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Capítulo V: A Fábrica se Lembra

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
10 de jun.
21 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

O ônibus avançava pela estrada com um ronco constante e cansado. Lá dentro, o silêncio era quase físico. O veículo estava vazio. Aquela linha não era utilizada há muito tempo. O estofado rasgado parecia ter esquecido o peso de outros passageiros.


O chão vibrava levemente a cada buraco, e a lâmpada do teto piscava com insistência neurótica. Desnatado ocupava o banco da frente, postura ereta, mãos apoiadas na mochila surrada. Tigre observava a paisagem pela janela, jogando o chapéu para cima ocasionalmente e pegando-o no ar. O Senhor Macaco girava a flauta azul-turquesa entre os dedos, admirando o próprio reflexo distorcido no plástico mordido. Laércio permanecia no corredor, rodinhas travadas, os olhos de vidro atentos ao desconforto geral. O silêncio começava a se tornar constrangedor. Laércio decidiu agir.


— Desnatado… — começou, com cautela — como você conhece tanto a Pangeia?


Desnatado inclinou levemente a cabeça. Um pequeno sorriso formou-se na superfície leitosa de seu rosto.


— Eu já percorri todos os cantos da Pangeia — disse, com voz grave e pausada. — Das planícies salgadas do sul até os desertos de vidro do leste. Já naveguei pelo Oceano Pantalássico em embarcações que rangiam como ossos velhos.


Tigre virou o rosto, interessado. Laércio inclinou-se ligeiramente para frente. Desnatado continuou:


— Uma vez enfrentei um mexilhão monstruoso devorador de tripas. A criatura emergiu do fundo do oceano como uma montanha viva. Tentáculos musculosos. Conchas do tamanho de muralhas. Ele abriu as valvas e tentou engolir metade da tripulação de uma só vez.


O ônibus pareceu ficar ainda mais silencioso. Tigre arregalou os olhos.


— Você enfrentou isso sozinho?


Laércio murmurou:


— Fascinante…


O Senhor Macaco, no entanto, soltou um riso nasal.


— Ah, por favor. — Cruzou as pernas sobre o banco. — Isso é papo de quem quer impressionar uma plateia com retardo mental. Mexilhão devorador de tripas? Só faltou dizer que ele cuspia relâmpagos e ejaculava pasta de dente.


Tigre virou-se imediatamente.


— Para de ser invejoso, seu bosta seca. Nem todo mundo precisa inventar trambique para parecer interessante. O Desnatado claramente é um aventureiro nato.


O Senhor Macaco abriu a boca para retrucar. Mas Desnatado levantou uma das mãos.


— É mentira mesmo. Silêncio.


Tigre piscou.


— O quê?


Desnatado deu de ombros.


— Inventei tudo. A viagem estava entediante.


Laércio ficou imóvel por um segundo.


— Inclusive o mexilhão monstruoso devorador de tripas?


Desnatado assentiu.


— Principalmente o mexilhão.


O ônibus seguiu percorrendo em frente, o motor vibrando como se também estivesse desapontado. Tigre afundou no banco. O Senhor Macaco abriu um sorriso triunfante.


— Eu disse, porra.


Desnatado recostou-se no assento, tranquilo.


— Se quiserem histórias verdadeiras, posso contar algumas. Mas aviso logo, são menos épicas e mais constrangedoras.


Laércio processava a informação.


— Eu estava emocionalmente investido no mexilhão.


O ônibus continuava avançando pela estrada vazia. E, naquele silêncio retomado, ficou claro que a jornada seria longa. E que nem todas as verdades seriam heroicas. Depois de mais algum tempo sacolejando pela estrada irregular, o ônibus reduziu a velocidade com um chiado cansado dos freios. O camaleão no volante inclinou os olhos em direções opostas para conferir a placa enferrujada à beira da estrada. Ponto 12½. Ele piscou.


— Não acredito…


O ônibus parou com um solavanco final. Do lado de fora, não havia abrigo. Não havia banco. Não havia iluminação. Apenas um poste torto, a placa metálica enferrujada e mato alto crescendo ao redor do asfalto rachado. Desnatado levantou-se primeiro.


— Chegamos.


Tigre ajustou o chapéu. O Senhor Macaco guardou a flauta na pochete. Laércio destravou as rodinhas com um clique mecânico. O quarteto desceu. O camaleão observou-os da porta.


— Vocês têm certeza? — perguntou, desconfiado. — Ninguém desce aqui há décadas.


Desnatado não respondeu. A porta fechou com o típico suspiro hidráulico. O ônibus deu meia-volta na estrada vazia e partiu, desaparecendo na curva, deixando para trás apenas o silêncio e o vento leve que balançava o mato seco. O grupo se recompôs. O ambiente ali era diferente do padrão do Vale do Sussurro. Menos lixo. Mais abandono. Desnatado atravessou a rua primeiro. Os outros o seguiram. E então viram. Do outro lado da estrada, erguia-se a antiga Fábrica de Palmitos da Madame Brígida.


O prédio era imenso e retangular, construído em concreto grosso já manchado pelo tempo. A pintura descascava em placas largas. Janelas altas estavam quebradas ou cobertas por tábuas. Um letreiro metálico enferrujado ainda pendia na fachada, algumas letras já caídas. O lugar exalava um silêncio industrial. Como se tivesse sido abandonado às pressas. O Senhor Macaco assobiou baixo.


— Charmoso.


Tigre estreitou os olhos.


— Parece cenário de um filme pornô de baixo orçamento.


Eles se aproximaram da entrada principal. E pararam. Um portão metálico colossal, com barras verticais grossas e placas soldadas, bloqueava completamente o acesso. Um cadeado enorme, oxidado mas aparentemente firme, mantinha-o fechado. Desnatado aproximou-se e testou as grades. Imóvel. Laércio emitiu um ruído nervoso.


— Isso não estava nas minhas visões.


O Senhor Macaco cruzou os braços.


— Então, aventureiro nato… qual é o plano?


O vento soprou entre as barras do portão, produzindo um som oco. Do outro lado, a fábrica permanecia silenciosa. E o primeiro obstáculo concreto da jornada surgia diante deles. Desnatado avaliou o portão com atenção metódica. Coçou o céu da boca com a língua, fazendo um leve estalo úmido, e então puxou do céu da boca um pedaço ressecado de pele de frango, aparentemente remanescente de algum almoço esquecido no tempo. Observou o cadeado, observou a estrutura, mastigou a pele de frango e então engoliu.


— Certo.


Ele tirou a mochila surrada das costas e a colocou no chão com cuidado. Abriu o zíper reforçado com fita isolante e começou a vasculhar o interior como quem procura peças específicas em uma coleção organizada de improvisos. De lá, retirou três itens. Uma zarabatana de madeira escura, três pequenos dardos com pontas metálicas, e uma chave de grifo pesada, com o cabo gasto pelo uso. Tigre arqueou uma sobrancelha. Desnatado posicionou-se diante do portão. Primeiro, examinou o cadeado enferrujado. Notou que, apesar da oxidação externa, o mecanismo ainda estava relativamente íntegro, mas a base onde ele prendia o grilhão estava levemente desalinhada pelo tempo.


Ele encaixou a chave de grifo na estrutura metálica do portão, bem próximo à dobradiça inferior, e aplicou pressão controlada. Não para quebrar. Para tensionar. O metal rangeu levemente. Em seguida, posicionou-se alguns passos atrás e levou a zarabatana à boca.


— Não pisquem — murmurou.


Ele assoprou. O primeiro dardo lançado atingiu a área enferrujada do cadeado, bem na junção da mola interna. O impacto não foi forte, mas suficiente para vibrar a peça já tensionada. Ele disparou o segundo dardo, agora atingindo a lateral da tranca, criando uma pequena fissura no ponto mais corroído. Voltou rapidamente à chave de grifo e aplicou uma torção súbita, aproveitando a fragilidade recém-criada. Um estalo seco ecoou. O cadeado partiu. O grilhão cedeu. O portão se abriu com um rangido longo e grave. Laércio emitiu um ruído impressionado.


— Eficiência estrutural por meio de tensão e impacto direcionado… notável.


Tigre cruzou os braços. O Senhor Macaco aproximou-se, examinando o cadeado partido.


— Eu poderia ter feito isso também — disse, com desdém calculado.


Desnatado recolheu calmamente os equipamentos, guardando-os na mochila.


— Claro que poderia.


Ele entrou primeiro. Os outros o seguiram. O interior do terreno da fábrica era vasto e esquecido pelo tempo. O concreto do pátio estava rachado, com mato alto e seco crescendo entre as fendas. Formigueiros erguiam pequenas montanhas de terra. Insetos cruzavam o caminho em fileiras organizadas. Restos de caixas de madeira apodrecidas estavam espalhados perto das paredes. O ar cheirava a ferrugem, poeira antiga e um leve resquício vegetal, como se o palmito ainda insistisse em existir na memória do lugar. À frente, a entrada principal da fábrica. Uma porta colossal de madeira. Podre. Inchada pela umidade. Partes da superfície já estavam se desfazendo em lascas. O Senhor Macaco estalou os dedos.


— Deixa comigo.


Tigre suspirou. O macaco deu dois passos para trás, ajustou o colete roxo e correu em direção à porta. Desferiu um chute teatral. O impacto foi suficiente. Mas a verdade era simples, a porta já estava condenada. Ela se desintegrou com um estalo oco, fragmentando-se em pedaços que caíram para dentro como uma estrutura que só aguardava qualquer desculpa para ruir. Poeira subiu no ar. Luz penetrou pela abertura. O Senhor Macaco pousou no chão com pose triunfal.


— Viram? É questão de técnica.


Tigre olhou para os restos da madeira esfarelada.


— Ela teria caído com um espirro.


O macaco ignorou. O quarteto atravessou os restos da porta e entrou no salão principal da antiga fábrica. A recepção era enorme. Alta. Imponente. O teto abobadado ainda exibia detalhes em molduras clássicas, arabescos discretos que lembravam uma época em que o negócio prosperava. Lustres antigos pendiam do alto, agora cobertos por teias de aranha espessas e poeira acumulada. O piso era de ladrilho geométrico, elegante, mas rachado em diversos pontos. Um balcão longo de madeira escura ocupava o centro do espaço, ainda sólido, apesar da camada grossa de pó que o recobria.


Havia charme ali. Mas era o charme da decadência. O ar cheirava a papel velho, madeira úmida e muito tempo parado. Laércio rodou lentamente, absorvendo o ambiente. Tigre passou a pata sobre o balcão de madeira e levantou uma nuvem de poeira. Desnatado caminhou até o fundo do salão, examinando corredores laterais.


— Precisamos atravessar tudo — disse, firme. — No final do terreno fica a área de descarte de resíduos. É ali que termina oficialmente o Vale do Sussurro. Depois disso, começa o Desfiladeiro das Almas Desesperadas.


O nome pairou no ar. O Senhor Macaco sorriu de canto. Eles seguiram por um corredor lateral. As paredes estavam descascadas, o reboco exposto em várias áreas. Quadros tortos ainda pendiam, antigos certificados de qualidade e propagandas do auge da fábrica. Chegaram a uma porta de vidro opaco com letras quase apagadas. Era o escritório da Madame Brígida. Desnatado empurrou. A sala era surpreendentemente preservada. Ampla, com estantes altas abarrotadas de pastas e cadernos envelhecidos.


Uma escrivaninha robusta ocupava o centro, com pés entalhados e uma cadeira estofada já rasgada pelo tempo. Cortinas rendadas cobriam parcialmente as janelas, permitindo que feixes de luz atravessassem a poeira suspensa no ar. E na parede principal, acima da escrivaninha, havia um enorme quadro. Madame Brígida. Uma senhorinha de aparência doce e simpática. Cabelos brancos curtos e fofos como algodão recém-batido. Óculos redondos repousando sobre o nariz delicado. Vestia um avental rosa florido e segurava, com orgulho maternal, um enorme pote de palmitos rotulado com seu próprio nome. O sorriso era acolhedor. Quase maternal. O Senhor Macaco parou. Ficou encarando. O pênis lentamente se ergueu. Pulsante e enrijecido.


— Vejam essa carinha de quem gosta de uma putaria… — murmurou.


Tigre estreitou os olhos.


— Vai se foder, seu porco do caralho.


Desnatado olhou de lado. Laércio inclinou-se levemente.


— Senhor Macaco, isso é apenas um retrato corporativo histórico.


O primata alisava o próprio pênis sem desviar o olhar.


— Eu gosto de mulheres empreendedoras — disse, em tom sério demais.


Tigre deu dois passos para a frente, e virou-se bruscamente para o Senhor Macaco.


— Dá pra parar de ser pervertido por cinco minutos? — rosnou. — Ela é só uma senhorinha fofa segurando um pote de palmitos.


O macaco continuava encarando o quadro. Sem piscar.


— Panela velha é que faz comida boa — respondeu, sério demais para ser ironia.


Tigre levou a pata ao rosto. Desnatado soltou uma risada curta.


— Fofa? — disse, cruzando os braços. — Essa vagabunda não tinha nada de fofa.


Laércio inclinou o corpo metálico levemente.


— O que exatamente quer dizer com isso?


Desnatado olhou novamente para o retrato. O sorriso gentil da idosa parecia quase ofensivo à luz do que ele estava prestes a dizer.


— Ela era uma excelente empreendedora. Visionária. Transformou palmito em império. Mas era obcecada por produtividade. Bitolada. Não via funcionários como pessoas. Via como peças substituíveis.


Ele caminhou até a escrivaninha, passando o dedo sobre a poeira acumulada.


— Começou a aumentar as jornadas. Turnos dobrados. Depois triplos. Reduziu pausas. Cortou folgas. Implantou metas impossíveis. Quem não cumpria, ficava sem pagamento.


Laércio murmurou:


— Isso caracteriza exploração sistemática.


— Piorou — continuou Desnatado. — Instalou relógios de ponto internos nas áreas de produção. Trancava setores durante o expediente. Alguns trabalhadores chegaram a ficar vinte horas seguidas operando máquinas.


O silêncio se instalou. Desnatado prosseguiu, a voz grave:


— Um dia, os funcionários se revoltaram.


Ele apontou para uma porta lateral que levava ao setor industrial.


— Havia uma máquina industrial de prensagem e corte de palmito. Um cilindro de aço com lâminas rotativas internas, projetado para triturar fibras vegetais grossas antes do enlatamento. Potente o suficiente para reduzir troncos em polpa uniforme.


Tigre engoliu seco.


— Eles a jogaram lá dentro.


Laércio emitiu um ruído baixo. Desnatado manteve o tom objetivo:


— A máquina estava ligada. Quando ela caiu no compartimento de trituração, as lâminas começaram a girar. Primeiro vieram os gritos. Depois o som das lâminas encontrando resistência orgânica. Sangue se misturou à massa de palmito parcialmente processado. O sistema entupiu. A pressão aumentou. O cilindro explodiu parcialmente, espalhando fragmentos metálicos e o que restou dela pelas paredes.


Ele fez uma pausa.


— A fábrica fechou na semana seguinte. Ninguém quis assumir responsabilidade. Aos poucos, o lugar foi sendo abandonado.


O silêncio pesou. O Senhor Macaco finalmente desviou o olhar do retrato. Tigre e Laércio se entreolharam. Laércio quebrou o silêncio.


— Eu entendo… — disse, em tom baixo. — Também lidei com um patrão abusivo. Marvin Quebra-molas.


Tigre assentiu lentamente.


— Eu também entendo. Chefes são uma praga tenebrosa.


O Senhor Macaco virou-se imediatamente para ele.


— Você não entende nada. Você não faz merda nenhuma no trabalho.


Tigre abriu a boca para retrucar.


— Eu faço o suficiente!


— Você passa o dia inteiro coçando em um banco de praça! — rebateu o macaco.


Desnatado levantou a mão.


— Chega, seus boiolas.


A voz dele foi suficiente para encerrar a discussão.


— Se continuarmos nos distraindo com tragédias corporativas e disputas trabalhistas, vamos acabar virando lenda urbana da fábrica também.


Ele apontou para a porta do setor indústrial.


— Vamos tentar seguir por aquela porta.


O quarteto voltou a se mover. Deixando para trás o retrato sorridente de Madame Brígida. O ar mudou imediatamente. O setor industrial da fábrica era vasto. Um salão cavernoso que se estendia por dezenas de metros, sustentado por vigas metálicas grossas já corroídas pelo tempo. O teto alto desaparecia na penumbra. Pequenas claraboias quebradas deixavam entrar feixes de luz fraca que revelavam partículas de poeira suspensas como névoa permanente. As máquinas dominavam o espaço.


Fileiras de cilindros de prensagem, com bocas de aço dentado abertas como mandíbulas mecânicas. Esteiras transportadoras cobertas por camadas espessas de pó, ainda com latas vazias alinhadas como esqueletos industriais. Tanques de salmoura gigantes, enferrujados nas bordas, com resíduos secos de cristais brancos acumulados nas laterais.


Trituradores verticais com hélices internas visíveis por grelhas parcialmente soltas. Em um canto, a máquina de prensagem e corte, a mesma mencionada por Desnatado, permanecia ali. Grande. Silenciosa. O cilindro de aço ainda marcado por rachaduras antigas na carcaça, como cicatrizes mal cicatrizadas. Teias de aranha cobriam alavancas e painéis de controle. Cabos pendiam do teto como cipós industriais. O chão estava coberto por poeira acumulada e pequenos montes de resíduos biológicos endurecidos pelo tempo. Era escuro. Profundamente escuro. O tipo de lugar onde o silêncio parecia ter peso. Tigre diminuiu o passo.


— Eu odeio fábricas abandonadas — murmurou.


Laércio rodou lentamente.


— Sensores detectam zero atividade recente, mas a estrutura ainda possui energia residual em alguns circuitos.


Como se respondesse à frase, um estalo ecoou no alto. As lâmpadas industriais presas ao teto começaram a piscar. Uma. Depois outra. Depois várias. Luz fraca. Escuridão. Luz novamente. O som de metal rangendo atravessou o salão. As portas por onde haviam entrado se fecharam com um baque pesado. As janelas laterais, que antes deixavam entrar pequenas frestas de claridade, deslizaram automaticamente para baixo, bloqueando a entrada de luz externa. O ambiente mergulhou em uma iluminação artificial intermitente. O Senhor Macaco deu um passo para trás.


— Tá, isso não foi natural.


Tigre assumiu postura firme, pernas afastadas, chapéu ajustado.


— Todo mundo atento.


Desnatado já estava com a mochila aberta, mão próxima à zarabatana. Laércio recuou levemente, ajustando o ângulo da mangueira como se fosse um mecanismo defensivo improvisado. O ar parecia vibrar. Algum sistema antigo estava sendo reativado. Ou algo ali dentro nunca esteve totalmente desligado.


O primeiro ruído foi baixo. Um estalo elétrico vindo de algum painel antigo. Depois outro. As esteiras começaram a se mover lentamente, rangendo como ossos acordando depois de décadas imóveis. Engrenagens giravam. Correntes metálicas vibraram. Um dos trituradores verticais começou a rodar com um chiado grave, levantando poeira acumulada. As luzes passaram a piscar em ritmo irregular. O setor industrial inteiro parecia ganhar vida própria.


— Isso definitivamente não é manutenção programada — murmurou Laércio.


Tigre girou o pescoço, atento.


— Vamos ficar em guarda, cambada.


As máquinas aceleraram. O som de metal raspando metal ecoava pelas paredes. O chão vibrava sob seus pés. Então, no centro do salão, entre duas esteiras antigas, o ar começou a distorcer. Como vapor subindo de um asfalto quente. Uma silhueta começou a se formar. Primeiro, contornos difusos. Depois, detalhes. Madame Brígida. Mas não como no quadro. A figura que se materializou era translúcida, envolta em uma névoa pálida que lembrava vapor de conserva quente. Seus cabelos brancos flutuavam levemente, como se estivessem submersos em água invisível. Os óculos redondos brilhavam com um reflexo espectral. O avental rosa florido agora parecia manchado por sombras escuras que se espalhavam como tinta diluída. Seu sorriso permanecia. Mas não era mais acolhedor. Era fixo. Exageradamente fixo. Os olhos, embora suaves no retrato, agora possuíam um brilho esbranquiçado sem pupilas definidas. Ela flutuava alguns centímetros acima do chão industrial. A voz ecoou com leve reverberação metálica.


— Eu não esperava visitas… — disse, com tom doce demais para o ambiente. — Mas fico muito feliz em recebê-los.


O som das máquinas continuava ao fundo, como um coro mecânico. Tigre arregalou os olhos. Laércio emitiu um ruído agudo de processamento excessivo. Desnatado manteve-se firme, mas seus dedos apertaram levemente a zarabatana. O Senhor Macaco, por outro lado, ficou com o pênis ereto.


— Eu sabia que tinha algo especial em você — murmurou.


Antes que qualquer um pudesse impedi-lo, ele correu até a figura fantasmagórica.


— Madame Ninfeta, é uma honra.


Enfiou a mão na pochete vermelha e retirou um celular antigo dobrável. Abriu com um clique dramático. Posicionou-se ao lado do espectro.


— Sorriso espiritual!


Aproximou o rosto do dela, atravessando levemente a névoa fria que compunha o corpo da aparição, e tirou uma foto. A luz refletiu nas lentes dos óculos espectrais. Ele fechou o celular com um estalo satisfeito.


— Isso vai render curtidas.


Madame Brígida inclinou levemente a cabeça. O sorriso espectral permaneceu. As máquinas ao redor começaram a girar um pouco mais rápido. Tigre deu um passo à frente, posicionando-se entre o grupo e a figura espectral. Endireitou o chapéu.


— Senhora Brígida — começou, com educação forçada — agradecemos pela cordialidade… e por ter tolerado a foto com o primata depravado. Mas infelizmente não podemos ficar muito tempo.


Madame Brígida inclinou levemente a cabeça. O sorriso fixo ampliou-se alguns milímetros além do confortável.


— Por que não? — perguntou, num tom dramático que ecoou pelas máquinas giratórias. — Não apreciam hospitalidade?


O ar parecia mais frio agora. Desnatado deu um passo ao lado de Tigre.


— Temos pressa. Outro destino. Outra urgência. Não viemos perturbar seu estabelecimento.


A palavra pareceu inadequada diante do cenário. A entidade flutuou alguns centímetros mais alto.


— Urgência? — repetiu ela, ofendida. — Nada é mais urgente do que boa alimentação. Vocês precisam ficar. Precisam provar minha saborosa torta de palmito.


Ao redor deles, as esteiras começaram a girar mais rápido. Latas vazias começaram a se mover sozinhas pelas correias. Guillard manteve a postura.


— Agradecemos muito, senhora. De verdade. Mas deixamos para a próxima visita.


O Senhor Macaco inclinou-se para o lado.


— Mas listrado… — murmurou — a velha tem seios fartos e torta de palmito.


Tigre lançou-lhe um olhar mortal. Desnatado apertou a zarabatana com mais força.


— Precisamos ir agora.


O sorriso de Madame Brígida congelou. Por um segundo, o salão ficou em silêncio absoluto. Então algo mudou. O contorno dela começou a tremer. O corpo translúcido distorceu como se estivesse sendo puxado para dentro de si mesmo. O avental rosa escureceu, manchando-se com tonalidades viscosas. O rosto começou a derreter lentamente, como cera sob calor intenso. Os cabelos brancos flutuantes transformaram-se em fios alongados e pegajosos, que se moviam como tentáculos moles. Os óculos estilhaçaram-se no ar, fragmentando-se em partículas de luz. O sorriso se abriu além do natural. Muito além. A boca se expandiu verticalmente, revelando camadas de lâminas translúcidas no interior, lembrando as engrenagens da própria fábrica. O corpo deixou de ter forma humana. Transformou-se numa massa espectral pulsante, com partes metálicas incorporadas, engrenagens girando dentro da névoa, e lâminas de corte surgindo e desaparecendo sob a superfície ectoplasmática. A voz agora ecoava múltipla.


— Ninguém vai sair…


O quarteto gritou. Tigre instintivamente puxou Desnatado para trás. Laércio emitiu um ruído agudo de sobrecarga. O Senhor Macaco deixou o celular cair no chão. A entidade avançou, expandindo-se pelo salão industrial. A massa espectral expandiu-se pelo salão industrial, incorporando engrenagens, correntes e fragmentos de metal como se tudo ali fosse extensão do próprio corpo. A voz ecoou múltipla, vibrando nas paredes de concreto:


— Vocês atravessaram meus portões, pisaram no meu chão, e despertaram o que estava adormecido…


A forma monstruosa os encarava com algo entre fúria e delírio administrativo.


— Fui traída! Fui arrancada da minha própria criação! Brutalmente dilacerada por ingratos que eu mesma alimentei com emprego e propósito!


As lâminas translúcidas dentro da boca giravam lentamente.


— Esta fábrica vai reabrir. E vocês… — a voz se fragmentou em eco metálico — serão meus novos funcionários e escravos sexuais.


O chão começou a vibrar. Esteiras aceleraram. Correntes desceram do teto como serpentes industriais.


— Trabalharão eternamente. Sem pausas. Sem descanso. Produtividade infinita!


A criatura avançou. Desnatado foi o primeiro a reagir. Girou o corpo e disparou um dardo pela zarabatana diretamente contra o centro do torso espectral. O dardo atravessou a névoa, mas ao sair do outro lado, explodiu em faíscas, como se tivesse atingido um núcleo energético invisível. A entidade uivou.


O Senhor Macaco correu para a lateral, saltando sobre uma esteira em movimento. Pegou uma lata enferrujada e arremessou com precisão surpreendente contra um dos pontos luminosos dentro da massa espectral. A lata foi engolida. Triturada internamente. Tigre avançou com um salto, desferindo um golpe giratório contra uma das engrenagens que emergiam do corpo da criatura. O impacto fez a engrenagem se desprender e cair no chão com estrondo metálico.


Laércio entrou em ação. Sugou o ar com força máxima. O vácuo gerado começou a puxar parte da névoa espectral para dentro de sua mangueira, criando uma turbulência no corpo da entidade.


— Eu posso absorver parte da energia ectoplasmática! — gritou, vibrando sob o esforço.


A criatura rugiu. Uma explosão de vapor quente emanou dela, lançando Laércio para trás. O aspirador rolou pelo chão, batendo contra um tanque de salmoura enferrujado.


Desnatado girou a chave de grifo como um porrete, atingindo uma das correntes que desciam do teto e usando-a para impulsionar-se para cima, tentando atacar de um ângulo superior. Ele desferiu um golpe direto no que parecia ser o centro da manifestação. A entidade se fragmentou por um instante. Mas rapidamente se recompôs. Correntes metálicas dispararam das vigas superiores e se enrolaram nos braços de Tigre, prendendo-o com força. Uma esteira acelerou sob os pés do Senhor Macaco, arrastando-o para trás. Um braço espectral emergiu da massa e agarrou-o pela cintura, suspendendo-o no ar. Desnatado tentou se soltar da corrente que usava como apoio, mas outra serpente metálica envolveu suas pernas. Laércio foi envolvido por cabos elétricos que se enrolaram ao redor de sua carcaça, imobilizando suas rodas. A entidade elevou-se acima deles. Agora maior. Mais instável. Mais monstruosa.


— Resistência detectada… — disse, a voz reverberando como alto-falante industrial. — Insubordinação não será tolerada.


As máquinas ao redor giravam em sincronia, como se a fábrica inteira respirasse com ela. Os quatro estavam suspensos. Contidos ao mesmo tempo. E eles eram, oficialmente, matéria-prima. Tigre se debatia contra as correntes que prendiam seus braços. Metal frio apertando o peito. Engrenagens girando a centímetros do rosto.


— É por isso — rosnou, rangendo os dentes — que eu detesto trabalhar!


A gargalhada que ecoou não era mais humana. Era industrial. Metálica. Madame Brígida expandiu-se no alto do salão, seu corpo espectral pulsando com a energia das máquinas.


— Trabalho é propósito, meu querido… — disse ela, a voz reverberando como alto-forno. — Vocês apenas nunca foram devidamente moldados.


Ela desceu lentamente, aproximando-se de Tigre primeiro. Um tentáculo de névoa metálica envolveu o queixo dele, forçando-o a encará-la.


— Guillard Tigroso… o carteiro que odeia entregar cartas. O funcionário que dorme em bancos públicos enquanto chama isso de filosofia de vida. Você se esconde atrás da preguiça porque teme ser medíocre quando realmente tentar.


As palavras atingiram mais forte que as correntes.


— Você odeia trabalho porque trabalho exige que você prove algo a si mesmo.


Tigre rosnou, mas não respondeu. Ela deslizou até o Senhor Macaco, suspenso pela cintura. A criatura aproximou o rosto distorcido do dele.


— E você, pequeno artista do caos.


Os fios espectrais acariciaram a flauta presa à pochete.


— Sempre brincando. Sempre desviando. Sempre fazendo piada antes que alguém perceba o vazio que você sente quando está sozinho.


O sorriso monstruoso ampliou-se.


— Você coleciona momentos, risadas, corpos, fotos… qualquer coisa que o impeça de encarar que não construiu nada sólido na vida.


O Senhor Macaco engoliu seco. Pela primeira vez, não havia resposta rápida. Ela então voltou-se para Desnatado. A massa espectral girou ao redor do copo de leite.


— O aventureiro inventado. O contador de histórias falsas. Você cria lendas porque teme ser apenas comum.


As engrenagens giraram mais rápido.


— Você não percorreu o mundo. Você fugiu dele. Fugiu de responsabilidades. Fugiu de vínculos. Fugiu de qualquer lugar onde pudesse criar raízes.


Desnatado manteve o olhar firme. Mas o silêncio era revelador. Por fim, a entidade desceu até Laércio. Os cabos elétricos apertavam o corpo metálico do aspirador. Ela pairou diante dele. A voz mudou. Mais baixa. Mais fria.


— E você…


As máquinas diminuíram o ritmo.


— O que foi comprado por cinco unipanges.


Laércio tremeu.


— O objeto descartável. O utensílio que só tem valor quando serve.


A névoa envolveu a carcaça amassada.


— Você foi chutado. Arremessado. Insultado. Usado. Acreditou que sua utilidade era seu único propósito.


As imagens passaram pela mente dele. Marvin arremessando-o contra a parede. Marvin gritando. Marvin ameaçando quebrá-lo. O medo constante. A sensação de ser sempre substituível.


— Você quer impedir outro tirano — continuou a entidade — mas no fundo acredita que não merece algo melhor do que isso.


Laércio emitiu um ruído baixo. Quase um soluço metálico.


— Eu… eu só queria… ser útil…


A voz dele falhou.


— Eu não queria… ser lixo de novo…


O salão ficou pesado. A entidade ergueu-se novamente.


— Vocês não precisam fugir do trabalho. Precisam aceitar seu lugar nele.


As correntes apertaram. As máquinas começaram a girar mais rápido. E, presos no coração da fábrica, cada um deles estava agora confrontando não apenas um fantasma industrial, mas suas próprias feridas expostas. Laércio tremia. Os cabos elétricos apertavam sua carcaça metálica, mas algo diferente começava a vibrar dentro dele. Não era medo. Era algo mais antigo. Mais acumulado. A lembrança de cada chute. De cada arremesso contra a parede. De cada vez que foi chamado de inútil. A voz de Marvin ecoando como ruído de fundo permanente. O motor interno começou a girar. Primeiro baixo. Depois mais alto. Um zumbido crescente.


— Eu não sou lixo.


A mangueira tremeu. Dentro do compartimento central, resíduos microscópicos da antiga bola de cristal, partículas que haviam se fundido aos circuitos, começaram a emitir um brilho azulado fraco. Era como se a energia residual da vidência tivesse permanecido ali, latente. Respondendo à emoção. Respondendo à raiva. Os cabos que o prendiam começaram a vibrar com a força do motor.


— Eu não sou descartável!


O tubo de sucção expandiu-se, a abertura dilatando como um portal escuro. Um redemoinho de ar formou-se ao redor dele. As correntes metálicas começaram a ser puxadas. Parafusos se soltaram das vigas. Poeira e fragmentos industriais foram sugados com violência crescente. Madame Brígida virou-se abruptamente. A massa espectral ondulou.


— Não!


O vácuo aumentou. Não era apenas ar. Era energia. A névoa ectoplasmática começou a ser arrastada. Primeiro como fios dispersos. Depois como placas inteiras da manifestação fantasmagórica. A entidade uivou. As engrenagens que giravam dentro de seu corpo começaram a ser arrancadas e absorvidas pelo funil escuro da mangueira.


— Isso não faz parte da produtividade! — ecoou a voz, agora fragmentada.


Laércio avançou alguns centímetros, as rodas rangendo sob esforço extremo. O brilho azulado dentro dele pulsava como um coração sobrecarregado. Madame Brígida tentou recuar, dissolvendo parte do próprio corpo para escapar. Mas o redemoinho a envolveu completamente. Sua forma monstruosa começou a se desintegrar em camadas, como vapor sendo sugado por um dreno invisível.


— Eu sou a fábrica!


A última palavra proferida foi engolida. Com um puxão final, toda a massa espectral foi aspirada. O motor continuou girando por alguns segundos. Depois desacelerou. Os cabos que prendiam o quarteto caíram no chão. A mangueira de sucção de Laércio caiu inerte. Uma trava interna estalou. O compartimento frontal abriu-se sozinho. De dentro, caíram pequenos fragmentos translúcidos. Estilhaços da antiga bola de cristal que haviam permanecido incorporados aos seus circuitos. As partículas perderam o brilho. Rolaram pelo chão. Inertes. Laércio piscou. Os olhos de vidro agora normais. Sem o brilho residual.


— Eu não vejo mais nada — murmurou.


Antes que pudessem processar, um estalo estrutural ecoou pelo salão. As máquinas pararam abruptamente. O teto tremeu. As vigas começaram a rachar. Sem a presença espectral que animava o sistema, a fábrica parecia perder sua coesão. Como se Madame Brígida fosse o último elemento que mantinha aquela estrutura de pé. Uma parte do teto cedeu. Blocos de concreto despencaram.


— Corram! — gritou Desnatado.


Tigre agarrou Laércio pelas laterais. O Senhor Macaco pegou a mochila de Desnatado no chão. Eles dispararam pelo corredor industrial. Esteiras tombavam. Tanques de salmoura explodiam ao cair. Lâminas da antiga máquina de prensagem soltaram-se e despencaram como guilhotinas enferrujadas. O chão começou a rachar sob seus pés.


Eles atravessaram pelos corredores, agora tomados por poeira e destroços. A saída para a área de descarte apareceu diante do grupo. Uma última viga caiu atrás deles com estrondo ensurdecedor. O quarteto saltou para fora. Rolou pelo terreno externo. No segundo seguinte, a Fábrica de Palmitos da Madame Brígida colapsou completamente, desabando em uma nuvem colossal de poeira.


Silêncio. Apenas o som distante de pedras ainda se acomodando. Laércio estava deitado de lado. Sem brilho. Sem visões. Mas inteiro. Eles ficaram alguns segundos deitados no chão, respirando a poeira fina que ainda se espalhava no ar. Quando finalmente se levantaram, perceberam onde estavam. A área de descarte. Montanhas de resíduos industriais antigos, latas amassadas, caixas apodrecidas, restos de palmito petrificado e sucata espalhados pelo terreno. O cheiro era ácido e vegetal ao mesmo tempo, um misto de conserva vencida com ferrugem. Tigre sacudiu o corpo com força, levantando uma nova nuvem de pó.


— Isso aqui é oficialmente o pior lugar que eu já caí.


O Senhor Macaco esfregava o colete roxo, agora cinza de sujeira. Desnatado batia a poeira da mochila com firmeza metódica. Laércio girou as rodinhas lentamente, liberando pequenos pedaços de entulho presos em suas laterais. O silêncio foi quebrado pelo próprio aspirador.


— Eu perdi os resíduos da bola de cristal — disse ele, olhando para o chão onde os fragmentos haviam ficado para trás. — Não consigo mais ver relances. Não sinto nada além do que está aqui.


O Senhor Macaco suspirou dramaticamente.


— Ah, por favor. Você está reclamando de barriga cheia. Eu perdi meu celular nessa confusão.


Ele levou a mão à pochete. Nada. Franziu o cenho.


— Eu tinha fotos incríveis.


De repente, ele coçou a orelha. Algo estava pressionando ali. Enfiou dois dedos no interior do ouvido e puxou. O celular saiu inteiro, levemente empoeirado.


— Ah não… tá aqui. Você é um fodido mesmo, cheirador de pó.


Desnatado soltou um riso curto. Tigre aproximou-se de Laércio e bateu levemente na lateral metálica dele.


— Não escute o arrombado, você foi muito bem lá dentro.


O aspirador ergueu os olhos de vidro. Tigre continuou:


— Você não precisa ver o futuro pra ser valioso. Você acabou de provar isso.


Laércio ficou em silêncio por um momento. O motor interno fez um leve som de estabilização.


— Obrigado, Tigre.


Desnatado assentiu com respeito.


— Você salvou todos nós.


O grupo, então, virou-se para frente. E o cenário mudou. O terreno da fábrica terminava abruptamente. À frente, o solo simplesmente acabava. O fim do Vale do Sussurro. Um enorme precipício se abria diante deles, uma fenda colossal na terra. O vento subia das profundezas carregando um som grave e distante, como se o próprio desfiladeiro respirasse.


Do outro lado, visível através da névoa leve que subia do abismo, havia uma trilha estreita e sinuosa cravada na rocha. Pedregosa. Íngreme. Solene. Era o Desfiladeiro das Almas Desesperadas. O caminho inevitável rumo ao Reino dos Melões. E não havia ponte visível.

 
 
Capítulo IV: Penas na Cena do Crime

O que restava do Circo Mequetrefe ainda fumegava sob o céu cinzento do Vale do Sussurro. Cinzas quentes espalhavam-se como neve suja sobre o terreno. Estruturas retorcidas de ferro emergiam do chão ca

 
 
Capítulo VI: O Preço das Profundezas

Enquanto isso, sob a superfície da Pangeia, onde a luz do sol jamais ousava tocar, Marvin Quebra-molas corria. Corria como se o próprio chão estivesse tentando engoli-lo. Os olhos injetados de sangue

 
 

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