Capítulo VI: Dois Caminhos para a Guerra

Atualizado: 22 de ago.
Na Base Panspérmica, o plano de fuga finalmente havia começado. Depois de horas discutindo possibilidades e observando o comportamento do laboratório, Quivi e os outros experimentos haviam decidido que não poderiam esperar mais. Cada minuto que passava significava que Klépter estava mais perto de capturar Torresminho. Ou pior, de transformá-lo em algum tipo de experimento grotesco.
A oportunidade apareceu na sala de dissecação, onde o Doutor Justino Klépter estava organizando instrumentos para uma operação que prometia ser monumental. A sala era ampla, fria e iluminada por lâmpadas cirúrgicas brancas que faziam tudo parecer ainda mais cruel. Mesas metálicas alinhavam-se ao longo das paredes, carregadas de serras elétricas, bisturis vibratórios, tubos de extração genética e recipientes cheios de líquidos fluorescentes. No centro do ambiente, uma enorme maca cirúrgica aguardava o próximo paciente. Klépter caminhava entre as bancadas, anotando coisas em um bloco e murmurando para si mesmo.
— Precisão, precisão… — resmungava com seu sotaque russo grotesco. — Primeiro a coleta genética, depois a integração celular. Será um espetáculo científico…
Foi então que, na cela de contenção ao lado, começou o barulho. Reboco estava executando sua parte do plano. A criatura rochosa começou a emitir uma sequência absolutamente infernal de grunhidos, gargalhadas e ruídos rochosos que ecoavam pelo corredor da nave. O som era tão intenso que parecia vibrar nas paredes. Dentro da cela, os próprios aliados tiveram que tapar os ouvidos. Plinky achatou as orelhas.
— Meus tímpanos, Reboco… — murmurou.
Ernestina também se encolheu.
— Parece que ele está tentando parir um satélite.
O barulho continuou. Cada vez mais alto. Cada vez mais irritante. Na sala ao lado, Klépter finalmente perdeu a paciência. A porta se abriu com violência. O cientista apareceu no corredor com o rosto contorcido de irritação. Seu jaleco mofado balançava enquanto ele marchava até a cela.
— Criatura leprosa! — gritou ele. — Pare de me perturbar! Estou me preparando para uma grande operação!
Ele abriu a porta da cela com um movimento brusco e avançou diretamente até Reboco, mas Reboco apenas continuou rindo. E então, para surpresa geral, começou a vomitar incontrolavelmente. Um jato espesso de substância escura começou a sair da boca da criatura rochosa e se espalhou pelo chão metálico. Klépter ficou horrorizado.
— Que nojo! — gritou. — Isso é absolutamente anti-científico!
Furioso, ele avançou sobre Reboco tentando agarrá-lo pelo pescoço. Mas no meio do movimento ele parou. Olhou para a criatura. Franziu o cenho.
— Que droga! — exclamou indignado. — Não tem como te estrangular, você não tem pescoço!
Foi nesse exato momento que Pablo entrou em ação. O canguru saltou para frente com uma agilidade surpreendente. Ele se apoiou no chão usando a própria cauda como ponto de equilíbrio, dobrou o corpo e desferiu um chute duplo poderoso contra o peito de Klépter.
— Mas eu tenho! — disse Pablo.
O impacto lançou o cientista pelo ar. Klépter voou alguns metros antes de bater violentamente contra a parede metálica do laboratório.
— Essa réplica nem faz sentido! — gritou ele enquanto deslizava para o chão.
Ele ficou ali, atordoado. Era a chance. Ernestina reagiu imediatamente. A tartaruga avançou e segurou o cientista antes que ele pudesse se recuperar.
— Rápido! — disse ela.
Plinky entrou em ação logo em seguida. A gata com rodas deslizou pelo chão com velocidade impressionante enquanto o grupo levantava o corpo mole do cientista.
— Cuidado com a cabeça dele — comentou Pablo.
— Eu não me importo — respondeu Plinky.
Eles arrastaram Klépter até o centro da sala de operações. A enorme maca cirúrgica que ele havia preparado para usar em suas vítimas agora estava prestes a ser usada contra ele mesmo. Com um esforço coletivo, levantaram o cientista e o jogaram sobre a mesa metálica. Ernestina puxou as correias de contenção. Plinky travou as presilhas. Pablo apertou os grampos.
Em poucos segundos, o Doutor Justino Klépter estava completamente preso à própria mesa de cirurgia. O cientista começou a recuperar a consciência. Piscou algumas vezes. Olhou ao redor. E percebeu quem estava ao seu redor.
— O que… — murmurou ele.
Quivi deu um passo à frente. Seus olhos estavam determinados.
— Agora — disse ele — a gente vai conversar.
Quivi permaneceu parado diante da maca por alguns segundos, observando o corpo amarrado do Doutor Justino Klépter. A sala ainda estava cheia do cheiro metálico das ferramentas e do leve zumbido das máquinas que o próprio cientista havia preparado para seus experimentos. Então Quivi caminhou até o painel de controle principal. Seus dedos pequenos e trêmulos percorreram os botões até encontrar a alavanca que ele já havia visto Klépter usar mais cedo.
Com um clique metálico, ele ativou o sistema. Imediatamente, a grande garra mecânica do teto começou a descer novamente. Suas engrenagens rangiam enquanto os braços articulados se moviam sobre trilhos magnéticos. As pinças se fecharam primeiro nos tornozelos de Klépter. Depois nos pulsos. Com um estalo hidráulico, o sistema travou. O cientista foi erguido da mesa e ficou suspenso no ar, completamente esticado pelas quatro extremidades. Quando percebeu a posição em que estava, o pânico finalmente tomou conta dele.
— Não… não… não! — gaguejou Klépter.
Ele começou a se debater violentamente nas garras metálicas.
— Por favor, criatura ridícula! Não faça isso! — gritou ele. — Isso é um mal-entendido científico!
Quivi permaneceu diante do painel. Seus olhos estavam frios. Klépter entrou em desespero absoluto.
— Espere! Espere! Podemos negociar!
Ele tentou forçar um sorriso nervoso.
— Eu posso… eu posso oferecer um emprego!
Quivi arqueou uma sobrancelha.
— Emprego?
Klépter assentiu freneticamente.
— Sim! Assistente de laboratório! Cargo fixo! — disse ele rapidamente. — Vale alimentação! Vale transporte! Vaga no estacionamento do Castelo Girilo-Milo!
Ele olhou em volta desesperado.
— Posso até dar um crachá!
Pablo cruzou os braços.
— Esse cara tá negociando benefícios trabalhistas enquanto está sendo torturado.
Plinky girou as rodas lentamente.
— Eu acho admirável.
Ernestina apenas suspirou. Quivi então sorriu. Mas não era um sorriso amigável. Ele segurou a alavanca principal do mecanismo.
— É pelo bem da ciência — declarou.
E puxou. As engrenagens da máquina rugiram. As garras começaram a se afastar lentamente. Primeiro veio o estalo seco dos ombros deslocando. Klépter soltou um grito agudo.
— Espere, por favor!
As articulações dos braços começaram a ceder. Os ligamentos estalaram como fios se rompendo. O corpo do cientista esticava-se de forma grotesca enquanto as garras continuavam a puxar. A pele começou a rasgar. Primeiro nos ombros. Depois nas virilhas. O jaleco mofado se abriu com o som de tecido rasgando.
— Não! Eu posso melhorar o plano de saúde! — gritou ele.
A máquina continuou. Com um som úmido e horrível, os músculos começaram a se romper. O peito abriu parcialmente, revelando órgãos que deslizaram para fora enquanto o corpo era puxado em direções opostas. Um último grito ecoou pela sala. Então veio o rasgo final. O corpo de Klépter se partiu brutalmente ao meio, as duas metades separadas pelas garras mecânicas enquanto tripas e sangue se espalhavam pela sala cirúrgica. Um dos braços caiu no chão com um ruído mole. As entranhas escorregaram da mesa e se espalharam pelo piso metálico.
O silêncio tomou conta da sala. A máquina finalmente parou. Quivi soltou a alavanca lentamente. Atrás dele, os outros experimentos observavam em silêncio. Pablo ajustou os óculos. Plinky olhou para a bagunça no chão. Ernestina fechou os olhos por um instante. Reboco começou a gargalhar. Quivi respirou fundo. O Doutor Justino Klépter não faria mais experimentos em ninguém.
O silêncio que ficou após a morte de Klépter durou apenas alguns segundos. Quivi ainda estava diante do painel, respirando pesado, enquanto a máquina lentamente cessava o movimento e o laboratório voltava ao zumbido normal de seus sistemas. No centro da sala, o que restava do cientista estava espalhado pela maca e pelo chão metálico. Pablo foi o primeiro a falar.
— Bom… — disse ele, ajustando os óculos com calma — acho que agora ele não vai mais enfiar vassouras em ninguém.
Plinky girou as rodinhas de skate lentamente ao redor da maca.
— Isso deixou um pouco mais de bagunça do que eu esperava.
Ernestina olhou para Quivi.
— Precisamos ir.
Quivi assentiu. Eles sabiam que não tinham muito tempo. A Base Panspérmica podia estar vazia naquele momento, mas em algum ponto do castelo certamente havia guardas, técnicos ou soldados que acabariam percebendo o que havia acontecido. Pablo então olhou para o corpo despedaçado do cientista.
— Espera… — disse ele. — Vamos precisar disso.
Alguns minutos depois, o grupo estava colocando os pedaços do Doutor Justino Klépter dentro de uma grande sacola de lixo industrial encontrada em um canto da sala. Não era um trabalho elegante, mas era necessário. Plinky segurava a sacola aberta enquanto Pablo e Ernestina empurravam o que restava do cientista para dentro. Reboco observava tudo rindo baixinho. Quando terminaram, Pablo amarrou a boca da sacola.
— Pronto. Nosso passe de segurança portátil.
Eles então correram pelo corredor metálico da Base Panspérmica até chegarem à porta de saída principal da nave-laboratório. Ao lado da porta havia um painel biométrico, que Quivi tentou abrir. Nada aconteceu. Plinky cruzou os braços.
— Ótimo.
Pablo suspirou.
— Digital do doutor.
Sem dizer nada, Ernestina abriu a sacola. Ela revirou o interior por alguns segundos.
— Aqui.
Ela retirou um dedo ainda manchado de sangue. Pablo pegou o dedo e o pressionou contra o sensor. O painel piscou. Acesso autorizado. A porta deslizou para o lado. O grupo saiu rapidamente. Do lado de fora, o ar noturno do Planeta Esferográfico era frio e pesado. As duas estrelas azuis, Azul Primeiro e Azul Profundo, estavam se pondo no horizonte, deixando o céu mergulhado em tons azul-escuros e violeta.
À frente deles se estendia o pátio do Castelo Girilo-Milo. Plataformas de pouso ocupavam todo o espaço aberto, cada uma delas carregando naves de formatos estranhos. Cruzadores angulares, caças orgânicos, transportes de carga e cápsulas militares. Era um verdadeiro porto espacial. Eles largaram a sacola com os restos de Klépter perto da saída da Base Panspérmica. Pablo olhou para as naves.
— Fácil — disse ele. — A gente rouba uma dessas e dá o fora daqui.
Quivi permaneceu parado.
— Eu não posso ir.
Todos olharam para ele.
— Meu irmão ainda está aqui — disse Quivi. — Eu preciso salvar ele.
Pablo balançou a cabeça.
— Cara, isso aqui é o castelo da imperatriz psicopata do planeta. Isso não é resgate, isso é suicídio.
Ernestina colocou a mão no ombro de Quivi.
— Então é suicídio em grupo.
Pablo olhou para ela.
— O quê?
— Não vamos embora sem ele — disse a tartaruga calmamente.
Plinky assentiu.
— Além disso, seria extremamente inconveniente fugir agora.
Quivi ficou olhando para eles, surpreso.
— Vocês fariam isso por mim?
Pablo suspirou.
— Eu odeio quando vocês fazem essas coisas emocionais.
Ele apontou para o castelo gigantesco que se erguia ao fundo do pátio.
— Mas tá bom. Qual é o plano?
Quivi respirou fundo.
— Meu irmão deve estar lá dentro.
Pablo arregalou os olhos.
— Você quer entrar no castelo? Isso continua sendo suicídio.
Plinky levantou uma pata-rodinha.
— Talvez não.
Todos olharam para ela.
— Castelos sempre têm entradas secundárias — disse a gata. — Logística, manutenção, serviços…
Ela apontou para a parte traseira da enorme estrutura.
— Se entrarmos pelos fundos, talvez possamos evitar os guardas.
O grupo trocou olhares. Então começaram a se mover. Atravessando o pátio às sombras das plataformas de navegação, eles avançaram com cuidado até a parte traseira do castelo Girilo-Milo. Ali, quase escondida entre estruturas metálicas e tubos de ventilação gigantescos, havia uma porta dupla de madeira escura, antiga e reforçada. Ela ficava no nível do chão, parcialmente embutida na parede do castelo. Claramente uma entrada para o porão. Quivi se aproximou devagar. Ele colocou a mão na maçaneta.
— Se meu irmão estiver aqui dentro… — murmurou.
Ele respirou fundo. Então começou a abrir a porta. Quivi girou a maçaneta da porta com cuidado. Nada. Ele tentou de novo, aplicando um pouco mais de força. A madeira rangeu levemente, mas a porta não cedeu. Quivi fez uma careta.
— Trancada.
Pablo cruzou os braços e soltou um suspiro impaciente.
— Pronto — disse ele. — Está trancado. Tentamos. Vamos voltar, roubar uma nave e ir embora antes que alguém perceba que o cientista favorito da imperatriz virou duas metades de carne moída.
Quivi olhou para a porta novamente, frustrado. Antes que ele pudesse responder, Reboco saltou. Sem qualquer aviso, a enorme criatura rochosa simplesmente se lançou contra a porta com todo o peso do próprio corpo. A madeira velha explodiu em pedaços. A porta se partiu ao meio e foi arremessada para dentro. Reboco atravessou a abertura como um meteoro descontrolado. Do outro lado da porta havia uma escadaria íngreme de pedra, e Reboco simplesmente começou a rolar escada abaixo como uma bola de demolição. Plinky olhou para o buraco na porta.
— Bem…
Pablo suspirou.
— Às vezes a força bruta resolve.
Quivi respirou fundo.
— Vamos.
O grupo entrou pela abertura quebrada. Eles desceram a escada com cuidado, os passos ecoando na pedra antiga enquanto a luz do pátio desaparecia lentamente atrás deles, e quanto mais desciam, mais o ambiente mudava. O ar ficava mais frio, mais pesado, e mais antigo. Quando chegaram ao fim da escada, estavam dentro de um porão enorme e completamente escuro. O lugar parecia não receber manutenção há décadas. As paredes de pedra estavam cobertas por manchas de umidade. Teias de poeira pendiam dos cantos. O chão era irregular e coberto por detritos antigos. O silêncio era opressor. Quivi engoliu em seco.
— Eu… não gosto desse lugar.
Ernestina caminhou lentamente ao longo da parede.
— Deve ter um interruptor por aqui…
Seus dedos enrugados percorreram a pedra até encontrarem uma pequena caixa metálica enferrujada. Ela pressionou o botão. Luzes antigas penduradas no teto começaram a piscar. Primeiro uma. Depois outra. Então várias. A iluminação fraca se espalhou pelo porão. E o que apareceu diante deles fez o grupo congelar. O espaço inteiro estava cheio de esqueletos. Não alguns. Não dezenas. Centenas. O porão estava completamente tomado por montes de ossos empilhados, amontoados contra as paredes, espalhados pelo chão e empilhados em pilhas grotescas que chegavam quase ao teto. Quivi deu um passo para trás.
— Nem fodendo…
Pablo ajustou os óculos, olhando ao redor lentamente.
— Inacreditável…
Os esqueletos eram diferentes entre si. Alguns eram enormes, com presas curvadas e ossos grossos, claramente Suínicos. Outros tinham estruturas orgânicas estranhas, com cavidades translúcidas e ossos de aparência gelatinosa endurecida, eram claramente dos Placentários. Todos mortos. Todos empilhados ali. Plinky ficou completamente imóvel.
— Ela guardou eles…
Ernestina falou em voz baixa.
— Como troféus.
O silêncio no porão parecia ainda mais pesado agora. Quivi olhava ao redor completamente horrorizado. A verdade começava a se formar em suas mentes. Dorotéia não apenas exterminou os dois povos. Ela guardou os corpos. Reboco, no meio do porão, começou a gargalhar novamente enquanto rolava entre os ossos.
Dentro do Castelo Girilo-Milo, bem longe dos corredores onde guardas patrulhavam e ainda mais longe do porão onde os esqueletos se acumulavam como um memorial grotesco, a Imperatriz Dorotéia jantava. A cozinha real era um salão enorme, iluminado por chamas azuladas que ardiam em suportes metálicos embutidos nas paredes. Bancadas de pedra negra ocupavam todo o espaço, carregadas com utensílios cirúrgicos que os Girilo-Milo chamavam de talheres. No centro do salão, sobre uma mesa gigantesca feita de uma única placa de metal polido, estava o jantar da imperatriz.
Dorotéia estava sentada em um pequeno trono portátil, ela fazia questão de usar um mesmo dentro da cozinha, devorando aspargos assados e grossos pedaços de carne de Virklers, ainda escorrendo gordura escura. Ela comia de maneira brutal. Os dentes afiados rasgavam a carne com violência enquanto o suco gorduroso escorria pelo canto da boca e manchava sua túnica armadurizada. Dorotéia não se preocupava em limpar o rosto, apenas lambia o sangue e a gordura com a língua longa e áspera. Parecia menos uma líder e mais um predador. Ao lado do prato, apoiado sobre a mesa, estava seu machado imperial, um cajado de guerra com lâmina dupla, cuja superfície metálica pulsava com energia esverdeada. Dorotéia arrancou outro pedaço da carne de Virkler com os dentes.
Foi então que ela ouviu. Um som distante. Um rugido de motor. Ela parou de mastigar. Ergueu a cabeça lentamente. O barulho crescia rapidamente. Antes que qualquer guarda pudesse reagir, uma pequena nave atravessou a parede externa do castelo como um projétil. A nave queratinosa do Reino Cutícula arrebentou a estrutura da cozinha e entrou rasgando o salão, destruindo pilares e bancadas enquanto pedaços do teto desabavam em uma nuvem de pedra, metal e vidro. O impacto fez o trono da imperatriz tombar para trás. Destroços caíram por toda parte, como panelas, facas e fragmentos de parede, que voaram pelo ar. Quando a poeira começou a baixar, Dorotéia já estava de pé. Ela limpou lentamente o sangue de Virkler do canto da boca. Então começou a sorrir. Um sorriso largo. Animado. Quase feliz.
— Finalmente, seu arrombado! — berrou ela.
A rampa da nave se abriu com um estalo. Torresminho saltou para fora. Ele estava coberto de poeira de viagem, com o corpo marcado pelas batalhas em Cutícula. No momento em que tocou o chão, abriu o porta-luvas da nave e puxou uma Arma de Plasma Vegetativo, a mesma tecnologia usada pelos soldados Girilo-Milo, que ele roubou na batalha anterior. Ele apontou diretamente para Dorotéia. Os dois ficaram se encarando através da poeira que ainda caía do teto destruído.
— Cai dentro, vadia sarnenta! — gritou Torresminho.
Dorotéia gargalhou. Então se lançou para frente. A velocidade dela era absurda. Antes mesmo que Torresminho pudesse disparar, a imperatriz já estava sobre ele. Com um movimento brutal, ela cravou os dentes serrilhados no ombro do sobrinho. Torresminho gritou e disparou a arma instintivamente, o feixe verde rasgando parte do teto da cozinha enquanto os dois colidiram contra uma bancada metálica. Dorotéia soltou a mordida apenas para rir.
— Então você voltou para morrer! — rosnou ela.
Torresminho empurrou o corpo dela com força.
— Eu voltei pra acabar com você!
A imperatriz girou o machado com uma mão e desferiu o primeiro golpe. Torresminho desviou por centímetros. A lâmina atravessou uma mesa inteira, partindo o metal ao meio. O combate começou ali mesmo, no meio da cozinha devastada. Mas rapidamente se espalhou. Os dois se chocavam contra paredes, derrubavam colunas e atravessavam corredores do castelo enquanto a luta se tornava cada vez mais violenta. Garras, mordidas, tiros de plasma, e aço. Uma batalha épica havia começado dentro do coração do castelo Girilo-Milo.
No interior do Castelo Girilo-Milo, o estrondo da nave de Torresminho atravessando a cozinha não demorou a provocar uma reação. Um segundo depois do impacto, o alarme do castelo começou a disparar. Um som estridente e repetitivo ecoou por todos os corredores, reverberando pelas torres, pelos salões e até pelas partes mais antigas da estrutura. Luzes vermelhas começaram a piscar nas paredes. Portas automáticas se abriram. E os soldados Girilo-Milo começaram a se mobilizar. No porão do castelo, onde o grupo de fugitivos ainda estava cercado pelo macabro cemitério de ossos, o som do alarme chegou como um trovão distante. O eco metálico atravessou as paredes de pedra e fez todos se virarem na mesma direção. Pablo arregalou os olhos.
— Pronto! — gritou ele. — Agora fodeu!
Ele apontou imediatamente para Reboco.
— Foi culpa do bosta do Reboco!
Reboco, que naquele momento estava sentado no meio de uma pilha de esqueletos rindo para si mesmo, apenas respondeu com outra gargalhada. Antes que Pablo pudesse continuar reclamando, Ernestina girou o corpo e deu um tapa seco no rosto dele. O estalo ecoou no porão.
— Se controla, canguru! — disse ela com firmeza. — Pânico não ajuda ninguém.
Pablo esfregou a bochecha.
— Eu não estou em pânico… eu sou realista.
Plinky, que havia se afastado um pouco do grupo, levantou uma das patas-rodinhas e apontou para o outro lado do porão.
— Parem de discutir.
Todos olharam na direção indicada. Ali, parcialmente escondida entre colunas antigas e montes de esqueletos, havia uma enorme escadaria de pedra. Os degraus subiam em espiral pela parede do castelo até desaparecerem na escuridão do andar superior. No topo, quase invisível no teto do porão, pendia um grande lustre antigo, feito de metal escuro e correntes grossas que se prendiam à estrutura do castelo. Quivi observou a escada por um segundo. Então olhou para a porta quebrada atrás deles.
— Quando os soldados perceberem aquela porta lá fora… — disse ele — …eles vão entrar aqui.
Ele apontou para a escada.
— A gente precisa subir agora.
Ninguém discutiu. O grupo começou a correr. Eles atravessaram o porão em disparada, passando por entre montes de ossos que se deslocavam sob seus pés. Crânios de Suínicos rolavam pelo chão enquanto costelas antigas estalavam sob o peso da fuga.
Pablo saltava com a ajuda da cauda. Plinky avançava com suas rodas girando rápido sobre o chão irregular. Ernestina corria logo atrás, com Reboco rolando descontroladamente entre os esqueletos como uma bola de pedra enlouquecida. Quivi chegou primeiro à escadaria. Ele começou a subir os degraus dois de cada vez. O resto do grupo veio logo atrás. Enquanto subiam, o som do alarme do castelo ficava cada vez mais alto. E lá em cima, alguma coisa estava acontecendo.
Enquanto o alarme do castelo ecoava por todos os corredores, a batalha entre Torresminho e Dorotéia se tornava cada vez mais brutal. Os dois trocavam golpes no meio da cozinha destruída, rolando sobre os escombros da nave que havia atravessado o teto. Bancadas de metal eram esmagadas, panelas voavam pelo ar e paredes inteiras rachavam com o impacto das pancadas. Torresminho avançou primeiro. Ele desferiu um soco pesado que acertou o rosto da imperatriz, fazendo a cabeça dela girar para o lado e espalhar gotas de sangue escuro pelo chão. Dorotéia apenas riu.
— Você bate como um resto de aborto — cuspiu ela, limpando o sangue com o dorso da mão. — Não é à toa que foi jogado fora.
Torresminho avançou novamente.
— Cala a boca, sua piranha desmamada!
Ele tentou agarrá-la, mas Dorotéia foi mais rápida. Ela desviou e acertou uma cotovelada nas costelas dele.
— Seus próprios ancestrais tinham nojo de você! — continuou ela, com um sorriso cruel. — Um híbrido ridículo que ninguém quis.
Torresminho cuspiu sangue no chão.
— Eu fui muito amado.
Dorotéia inclinou a cabeça.
— Amado?
Ele respirou fundo.
— Astolfo e Raimunda Otapas.
Por um instante o sorriso dela desapareceu. Então voltou ainda mais cruel.
— Ah, claro… — disse ela com desprezo. — Um casal de aves caipiras criando um pedaço de lixo cósmico.
Torresminho rugiu e avançou com tudo. Mas Dorotéia já estava esperando. Num movimento brutal, ela agarrou o pescoço dele com uma das mãos, os dedos longos cravando na carne do híbrido. Torresminho tentou se soltar, mas a força dela era absurda. Dorotéia flexionou as pernas. E saltou. O impulso foi monstruoso. Ela disparou para cima como um projétil, levando Torresminho consigo. Os dois atravessaram o teto destruído da cozinha e subiram para o andar superior do castelo.
O impacto no piso do andar acima foi devastador. O chão se partiu. Os dois atravessaram o piso como uma bala de canhão. Caíram no andar seguinte. E novamente o piso cedeu. Outro andar. Outro impacto. Dorotéia continuava segurando Torresminho pelo pescoço enquanto os dois despencavam de andar em andar, atravessando corredores, salas e estruturas internas do castelo. Pedras, vigas e pedaços de metal caíam junto com eles.
Finalmente, os dois atravessaram o último piso e caíram direto no porão do castelo. A queda levantou uma nuvem enorme de poeira e ossos. Esqueletos de Suínicos e Placentários foram arremessados para todos os lados quando o corpo dos dois se chocou contra o chão do cemitério subterrâneo. Torresminho ficou enterrado entre costelas e crânios quebrados. Dorotéia ainda segurava o pescoço dele. Ela olhou ao redor. E viu algo curioso. A escadaria. E nela, Quivi e o grupo de fugitivos, congelados no meio da subida. Dorotéia abriu um sorriso lentamente.
— Olha só… — disse ela, com a voz baixa e divertida.
Ela ergueu Torresminho do chão pelos cabelos.
— Parece que a família está se reunindo.
Torresminho ainda sentia o impacto da queda reverberando pelo corpo. Costelas de esqueletos se partiam sob seu peso enquanto ele tentava recuperar o fôlego. A poeira de ossos se misturava ao cheiro úmido do porão, e por um momento tudo ao redor parecia girar. Mas então ele viu. Por todo o porão, espalhavam-se pilhas intermináveis de esqueletos. Crânios com presas curvadas dos antigos Suínicos. Estruturas translúcidas e estranhas dos Placentários. Ossos empilhados, organizados, empurrados contra as paredes como se fossem parte da decoração de um museu macabro.
Torresminho piscou algumas vezes, tentando entender o que estava olhando. Então tudo fez sentido. Dorotéia ainda estava de pé diante dele, limpando o sangue do canto da boca com a língua. Torresminho lentamente se soltou do punho dela, empurrando o braço da imperatriz para longe. Ele se levantou entre os ossos. Seus olhos percorreram o porão uma última vez. E então voltaram para Dorotéia.
— Você é nojenta — disse ele.
Dorotéia arqueou a sobrancelha, divertindo-se.
— Sou, é?
Torresminho apontou para o mar de esqueletos ao redor.
— Você exterminou dois povos inteiros, e guardou os ossos como troféus.
Ele cuspiu no chão.
— Você é pior do que lixo.
O sorriso da imperatriz diminuiu um pouco. Torresminho continuou.
— Você se acha perfeita. A grande obra da ciência. A rainha da nova raça.
Ele deu um passo à frente.
— Mas olha isso aqui.
Ele chutou um crânio que rolou pelo chão de pedra.
— Esse é o seu legado.
O olhar de Dorotéia ficou mais frio. Torresminho não parou.
— Você não construiu nada.
Outro passo.
— Não criou nada.
Outro.
— Você só matou.
Ele agora estava bem perto dela.
— Você é uma fraude vestida de coroa.
Dorotéia apertou o cabo do machado. Torresminho continuou, a voz carregada de desprezo.
— Sabe por que você guardou esses ossos?
Ele apontou ao redor novamente.
— Porque lá no fundo você sabe que não é nada.
O silêncio no porão ficou pesado.
— Você é vazia — disse ele.
Mais um passo.
— E sempre vai ser vazia.
Torresminho encarou diretamente os olhos negros da imperatriz.
— Você pode governar um planeta inteiro, mas nunca vai conseguir preencher esse buraco aí dentro.
Dorotéia ouviu as palavras de Torresminho em silêncio. Por um instante, pareceu que ela simplesmente iria avançar e continuar a luta ali mesmo, no meio daquele cemitério de ossos. Mas então seus olhos se moveram lentamente. Ela olhou para cima. E, num movimento súbito, dobrou as pernas e saltou. O salto foi tão violento que levantou uma pequena nuvem de poeira óssea no chão. Em menos de um segundo, Dorotéia já havia atravessado a altura do porão inteiro e se agarrado ao grande lustre de metal pendurado no teto. As correntes do lustre rangeram com o peso dela enquanto a imperatriz se pendurava lá no alto como um predador esperando o momento certo. Torresminho franziu o cenho, tentando acompanhar o movimento. Foi então que o barulho de botas metálicas ecoou pela porta destruída do porão. Vários soldados Girilo-Milo invadiram o local, armas de plasma erguidas.
— Alvo identificado! — gritou um deles.
Torresminho olhou ao redor. Não havia saída. Lentamente, ele levantou as mãos.
— Tá bom… — disse ele. — Eu me rendo.
Enquanto isso, na escadaria, o grupo ainda estava subindo quando o primeiro disparo ecoou. Um tiro de plasma cruzou o ar do porão e atingiu Reboco nas costas. O impacto fez a enorme criatura rochosa perder o equilíbrio. Ele rolou escada abaixo, batendo nos degraus e nas paredes até atingir o corrimão da escada. Por puro reflexo, suas mãos rochosas se fecharam no metal. Ele ficou pendurado no vazio, o corpo balançando sobre a queda que levava ao chão do porão. Quivi viu. Sem pensar duas vezes, ele correu até o corrimão e agarrou a mão de Reboco com toda a força.
— Reboco! — gritou ele. — Eu vou te puxar!
Reboco olhou para ele. E começou a gargalhar. Mesmo à beira da queda, ele ria como se tudo aquilo fosse uma grande piada. No meio do caos, Torresminho levantou os olhos, e viu.
— Quivi! — gritou ele com esperança. — Estou aqui!
Quivi olhou para o irmão. Por um momento, um sorriso de alívio surgiu em seu rosto, mas acima deles, no lustre, Dorotéia observava tudo. Seus olhos estavam arregalados, a respiração irregular. Algo em sua mente havia quebrado.
— Vamos comer abacate! — ela berrou.
Seus olhos começaram a vibrar de maneira estranha. Ela ergueu o braço. E lançou o machado imperial. A arma girou pelo ar com um assobio mortal. Torresminho viu.
— Não!
Mas já era tarde. O machado atingiu Quivi diretamente nos braços. O impacto foi completamente brutal. As lâminas atravessaram a carne e os ossos com um estalo seco, arrancando ambos os braços do corpo do pássaro em uma explosão de sangue. Os braços ainda segurando Reboco foram arremessados para longe. Quivi soltou um grito dilacerante. Sem as mãos para segurá-lo, Reboco perdeu o único apoio. Seu corpo pesado caiu para trás. Por um instante ele ficou suspenso no ar. Ainda rindo. Então despencou. A queda foi longa. Seu corpo rochoso girou várias vezes enquanto caía pelo espaço aberto do porão. E continuou rindo. Até atingir o chão.
O impacto foi devastador. A pedra se despedaçou completamente, explodindo em fragmentos que se espalharam entre os esqueletos do porão. O riso cessou instantaneamente. Reboco não se mexeu mais. Acima, na escadaria, Quivi caiu de joelhos, o sangue escorrendo violentamente dos ombros onde seus braços haviam sido arrancados. Por um breve instante, o porão inteiro ficou paralisado pelo horror do que havia acabado de acontecer. O som do impacto de Reboco ainda ecoava entre os montes de esqueletos espalhados pelo chão. Pequenos fragmentos da rocha do antigo companheiro ainda rolavam entre costelas e crânios antigos.
Na escadaria, Quivi estava ajoelhado, o corpo tremendo enquanto o sangue escorria em jatos violentos dos ombros mutilados. Seus olhos estavam arregalados de dor e choque, e sua respiração vinha em soluços desesperados. Acima deles, Dorotéia permanecia pendurada no lustre, observando tudo como uma predadora satisfeita. E os soldados Girilo-Milo ainda estavam distraídos, olhando para o local onde Reboco havia explodido no chão. Foi nesse momento que Torresminho se moveu. Sem avisar. Sem pensar. Ele baixou as mãos lentamente, fingindo submissão por uma fração de segundo, e então disparou em direção à escada.
— Peguem ele! — gritou um dos guardas.
Mas Torresminho já estava correndo. Ele passou pelos primeiros degraus em disparada, pulando dois ou três de cada vez enquanto subia em direção ao irmão ferido. Tiros de plasma cruzaram o ar atrás dele, explodindo pedaços de pedra na parede da escadaria, mas Torresminho não olhou para trás. Seus olhos estavam fixos em Quivi.
— Aguenta, irmão! — gritou ele.
Quivi levantou a cabeça com dificuldade, o rosto coberto de lágrimas e sangue, até que Torresminho finalmente chegou até ele e caiu de joelhos ao seu lado.
— Eu estou aqui… eu estou aqui…
Ele segurou o corpo do irmão com cuidado, tentando estancar o sangue com as próprias mãos. Mas então ele sentiu algo. Uma presença. Torresminho ergueu os olhos. Lá em cima. No alto do porão. Dorotéia ainda estava pendurada no lustre, as correntes rangendo suavemente com o balanço de seu corpo. Ela observava os dois irmãos. E sorria. Um sorriso cheio de triunfo. Um sorriso que dizia que, para ela, aquilo tudo ainda estava longe de acabar.