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Capítulo V: Companhia de Cobaias

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
3 de mai.
22 min de leitura

Atualizado: 22 de ago.

No alto do Castelo Girilo-Milo, em uma das torres mais isoladas do complexo imperial, ficava o aposento particular da Imperatriz Dorotéia. O quarto era vasto e silencioso, iluminado por lâmpadas orgânicas incrustadas nas paredes, que emitiam uma luz azulada suave. Tapeçarias feitas de tecidos translúcidos pendiam do teto alto, decoradas com símbolos que representavam a supremacia da raça Girilo-Milo. O chão era revestido por placas lisas de queratina polida misturada com metal, refletindo a luz como um espelho distorcido.


No centro do aposento, diante de um grande espelho vertical, estava Dorotéia. A imperatriz observava a própria imagem com atenção quase reverente. Em suas mãos, segurava a coroa imperial, que lustrava com movimentos lentos e meticulosos usando um pequeno pano de seda escura. Cada gesto era cuidadoso, quase ritualístico. Ao lado do espelho, apoiado contra uma coluna ornamentada, repousava seu machado cerimonial, a lâmina verde pulsando lentamente com energia da Esmeralda Regenerativa. Dorotéia inclinou levemente a cabeça enquanto avaliava seu reflexo.


— Perfeição… — murmurou.


Ela ergueu a coroa, observando como a luz refletia nas joias incrustadas.


— Não foi o acaso que me criou, não foi o capricho da natureza… — continuou, falando consigo mesma diante do espelho. — Eu sou o resultado de cálculo, ciência e ambição.


Ela colocou a coroa novamente sobre a cabeça com precisão.


— O ápice de duas espécies fracassadas.


Um sorriso fino surgiu em seus lábios.


— Os suínicos eram brutais, limitados, e governados por impulsos primitivos. Os placentários, por outro lado, eram fracos, sentimentalistas, e incapazes de compreender que a evolução exige sacrifício.


Ela passou os dedos pela própria face com satisfação.


— E então, surgiu Dorotéia.


Ela abriu os braços diante do espelho, admirando sua forma esguia e perfeita.


— A síntese definitiva.


Seu olhar então endureceu.


— Mas ainda existe uma imperfeição.


Seu sorriso desapareceu.


— Meu sobrinho.


Ela pronunciou a palavra com desprezo.


— Um erro biológico. Um acidente grotesco que insiste em sobreviver.


Dorotéia caminhou lentamente até a janela, observando as luzes do planeta ao longe.


— Enquanto ele existir, a memória das espécies antigas também continuará existindo.


Ela voltou-se para o espelho.


— E isso é inaceitável.


De repente, sua respiração falhou. Dorotéia levou a mão ao peito. Uma tosse seca escapou de sua garganta. Depois outra. Mais forte. Ela se curvou levemente, e então cuspiu uma pequena bola de sangue escuro no chão polido. O líquido espalhou-se lentamente sobre a superfície brilhante. Dorotéia limpou a boca com as costas da mão, como se aquilo não fosse nada.


Ela caminhou até uma escrivaninha elegante posicionada no canto do quarto. Abriu uma gaveta. De dentro retirou um retrato antigo. Na fotografia estavam quatro figuras. A Imperatriz Daisy, imponente em suas vestes suínicas imperiais. O Rei Sérgio e a Rainha Fátima, líderes do Reino Placentário. E entre eles, com um sorriso excêntrico e orgulhoso, o Doutor Justino Klépter. A imagem capturava o momento histórico em que os três governantes haviam selado o acordo que levaria à criação da nova raça. À criação de Dorotéia. Ela observou a fotografia por alguns segundos. Seu olhar escureceu.


— Ingênuos… — murmurou.


Então suspirou. E arremessou o retrato contra a parede. O vidro se estilhaçou violentamente, espalhando fragmentos pelo chão enquanto a moldura se partia ao meio.


— Todos fracos — disse ela friamente.


Nesse momento, a porta do quarto se abriu abruptamente. Um soldado Girilo-Milo entrou apressado, aparentemente nervoso demais para perceber o erro que havia cometido. Dorotéia odiava quando alguém entrava em seus aposentos sem bater. Sem sequer virar a cabeça para olhar, ela estendeu a mão e lançou o machado que estava encostado ao lado do espelho. A arma atravessou o ar com um assobio pesado. A lâmina atingiu o soldado diretamente no peito. O impacto foi brutal. O machado atravessou a carapaça do Girilo-Milo e saiu parcialmente pelas costas, rasgando tecido e órgãos internos. Um jato de sangue escuro espirrou contra a parede enquanto o soldado emitia um som abafado de surpresa. Ele caiu de joelhos. Depois tombou de lado. O corpo ficou imóvel no chão, sangue se espalhando lentamente pelo piso do quarto. Dorotéia suspirou.


— Mal-educado.


Alguns segundos depois, outra figura apareceu na porta. Outro soldado. Ele olhou primeiro para o cadáver do colega no chão. Depois para o machado ainda cravado no corpo. O soldado engoliu em seco. Então, muito cuidadosamente, fechou a porta, respirou fundo, e bateu. A voz fria de Dorotéia veio do interior do quarto.


— Entre.


O soldado abriu a porta devagar e entrou, tomando extremo cuidado para não pisar no sangue. Ele fez uma reverência rápida.


— Minha imperatriz… trago notícias.


Dorotéia voltou-se lentamente para ele, cruzando os braços. Seu olhar era afiado como lâmina.


— Espero… — disse ela calmamente — que sejam boas notícias.


O soldado permaneceu imóvel diante da imperatriz, tentando ignorar o cadáver ainda quente no chão. O sangue escuro continuava a se espalhar lentamente pelo piso polido, formando uma mancha irregular que refletia as luzes azuladas do aposento. Ele respirou fundo antes de falar.


— Minha imperatriz… recebemos um relatório direto da Base Panspérmica. O Doutor Justino Klépter conseguiu adaptar o Detector de Placenta para funcionamento orbital.


Dorotéia arqueou levemente uma sobrancelha. O soldado continuou.


— Ele miniaturizou o núcleo sensorial e acoplou o sistema a um satélite de varredura genética, que foi lançado para o Espaço Térmico esta manhã. O dispositivo está analisando assinaturas biológicas derivadas das linhagens suínicas e placentárias, e encontrou algo.


O olhar de Dorotéia se estreitou.


— Continue, cacete.


— O satélite localizou uma assinatura genética híbrida extremamente forte — disse o soldado. — Não há dúvida. É o mestiço.


Por um instante o quarto pareceu ficar menor. Dorotéia avançou rapidamente até ele, agarrando o soldado pela gola da armadura com força suficiente para fazê-lo tropeçar.


— Onde? — perguntou, a voz baixa e trêmula de excitação.


— No Planeta Cutícula, minha imperatriz.


Dorotéia o soltou. Ela deu alguns passos para trás e cuspiu no chão, o escarro misturando-se com a mancha de sangue já existente.


— Claro… — murmurou com desprezo. — Um planeta imundo habitado por pedaços de queratina ambulantes.


Ela passou a língua pelos dentes lentamente.


— Bem o tipo de lugar onde aquela criatura grotesca iria parar.


Dorotéia caminhou até a janela novamente, olhando para o horizonte do Planeta Esferográfico. As duas estrelas do sistema, Azul Primeiro e Azul Profundo, já haviam desaparecido completamente, deixando o céu mergulhado na escuridão cósmica.


— Prepare uma frota de invasão — ordenou. — Quero tropas Girilo-Milo descendo no Planeta Cutícula antes do próximo ciclo estelar.


O soldado assentiu imediatamente.


— Sim, minha imperatriz.


— E mande uma mensagem direta ao Doutor Justino Klépter — continuou ela. — Diga para ele preparar a sala de dissecação na Base Panspérmica.


Ela levou a mão ao peito novamente. Uma tosse seca sacudiu seu corpo. Desta vez o sangue veio mais escuro. Mais espesso. Ela limpou os lábios lentamente enquanto observava o líquido na palma da mão.


— Estou ficando sem tempo.


O soldado permaneceu em silêncio. Dorotéia caminhou lentamente até a escrivaninha, apoiando-se nela por um momento.


— Quando Klépter criou nossa espécie — disse ela com voz fria — ele acreditava que os Girilo-Milo representariam o ápice da evolução artificial. A fusão perfeita entre duas linhagens biológicas distintas.


Ela ergueu o olhar novamente.


— Mas há um problema estrutural em nossa genética.


O soldado hesitou.


— Qual problema, minha imperatriz?


Dorotéia sorriu. Um sorriso sem humor.


— Nós fomos projetados para sermos estáveis, não para evoluir. Nossa estrutura genética é praticamente fixa. Não sofremos mutações adaptativas naturais como outras espécies.


Ela caminhou até o espelho novamente.


— Isso nos torna perfeitos por um tempo.


Ela tocou o próprio reflexo.


— Mas a perfeição eventualmente se torna obsoleta.


Ela tossiu novamente, mais fraca desta vez.


— Meu organismo já está demonstrando sinais de degradação celular. As primeiras gerações Girilo-Milo começam a apresentar instabilidade genética progressiva. Nossa espécie pode se tornar inviável em poucas décadas.


Ela virou-se lentamente.


— Mas o híbrido…


Seu sorriso voltou.


— O híbrido carrega genética ativa. Mistura de duas espécies que ainda possuíam capacidade adaptativa natural. A estrutura dele pode ser reutilizada.


Ela abriu as mãos.


— Com o material genético dele, Klépter poderá atualizar minha biologia. Reescrever minha estrutura celular.


Seus olhos brilharam.


— Evolução sob controle.


O soldado assentiu novamente.


— Entendido, minha imperatriz.


Ele começou a dar um passo em direção à porta. Mas parou. Porque Dorotéia havia se movido. Ela caminhou até o cadáver do primeiro soldado e arrancou o machado de seu peito com um puxão violento. O som da lâmina deixando o corpo foi acompanhado por um jorro fresco de sangue. O segundo soldado congelou.


— Minha imperatriz?


Dorotéia caminhou lentamente até ele. O sorriso que se formava em seu rosto era perturbador.


— Você fez um bom trabalho trazendo essa notícia.


O soldado tentou sorrir nervosamente. O machado desceu. A lâmina atravessou o ombro do soldado e abriu seu torso em um corte profundo. O impacto o derrubou imediatamente no chão, onde ele se contorceu por alguns segundos antes de parar de se mover. O sangue espalhou-se rapidamente pelo piso. Dorotéia permaneceu parada sobre o corpo. Respirando devagar. Então começou a rir. Primeiro baixo. Depois alto. Uma gargalhada quase histérica que ecoou pelo quarto. Ela levantou o machado e passou a língua lentamente pela lâmina, lambendo o sangue fresco que escorria pelo metal.


— Ah… — murmurou, com os olhos brilhando. — Que noite maravilhosa.


A imperatriz limpou a lâmina com o pano da própria capa e voltou a colocá-la ao lado do espelho. Depois olhou novamente para seu reflexo.


— Aguente mais um pouco, Dorotéia. Logo você será perfeita novamente — sussurrou para si mesma.


Enquanto isso, na Base Panspérmica, em uma ala isolada dedicada aos espécimes experimentais, Quivi havia sido transferido para uma das celas de contenção. A sala era pequena e mal iluminada. As paredes metálicas absorviam quase todo o som, criando uma sensação opressiva de silêncio absoluto. Um único painel de luz fraca no teto piscava de tempos em tempos, iluminando o espaço de forma irregular. Quivi estava sentado no chão frio. Seu corpo ainda tremia. As marcas das amarras estavam gravadas em sua pele, e o ânus ferido latejava com um ritmo constante, lembrando-o a cada segundo do experimento recente.


O pequeno útero preso ao ânus reluzia discretamente na penumbra. Ele respirava devagar, tentando acalmar o coração. Mas sua mente continuava girando em círculos. Tudo parecia um pesadelo do qual ele ainda não havia acordado. As lágrimas voltaram a escorrer lentamente pelo seu rosto. Como sempre fazia quando estava assustado, Quivi instintivamente levou as mãos até o próprio pênis, preparando-se para se masturbar. O pequeno ritual nervoso que usava desde criança para recuperar o controle da mente. Mas antes que pudesse apertar a pele, uma risada grave e absurda ecoou pela cela. Quivi congelou imediatamente. O som era profundo, estranho, e parecia vir das sombras no canto da sala.


Com o coração disparado, ele virou lentamente a cabeça. E viu. Ali, encostada contra a parede, estava uma figura impossível. Era uma pedra. Não uma pequena pedra comum. Era uma rocha grande, larga, e quase do tamanho de uma cadeira. Sua superfície era irregular, cheia de rachaduras e marcas antigas. No meio daquela massa mineral havia dois olhos esbugalhados incrivelmente expressivos e um sorriso enorme, exagerado, que parecia sempre prestes a explodir em gargalhada.


No topo da pedra havia algo ainda mais estranho. Uma antena metálica quebrada, fincada diretamente na rocha como se tivesse sido implantada ali anos atrás. A base da antena parecia ter sido fundida ao mineral por algum tipo de procedimento experimental grotesco. Os olhos da pedra estavam fixos em Quivi. E o sorriso exagerado permanecia aberto. Quivi recuou imediatamente.


— Q-quem… quem é você? — gaguejou, a voz falhando.


A pedra abriu ainda mais o sorriso. Mas antes que pudesse responder, outra voz surgiu atrás de Quivi. Era fina, rouca e levemente irritada.


— Escuta aqui, rapazinho. Não fazemos esse tipo de coisa por aqui.


Quivi deu um salto assustado e girou o corpo de uma vez.


— Fodeu, caralho!


A luz fraca revelou quem havia falado. Era um canguru extremamente peculiar. Ele usava óculos redondos, grandes demais para o rosto estreito. Seu corpo parecia relativamente normal da cintura para cima, mas havia algo profundamente errado em sua barriga. No lugar da bolsa típica de um canguru, havia uma abertura circular coberta por vidro, costurada diretamente à pele como se fosse um aquário implantado. O interior do abdômen era visível através do vidro, revelando órgãos internos flutuando em um líquido translúcido. E no centro daquele pequeno aquário orgânico, um cérebro boiava lentamente, pulsando de maneira suave. O detalhe mais perturbador era que o cérebro parecia não estar conectado a nada. Apenas flutuava ali, como um objeto esquecido dentro do corpo do animal. O canguru empurrou os óculos para cima do nariz.


— Regra número um da cela compartilhada — disse ele com voz cansada. — Nada de masturbação antes das apresentações.


Quivi piscou várias vezes. Antes que pudesse responder, mais duas figuras surgiram das sombras. A primeira foi uma gata pequena, de pelagem completamente rosa, que se aproximava silenciosamente. No lugar das patas dianteiras e traseiras havia rodinhas de skate costuradas, que giravam suavemente sobre o chão metálico enquanto ela se movia. As rodas faziam pequenos giros suaves enquanto a gata parava ao lado do canguru. Ela inclinou a cabeça com curiosidade.


— O novato parece nervoso — comentou.


A quarta figura veio logo atrás. Era uma tartaruga de meia-idade. Ela tinha cabelos loiros mal tingidos, presos em um penteado bagunçado, e lábios carnudos exageradamente pintados. Vestia uma saia longa estampada, que arrastava levemente no chão. Mas o detalhe mais incomum estava em seu casco. No centro dele havia uma tomada elétrica instalada, perfeitamente encaixada na carapaça como se fosse parte natural de sua anatomia. A tartaruga observou Quivi por alguns segundos. Depois suspirou.


— Mais um experimento do Klépter… — murmurou.


A pedra voltou a rir baixinho no canto. Pressionado contra a parede fria da cela, Quivi respirava rápido demais. Seus olhos assustados percorriam cada uma daquelas figuras improváveis. A pedra risonha, o canguru com aquário abdominal, a gata com rodas e a tartaruga com tomada no casco. Para sua mente já sobrecarregada, aquilo parecia apenas mais uma etapa de um pesadelo interminável. Sem saber o que esperar, ele levantou as mãos lentamente.


— Vão! Me devorem logo! — gritou, quase soluçando. — Já sofri demais nessa vida!


Por alguns segundos, ninguém respondeu. As criaturas trocaram olhares entre si. A tartaruga foi a primeira a se mover. Ela deu alguns passos lentos à frente, a saia estampada arrastando levemente no chão metálico, e levantou uma das mãos com calma.


— Calma, guri… — disse ela com uma voz surpreendentemente acolhedora. — Não vamos te devorar, não. Ninguém aqui tem estômago pra isso.


Ela inclinou a cabeça de leve.


— Somos experiências daquele cientista lunático. Somos como você.


O canguru míope, ainda encostado na parede com os braços cruzados, assentiu lentamente. Seus óculos escorregaram um pouco pelo focinho, e ele os empurrou de volta para o lugar.


— Ernestina está certa, meu rapaz — disse ele com um tom tranquilo, quase fraternal. — Pode se sentir acolhido aqui. Dentro do possível, claro.


Quivi ainda tremia, mas as palavras começaram a penetrar lentamente no pânico que dominava sua cabeça. Ele olhou de um para o outro, tentando avaliar se aquilo era algum tipo de armadilha.


— Mas e aquele trambolho? — perguntou por fim, apontando hesitante para a criatura rochosa no canto.


A gata rosa com rodas soltou uma risadinha suave. As pequenas rodinhas de skate giraram levemente enquanto ela se aproximava alguns centímetros.


— Esse é o Reboco — respondeu ela. — Ninguém sabe muito sobre ele.


Ela apontou com a cabeça para o canguru.


— Só sabemos que o cérebro dele foi trocado por uma antena aparentemente quebrada, e colocado na barriga do Pablo.


Nesse momento, Pablo, o canguru, suspirou com certa resignação. Ele apresentou o vidro costurado em sua barriga, revelando melhor o pequeno aquário orgânico dentro do abdômen. O líquido translúcido ali dentro balançou suavemente, e o cérebro rosado flutuante pulsou lentamente.


— Esse aqui é o cérebro do Reboco — explicou Pablo, apontando para o interior da cúpula. — Depois da lobotomia, ele não consegue mais falar. Só sabe gritar e dar risada.


Como se estivesse respondendo à explicação, a rocha no canto da cela soltou uma gargalhada grave e completamente descontrolada. Plinky, a gata com rodas, deu um pequeno giro no lugar, acostumada com aquilo. Quivi observava tudo em silêncio. A realidade era tão absurda que, por um momento, seu cérebro simplesmente desistiu de tentar entendê-la. Finalmente, a tensão em seus ombros diminuiu um pouco. Ele escorregou lentamente pela parede e sentou-se no chão frio da cela. As lágrimas voltaram. Não de dor dessa vez. Mas de exaustão.


— Eu só… — disse ele, a voz quase inaudível — …eu só quero ir pra casa.


Ernestina se aproximou um pouco mais. Pablo também descruzou os braços. Plinky parou ao lado deles, as rodinhas imóveis. Mesmo Reboco, no canto, pareceu ficar quieto por um momento. A Base Panspérmica era um lugar cheio de monstros, erros científicos e criaturas esquecidas. Mas naquela pequena cela, Quivi havia encontrado algo inesperado. Outros sobreviventes.


Enquanto Quivi enfrentava seu destino nas profundezas da Base Panspérmica, completamente alheio ao que acontecia no restante do Espaço Térmico, Torresminho caminhava pelo Planeta Cutícula, guiado pelo próprio Imperador. O planeta era, ao mesmo tempo, grotesco e fascinante. O céu do Planeta Cutícula tinha uma coloração rosada pálida, resultado da reflexão constante das duas estrelas azuis do sistema sobre a superfície queratinosa do mundo. O solo era formado por enormes placas lisas que lembravam camadas de unha polida, intercaladas com fissuras onde vapores quentes escapavam do subsolo. As cidades eram construídas com o mesmo material orgânico-mineral. Torres altas e curvas lembravam unhas gigantes recém-cortadas, enquanto pontes e passarelas tinham a aparência translúcida de cutículas esticadas.


Em algumas regiões, estruturas inteiras pareciam ter sido cultivadas, e não construídas, como se a arquitetura tivesse crescido diretamente do planeta. Pelos caminhos da capital, Falanginos caminhavam com certa pompa, enquanto Queratinos carregavam materiais, empurravam estruturas ou simplesmente aguardavam ordens. O contraste entre os dois grupos era evidente, os Falanginos falavam, gesticulavam, organizavam a sociedade, enquanto os Queratinos apenas executavam. O Imperador Cutícula guiava Torresminho por aquele mundo com um entusiasmo quase infantil.


— Veja ali! — apontava ele. — Nosso Mercado de Polimento Imperial!


Um grupo de Queratinos girava enormes rodas abrasivas que poliam colunas queratinosas gigantes.


— E aquela estrutura ali é o Templo da Primeira Unha — continuou o imperador. — Um monumento histórico importantíssimo. Dizem que o primeiro Falangino nasceu ali após a Grande Descamação.


Torresminho caminhava ao lado dele tentando acompanhar tudo aquilo, ainda processando a realidade absurda em que havia se metido. Depois de alguns minutos, chegaram diante de uma estrutura diferente das demais. Era um grande domo de vidro translúcido, coberto por uma fina camada de vapor que subia constantemente de dentro da construção. O vidro estava embaçado por dentro, e o calor escapava por pequenas válvulas laterais. O Imperador abriu os braços com orgulho.


— E aqui — anunciou ele — temos a Sauna Reprodutiva.


Torresminho se aproximou do vidro. E imediatamente arregalou os olhos. Dentro do domo, dezenas de Falanginos e Queratinos se movimentavam em meio ao vapor quente, envolvidos em atividades íntimas e completamente alheios a qualquer ideia de privacidade. O ambiente parecia funcionar como um grande espaço coletivo onde relações eram tratadas com absoluta naturalidade biológica. Torresminho ficou parado alguns segundos. Tentando processar a cena.


— Coito público? — murmurou, entre chocado e intrigado.


O Imperador Cutícula colocou as mãos na cintura e deu de ombros com tranquilidade.


— É assim que fazemos a reprodução por aqui — explicou ele. — Sem apego, sem compromissos. É eficiente e bem prático.


Ele apontou para o interior da sauna.


— Sem contar que durante o Azulstício de Verão realizamos a maior celebração reprodutiva do Espaço Térmico. Seres de todos os outros seis planetas vêm participar.


Ele olhou para Torresminho com um sorriso amistoso.


— Você está convidado para a próxima.


Torresminho cobriu o rosto com as mãos. Não apenas pela estranheza da situação, mas também porque parte dele estava genuinamente curioso.


— Olha… é interessante, Imperador — disse ele finalmente. — Eu realmente gostei muito dessa sauna.


Ele respirou fundo.


— Mas como eu já te expliquei, eu preciso salvar meu irmão. Gostaria muito de ficar mais tempo, mas realmente não posso.


O Imperador o observou por alguns segundos. Então assentiu com compreensão.


— Eu entendo. Família é importante.


Ele deu um leve sorriso e, com um gesto casual demais, acariciou a virilha de Torresminho.


— Não se preocupe.


Torresminho reagiu imediatamente.


— Imperador! — disse ele, dando um tapa na mão do imperador. — Já falei que não.


Nesse exato momento, um estrondo ensurdecedor rasgou o céu do Planeta Cutícula. O chão tremeu violentamente. Um míssil caiu nas proximidades da cidade com força devastadora, explodindo contra uma das estruturas queratinosas próximas. A onda de choque percorreu a praça inteira. Torresminho e o Imperador foram lançados para longe com o impacto. Fragmentos de queratina e vidro voaram pelo ar enquanto uma coluna de fumaça negra subia rapidamente ao céu rosado. O planeta inteiro parecia ter sido acordado de um sono tranquilo.


Torresminho e o Imperador Cutícula foram arremessados pelo impacto do míssil, rodopiando pelo ar antes de despencarem entre pedaços quebrados de queratina arquitetônica, placas de vidro estilhaçado e colunas que antes sustentavam as passarelas da cidade. O chão ainda vibrava com o eco distante da explosão, enquanto uma nuvem densa de poeira rosada subia lentamente, misturando-se ao vapor quente que escapava das fissuras do planeta. Torresminho caiu de costas sobre um monte de escombros, o ar sendo arrancado de seus pulmões. Por alguns segundos ele só conseguiu ficar ali, olhando para o céu rosado de Cutícula, onde as duas estrelas azuis brilhavam através da fumaça. Ao lado dele, o Imperador Cutícula também se levantava com dificuldade. Sua capa vermelha estava parcialmente chamuscada, e sua coroa havia entortado para um lado. O Imperador cuspiu um pedaço de poeira queratinosa e limpou a boca com o dorso da mão. Torresminho tentou se levantar, mas suas pernas ainda estavam instáveis. Foi então que o Imperador estendeu a mão para ajudá-lo.


— Roupinha… — disse ele, usando o apelido que havia adotado para o híbrido desde o primeiro momento. — Era desse povo que você estava falando?


Torresminho segurou a mão dele e se ergueu. Seu rosto estava sujo de poeira e tinta velha que ainda restava da humilhação no castelo Girilo-Milo. Ele assentiu imediatamente, o olhar cheio de urgência.


— Exatamente isso! — disse ele, apontando para o céu. — São os soldados da minha tia, Dorotéia. Eles estão me perseguindo.


Acima deles, sombras metálicas começavam a cruzar o céu de Cutícula. Naves longas e angulares, de metal amarelado escurecido, surgiam entre as nuvens como predadores descendo sobre uma presa. Seus motores emitiam um zumbido grave que fazia o ar vibrar. Torresminho reconheceu imediatamente. Vários outros mísseis começaram a cair ao redor da cidade, explodindo em pontos estratégicos e destruindo torres queratinosas. Falanginos corriam pelas ruas enquanto Queratinos se dispersavam em pânico. O Imperador Cutícula observou a cena em silêncio por alguns segundos. Seu olhar, antes descontraído, agora estava completamente diferente. A postura relaxada desapareceu. Quando falou novamente, sua voz era firme.


— Sua família é complicada, né?


Ele ajustou a coroa torta sobre a cabeça e sacudiu a capa para retirar a poeira. Então se virou para a cidade em chamas.


— Então vamos lutar.


O Imperador respirou fundo e levantou o braço, fazendo um gesto amplo em direção às torres do palácio. Quase imediatamente, os sinos metálicos começaram a soar por toda a capital de Cutícula.


— Vou reunir o meu exército, roupinha — disse ele com determinação.


Ao longe, portões gigantes começaram a se abrir nas imensas paredes queratinosas da cidade. Fileiras de Falanginos armados emergiram carregando lanças, canhões de polimento energético e escudos feitos de placas endurecidas de queratina imperial.


— Esses soldados de Dorotéia… — continuou o Imperador, olhando para o céu onde as naves inimigas se aproximavam — …não sabem com quem mexeram.


Torresminho observou aquilo tudo em silêncio por um momento. Até poucas horas atrás, ele era apenas um garoto da fazenda Otapas tentando sobreviver. Agora, ele estava no meio de uma guerra interplanetária.


Na sala de contenção da Base Panspérmica, o tempo parecia se arrastar com uma lentidão cruel. O laboratório do Doutor Justino Klépter era um lugar onde o silêncio nunca era completamente silencioso, sempre havia o zumbido distante de máquinas, o clique metálico de algum mecanismo automático ou o eco distante de algum experimento sendo conduzido em outra parte da nave. Dentro da cela, porém, a atmosfera era outra. Quivi estava sentado no chão frio, completamente concentrado em um tabuleiro improvisado de xadrez, montado com pedaços de metal, parafusos e fragmentos de plástico arrancados das paredes.


As peças tinham formatos completamente irregulares, mas todos já sabiam o que cada objeto representava. Do outro lado do tabuleiro estava Pablo, o canguru de óculos redondos. Ele segurava o que representava um cavalo, um parafuso torto, enquanto analisava o tabuleiro com um ar extremamente sério. Dentro do pequeno aquário costurado em sua barriga, o cérebro de Reboco flutuava lentamente no líquido transparente, pulsando de forma suave.


— Se eu mover isso aqui… — murmurou Pablo — você perde a rainha.


Quivi estreitou os olhos, avaliando a jogada.


— Não perco não. Você está esquecendo do bispo.


Os dois continuaram analisando o tabuleiro em silêncio absoluto. Por alguns segundos, a sala parecia até tranquila. Foi então que Reboco entrou em cena. Sem qualquer aviso, a enorme criatura rochosa com a antena quebrada simplesmente se lançou sobre o tabuleiro improvisado como um meteoro. As peças voaram em todas as direções. O tabuleiro inteiro se despedaçou. Parafusos, pedaços de metal e fragmentos de plástico espalharam-se pelo chão. Reboco caiu no meio da bagunça gargalhando com uma intensidade completamente absurda.


Pablo ficou imóvel por dois segundos. Então respirou fundo. Bufou. E deu um leve tapa na lateral da pedra. Reboco rolou para o lado e continuou gargalhando, agora ainda mais alto. Pablo colocou as mãos na cintura, completamente frustrado.


— Caralho, Reboco! — exclamou ele. — Por que você destrói tudo que nos faz feliz?!


Reboco respondeu com outra gargalhada histérica, rolando no chão como se aquilo fosse a maior comédia da galáxia. Quivi, que ainda segurava uma peça improvisada na mão, ficou olhando para os destroços por um momento. Então se levantou de um salto.


— Temos que sair daqui! — declarou de repente.


Todos olharam para ele. Plinky, a pequena gata rosa com rodas de skate no lugar das patas, fez as rodinhas girarem lentamente enquanto soltava um suspiro cético.


— Impossível — disse ela. — Da última vez que tentamos fugir…


Ela apontou com a cabeça para Pablo.


— …o Klépter enfiou uma vassoura no cu do Pablo.


Quivi arregalou os olhos. Pablo assentiu calmamente.


— É verdade.


Ele cruzou os braços com uma expressão quase filosófica.


— E nem doeu, pra falar a verdade.


Plinky virou o rosto para ele.


— Você gritou por quarenta minutos.


Quivi respirou fundo. Aquilo claramente não estava ajudando. Ele passou as mãos no rosto, tentando organizar os pensamentos.


— Escutem — disse ele finalmente. — Eu tenho um plano.


Todos ficaram em silêncio.


— Mas eu não vou mentir… — continuou Quivi. — …a gente pode não sobreviver.


No canto da sala, Ernestina abriu lentamente os olhos. A tartaruga estava sentada em posição de meditação desde o começo da conversa, a saia estampada espalhada pelo chão. A tomada instalada em seu casco refletia a luz fraca da cela. Ela respirou fundo.


— Estou dentro — disse calmamente.


Ela olhou para os outros.


— Não temos nada a perder.


Plinky fez as rodinhas girarem devagar. Pablo ajeitou os óculos. E Reboco, ainda jogado no chão entre os destroços do tabuleiro, começou a gargalhar novamente como se aquele plano, ainda nem explicado, já fosse a melhor coisa que ele tinha visto em toda a sua existência mineral.


Se em algum ponto distante do mesmo sistema, Quivi e os outros experimentos planejavam uma fuga desesperada, o Planeta Cutícula havia se transformado em um verdadeiro campo de guerra. As estruturas queratinosas da capital estavam parcialmente destruídas. Torres de unhas rachadas fumegavam, pontes translúcidas haviam desabado e crateras abertas pelos mísseis dos Girilo-Milo espalhavam vapor quente pelo solo rosado do planeta. No meio desse caos, o exército de Cutícula lutava com uma ferocidade surpreendente. Falanginos avançavam empunhando lanças feitas de queratina polida e escudos ovais que refletiam a luz azul das duas estrelas do sistema.


Entre eles, multidões de Queratinos, as criaturas em forma de unha, silenciosas e brutais, avançavam como uma maré irregular, derrubando soldados Girilo-Milo com golpes desajeitados, porém numerosos. No centro da batalha, o Imperador Cutícula estava completamente diferente do governante excêntrico que Torresminho havia conhecido a poucas horas antes. Ele avançava à frente das tropas com sua capa vermelha rasgada pelo vento da explosão, empunhando uma longa lança queratínica reluzente, cuja ponta polida brilhava como vidro afiado. Seus olhos estavam inflamados pela batalha.


— Sasquatchanaqua! — gritou ele com toda a força de seus pulmões.


O grito ecoou pela planície de Cutícula. Imediatamente, centenas de Falanginos e Queratinos repetiram o brado em coro.


— Sasquatchanaqua!


O grito de guerra percorreu o campo inteiro como uma onda de choque moral, e os soldados de Cutícula avançaram com renovada determinação contra as tropas Girilo-Milo. Torresminho lutava alguns metros atrás do Imperador, desviando de disparos de plasma e empurrando soldados inimigos que tentavam atravessar as linhas defensivas. Foi então que um dos Girilo-Milo rompeu a formação. A criatura amarelada saltou por cima de dois Queratinos mortos e caiu diretamente diante do Imperador Cutícula. Em suas mãos havia uma Arma de Plasma Vegetativo, um rifle biomecânico cuja boca brilhava com um tom verde pulsante. Ele apontou diretamente para o Imperador.


— Este é o seu fim, seu dedo! — rosnou o soldado. — Vamos levar aquela criatura para que morra pelas mãos da grande Imperatriz!


O Imperador até ergueu a sua lança para reagir, mas o disparo já estava prestes a acontecer. Torresminho percebeu o perigo. E agiu sem pensar. Ele se abaixou rapidamente, pegou duas pequenas pedras do chão e as enfiou dentro das próprias orelhas. Imediatamente, o efeito estranho, fruto de seu organismo híbrido, entrou em ação. Seus músculos tremeram. Sua garganta inflou. E, num segundo, sua boca se encheu completamente de algodão espesso. Torresminho inclinou o corpo para frente e cuspiu com força. A massa branca atingiu o rosto do Girilo-Milo como uma explosão pegajosa. O algodão se expandiu instantaneamente, envolvendo o rosto da criatura e entrando por suas narinas e boca. O soldado começou a se debater desesperadamente, largando a arma e tentando arrancar o material sufocante. Torresminho avançou e segurou o inimigo pela gola.


— Onde está o meu irmão?! — rosnou ele.


O Girilo-Milo tentou cuspir o algodão enquanto falava.


— Que irmão?


Torresminho apertou ainda mais.


— O pássaro! Pequeno, bico grande, ansioso, e chorão!


O soldado tossiu.


— Você quer dizer o periquito punheteiro?


Torresminho piscou duas vezes.


— Ele mesmo.


O Girilo-Milo soltou uma risada fraca antes de responder.


— Está na Base Panspérmica, com o Doutor Justino Klépter…


Ele tossiu novamente, tentando respirar.


— A essa altura, ele já deve ter sido modificado.


Por um instante, tudo ficou silencioso para Torresminho. O campo de batalha parecia distante. A palavra modificado ecoou em sua cabeça. Ele respirou fundo. Então colocou mais duas pedras nas orelhas. Sua boca novamente se encheu de algodão. Sem dizer mais nada, ele cuspiu diretamente no rosto do soldado. O material branco expandiu-se violentamente dentro da boca e da garganta da criatura. O Girilo-Milo caiu de joelhos, debateu-se por alguns segundos, e depois ficou imóvel. Torresminho soltou o corpo morto. Atrás dele, a batalha continuava. Torresminho atravessou o campo de batalha ainda ofegante. O chão do Planeta Cutícula estava coberto de fragmentos de queratina quebrada, armas abandonadas e corpos de soldados Girilo-Milo espalhados entre crateras fumegantes.


Ao longe, algumas das naves invasoras já se afastavam do planeta, seus motores brilhando como cicatrizes de luz no céu rosado. Ele encontrou o Imperador Cutícula apoiado sobre a própria lança, recuperando o fôlego.


— O senhor está bem? — perguntou Torresminho, aproximando-se rapidamente.


O Imperador levantou o olhar. Sua coroa estava torta e havia um arranhão profundo atravessando a lateral de sua testa, mas ele ainda mantinha a postura altiva de um governante. Ele assentiu lentamente.


— Estou… — respondeu, respirando fundo. — Você me salvou, roupinha.


Ele observou o campo ao redor. As tropas Girilo-Milo estavam recuando, embarcando nas poucas naves que ainda restavam intactas.


— E parece que acabamos com o exército deles.


Torresminho acompanhou o olhar do Imperador e percebeu o mesmo. As linhas inimigas estavam se desfazendo. Os últimos soldados de Dorotéia batiam em retirada, e então, ele franziu o cenho.


— Não… — murmurou.


O Imperador olhou para ele.


— Não?


Torresminho apontou para o céu, onde as naves restantes desapareciam.


— Eles conseguiram o que queriam.


Cutícula inclinou a cabeça.


— O que quer dizer?


Torresminho respirou fundo.


— Eles precisavam que eu soubesse para onde ir. — disse ele. — Agora eu tenho que voltar para o Planeta Esferográfico.


Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio no meio dos destroços da batalha, e então Torresminho sorriu. Num impulso sincero de gratidão, ele abraçou o Imperador Cutícula. O governante pareceu surpreso por um instante, mas acabou correspondendo ao gesto.


— Preciso ir agora — disse Torresminho. — Meu irmão está em perigo.


O Imperador suspirou. Então, inevitavelmente, sua mão deslizou para a cintura de Torresminho num gesto meio carinhoso, meio inconveniente. Torresminho imediatamente deu um tapa leve na mão dele.


— Já conversamos sobre isso.


— Foi reflexo — respondeu o Imperador, com certa dignidade ferida.


Ele então colocou a mão dentro do bolso interno de sua capa imperial e retirou um pequeno objeto. Era redondo, brilhante e rosado, do tamanho de uma moeda grande. Sua superfície era lisa, com um leve relevo circular no centro, e pequenas veias luminescentes percorriam o material como linhas de energia pulsante. Parecia estranhamente orgânico. O Imperador colocou o objeto na mão de Torresminho.


— Leve este Mamilo Alarmante com você.


Torresminho olhou para o objeto, confuso.


— Mamilo Alarmante?


O Imperador assentiu com absoluta seriedade.


— Tecnologia de emergência do Reino Cutícula. Se algum dia precisar de ajuda, aperte-o.


Ele apontou para o pequeno botão central.


— Ele emitirá um sinal direto para o meu mamilo. Onde quer que você esteja, irei ao seu socorro.


Torresminho observou o objeto por um momento. Então assentiu.


— Obrigado.


Ele colocou o Mamilo Alarmante no bolso da roupa rasgada. Nesse momento, vários Queratinos se aproximaram carregando uma pequena nave queratinosa do arsenal imperial. A nave parecia ter sido cultivada a partir do próprio material do planeta. Seu casco lembrava uma enorme lasca de unha polida, com veios translúcidos atravessando sua estrutura. A rampa se abriu com um estalo orgânico. Os Queratinos trabalharam rapidamente nos controles externos, programando as coordenadas de voo. Um deles fez um gesto para Torresminho entrar.


— Destino configurado — anunciou um Falangino operador. — Planeta Esferográfico.


Torresminho olhou uma última vez para o Imperador Cutícula.


— Espero que a gente se encontre de novo.


O Imperador ergueu a lança em saudação.


— Vá salvar seu irmão, roupinha.


Torresminho subiu pela rampa da nave. A escotilha se fechou atrás dele. Os motores orgânicos começaram a vibrar, emitindo um som grave que ecoou pela planície destruída de Cutícula. Com o Mamilo Alarmante no bolso e a determinação ardendo no peito, Torresminho lançou a nave para o céu rosado do Planeta Cutícula.

 
 
Capítulo IV: A Ciência das Aberrações

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Capítulo VI: Dois Caminhos para a Guerra

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