagirmos errado, eles vão nos atacar.
O Senhor Macaco tremia. O pênis ainda ardendo. Os olhos brancos das criaturas refletiam a imagem dele. O silêncio ficou pesado. E então, o primata virou-se e saiu correndo pela trilha.
— Senhor Macaco! — rosnou Tigre.
Tarde demais. Os Duendes de Seda rugiram em uníssono. O som era agudo, como vidro sendo arranhado. E avançaram. De todos os lados. Desnatado não perdeu tempo:
— Corram!
Guillard agarrou Laércio pelo tubo e o puxou consigo. Os quatro dispararam pela trilha estreita do desfiladeiro. As criaturas vinham atrás. Eram muitas. E corriam de forma errática, quase quadrúpede às vezes, usando mãos e pés nas pedras, escalando, saltando, contorcendo-se de maneira antinatural.
A trilha ainda se estendia por dezenas de metros. Sem saída lateral. Sem abrigo. Os duendes começaram a alcançá-los. Um saltou sobre Laércio. Tigre girou o corpo e desferiu um chute poderoso, arremessando a criatura contra a parede rochosa. O impacto fez um estalo seco. Mas outro já surgia. Desnatado puxou da mochila um bastão retrátil metálico e o expandiu com um movimento seco. Acertou o crânio de um Duende de Seda. O som foi oco. A criatura caiu. Mas outra imediatamente tomou seu lugar. O Senhor Macaco pegou uma pedra no chão e começou a arremessar com uma fúria desorganizada.
— Eu avisei que não estava mentindo!
Um Duende saltou sobre suas costas. Ele girou, batendo a criatura contra a rocha até que ela soltasse. Guillard lutava com brutalidade felina. Garras e dentes. Um duende agarrou seu braço, ele cravou os dentes no ombro ossudo da criatura e arrancou um pedaço de pele cinzenta que se desfazia como tecido úmido. Laércio girava o corpo metálico como podia, usando o tubo como chicote improvisado para afastar os mais próximos. Mas não paravam. Cada vez que um caía, dois surgiam. Das fendas. Das pedras. Do abismo. Um deles mordeu a perna de Desnatado. Ele esmagou a cabeça da criatura contra o chão com o bastão. Outro agarrou a pochete do macaco. O primata girou violentamente e bateu a criatura contra outra. A trilha virou caos. Chiados. Sangue, deles e dos duendes, misturado ao pó do desfiladeiro.
— Eles não estão parando! — gritou Laércio.
Era verdade. Não havia hesitação nas criaturas. Não havia medo. Apenas insistência. A trilha parecia não terminar nunca. E os Duendes de Seda continuavam surgindo. Como se o próprio desfiladeiro estivesse cuspindo-os para fora. A luta começava a consumir energia. E ainda não havia sinal do fim.
A trilha já estava coberta de marcas de garras e respingos escuros. O quarteto respirava pesado. Os Duendes de Seda continuavam vindo. Incessantes. Cansado, sujo e arranhado, o Senhor Macaco deu um passo para trás, quase tropeçando.
— Eu não vou morrer virgem — resmungou.
Então algo acendeu na cabeça dele. Ele abriu a pochete com pressa. Enfiou a mão lá dentro. Puxou o pacote amassado de Baunilhetes. Ainda restavam alguns bolinhos amanteigados. Ele olhou para o pacote. Depois para os duendes. Depois para o alto da trilha. Acima deles, na lateral do desfiladeiro, havia uma formação rochosa instável, uma pedra enorme, apoiada precariamente sobre uma base menor, como se estivesse esperando apenas um motivo para despencar. O macaco arregalou os olhos.
— Eu sou um gênio do caralho.
— O que você tá fazendo?! — rosnou Tigre, enquanto arrancava um duende do próprio ombro.
Sem responder, o Senhor Macaco correu até uma pedra elevada na lateral da trilha e escalou com agilidade primata. Os Duendes de Seda imediatamente mudaram o foco, e começaram a segui-lo. Ele rasgou o pacote de Baunilhetes e começou a esfarelar os bolinhos, jogando os pedaços pela trilha.
A manteiga e o açúcar espalharam-se no chão de pedra. O cheiro doce se misturou ao ar seco do desfiladeiro. Os Duendes de Seda pararam. Os olhos brancos se voltaram para o chão. Um deles se abaixou, cheirou, mordeu. Outro avançou. Depois outro. Em segundos, dezenas estavam disputando os pedaços, empurrando-se, rosnando, brigando entre si. Laércio piscou.
— Eles são atraídos por açúcar?
— Eles são atraídos literalmente por qualquer coisa que substitua a própria miséria — gritou Desnatado.
A trilha virou um amontoado caótico de criaturas se sobrepondo. Era a distração perfeita. O Senhor Macaco escalou mais alguns metros até alcançar a base da formação instável. A pedra enorme estava sustentada por um encaixe frágil, uma espécie de cunha natural de rocha. Ele colocou as mãos sob a cunha. Empurrou. Nada.
— Vamos, Pit Mangueira, me ajuda aqui!
Ele chutou a base. A pedra vibrou levemente. Abaixo, os duendes continuavam aglomerados, muitos de costas, concentrados nos Baunilhetes esmagados no chão, então Desnatado percebeu.
— Macaco, se for fazer, faça agora!
O primata puxou a cunha com força. Sentiu a rocha ceder alguns milímetros. Empurrou novamente, usando o peso do próprio corpo. A pedra soltou um estalo grave, e deslocou-se. Por um segundo, tudo ficou suspenso. Então. A gravidade decidiu. A rocha gigantesca desprendeu-se e despencou pela lateral do desfiladeiro. O som foi ensurdecedor. Os Duendes de Seda ergueram os rostos no exato instante em que a sombra os cobriu. Impacto. A pedra esmagou dezenas de uma só vez, esmagando ossos finos como gravetos secos. O chão tremeu. Fragmentos de rocha e poeira explodiram ao redor. A rocha rolou ainda mais alguns metros, empurrando outras criaturas para o vazio do abismo. O som de corpos sendo triturados misturou-se ao eco do desfiladeiro.
E então nenhum duende restava na trilha. Apenas a enorme pedra parada no meio do caminho, cercada por uma massa disforme cinzenta esmagada sob seu peso. O Senhor Macaco desceu lentamente. O quarteto ficou ali. Ofegando. Cobertos de poeira. Laércio soltava pequenos ruídos mecânicos de hiperventilação. Tigre apoiou as patas nos joelhos, respirando pesado. Desnatado fechou a mochila devagar. O macaco olhou para o pacote vazio de Baunilhetes.
— Valeu a pena.
Desnatado olhou para o Senhor Macaco. Não disse nada. Apenas assentiu uma única vez. Aprovação silenciosa. O primata abriu um sorriso largo, satisfeito.
— Viu só, copo de leite? Eu resolvi quando a coisa apertou.
Ele cruzou os braços.
— Inclusive, onde estava a sua mochila preciosa quando a gente precisava? Por que você não tirou a balofa da sua mãe de dentro dela pra ver se atraía os demônios magricelas?
Desnatado soltou uma risada baixa. Não respondeu. Em respeito à eficiência recém-demonstrada. Tigre bufou, ainda recuperando o fôlego.
— Se esse era o caminho mais fácil, eu não quero nem imaginar os outros dois.
Ele olhou para o abismo, depois para a trilha longa à frente. Laércio inclinou levemente o corpo metálico.
— Tecnicamente, os Baunilhetes vieram da mochila do Desnatado. Logo, no fim das contas, a mochila nos salvou novamente.
Silêncio. O Senhor Macaco virou-se devagar. Os olhos estreitos.
— Vai se foder, cheirador de pó.
Apontou para ele.
— Pronto. Agora eu tenho um motivo pra te odiar também.
Laércio fez um ruído quase constrangido.
— Perdão. Foi apenas uma observação factual.
Tigre balançou a cabeça. Desnatado ajeitou a alça da mochila. O vento atravessou o Desfiladeiro das Almas Desesperadas mais uma vez, levantando poeira fina e carregando para longe os últimos ecos do confronto. À frente deles, a longa trilha continuava. Longa. Estreita. Recortando a rocha como uma cicatriz antiga. E seguia avançando, passo a passo, para algo muito maior do que qualquer um deles estava preparado para enfrentar.