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Capítulo VII: A Última Corrida da Noite

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
8 de jun.
11 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

A Rota da Penitência era traiçoeira na sua sutileza. A estrada se estendia longa e quase reta, mas com uma inclinação tão leve que o corpo não percebia, apenas o motor do automóvel sentia. O asfalto era antigo, irregular em trechos, com marcas de desgaste que pareciam cicatrizes abertas pelo tempo. Não havia acostamento digno desse nome, apenas uma faixa estreita de terra úmida que mergulhava abruptamente em declives invisíveis sob a neblina. E a neblina. Ela não apenas cobria. Ela engolia. Era densa, espessa como lã molhada. Reduzia a visibilidade a poucos metros. Os faróis do táxi cortavam o branco como duas lâminas fracas, revelando apenas um túnel de vapor diante do carro. Placas de sinalização surgiam de repente e desapareciam logo em seguida, como aparições mal-humoradas. O mundo parecia ter sido apagado além daquela estrada. Dentro do táxi, o motor trabalhava constantemente, com leve vibração no volante.


Mautheus, o gengibre, mantinha as mãos firmes na direção. Seus olhos semicerrados tentavam atravessar o branco absoluto diante dele. A camiseta de palmeiras estava agora amassada pelo tempo sentado, e pequenas gotas de suor começavam a se formar na superfície rugosa de sua casca. No banco de trás, Héctor e Elias dormiam profundamente. Héctor, com o topete levemente desmanchado, roncava em intervalos regulares. Elias, com o chapéu fedora tombado sobre os olhos, respirava pesado, os braços cruzados como se estivesse em vigília profissional mesmo inconsciente.


O táxi seguia. A neblina aumentava. O silêncio dentro do carro era interrompido apenas pelo som do motor. Até que veio o ruído. Um refluxo alto, gorgolejante, e inconfundível. Héctor despertou abruptamente. Piscou algumas vezes. O mundo ainda estava branco do lado de fora. Ele olhou pela janela. Nada além de neblina. Franziu a testa. Virou lentamente a cabeça para frente. E olhou para o retrovisor. Os olhos de Mautheus estavam ali. Fixos nele. Sem piscar. O gengibre continuava dirigindo, mas o olhar no espelho estava imóvel. Héctor engoliu seco. Mautheus não desviou. Nem por um segundo. Héctor tentou parecer casual. Olhou novamente pela janela. Depois, discretamente, cutucou Elias com a ponta da asa.


— Ei… — murmurou, quase sem mover o bico. — Acorda.


Elias resmungou algo ininteligível. Héctor cutucou de novo.


— Acorda, cara.


Elias abriu um olho sob o chapéu.


— O que foi?


Héctor inclinou levemente a cabeça em direção ao retrovisor.


— Olha.


Elias ergueu o olhar lentamente. A monocelha se contraiu. Mautheus continuava encarando pelo espelho. Sem sorrir. Sem expressão. Apenas olhando. Elias observou o retrovisor por dois segundos. Depois bufou.


— Pelo menos ele parou de falar de refluxo e de falta de fé. Deixa o cara trabalhar.


Ajeitou o fedora. Virou-se para o lado. E voltou a dormir. Héctor ficou imóvel. O ronco baixo de Elias recomeçou quase imediatamente. Héctor piscou. Cutucou o colega novamente.


— Cara…


Nenhuma resposta. Cutucou mais forte.


— Elias.


— O quê? — murmurou, irritado.


Héctor inclinou-se para perto dele, falando baixo.


— Quando eu acordei, ele estava encarando a gente. Pelo retrovisor. Fixamente. Vai saber há quanto tempo aquele bosta ateu estava olhando pra gente.


Elias abriu um olho. Suspirou longo.


— Héctor, você precisa se dar a devida desimportância. Ninguém está obcecado por você.


Ele se espreguiçou.


— Dorme. A gente precisa de energia quando chegar. É um caso grande, lembra?


Héctor franziu o bico.


— Eu estou falando sério. Eu não quero ser desovado no meio do nada por um gengibre taxista com refluxo crônico.


Elias abriu os dois olhos. Parecia, por um momento, que finalmente daria alguma atenção à preocupação do parceiro. O silêncio no carro ficou denso. O motor continuava. A neblina lá fora parecia ainda mais espessa. Elias encarou Héctor. Pensou, e disse:


— Agora que você me acordou, eu tô com uma fome do cacete.


Elias bocejou.


— Eu amassaria um sanduíche de metro fácil agora. Daqueles com maionese verde exagerada.


Virou-se novamente.


— Me acorda quando tiver algo relevante pra me dizer.


E voltou a dormir. Héctor olhou de novo para o retrovisor. Os olhos de Mautheus estavam lá. Fixos. Estáticos. Sem piscar. Sem expressão. Apenas encarando. O coração de Héctor acelerou. Ele cutucou Elias com força.


— A gente tratou ele mal. Chamou ele de ateu do caralho, mandou calar a boca, e se ele estiver querendo se vingar?


Antes que Elias pudesse responder, o motor mudou de som. O carro começou a desacelerar. Devagar. Mas claramente. A neblina à frente parecia ainda mais espessa. Os olhos de Elias se arregalaram. Ele se sentou imediatamente.


— O que foi isso?


Héctor apontou para frente.


— Eu te falei, caralho!


O velocímetro caía. Mautheus soltou um refluxo alto e desagradável. Sem tirar as mãos do volante, perguntou com naturalidade inquietante:


— Posso dar uma paradinha rápida?


— Não, caralho! — gritou Héctor, o topete já completamente desfeito. — Não pode dar paradinha porra nenhuma!


Mautheus riu. Uma risada curta. Seca.


— Relaxa. É só uma paradinha.


Elias inclinou-se para frente, tentando manter a compostura.


— Não tem um posto de gasolina no caminho?


Mautheus soltou outro pequeno arroto ácido.


— Não.


Sorriu pelo retrovisor.


— É só uma paradinha rápida.


Então, o carro parou completamente. No meio da Rota da Penitência. Cercado por neblina. Nenhum som além do motor ainda ligado. Mautheus puxou o freio de mão com um clique seco. Virou-se lentamente no banco. Olhou diretamente para os dois patos, e sorriu.


— Já volto.


Antes que qualquer um reagisse, ele abriu a porta do motorista. Saiu. Fechou com calma. E, num gesto que fez o estômago de Héctor despencar, acionou o travamento central pelo controle. As portas travaram. Mautheus caminhou alguns passos. A silhueta de gengibre foi engolida pela neblina. Sumiu. Héctor e Elias ficaram imóveis por meio segundo. Depois entraram em desespero.


— Ele trancou a gente pra fora! — gritou Héctor.


— Pra dentro, imbecil! — retrucou Elias, puxando a maçaneta inutilmente.


Depois de vários segundos tentando puxar maçanetas, bater nos vidros e apertar qualquer botão que encontrassem no painel, os dois finalmente pararam. A neblina lá fora parecia ainda mais próxima, quase colada ao vidro. Héctor explodiu.


— Você não tem senso de urgência nenhum! — gritou, batendo a asa no encosto do banco. — Eu falei que aquele gengibre estava estranho! A gente vai morrer por causa da sua preguiça estratégica!


Elias virou-se devagar. O fedora levemente torto. A monocelha contraída.


— Abaixa o tom pra falar comigo, seu filho de uma puta.


Apontou a asa para o colega.


— A gente tem armas para se defender, caso necessário.


Héctor soltou uma gargalhada seca. Sarcasmo puro. Enfiou a asa no bolso interno da camisa. Puxou uma pequena faquinha de manteiga, dessas de café da manhã, e levantou-a dramaticamente.


— Você está se referindo a essa merda aqui?! Seu desperdício de porra!


Elias olhou para a faquinha. Fez uma pausa.


— Eu não tinha como saber que o cara era mal-intencionado.


Héctor inclinou-se para frente, indignado.


— O nome do arrombado é Mautheus!


Elias piscou.


— E daí?


— Mau. — Héctor apontou a faca para o nada, como se estivesse explicando algo óbvio. — O cara tem um “mau” no nome. Não tem sinal mais claro que esse!


Elias massageou a testa com a ponta da asa.


— Isso é uma interpretação fonética paranoica.


Héctor gesticulava agora, nervoso.


— A gente chamou ele de ateu, mandou calar a boca, falou do refluxo dele! Você acha mesmo que ele vai voltar sorrindo com um lanchinho de beira de estrada?


A neblina lá fora parecia vibrar levemente sob a luz dos faróis ainda acesos. O motor continuava ligado. Mas Mautheus não estava mais à vista. Elias finalmente olhou para frente. Depois para o retrovisor. Vazio. Depois para a estrada branca à frente.


— Tá… — murmurou, mais baixo. — Talvez a situação tenha… nuances.


Héctor arregalou os olhos.


— Nuances? Nuance de cu é rola!


Antes que a discussão pudesse escalar novamente, um som ecoou do lado de fora. Algo metálico. Distante. Indefinido. Os dois ficaram imóveis. Pelo retrovisor, uma silhueta começou a se formar na neblina. Mautheus voltava ajeitando a bermuda cavada, fechando o zíper com naturalidade despreocupada. Provavelmente tinha ido aliviar o refluxo líquido da existência no mato invisível à beira da estrada. Ele se aproximou do táxi. Héctor e Elias prenderam a respiração.


Mas, em vez de ir até a porta do motorista, Mautheus desviou. Caminhou até a traseira do veículo. Parou diante do porta-malas. Abriu. A tampa ergueu-se com um rangido metálico. E ele começou a revirar algo lá dentro. Os dois patos se inclinaram para frente, tentando enxergar melhor. Então Mautheus puxou de dentro um objeto longo, comprido, grosso, e fálico. Indefinido sob a neblina espessa. Ele o segurou com as duas mãos. Começou a manusear. Ajustar. Testar o peso. Héctor empalideceu.


— Ele vai estuprar a gente!


— Cala a boca! — sussurrou Elias, mas a própria voz vacilou.


Héctor virou-se para ele, olhos arregalados, asas tremendo.


— Você não leva nada a sério! Nunca levou! Sempre me chama de paranoico, de exagerado, de burro!


O monólogo explodiu como uma barragem rompida.


— Todo mundo acha que eu sou o mais idiota dos dois! Que eu sou o desastrado, o que desenha mendigos no meio das cenas de crime! Mas pelo menos eu sinto quando a coisa tá errada! Você, Elias, você se acha o estrategista, o intelectual, o cara da monocelha grossa que pensa três passos à frente!


Ele apontou a faquinha de manteiga na direção do colega.


— Mas você é pior! Porque você é um imbecil que se acha inteligente! Isso é muito mais perigoso!


Elias ficou imóvel. Aquelas palavras não eram gritos histéricos. Eram verdades mal embaladas. Foi como levar uma pancada no peito. O silêncio entre eles durou um segundo a mais do que o confortável. Então Elias respirou fundo. E apelou.


— Eu transei com a sua irmã.


Héctor congelou. A faquinha de manteiga caiu no colo. Silêncio absoluto dentro do carro. Lá fora, a silhueta de Mautheus ainda manuseava o objeto junto ao porta-malas.


— …o quê? — murmurou Héctor, baixo.


Elias desviou o olhar.


— Foi antes de vocês brigarem. Eu ia contar. Nunca achei o momento certo.


O impacto mudou de natureza. Já não era medo. Era uma confusão emocional. Héctor piscou várias vezes. Depois olhou para o amigo. Elias suspirou.


— Eu sinto muito.


Héctor respirou fundo. Lentamente. A tensão no carro mudou de eixo. A ameaça externa parecia distante por um instante. Héctor abriu os braços. Elias hesitou. Depois inclinou-se. Os dois se abraçaram desajeitadamente no banco traseiro. Um abraço de crise. Do lado de fora, Mautheus fechou o porta-malas com força. Apesar de ter fechado o porta-malas, Mautheus não voltou imediatamente para o banco do motorista.


Ele permaneceu na traseira do táxi. Parado. A silhueta parcialmente engolida pela neblina. E, claramente visível sob a luz difusa dos faróis traseiros, ele ainda segurava o objeto longo nas mãos. Comprido. Reto. Denso. Héctor engoliu seco. Respirou fundo.


— Chega.


Elias virou-se para ele.


— O que você tá fazendo?!


Mas Héctor já estava inclinado entre os bancos dianteiros. Com um movimento brusco, puxou o freio de mão para baixo.


— Héctor! — Elias tentou segurá-lo.


Tarde demais. A Rota da Penitência tinha uma inclinação quase imperceptível. Mas tinha. E sem o freio de mão, o carro começou a rolar para trás. Devagar, e silenciosamente. Primeiro um centímetro. Depois dois. Depois um metro. Lá fora, Mautheus ainda estava de costas, ajustando a pegada no objeto. Ele não percebeu imediatamente. O táxi deslizou pela neblina como um animal silencioso. Até que o para-choque traseiro atingiu Mautheus nas pernas.


Não foi violento. Mas foi suficiente. O gengibre perdeu o equilíbrio, torceu o tornozelo ao tentar se estabilizar e caiu para trás. A cabeça bateu no asfalto com um som seco. O objeto comprido escorregou de suas mãos. Rolou alguns centímetros. Dentro do carro, Elias puxou o freio de mão de volta com força. O veículo parou. Silêncio. Os dois patos se entreolharam. A respiração pesada.


— Você… você atropelou o taxista — murmurou Elias.


— Eu salvei nossas vidas — rebateu Héctor, mas a voz já não tinha a mesma convicção.


Eles olharam pelo vidro traseiro. Mautheus estava no chão. Imóvel. A neblina começava a envolver o corpo como um lençol. Nenhum movimento. Nenhum som. O objeto comprido permanecia caído ao lado dele. Os dois patos ficaram paralisados.


— Ele não tá levantando — sussurrou Héctor.


O silêncio dentro do carro se tornou insuportável. Héctor foi o primeiro a agir.


— A gente precisa sair daqui.


Sem pensar duas vezes, ele segurou a pequena faquinha de manteiga e começou a golpear o canto da janela lateral, tentando atingir um ponto frágil. Nada. Elias pegou o apoio de cabeça do banco dianteiro, arrancou com um puxão brusco e usou as hastes metálicas para pressionar o mecanismo interno da trava da porta. Não funcionou.


Héctor, em pânico crescente, começou a chutar o vidro. No terceiro chute, a janela estilhaçou. O som ecoou na neblina como um tiro abafado. Os dois se espremeram pelo vão, cortando levemente as penas nos cacos. Caíram do lado de fora. O ar da Rota da Penitência parecia mais frio lá fora. Mais pesado. Eles caminharam lentamente até Mautheus. O gengibre estava deitado de costas, torto sobre o asfalto.


O tornozelo estava virado em um ângulo errado, a bermuda suja de terra e um fio espesso de sangue escorria da parte de trás de sua cabeça, misturando-se com o vermelho natural de sua pele fibrosa. Uma rachadura visível se abria onde o crânio havia batido. A seiva espessa, mais escura que sangue comum, espalhava-se lentamente pelo chão. Os olhos estavam abertos. Fixos na neblina. O peito mal se movia. Héctor levou a asa ao bico.


— A gente matou o taxista…


Elias se ajoelhou ao lado dele. Então notaram o objeto fálico ao lado do corpo. Comprido e envolto em papel parcialmente rasgado. Coberto de maionese verde escorrendo. Elias pegou, e abriu o papel com cuidado trêmulo. Era um sanduíche de metro. Exageradamente recheado. Com alface, tomate, presunto e uma quantidade absurda de maionese verde. Os dois ficaram em silêncio. Nesse momento, Mautheus soltou um último refluxo fraco. Os olhos giraram levemente em direção a eles. Com voz quase inaudível, murmurou:


— Eu ouvi você dizendo que estava com fome…


O olhar tentou focar em Elias.


— Eu só queria ser gentil…


O peito parou de subir. O corpo relaxou. Imóvel. A neblina pareceu engolir aquele momento. Héctor ficou petrificado. Elias permaneceu ajoelhado, segurando o sanduíche ensopado de maionese. O silêncio durou longos segundos. Então Elias olhou para o sanduíche. Depois para o corpo. E disse, quase mecanicamente:


— Quem em sã consciência guarda um sanduíche de metro no porta-malas?


A neblina não respondeu. A Rota da Penitência continuava longa. E agora havia um cadáver sobre o asfalto. Héctor caiu de joelhos ao lado do corpo. As asas tremiam. Ele levou as pontas brancas até os olhos, tentando conter algo que já estava transbordando.


— A gente… a gente matou ele… — murmurou, a voz quebrada.


Ao lado, Elias terminou de desembrulhar o restante do sanduíche. Sem cerimônia. Sem pausa dramática. Mordeu. A maionese escorreu pelos cantos do bico. Pingou na camisa azulada. Ele mastigava com concentração quase respeitosa. Héctor levantou o olhar, incrédulo.


— Você tá comendo?


Elias fez um gesto vago com a asa, ainda mastigando.


— Energia.


Héctor virou-se novamente para o corpo. E então começou.


— Eu sempre faço a coisa errada… — disse, encarando a neblina. — Sempre reajo antes de pensar. Sempre tento provar que estou certo, que eu vi algo que ninguém viu, e no fim, eu só estrago tudo.


A voz foi ganhando intensidade.


— Todo mundo acha que eu sou o desastrado. E talvez eu seja mesmo. Talvez eu só esteja tentando desesperadamente parecer útil. Parecer importante. E agora… — olhou para o corpo inerte de Mautheus — agora tem um cara morto por causa da minha paranoia.


A neblina parecia absorver cada palavra. Elias terminou o último pedaço. Limpou a maionese do bico com o dorso da asa. Aproximou-se. Colocou a asa no ombro de Héctor.


— Escuta.


A voz estava mais firme. Mais controlada.


— Ele deu motivos.


Héctor ergueu o olhar, ainda devastado.


— Ele trancou a gente no carro. Sumiu na neblina. Pegou um objeto suspeito no porta-malas. A situação era ambígua.


Fez uma pausa.


— Foi um acidente de trabalho.


Héctor respirou fundo.


— A gente não tinha intenção.


Elias continuou:


— Se a gente começar a desmoronar agora, tudo acaba. A gente tem um caso grande nas mãos. A Flauta Dourada. O Reino dos Melões. Isso pode mudar nossa carreira. Nossa vida.


A monocelha se contraiu levemente.


— A gente precisa ser forte.


Silêncio. Héctor respirou mais uma vez. Secou os olhos com a asa. Lentamente, levantou-se. Os dois se encararam. Um aperto de asa rápido. Profissional. Elias agachou-se e enfiou a asa no bolso da bermuda de Mautheus. Retirou a chave do carro.


— O Departamento de Segurança assume a responsabilidade logística.


Héctor engoliu seco. Eles ergueram o corpo. Elias segurou pelas pernas. Héctor pelo torso. O corpo mole do gengibre balançava entre eles. Caminharam até a beira da estrada. Afastaram um pouco o mato alto. E deixaram o corpo ali, parcialmente oculto pela vegetação úmida. A neblina fez o resto. Sem cerimônia. Sem oração.


Voltaram ao carro. Entraram. Elias girou a chave. O motor respondeu. A Rota da Penitência reapareceu diante deles como um corredor branco. O táxi começou a se mover novamente. E, enquanto avançavam pela neblina, nenhum dos dois mencionou mais o nome de Mautheus. Mas o silêncio no carro não era mais o mesmo.

 
 
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