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Capítulo VI: O Preço das Profundezas

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
9 de jun.
12 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

Enquanto isso, sob a superfície da Pangeia, onde a luz do sol jamais ousava tocar, Marvin Quebra-molas corria. Corria como se o próprio chão estivesse tentando engoli-lo. Os olhos injetados de sangue refletiam apenas um objetivo. O ar nos túneis era pesado, úmido e quente. O eco de seus passos reverberava nas paredes de concreto rachado. Ele avançava sem hesitar, saltando sobre valas abertas, pisando em grades enferrujadas, ignorando respingos de líquido imundo que subiam até seu terno já manchado de fuligem e sangue seco.


A respiração vinha em rajadas violentas. Não havia luto ali. Havia obsessão. Os subterrâneos do Vale do Sussurro eram uma ofensa arquitetônica. Túneis mal planejados, canos cruzando-se em ângulos improvisados, vazamentos constantes criando quedas d’água amareladas que escorriam pelas paredes. O chão era uma mistura viscosa de lama orgânica, resíduos industriais e lixo doméstico arrastado por correntes lentas e espessas. O cheiro era quase físico. Uma combinação de fezes antigas, produtos químicos, gordura rançosa e mofo acumulado.


Ratos do tamanho de gatos fugiam ao ouvir os passos pesados do lobo. Baratas grossas rastejavam pelas superfícies úmidas. Espumas cinzentas flutuavam nas margens do esgoto como neve tóxica. Marvin não diminuía. Corria com o corpo inclinado para frente, as garras raspando no concreto ao impulsionar-se. Seus ombros largos atravessavam o espaço como aríetes.


Ele passou por um trecho onde os túneis se dividiam em três direções. Não hesitou. Virou à esquerda, como se fosse guiado por algo além da razão. Talvez pela memória das palavras de Laércio. Talvez pelo delírio. Talvez pelo ódio. Em determinado ponto, o esgoto afunilava e exigia que ele atravessasse uma área parcialmente submersa. A água escura batia em seus joelhos. Resíduos sólidos chocavam-se contra suas pernas enquanto ele avançava. Ele não recuava. O terno listrado agora estava pesado e colado ao corpo, mas ele seguia. As luzes subterrâneas piscavam esporadicamente. Lâmpadas penduradas por fios improvisados, algumas já queimadas, deixando trechos inteiros na escuridão total. Nesses trechos, Marvin avançava mesmo assim. Guiado pela promessa de poder absoluto.


A cada passo, o Vale do Sussurro ficava mais distante acima dele. E os esgotos da Pangeia começavam a revelar sua verdadeira extensão. Um labirinto orgânico que conectava reinos, cidades e segredos. Marvin corria. E nada no subterrâneo parecia capaz de detê-lo. Ainda.


Marvin emergiu de um trecho mais profundo do esgoto completamente ensopado. O terno listrado, antes apenas chamuscado, agora estava colado ao corpo, pesado, encharcado de água suja e resíduos que ele sequer queria identificar. O pelo preto escorria líquido escuro pelas pontas. O cheiro que o acompanhava já não era apenas de fumaça, era o cheiro do subterrâneo inteiro grudado nele. Ele não parava. Corria. Até que o túnel se alargou subitamente. E ele viu. Um portão. Não um portão improvisado de manutenção. Mas uma estrutura monumental de ferro maciço, cravada de ponta a ponta no túnel. Barras grossas, entrelaçadas por placas metálicas reforçadas. O ferro era antigo, mas não enferrujado, diferente de tudo ao redor. Símbolos entalhados nas placas sugeriam algo mais antigo que o próprio sistema de esgoto.


Correntes espessas cruzavam a estrutura, presas a um mecanismo central que parecia funcionar como trava principal. Do outro lado, o túnel continuava. Mas a passagem estava completamente bloqueada. Marvin parou abruptamente. Ofegante. A água suja escorrendo de seu corpo formava pequenas poças aos seus pés. Ele encarou o portão, incrédulo.


— Não… — murmurou.


Depois mais alto.


— Não!


Ele havia incendiado um circo. Matado. Descido aos esgotos. Cruzado trechos submersos. E foi parado por um portão. A frustração explodiu. Ele avançou e começou a socar as barras de ferro com força brutal. O impacto ecoava pelo túnel como marteladas metálicas.


— Abre, porra!


Chutou a base da estrutura. O som reverberou, mas o portão permaneceu imóvel. Ele agarrou as barras com as duas patas e começou a sacudi-las com violência, os músculos dos braços tensionados, as garras raspando no metal. Nada. O portão não cedeu um milímetro. Ele urrou. O som percorreu o túnel como um animal encurralado. Começou a bater com os ombros, investindo como um aríete. O impacto fez o túnel vibrar levemente, mas não a estrutura. Depois de vários golpes, ele recuou, respirando com dificuldade. Ajoelhou-se na água suja. Por um segundo. Pensou. A respiração desacelerou. Os olhos voltaram a brilhar com aquela mistura de ódio e cálculo. Ele se levantou devagar. Retirou a escopeta de cano serrado das costas. A arma reluziu sob a luz fraca da lâmpada subterrânea.


— Vamos ver se você aguenta isso.


Apoiou o cano contra uma das placas centrais do portão. Disparou. O estampido foi ensurdecedor no túnel fechado. Faíscas voaram. O recuo fez seu braço vibrar. Quando a fumaça se dissipou, a marca do disparo era visível. Mas superficial. O portão permanecia intacto. Marvin encarou a estrutura em silêncio. A água suja escorria de seu queixo. Ao lado do portão, havia um amontoado de entulhos acumulados ao longo dos anos. Restos de grades antigas. Tubos quebrados. Barris amassados. Sacos rasgados de areia endurecida pela umidade. Fragmentos de madeira apodrecida misturados com pedaços de concreto solto. Tudo coberto por limo e poeira úmida.


Foi ali que algo se mexeu. Um leve deslocamento. Um rangido discreto. Marvin virou-se imediatamente, levantando a escopeta e apontando o cano serrado para o monte de sucata.


— Apareça, seu monte de merda!

O entulho se agitou novamente. E então, de dentro daquele caos subterrâneo, emergiu uma ave. Um dodô. Mas não qualquer dodô. Ele vestia um fraque preto impecável, ainda que levemente empoeirado nas barras. Um colete cinza-claro abotoado com perfeição. Uma gravata borboleta azul-marinho ajustada ao pescoço curto. Luvas brancas nas asas. Um monóculo reluzente preso por uma corrente fina de ouro repousava sobre um dos olhos redondos. Na cabeça, uma cartola alta e lustrosa, absurdamente elegante para aquele ambiente fétido. Em uma das asas, apoiava-se em uma bengala de madeira polida com cabo de prata esculpido em forma de serpente. Ele ajustou o monóculo com calma aristocrática. Depois retirou do bolso interno do fraque um relógio de bolso dourado. Abriu-o. Olhou a hora. Fechou com um clique seco.


— O senhor tem noção — disse ele, com voz polida e levemente anasalada — de que é uma profunda falta de educação fazer tamanha algazarra neste horário? Há indivíduos respeitáveis tentando dormir.


Marvin piscou. Devagar. Abaixou a escopeta alguns centímetros.


— Vai para a puta que te pariu.


O dodô suspirou.


— Compreensível. Frustração manifesta-se de formas diversas.


Ele apoiou ambas as asas sobre a bengala.


— Posso presumir que o senhor está enfrentando um obstáculo estrutural?


Marvin rangeu os dentes.


— Eu não vou ser parado por um portão.


O dodô inclinou levemente a cabeça.


— Ah, portões. Terrivelmente inconvenientes quando não cooperam.


Ele olhou para o portão como se estivesse avaliando a peça de arte.


— Entendo sua angústia, de fato. Certa vez, eu estava absolutamente entretido com o meu melhor ioiô.


Marvin o encarou, incrédulo.


— O quê?


— Um exemplar magnífico. Madeira de jacarandá, eixo de bronze, perfeitamente balanceado — explicou o dodô, nostálgico. — Estava executando uma sequência particularmente sofisticada quando, por um infortúnio trágico, o ioiô escapou de minha asa e caiu por um bueiro.


Ele apontou discretamente para o chão do túnel.


— Desci para recuperá-lo.


Fez uma pausa dramática.


— E desde então, não consegui sair.


Silêncio. A água suja continuava a escorrer pelas paredes. Marvin encarou o dodô como se estivesse avaliando se o matava ali mesmo.


— Você está me dizendo… — rosnou — que está preso aqui por causa de um brinquedo?


O dodô ergueu o queixo com dignidade intacta.


— Um ioiô, senhor. Não um brinquedo. Há distinção.


O túnel permaneceu úmido e opressivo. De um lado, um lobo ensopado e homicida bloqueado por um portão inexpugnável. Do outro, um dodô aristocrático preso por teimosia lúdica. Marvin encarava o dodô com incredulidade quase física.


— Você é absurdamente estúpido — rosnou. — Se arriscar num esgoto por causa de uma porcaria fútil?


O dodô inclinou levemente a cabeça, como se aceitasse a crítica como parte de um debate acadêmico.


— A paixão move montanhas, meu caro.


Marvin ignorou.


— Há quanto tempo você está preso aqui?


O dodô abriu novamente o fraque com calma exagerada e retirou uma pequena agenda de capa de couro marrom. As páginas estavam amareladas, mas cuidadosamente organizadas. Ele lambeu a ponta da pena e começou a folhear.


— Vejamos. Queda do ioiô, descida precipitada, primeira tentativa de retorno frustrada… — murmurava para si mesmo. — Ah, sim.


Fez uma conta mental rápida. Fechou a agenda.


— Vinte e dois anos.


Silêncio. O esgoto gotejava ao fundo. Marvin ficou boquiaberto.


— Você é o periquito mais burro que eu já vi na vida.


O dodô ergueu o monóculo com dignidade ofendida.


— Com todo o respeito, sou um dodô. Espécie distinta. Extinta, inclusive. Exijo precisão taxonômica.


Marvin passou a mão pelo rosto ensopado.


— Pelo menos você encontrou o maldito ioiô?


O dodô sorriu com satisfação genuína.


— Encontrei, sim. Magnificamente preservado. Contudo, após alguns dias de confinamento, senti fome.


Fez uma pausa elegante.


— E precisei comê-lo.


Marvin ficou imóvel. A água escorria de seu queixo. Ele massageou as têmporas com as garras.


— Eu vivo cercado por idiotas.


O dodô ajustou a cartola.


— A sobrevivência exige escolhas difíceis.


Marvin apontou para ele com a escopeta, sem erguer totalmente.


— Fica quieto. Eu preciso focar.


O dodô assentiu com formalidade.


— Perfeitamente compreensível. Apenas solicito silêncio absoluto. Pretendo repousar.


Ele caminhou de volta ao monte de entulhos com passos delicados, ajeitou alguns pedaços de madeira como se fossem almofadas improvisadas e acomodou-se com a cartola levemente inclinada sobre o rosto.


— Boa noite — murmurou.


Marvin ignorou. Abaixou-se diante do portão novamente. Aproximou o rosto das barras, e observou os símbolos entalhados. As correntes. O mecanismo central. A frustração ainda queimava por dentro. Mas agora havia algo além da força bruta. Ele precisava pensar. Marvin permaneceu agachado diante do portão, os olhos percorrendo cada centímetro da estrutura. As barras eram grossas demais para serem dobradas. As placas centrais estavam intactas. As correntes não tinham ponto frágil aparente. Então ele notou. Entre duas das grades laterais, havia um vão. Pequeno. Estreito. Irregular. Ele aproximou o rosto, medindo com o olhar. Tentou passar a pata. Não cabia. Analisou novamente.


— Estreito demais… — murmurou.


Ergueu o olhar. Do outro lado do túnel, o monte de entulho. E ali, acomodado com cartola sobre o rosto, o dodô. Os olhos de Marvin brilharam. Ele levantou-se lentamente.


— Periquito!


O dodô resmungou sob a cartola.


— Pelo amor de Pit Mangueira. Eu tenho uma sessão de esgototerapia amanhã cedo, pode me deixar em paz?


Marvin caminhou até ele, a água suja espirrando sob seus passos. Abaixou-se.


— Meu camarada… e se eu te disser que posso te tirar daqui?


O dodô moveu levemente a cartola, revelando um olho curioso.


— E te arrumar quantos ioiôs você quiser.


O dodô ajeitou o monóculo. Fingiu desinteresse.


— Intrigante. Prossiga com a proposta.


Marvin apontou para o portão.


— Eu estou indo para um lugar onde existe um artefato. Um artefato que concede onipotência.


O dodô piscou lentamente.


— Onipotência é uma palavra ambiciosa.


— Com ela — continuou Marvin — eu posso criar o que quiser. Quantos ioiôs você imaginar.


O dodô sentou-se direito.


— De quantos estamos falando?


Marvin encarou-o.


— Infinitos.


O dodô ficou imóvel por dois segundos. Depois começou:


— Ioiôs de jacarandá com eixo de bronze? Ioiôs de marfim vegetal com pintura esmaltada? Modelos retráteis de dupla corda? Edição limitada com rolamento esférico de quartzo? Versões luminescentes para uso noturno? Edição comemorativa com assinatura personalizada?


Marvin fechou os olhos por um instante, a paciência sendo triturada lentamente.


— Sim. Sim. Sim. Todos. Infinitos. Do jeito que você quiser.


O dodô ficou em silêncio. Depois, levantou-se com dignidade restaurada. Ajeitou o fraque. Endireitou a cartola. Apoiou-se na bengala. E caminhou até Marvin. Parou diante dele.


— Senhor Lobo, temos um acordo preliminar.


Ele olhou para o portão.


— Presumo que minha anatomia seja útil neste cenário específico.


Marvin apontou para o vão entre as grades.


— Você passa por ali e destranca pelo outro lado.


O dodô aproximou-se da fenda. Medindo. Calculando. O túnel permanecia úmido e silencioso. O portão, imponente. O dodô parou diante de Marvin. Ergueu uma das asas com solenidade formal.


— Antes de qualquer cooperação estratégica — disse ele — permita-me apresentar-me devidamente.


Ajustou o monóculo.


— Licurgo Noronha de Assis e Albuquerque.


O nome ecoou no túnel úmido com dignidade deslocada. Marvin encarou a asa estendida por um segundo. Depois apertou-a com firmeza.


— Marvin Quebra-molas.


O aperto foi forte demais para os padrões aristocráticos de Licurgo, mas ele não reclamou.


— Vou te chamar só de Licurgo.


O dodô assentiu.


— É aceitável. Desde que respeite a integridade do sobrenome quando necessário.


Marvin soltou a asa.


— Temos um acordo.


Licurgo ajeitou o fraque, respirou fundo e caminhou até o vão entre as grades. A abertura era estreita. Mas a sua estrutura arredondada e compacta era perfeita para aquilo. Ele removeu a cartola, segurando-a com cuidado.


— Não convém amassar.


Enfiou primeiro a cabeça e o pescoço pelo vão. O monóculo quase raspou no ferro. Ele inclinou o corpo lateralmente, comprimindo as penas contra o metal frio. O fraque raspou, mas a elegância foi mantida.


— Postura é essencial — murmurou.


Marvin observava, ficando impaciente. Licurgo empurrou com o ombro. Depois com o quadril. O vão parecia menor do que antes, mas ele insistiu. Fez um leve movimento de rotação, como quem atravessa uma porta estreita em uma recepção lotada. Um estalo leve. Uma pena ficou presa. Ele puxou com dignidade controlada. E passou. Caiu do outro lado com um pequeno estalo na água rasa do túnel. Levantou-se imediatamente, ajeitando o fraque como se tivesse apenas descido de uma carruagem.


— Inteiro — anunciou.


Marvin aproximou-se das grades.


— A trava.


Licurgo examinou o mecanismo do lado interno. A estrutura principal era composta por um eixo horizontal conectado às correntes centrais. Havia uma barra de bloqueio encaixada em dois suportes laterais, travada por pressão. Ele pousou a bengala no chão, aproximou-se do sistema e testou a barra com as asas, mas era pesada.


— Um tanto robusta — comentou.


Posicionou o ombro contra o eixo. Empurrou. Nada. Recuou. Observou melhor, e percebeu que a base da barra estava levemente desalinhada, provavelmente pelo impacto do disparo da escopeta. Sorriu.


— Compreensível.


Enfiou a ponta metálica da bengala na fenda lateral da trava. Aplicou força para baixo enquanto empurrava o eixo para cima com o ombro. O metal rangeu. A pressão aumentou. A barra deslizou alguns milímetros.


— Só um pouco mais… — murmurou.


Marvin, do outro lado, segurava as grades com expectativa quase animal. Licurgo aplicou o peso inteiro do corpo contra o mecanismo. O eixo saltou do encaixe. A barra caiu com estrondo. As correntes afrouxaram instantaneamente. O portão inteiro vibrou, e com um ruído pesado e profundo, a estrutura deslizou alguns centímetros. Marvin agarrou as barras e empurrou com força total. O portão abriu-se completamente, rangendo como se estivesse sendo destrancado pela primeira vez em décadas. O túnel além revelou-se mais amplo. Mais escuro. Mais profundo. Licurgo recolheu a bengala, e ajeitou a cartola.


— Considero esta a primeira parcela do nosso acordo.


Marvin atravessou o portão recém-aberto e parou por um instante. Respirou fundo. O ar ali era diferente. Ainda úmido. Ainda fétido. Mas mais frio. Mais profundo. Como se aquele trecho do subterrâneo estivesse mais próximo de algo antigo. Algo que não pertencia apenas ao esgoto empobrecido do Vale do Sussurro, mas à própria fundação da Pangeia. Licurgo ajustou a cartola, animado.


— Fascinante! — exclamou. — Sinto que esta jornada será memorável. Já consigo visualizar minha coleção de ioiôs se expandindo em escala quase metafísica.


Marvin olhou para ele lentamente. Sem expressão. Então, num movimento súbito e brutal, agarrou o dodô pelo pescoço com uma das patas. Levantou-o do chão até ficarem face a face. A água suja pingava do pelo do lobo. Licurgo arregalou os olhos. As pernas começaram a se debater no ar.


— Senhor… lobo… — engasgou.


Marvin apertou um pouco mais.


— Periquito imbecil.


— D-dodô… — tentou corrigir, asfixiado.


— Eu jamais faria um acordo com você — rosnou Marvin, os olhos brilhando de desprezo. — Você foi inocente demais por acreditar. Acha mesmo que eu dividiria poder com um pássaro que comeu o próprio ioiô?


Licurgo debatia-se com mais força. A bengala caiu no chão com um estalo metálico.


— E, pra ser honesto… — continuou Marvin, aproximando o rosto — estou com fome. Sempre quis experimentar dodô assado.


Os pés de Licurgo começaram a perder força. Mas, mesmo asfixiado, ele conseguiu erguer uma das asas e apontar para frente. Marvin franziu a testa. Seguiu a direção do gesto. E viu. O túnel adiante se estendia por dezenas de metros.


E, ao longo dele, alinhados em intervalos regulares, havia mais portões. Um após o outro. Idênticos. Imensos. Correntes cruzadas. Símbolos entalhados. Incontáveis. O subterrâneo não era um simples corredor. Era um sistema de contenção. Marvin ficou em silêncio por dois segundos. Três. Suspirou. Soltou Licurgo. O dodô caiu de joelhos na água rasa, tossindo violentamente, puxando ar com dificuldade. Ajeitou o fraque trêmulo. Endireitou o monóculo.


— Presumo… — disse, recuperando a compostura com esforço aristocrático — que o trato ainda esteja de pé?


Marvin encarou a sequência interminável de portões. A mandíbula tensionou.


— Sim.


A palavra saiu amarga. Licurgo sorriu com discreta satisfação. Do bolso interno do fraque, retirou um pequeno tubo de couro. Desenrolou-o. De dentro, surgiu um contrato já redigido, em papel espesso, com letras impecavelmente alinhadas. Também tirou uma caneta tinteiro elegante.


— Gosto de formalizar parcerias.


Marvin o encarou com incredulidade.


— Você já tinha isso pronto?


Ele entregou o documento ao lobo. Marvin leu rapidamente. Auxílio técnico-operacional para travessia de estruturas metálicas, garantia de fornecimento ilimitado de ioiôs sob regime de onipotência, e não ingestão de Licurgo sob qualquer circunstância. Marvin fechou os olhos. Assinou. Licurgo assinou logo abaixo com caligrafia impecável. Recolheu o contrato. Guardou a caneta. Ajustou a cartola.


— Muito bem. Parceria estabelecida.


E assim, o lobo homicida e o dodô aristocrático iniciaram a travessia por uma sequência aparentemente interminável de portões. Rumo ao coração mais profundo dos subterrâneos da Pangeia. E, além deles, o Reino dos Melões.

 
 
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