Capítulo IV: A Ciência das Aberrações

Atualizado: 26 de set.
Quivi abriu os olhos lentamente. A consciência voltou aos poucos, como se sua mente estivesse emergindo de uma água turva. A visão ainda estava desfocada, e os sons ao redor chegavam abafados, como se alguém tivesse colocado algodão dentro de seus ouvidos. Ele piscou algumas vezes. A primeira coisa que sentiu foi o frio. Um frio metálico que atravessava sua barriga e subia pela espinha. Então percebeu. Estava deitado de bruços sobre uma maca. Suas mãos e patas estavam presas por grossas tiras de couro, bem apertadas, fixadas à estrutura metálica da mesa. Ele tentou se mover, primeiro devagar, depois com mais força, mas o resultado foi o mesmo, o corpo mal conseguia se mexer.
— O que está acontecendo? — tentou protestar.
Nada. Quivi virou o rosto para o lado, tentando olhar ao redor. E então percebeu que não estava mais na nave dos guardas. Ele estava em um lugar muito pior. O ambiente ao redor parecia um laboratório científico de outro nível de realidade. As paredes eram formadas por painéis translúcidos que pulsavam com luzes internas em tons de verde, azul e âmbar. Tubos cheios de líquidos viscosos percorriam o teto e as paredes como veias artificiais, levando substâncias químicas para máquinas espalhadas pelo ambiente.
Grandes monitores holográficos flutuavam no ar, exibindo diagramas biológicos, sequências genéticas e estruturas celulares girando lentamente. Braços robóticos pendiam do teto como membros de uma criatura mecânica, cada um equipado com instrumentos cirúrgicos diferentes, bisturis de plasma, serras microscópicas, scanners celulares e seringas gigantescas. Ao fundo do laboratório havia tanques de vidro cilíndricos, cada um contendo líquidos verdes borbulhantes onde flutuavam coisas que Quivi preferiu não identificar. Aquilo não era apenas um laboratório. Era um centro completo de experimentação biológica. E fazia parte de algo maior. A nave inteira. A estrutura onde Quivi estava era conhecida como Base Panspérmica.
O nome não havia sido escolhido por acaso. Quando Dorotéia tomou o poder do Planeta Esferográfico e decidiu manter Justino Klépter como cientista oficial do império Girilo-Milo, o excêntrico pesquisador fez uma única exigência antes de aceitar o cargo, ele queria uma nave própria, completamente independente, onde pudesse conduzir seus experimentos sem interferência política. Assim nasceu a Base Panspérmica. O nome vinha de uma teoria antiga da ciência cósmica chamada panspermia, a hipótese de que a vida poderia se espalhar através de sementes biológicas transportadas entre planetas. Klépter, fascinado pela ideia, acreditava que a evolução não precisava esperar bilhões de anos, ela podia ser acelerada, moldada e espalhada artificialmente. Sua nave seria exatamente isso. Um laboratório móvel capaz de criar, modificar e redistribuir vida pelo Planoverso.
A Base Panspérmica era enorme. Dentro dela havia dois laboratórios principais de pesquisa, equipados com tecnologia genética de última geração. Havia também uma sala de dissecação completa, onde espécimes podiam ser estudados e desmontados com precisão cirúrgica. Um setor inteiro era dedicado a celas experimentais, pequenas prisões onde criaturas eram mantidas para testes prolongados. A área habitável da nave incluía doze quartos com suíte, uma cozinha equipada com sintetizadores alimentares, uma sala de televisão improvisada, onde Klépter assistia velhas novelas interplanetárias enquanto analisava dados científicos, e até uma pequena biblioteca cheia de cadernos rabiscados pelo próprio cientista.
Mas o setor mais importante da nave ficava em um compartimento isolado. Ali estava instalado o Translocador. Diferente do Translocador Portátil, usado por Dorotéia para teletransportes de curta distância, o Translocador completo era uma máquina colossal capaz de enviar matéria viva para qualquer ponto do Planoverso, independentemente da distância. Era uma tecnologia extremamente perigosa e instável, capaz de rasgar o espaço-tempo como se fosse papel. Por isso a Base Panspérmica também funcionava como plataforma móvel de teletransporte.
Quivi ainda tentava processar tudo aquilo quando ouviu uma voz. Uma voz estranha. Ridícula. Com um sotaque carregado.
— Observem, meus aprendizes!
Quivi sentiu o coração disparar.
— Notem como a criatura permanece paralisada após a porrada anestésica que recebeu!
Quivi virou os olhos na direção da voz. E viu o Doutor Justino Klépter. O cientista parecia uma caricatura viva. Ele era baixinho, com um corpo torto e desproporcional escondido sob um jaleco velho completamente tomado por mofo. A pele era tão pálida que parecia cinza, coberta por verrugas de vários tamanhos. Seu cabelo tinha uma coloração estranha, branco com reflexos azulados, espetado em todas as direções. No rosto repousavam óculos de fundo de garrafa completamente trincados, que ampliavam seus olhos de forma grotesca.
Nas mãos ele usava luvas amarelas manchadas, e nos pés, um par de galochas roxas completamente fora de lugar em um laboratório. Mas o detalhe mais estranho era sua cabeça. Ela tinha formato de feijão. Literalmente. Uma curvatura alongada no topo e uma pequena reentrância lateral davam à cabeça de Klépter a aparência de uma leguminosa gigantesca. Ao redor da maca de Quivi havia três assistentes. Todos estavam anotando freneticamente em pranchetas.
Dois deles eram perturbadores. Porque eram clones do próprio Klépter. Um deles era uma versão grotescamente obesa, tão gordo que sua barriga quase encostava no chão. Ele respirava com dificuldade enquanto escrevia, suando abundantemente. O outro parecia um fantasma doente. Extremamente magro, com manchas escuras espalhadas pela pele e olhos fundos que indicavam uma condição de câncer terminal. Seus movimentos eram fracos, mas ainda assim ele anotava tudo com dedicação obsessiva. Klépter havia criado ambos deliberadamente com doenças específicas, apenas para estudar os efeitos biológicos dessas condições em organismos geneticamente idênticos.
O terceiro assistente era um jacaré antropomórfico. Seu nome era Miguel. Ele usava um jaleco limpo, segurava uma prancheta com entusiasmo e ajustava constantemente seus óculos grossos, que ampliavam os seus olhos reptilianos. Miguel era naturalmente míope. Mas não por nascimento. A miopia havia sido implantada por Klépter, que queria observar como um cérebro reptiliano reagiria a uma deficiência visual adquirida artificialmente. Mesmo assim, Miguel parecia absolutamente feliz por estar ali.
— Fascinante, doutor! — disse ele, empolgado. — O reflexo nervoso da espécie aviária parece bastante resistente!
Os dois clones começaram a aplaudir a explicação de Klépter com entusiasmo exagerado. Klépter sorriu. Um sorriso torto. Ele então caminhou lentamente até a maca onde Quivi estava preso. Abaixou-se. E olhou diretamente nos olhos do pequeno kiwi.
— Ah… — murmurou ele, ajustando os óculos trincados. — Então você acordou.
Ele inclinou a cabeça em formato de feijão. Quivi sentiu o pavor crescer dentro do peito como uma pressão insuportável. Seu corpo inteiro tremia contra as tiras de couro que o mantinham preso à maca metálica. Ele tentou puxar os braços, depois as pernas, depois se contorceu com toda a força que tinha, mas nada cedia. As amarras estavam firmes demais.
— Por favor, me tirem daqui! — implorou, a voz falhando entre soluços. — Eu… eu tenho fimose!
O comentário saiu completamente fora de contexto, fruto puro do pânico. O Doutor Justino Klépter, que até então observava a cena com interesse clínico, aproximou-se mais da maca. Ele inclinou o corpo pequeno e torto sobre Quivi e examinou o rosto da ave como um colecionador analisando uma peça rara. Seus olhos ampliados pelas lentes rachadas brilhavam com um entusiasmo quase infantil.
— Ah, que ocasião maravilhosa! — declarou, esfregando as mãos enluvadas. — Vocês não têm ideia de como estou contente em ter uma criatura tão apalpável, bem aqui diante de mim.
Sem pedir permissão, ele começou a apalpar o traseiro de Quivi, apertando as nádegas, levantando suas aberturas, e puxando delicadamente algumas penas do meio do ânus, como se estivesse avaliando a textura. Quivi tentou virar o traseiro para longe, mas a tira de couro na cintura o mantinha preso. As lágrimas começaram a escorrer novamente.
— Por favor, para! Eu não sou apalpável! — choramingou, a voz quebrada de desespero.
Klépter ignorou completamente a reclamação. Ele parecia genuinamente fascinado.
— Fascinante estrutura anal. Sim, muito interessante… — murmurava enquanto observava cada detalhe da anatomia de Quivi.
De repente, ele enfiou a mão no bolso do jaleco mofado e tirou um pequeno dispositivo metálico. Era uma câmera. Um modelo antigo, compacto, com uma lente circular grossa. Sem qualquer aviso, ele abaixou o dispositivo até o ânus de Quivi. A luz branca explodiu no laboratório. Quivi piscou, assustado. Outra foto. Klépter começou a tirar várias fotos do traseiro do kiwi, mudando ligeiramente o ângulo entre cada disparo.
— Sim, sim… esse ângulo é perfeito! — comentou animadamente. — Documentação é essencial para a ciência!
Miguel, o jacaré estagiário, inclinou-se para observar melhor.
— Impressionante, doutor! — disse ele enquanto anotava algo na prancheta. — A estrutura anal da espécie parece bem resistente!
O clone obeso de Klépter começou a escrever freneticamente. O clone doente tossiu duas vezes antes de continuar anotando também. Klépter se afastou um passo da maca e ergueu a câmera para observar as imagens. Ele assentiu satisfeito. Então voltou-se novamente para Quivi. Seu sorriso agora era ainda mais largo.
— Ah… perfeito.
Ele levantou o dedo indicador como um professor prestes a iniciar uma aula importante.
— Assim teremos uma excelente comparação científica com o que se tornará após o estrago que eu farei no ânus dele.
Quivi congelou. Klépter abriu os braços dramaticamente.
— Ciência exige antes e depois!
Os três aprendizes se levantaram das cadeiras quase ao mesmo tempo. Como se estivessem assistindo a um grande espetáculo. E imediatamente, começaram a aplaudir entusiasmados. O clone obeso batia palmas com dificuldade por causa do peso do próprio corpo. O clone doente aplaudia lentamente, tremendo. Miguel aplaudia com verdadeira admiração. Klépter então começou a rir. Uma gargalhada alta, estridente e completamente desequilibrada. Sua risada ecoou pelas paredes metálicas do laboratório enquanto ele girava a câmera nas mãos, claramente satisfeito com o material coletado.
Sobre a maca, Quivi já estava além do limite do pânico. Seu estômago revirava como se algo dentro dele estivesse tentando fugir também. A pressão no peito aumentava, sua respiração ficou irregular e, antes que pudesse evitar, uma onda de náusea subiu pela garganta. Ele virou a cabeça para o lado. E vomitou. O conteúdo ácido espalhou-se pela superfície metálica da maca e escorreu lentamente pelos cantos da estrutura. Por um momento o laboratório ficou em silêncio. Então o Doutor Justino Klépter bateu palmas de alegria.
— Sensacional! — exclamou ele, esfregando as mãos enluvadas como uma criança que acabou de ganhar um brinquedo novo. — Observem isso, meus aprendizes! Resposta fisiológica extrema ao estresse!
Ele caminhou de um lado para o outro diante da maca com energia renovada.
— Muito bem, vamos então proceder ao meu novo experimento… — anunciou teatralmente. — A implantação de um órgão do sistema reprodutor feminino em uma ave ridícula macho! Bem, teoricamente macho!
Quivi parou de chorar por um segundo. Piscou. Tentou processar o que tinha acabado de ouvir.
— Espera um pouco… — disse ele, confuso, com a voz ainda tremendo. — Você vai fazer o quê?
Klépter já não estava prestando atenção. Ele havia se aproximado de um painel de controle holográfico instalado na parede do laboratório. Com movimentos rápidos, começou a apertar uma sequência complexa de botões e alavancas. Luzes coloridas começaram a acender pelo teto, e um som grave de máquinas sendo ativadas percorreu o ambiente.
— Sim. Calibragem perfeita, pressão hidráulica ideal… — murmurava para si mesmo.
Acima da maca, algo começou a se mover. Uma enorme garra mecânica emergiu de um compartimento oculto no teto. A estrutura era formada por braços articulados de metal negro, ligados por pistões e engrenagens que giravam lentamente enquanto o dispositivo descia. Luzes vermelhas piscavam ao longo da máquina. O som de motores elétricos ecoava pelo laboratório. Klépter abriu os braços dramaticamente diante do equipamento.
— Vejam, pupilos! — proclamou com orgulho. — Observem a magnitude da grande garra descendo, prestes a penetrar o ânus encardido dessa ave ridícula, arregaçando-o por completo!
A garra continuava descendo. Lenta. Inevitável. Quando Quivi percebeu que o alvo do mecanismo era seu ânus, o pânico voltou com força total.
— Socorro! — gritou ele, a voz falhando de terror. — Alguém me tira daqui! Eu não quero ser arrombado!
Ele começou a se debater desesperadamente nas tiras de couro. Seus braços tremiam, suas pernas tentavam se soltar, mas as amarras estavam firmes demais. A garra estava agora a poucos centímetros de seu traseiro. Klépter, incomodado com os gritos, ergueu a voz ainda mais alto.
— Cale-se, criatura vil! — berrou o cientista. — É tudo pelo bem da ciência! Fique quieto ou nenhuma cirurgia no Planoverso será capaz de reverter o que farei com você!
Os dois clones continuavam anotando tudo nas pranchetas. Um registrava o nível de resistência muscular. O outro anotava a intensidade vocal do sujeito experimental. Mas Miguel estava visivelmente emocionado. O jacaré observava a cena com olhos brilhando atrás dos óculos grossos. Uma lágrima escorreu lentamente por sua face escamosa. Ele a limpou com delicadeza, e inspirou profundamente.
— Que poético… — murmurou Miguel, com reverência genuína. — O sofrimento da criatura como ferramenta para o avanço do conhecimento…
A garra mecânica continuava sua descida lenta e calculada, como se saboreasse cada centímetro do caminho até a vítima. O laboratório estava tomado por uma tensão quase física, pesada, como se o próprio ar tivesse se tornado denso demais para respirar. Quivi observava aquilo com os olhos arregalados, incapaz de desviar o olhar, enquanto seu corpo preso tremia involuntariamente sobre a maca. Então veio o impacto.
A ponta metálica da garra afundou diretamente no ânus de Quivi, atravessando a pele com um estalo seco. A dor explodiu como uma descarga elétrica pelo corpo inteiro da ave. Um gemido rouco escapou de sua garganta antes que ele conseguisse sequer respirar novamente. Seu rosto se contraiu em uma expressão de pura agonia, e seus músculos se tensionaram contra as tiras de couro que o prendiam. A garra permaneceu ali. Imóvel. Fria. A pressão do metal esmagava às pregas, enquanto os sensores embutidos na máquina registravam cada reação biológica do pequeno corpo de Quivi.
Os monitores holográficos ao redor começaram a exibir leituras frenéticas de pulso, atividade neural e resposta muscular. O tempo parecia esticar. Quatorze segundos inteiros passaram. Então, com um ruído mecânico baixo, a garra se abriu. As placas metálicas internas se expandiram lentamente, separando-se como pétalas de uma flor grotesca. No processo, os ânus de Quivi foi rasgado e destruído, alargado pela pressão das lâminas internas da máquina.
Um filete de sangue escorreu imediatamente pela superfície da maca, formando pequenas gotas vermelhas que desciam pelas laterais metálicas. Os aprendizes observavam aquilo com atenção quase religiosa. O clone obeso anotava números apressadamente. O clone doente tremia enquanto registrava cada detalhe da reação fisiológica.
Miguel, o jacaré, inclinava a cabeça de um lado para o outro, fascinado pela complexidade do procedimento. A garra continuou se abrindo. Mais. Mais um pouco. O mecanismo expandia a ferida com precisão clínica, forçando o tecido ao redor a se distender enquanto Quivi se contorcia na maca. Seus gemidos agora eram curtos e irregulares, entrecortados por respirações desesperadas. O Doutor Justino Klépter observava tudo com os olhos brilhando por trás das lentes rachadas.
A luz das máquinas refletia em seus óculos, transformando seu rosto pálido em algo quase espectral. E então ele começou a rir. Uma gargalhada alta e teatral que ecoou pelo laboratório inteiro. Ele abriu os braços como se estivesse discursando diante de uma plateia gigantesca.
— Esta é a nova era da evolução! — proclamou, a voz reverberando nas paredes metálicas da Base Panspérmica. — Não apenas para o Espaço Térmico, mas para todo o Planoverso!
Ele caminhou lentamente ao redor da maca enquanto a garra continuava seu trabalho cruel.
— Durante milênios, a natureza conduziu a evolução de forma lenta, imprevisível, e quase preguiçosa! — continuou ele, apontando para os monitores que exibiam os dados biológicos de Quivi. — Mas agora, temos algo muito melhor!
Ele bateu o punho fechado na própria palma.
— Controle.
Os aprendizes o observavam com admiração absoluta.
— Cada criatura, cada célula, cada organismo do cosmos pode ser reconstruído, moldado e transformado sob minha supervisão! — declarou Klépter, a empolgação crescendo em sua voz. — Não haverá mais acaso! Não haverá mais erros evolutivos!
Ele se inclinou novamente sobre Quivi, que ainda gemia de dor na maca.
— Apenas aperfeiçoamento.
Klépter levantou a cabeça novamente e abriu um sorriso torto.
— Tudo isso, meus caros, pelo bem da ciência!
Sua risada voltou a ecoar pelo laboratório. Alta. Estridente. Insana. Enquanto isso, preso às tiras de couro, Quivi continuava gemendo de dor. Cada segundo parecia se arrastar como uma eternidade enquanto a máquina avançava em seu procedimento cruel. Para ele, aquele laboratório não era um centro científico. Era um pesadelo mecânico sem fim.
Enquanto Quivi era submetido ao pesadelo científico da Base Panspérmica, Torresminho ainda lutava para não ser descoberto no coração do Castelo Girilo-Milo. A lavanderia do castelo era um lugar grande e abafado, iluminado por lâmpadas industriais que piscavam lentamente no teto alto. Fileiras de varais atravessavam o espaço como teias metálicas, carregadas de uniformes, túnicas imperiais e roupas cerimoniais que balançavam levemente com as correntes de ar. O cheiro predominante era uma mistura estranha de detergentes químicos alienígenas, vapor quente e tecidos antigos. Torresminho permanecia enfiado dentro do cesto de roupas onde havia caído. Lençóis, mantos e panos úmidos estavam amontoados sobre ele, formando uma pilha pesada que pressionava seus ombros e cabeça.
A cada respiração ele precisava se controlar para não fazer barulho. Seu corpo ainda doía da queda, e seu coração batia forte demais para alguém que precisava permanecer invisível. Então ele ouviu. Passos. Leves. Rítmicos. Torresminho congelou imediatamente. Seu instinto foi levantar a cabeça para espiar, mas o medo foi mais rápido. Ele puxou dois panos por cima do rosto e afundou novamente no fundo do cesto, tentando desaparecer no meio das roupas. Os passos se aproximaram. Mais perto. Mais perto. Então algo inesperado aconteceu. O cesto se moveu.
Torresminho sentiu o chão desaparecer sob ele quando o recipiente foi erguido do piso da lavanderia. O movimento foi brusco o suficiente para fazer algumas peças de roupa escorregarem sobre seu corpo. Ele prendeu a respiração. Muito lentamente, abriu um pequeno espaço entre dois tecidos rasgados. Através de minúsculos buracos no pano, conseguiu enxergar quem o carregava. Era uma lavadeira Girilo-Milo. Sua aparência era semelhante à dos outros habitantes do planeta. Corpo esguio, pele amarelada com textura semelhante à de um milho endurecido, e olhos negros alongados que refletiam a luz do ambiente.
Mas havia algo diferente nela. Sua pele possuía um brilho cintilante, quase perolado, como se fosse levemente polida pela umidade constante da lavanderia. Seus braços eram finos e surpreendentemente ágeis, movendo-se com naturalidade enquanto equilibrava o grande cesto cheio de roupas. Ela caminhava com passos rápidos e leves. E assobiava. Uma melodia estranha. Não era exatamente uma música conhecida, mas uma sequência de notas suaves que pareciam ecoar pelas paredes da lavanderia como um canto mecânico. A melodia tinha algo hipnótico, repetitivo, quase como um ritual cotidiano. Torresminho não se mexeu. Nem um músculo.
A lavadeira saiu da lavanderia por uma porta lateral e caminhou por um corredor estreito do castelo. Alguns minutos depois, ela atravessou uma pequena plataforma externa onde várias naves utilitárias estavam estacionadas. Então Torresminho percebeu o destino. A lavadeira estava levando o cesto para dentro de uma pequena nave de transporte. A nave era simples, provavelmente usada para serviços internos do castelo. O casco era opaco, pintado em tons de cinza com marcas de uso e manchas de ferrugem leve. A porta lateral estava aberta, revelando um compartimento pequeno cheio de cestos semelhantes ao que ele estava escondido. Ela entrou. Colocou o cesto no chão com um pequeno impacto. Torresminho permaneceu completamente imóvel. A lavadeira fechou a porta. Houve um clique metálico. Então um som grave percorreu a estrutura da nave.
Motores sendo ativados. Alguns segundos depois, Torresminho sentiu o chão vibrar suavemente sob o cesto. A nave decolou. Sem turbulência. Sem pressa. Subindo lentamente para o céu noturno do Planeta Esferográfico. Dentro do cesto de roupas, Torresminho finalmente abriu os olhos com mais atenção. Ele ainda não fazia ideia de para onde estava indo. Após alguns minutos de viagem, Torresminho percebeu que a nave começava a desacelerar. O leve tremor dos motores mudou de ritmo, e o zumbido constante que preenchia o interior da cabine foi substituído por uma vibração mais grave, típica de uma nave em procedimento de pouso. Segundos depois, veio o impacto suave contra o solo. A nave havia chegado ao destino.
Torresminho permaneceu imóvel dentro do cesto, respirando o mais silenciosamente possível. O cheiro de tecidos úmidos e detergente alienígena já havia impregnado seu nariz, mas agora ele também sentia outra coisa no ar. Uma mudança sutil na atmosfera, como se o ambiente ao redor fosse mais frio e aberto. A porta da nave se abriu com um estalo hidráulico. Passos. A lavadeira voltou. Ele sentiu o cesto ser erguido novamente. Os braços longos da Girilo-Milo o levantaram com relativa facilidade, e Torresminho foi carregado para fora da nave enquanto continuava enterrado entre as roupas.
O movimento mudou a direção da luz que atravessava os pequenos furos do tecido, e por um instante ele percebeu que agora estava em um ambiente muito mais amplo do que o interior do castelo. A alienígena caminhou alguns metros. Então parou. Torresminho ouviu vozes. Não eram muitas. Talvez quatro ou cinco indivíduos. Eles estavam esperando em silêncio. A lavadeira soltou um pequeno suspiro enquanto colocava o cesto no chão com cuidado.
— Eu não sei dizer o motivo, mas essas roupas estão pesadas demais hoje — comentou ela, massageando um dos braços finos. — Mas estão limpinhas, como prometido!
Torresminho permaneceu completamente imóvel dentro do cesto. Do lado de fora, houve um breve silêncio. Então uma mão, ou algo parecido com uma mão, produziu um pequeno tilintar metálico. As criaturas entregaram termofichas, pequenas placas de pagamento energético usadas no Espaço Térmico para transações rápidas entre diferentes espécies. O som das fichas sendo entregues ecoou como pequenos sinos metálicos. A lavadeira pegou o pagamento.
— Obrigada.
A Lavanderia do Planeta Esferográfico agradece a preferência. Sem mais conversa, ela se afastou. Torresminho ouviu os passos dela se distanciando e, logo depois, o som da nave voltando a decolar. Agora o cesto estava nas mãos de outros indivíduos. Os novos carregadores pareciam mais fortes. Eles ergueram o recipiente sem dificuldade, apesar do peso extra que a lavadeira havia notado.
Torresminho tentou espiar novamente pelos pequenos rasgos no tecido. Mas não conseguiu ver quase nada. Apenas sombras. Silhuetas. Movimentos estranhos. As vozes também eram diferentes. Mais graves. Mais lentas.
— Está mais pesado mesmo — disse uma delas.
Alguns deles olhavam curiosamente para o cesto, como se também tivessem notado algo incomum no peso da carga. Por um instante, Torresminho sentiu o recipiente inclinar ligeiramente enquanto um deles provavelmente o examinava. Seu coração acelerou, mas ninguém abriu o cesto. Depois de alguns segundos, os carregadores voltaram a caminhar.
Torresminho sentiu o balanço do cesto mudar de ritmo enquanto era levado para algum lugar desconhecido. O solo parecia levemente diferente sob os passos das criaturas. Mais duro, talvez metálico, ou talvez pedra. Ele fechou os olhos por um instante. Respirou fundo, tentando manter a calma. Preparando-se para qualquer coisa que estivesse prestes a acontecer.
De volta à Base Panspérmica, estacionada em uma das plataformas externas do Castelo Girilo-Milo no Planeta Esferográfico, Quivi permanecia deitado sobre a maca metálica, completamente imóvel. Seu corpo estava fraco. As tiras de couro que o prendiam à mesa haviam deixado marcas profundas na pele, linhas avermelhadas que cortavam suas penas e pressionavam a carne sensível de seus braços e patas. A respiração vinha irregular, curta, e seus olhos ainda estavam úmidos de lágrimas que continuavam escorrendo lentamente pelas laterais do rosto.
A dor em seu ânus pulsava. Cada batida do coração parecia ecoar diretamente naquele ponto ferido. Ele tentou mover os dedos, mas um espasmo de dor o fez desistir imediatamente. Foi então que sentiu algo frio tocar a ferida. Algo metálico. Com a visão ainda turva, Quivi ergueu os olhos com dificuldade. Ali estava o Doutor Justino Klépter novamente, inclinado sobre a maca com concentração absoluta. As mãos enluvadas do cientista se moviam com uma habilidade surpreendentemente delicada, manipulando pequenas ferramentas e componentes minúsculos com precisão cirúrgica.
Entre seus dedos havia um pequeno útero metálico, preso a uma cordinha fina de material sintético. Klépter ajustava cuidadosamente o dispositivo na área aberta do ânus ferido de Quivi, conectando o objeto a pequenos grampos biológicos e fios microscópicos que se prendiam à estrutura da pele e dos nervos.
— Isso, alinhamento perfeito… — murmurou o cientista para si mesmo enquanto trabalhava. — Excelente integração estrutural.
Quivi apenas observava, sem forças para protestar. Sua mente estava cansada demais, e depois de alguns segundos de ajustes, Klépter deu um pequeno puxão final na cordinha e assentiu satisfeito. O útero estava instalado. A pequena peça metálica reluzia sob as luzes frias do laboratório, presa agora ao dedo de Quivi como se sempre tivesse pertencido ali. Klépter ergueu-se lentamente. Observou a obra por alguns segundos. Então sorriu. Um sorriso largo e torto.
Em um gesto teatral, ele se inclinou novamente, levou o rosto perto do ânus da ave e assoprou levemente o útero. Um som agudo ecoou pela sala. Klépter então cuspiu sobre o órgão recém-aplicado, como se estivesse polindo uma joia rara.
— É um belo útero — comentou com orgulho, admirando o resultado final.
Ele deu alguns passos para trás e caminhou até o painel de controle. Seus dedos começaram a pressionar botões com rapidez. Acima da maca, a grande garra mecânica começou a se retrair. As placas metálicas se fecharam lentamente e o braço hidráulico voltou a subir para dentro do compartimento no teto, encerrando oficialmente o procedimento.
Atrás dele, os três aprendizes observavam com fascínio. Miguel foi o primeiro a começar a bater palmas. Logo os dois clones o acompanharam. O laboratório foi tomado por aplausos entusiasmados. Klépter abriu os braços dramaticamente e fez uma pequena reverência, claramente satisfeito com a admiração da equipe.
— Espero que tenham aprendido algo hoje, meus nobres aprendizes — declarou ele, inflando o peito com orgulho. — A ciência exige criatividade, coragem, e uma certa tolerância ao sofrimento alheio.
Miguel anotava tudo com entusiasmo.
— Agora — continuou Klépter — este espécime será levado para a área de contenção. Em breve compartilharei os resultados da transfusão e os dados fisiológicos do implante.
Ele esfregou as mãos novamente.
— E claro, vamos comemorar com uma boa porção de Baunilhetes!
Os três aprendizes pareceram ainda mais animados com a última parte.
— Baunilhetes! — repetiu Miguel com alegria.
O grupo começou a sair do laboratório conversando e rindo sobre os detalhes do experimento. Klépter falava alto, descrevendo possíveis aplicações futuras para implantes biológicos em espécies aviárias enquanto caminhava pelo corredor. A porta automática do laboratório se fechou atrás deles com um som suave. E então o silêncio voltou. Quivi ficou sozinho. Ainda preso à maca.
O laboratório parecia muito maior agora sem as vozes humanas. As luzes continuavam piscando lentamente nos monitores, e máquinas secundárias ainda emitiam pequenos ruídos elétricos ao fundo. O kiwi respirou com dificuldade. Seu corpo estava exausto. Ele olhou para o próprio traseiro. O pequeno útero metálico preso ao ânus brilhava sob a luz fria do laboratório. Quivi engoliu em seco. O peso de tudo que havia acontecido finalmente caiu sobre ele.
Enquanto Quivi permanecia sozinho no laboratório da Base Panspérmica, ainda preso à maca e tentando entender o que havia acabado de acontecer com seu corpo, Torresminho enfrentava uma situação igualmente estranha, embora de natureza completamente diferente. Dentro do cesto de roupas, ele continuava escondido entre tecidos úmidos e mantos dobrados, respirando devagar para não revelar sua presença. A caminhada dos carregadores havia cessado há alguns instantes, e agora o recipiente parecia estar sendo transportado por corredores largos, onde os sons ecoavam de forma diferente.
Torresminho aproveitou um momento de estabilidade e afastou discretamente um pedaço de pano. Dessa vez conseguiu ver melhor. E o que viu fez seu cérebro parar por um segundo. As criaturas que carregavam o cesto não eram Girilo-Milo. Na verdade, eram algo muito mais estranho. Havia dois tipos distintos de seres ao redor dele.
Os primeiros eram claramente os dominantes. Tinham corpos pequenos e compactos, mas sua forma era inconfundível. Pareciam polegares gigantes. Possuíam pernas e braços proporcionais, pequenos olhos, nariz e boca posicionados na superfície arredondada do corpo. Alguns vestiam armaduras rudimentares e seguravam lanças ou armas energéticas primitivas. Esses eram os Falanginos. Apesar da aparência absurda, eles se moviam com disciplina militar e demonstravam inteligência e organização. Suas vozes eram firmes, e seus gestos indicavam hierarquia e autoridade.
Os outros dois carregadores eram diferentes. Muito diferentes. Eles tinham a forma de unhas velhas e desgastadas, com textura irregular, bordas amareladas e superfície estriada como queratina ressecada. Possuíam braços e pernas, mas não tinham rosto, nenhum olho, e nenhuma boca. Não falavam. Não expressavam emoções. Apenas soltavam pequenos grunhidos guturais enquanto executavam tarefas físicas. Esses eram os Queratinos. Uma subespécie menos desenvolvida daquele planeta, evoluída para desempenhar funções de trabalho pesado. Serviam como carregadores, trabalhadores braçais e, segundo rumores de algumas regiões do Espaço Térmico, também eram usados para reprodução biológica da espécie dominante.
Cada um possuía uma textura única, como se fossem literalmente unhas antigas arrancadas de alguma criatura colossal. Torresminho franziu o rosto.
— Que porra é essa?
Então percebeu uma outra coisa. A arquitetura ao redor não lembrava o Castelo Girilo-Milo. As paredes eram formadas por estruturas curvas, lisas, quase orgânicas, com superfícies brilhantes que lembravam placas de queratina polida. O chão tinha uma tonalidade rosada e reflexiva, como se fosse feito de material vivo. Foi então que ele entendeu. Ele não estava mais no Planeta Esferográfico. A nave da lavadeira o havia levado para outro mundo dentro do Espaço Térmico. Ele estava agora no Planeta Cutícula.
Os carregadores continuaram caminhando por mais alguns minutos até chegarem a uma porta monumental que se abriu lentamente diante deles. Do outro lado havia uma sala gigantesca. Um salão imperial. As paredes eram decoradas com ornamentos estranhos feitos de camadas de queratina esculpida, cristais translúcidos e tecidos brilhantes que lembravam cutículas ampliadas. No centro do ambiente erguia-se um trono dourado extravagante, incrustado com pedras e adornos que imitavam formas de unhas polidas.
Sentado ali estava o governante daquele mundo. O Grande Imperador Cutícula. Ele era um Falangino maior que os outros, um polegar robusto e bem formado. Usava uma coroa levemente inclinada sobre o topo arredondado da cabeça e uma longa capa vermelha que arrastava pelo chão. Sua postura era relaxada. Quase preguiçosa. Os servos depositaram o cesto diante do trono e imediatamente se curvaram profundamente.
— Cheirosinha como prometido, senhor — disseram.
O Imperador Cutícula levantou-se lentamente. Seus pequenos pés tocaram o chão polido enquanto ele caminhava até o cesto. Ele olhou para dentro, e então abriu um sorriso largo. Sem cerimônia alguma, começou a devorar as roupas. Arrancava pedaços de tecido com as mãos e levava diretamente à boca, mastigando com entusiasmo. Cada mordida produzia sons abafados de fibras sendo trituradas. Torresminho observava aquilo completamente imóvel.
O Imperador continuou comendo lençóis, mantas, e capas. Tudo desapareceu em sua boca com uma voracidade impressionante. Mas então algo interrompeu a refeição. O Imperador parou. Mastigando lentamente. Franziu a testa.
— Tem uma gosma na minha refeição… — murmurou.
Seus olhos se fixaram diretamente em Torresminho. Torresminho percebeu que não havia mais como se esconder. Ele levantou as mãos devagar e saiu do cesto com cautela, tomando cuidado para não fazer movimentos bruscos.
— Olha… eu não sou nenhum tempero ou condimento — disse, tentando manter um tom diplomático. — Eu não quero confusão. Eu só quero ir embora.
O Imperador Cutícula o observou por alguns segundos. Curioso. Intrigado. Então deu alguns passos à frente. Sem aviso algum, ele segurou Torresminho pela cintura. E tentou beijá-lo. O reflexo de Torresminho foi instantâneo. Ele estendeu o braço e deu um tapa leve no rosto do imperador.
— Sai fora, cacete! Eu curto fêmeas — disse ele, afastando-se e ajeitando a própria postura.
O salão inteiro ficou em silêncio. O Imperador permaneceu imóvel por alguns segundos pensando. Então virou-se lentamente para seus soldados. E fez um pequeno gesto com a mão.
— Ele é bom — declarou.
Imediatamente, todos os Falanginos e Queratinos presentes ajoelharam-se diante de Torresminho. As lanças foram abaixadas. As cabeças se curvaram. Torresminho ficou parado no meio da sala, completamente confuso.