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Capítulo IV: Penas na Cena do Crime

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
11 de jun.
10 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

O que restava do Circo Mequetrefe ainda fumegava sob o céu cinzento do Vale do Sussurro. Cinzas quentes espalhavam-se como neve suja sobre o terreno. Estruturas retorcidas de ferro emergiam do chão carbonizado como ossos expostos. O cheiro era uma mistura persistente de madeira queimada, tecido derretido e algo mais pesado, algo orgânico.


No Vale do Sussurro, o policiamento e o sistema de vigilância funcionavam com a eficiência de uma peneira tentando transportar água. Por isso, apenas cinco horas depois do incêndio, dois representantes oficiais do Departamento de Segurança finalmente chegaram ao local. Dois patos. Héctor e Elias. Conhecidos nos corredores mofados da delegacia como os Agentes Patológicos. Apelido que misturava ironia e desespero institucional. Seus métodos eram duvidosos. Seu profissionalismo, intermitente. Sua reputação, acidental.


Héctor era o mais alto. Penas brancas impecavelmente penteadas para trás, formando um topete exageradamente fixado com gel. Vestia uma camisa de botão clara e uma gravata torta que parecia estar em constante desacordo com o restante do traje. Seus movimentos eram nervosos e desajeitados, como se estivesse sempre a meio segundo de tropeçar na própria autoridade. Elias era mais baixo, com uma monocelha grossa que unia as duas sobrancelhas em uma linha de permanente suspeita. Vestia um suéter azulado e um chapéu fedora inclinado para frente, que ele ajustava com frequência dramática. Acreditava-se intelectualmente superior ao parceiro. Não era.


Héctor saltou do carro oficial, que fazia um ruído preocupante ao desligar o motor, e abriu seu bloco de anotações com entusiasmo quase infantil. Começou a escrever furiosamente. Elias permaneceu parado por alguns segundos, observando o cenário devastado. Cinzas. Fumaça. Silêncio. Depois de alguns minutos, ele suspirou.


— E aí… anotou algo útil?


Héctor ergueu o caderno com orgulho.


— Não exatamente. Só fiz um esboço de um mendigo ridículo que vi hoje de manhã na Rua das Pulgas. Ele usava um chapéu feito de caixa de leite. Tinha um certo simbolismo urbano, sabe? Achei inspirador.


Elias fechou os olhos lentamente. Uma dor começou a pulsar atrás da monocelha.


— Héctor… estamos investigando um incêndio com possíveis vítimas. Não uma exposição de arte marginal. — Ele abriu os olhos e encarou o desenho. — Apesar de eu admitir que o traço ficou… surpreendentemente expressivo.


Héctor sorriu.


— Obrigado.


Elias respirou fundo.


— Foco. Por favor.


Héctor então retirou uma fita amarela do bolso e começou a isolar o perímetro. A fita tremulava desordenadamente no vento, colada em pedaços de ferro retorcido e postes parcialmente queimados. Elias agachou-se e esfregou os dedos na cinza do chão. A textura ainda estava quente em alguns pontos.


— Chegamos cinco horas depois… — murmurou. — O tempo ideal para perder qualquer evidência relevante.


Ele levantou-se, ajustando o fedora.


— Nossa pontualidade é um monumento à decadência institucional.


Héctor já estava caminhando em direção ao que restava das jaulas.


— Olha isso aqui — disse, pisando cuidadosamente sobre ferragens.


Entre o metal deformado, dois corpos carbonizados eram visíveis. Os leões. Restavam formas enegrecidas, ossos expostos sob a camada de fuligem. O cheiro era denso e desagradável. Héctor inclinou a cabeça, analisando com curiosidade distante.


— Interessante padrão de combustão — comentou, como se estivesse observando uma churrasqueira mal regulada.


Elias aproximou-se.


— Dois animais confinados. Incêndio deliberado, talvez. — Ele esfregou o queixo. — Ou simplesmente incompetência estrutural.


Enquanto discutiam hipóteses pouco fundamentadas, um som interrompeu o ar. Um gemido. Baixo. Irregular. Vindo da direção do antigo escritório de Marvin. Héctor e Elias congelaram. Trocaram um olhar. Héctor fechou o caderno. Elias ajustou o chapéu fedora. Sem dizer mais nada, os dois atravessaram os destroços fumegantes, pisando sobre madeira quebrada e pedaços de lona chamuscada. O som veio novamente. Mais claro. Um gemido de dor. E, talvez, a primeira pista concreta daquela tragédia tardia.


A porta do escritório de Marvin estava parcialmente chamuscada, mas surpreendentemente de pé. Elias notou primeiro.


— Estranho… — murmurou.


O escritório ficava numa extremidade lateral do circo, separado do picadeiro principal por uma parede dupla de alvenaria antiga. Reforço estrutural feito ainda na época de Osório Quebra-molas, que desconfiava tanto de incêndios quanto de parentes incompetentes. Além disso, a porta era de madeira maciça tratada com verniz resistente, e as janelas tinham sido seladas anos antes para evitar correntes de ar que distraíam a concentração administrativa, segundo registros antigos. A combinação de isolamento físico e um ângulo menos exposto ao rastro inicial de gasolina poupou o cômodo da destruição total.


Héctor empurrou a porta com o pé. Ela rangeu, liberando uma lufada de ar quente e cheiro de papel queimado. Dentro, entre arquivos carbonizados e uma escrivaninha tombada, havia um corpo. O palhaço. Estava jogado no chão, próximo à parede. O rosto ainda carregava a maquiagem branca e vermelha, agora borrada por suor, lágrimas e sangue seco. A tinta escorreu em trilhas grotescas, transformando o sorriso pintado numa expressão trágica. As roupas coloridas estavam manchadas. A área ao redor do pé esquerdo estava encharcada de sangue, improvisadamente amarrada com um pedaço de tecido rasgado. E o odor era inconfundível. Urina recente misturada ao cheiro ácido de medo. Ele respirava com dificuldade, cada inspiração um esforço doloroso. Elias se ajoelhou ao lado dele, tentando parecer simpático.


— E aí… como é que tá essa força aí, amigão? — perguntou, com o tom de quem nunca treinou para lidar com trauma real.


O palhaço abriu os olhos lentamente. As pupilas tremiam. Ele soltou uma risada fraca, que soou mais como um soluço deslocado da realidade.


— Marvin… — murmurou com voz rouca — Marvin Quebra-molas enlouqueceu. Tudo virou cinzas por causa dele…


Héctor, pela primeira vez, parecia concentrado de verdade. Anotava rápido. Sem desenhar mendigos. Elias e Héctor trocaram um olhar pesado.


— Conta pra gente. Tudo — disse Elias, a voz agora mais firme.


O palhaço ofegou. A dor atravessava cada palavra.


— A esposa dele se jogou pros leões… — disse, a voz quebrando. — Ele leu um bilhete, surtou, matou todo mundo, atirou no meu pé, botou fogo no circo, e saiu. Saiu dizendo que ia pro Reino dos Melões…


Ele engoliu seco.


— Pra pegar uma tal de Flauta Dourada. Disse que ela dava onipotência. Que ia trazer sua esposa de volta…


O silêncio que se seguiu foi pesado. Héctor se endireitou lentamente, fechando o bloco de notas contra o peito como se segurasse um documento histórico. Levou a asa ao rosto em pose dramática.


— Onipotência… — murmurou, como se estivesse processando um conceito complexo.


Elias levantou-se com um suspiro longo e caminhou até o parceiro, batendo-lhe levemente no ombro.


— Héctor, isso é grande. Muito grande. Se essa história de Flauta Dourada for real, a gente não tá falando só de incêndio e homicídio.


Ele ajustou o fedora.


— Estamos falando de poder absoluto. Finalmente vão nos levar a sério.


Héctor guardou o bloco no bolso da calça, os olhos ainda no palhaço. O pobre artista tremia no chão, urinado, sangrando, gemendo. Héctor olhou para ele por um instante, depois olhou para Elias.


— E o palhaço? — perguntou, inclinando levemente a cabeça. — Não deveríamos levá-lo ao hospital?


Elias parou no meio do movimento de pegar as chaves do bolso. Virou-se devagar. A monocelha se contraiu.


— Qual parte da palavra urgência você não entendeu, Héctor? — disse, a voz já carregada de irritação. — Eu tô falando em outra língua? Isso aqui pode ser o maior caso da nossa carreira. Um lobo homicida atrás de onipotência. Isso não é um plantão de pronto-socorro.


Ele girou as chaves no dedo.


— Vamos.


Sem esperar resposta, saiu do escritório chamuscado, pisando firme sobre cinzas e destroços. Héctor ficou parado. Olhou novamente para o palhaço. O artista estremeceu no chão, tentando se erguer alguns centímetros antes de desistir.


— Pessoal, por favor. Só uma carona, eu tô mal… — gemeu, a voz falhando.


Héctor suspirou. O topete permaneceu impecável, mesmo diante do dilema moral mínimo. Ele deu de ombros.


— A vida é cheia de prioridades, amigo.


E saiu. Do lado de fora, o som do carro oficial tentando dar partida ecoou pelo terreno carbonizado. Um arranque. Silêncio. Outro arranque. Silêncio. Héctor franziu a testa, confuso. Elias desceu do veículo, e voltou correndo na direção dele, a monocelha agora em total estado de colapso emocional.


— O que foi? — perguntou Héctor.


Elias parecia à beira de um colapso.


— A porra do rádio ficou ligado! — gritou, gesticulando. — A bateria descarregou!


Héctor piscou. O vento soprou cinzas ao redor deles. Ao fundo, o palhaço ainda gemia no chão do escritório parcialmente intacto. Elias chutou uma pedra com raiva.


— Isso não pode estar acontecendo.


Héctor inclinou a cabeça. Elias chutava o pneu murcho da viatura como se isso pudesse, por pura intimidação, recarregar a bateria. Héctor, coçando o queixo com a ponta da asa, teve um lampejo.


— Eu vi um computador lá dentro. Na escrivaninha do escritório. Se ainda estiver funcionando, a gente pode chamar um táxi pelo sistema municipal.


Elias parou. Virou-se lentamente.


— Você está sugerindo tecnologia funcional?


— Eu sei — disse Héctor, já caminhando de volta. — Também me surpreendi.


Os dois retornaram ao escritório parcialmente intacto. O calor ali dentro já havia diminuído, restando apenas cheiro de papel chamuscado e tinta derretida. A escrivaninha estava tombada de lado. Sobre ela, milagrosamente intacto, um computador antigo de monitor espesso ainda estava ligado à tomada de emergência, uma linha independente que Osório Quebra-molas instalou décadas atrás, paranoico com apagões. Elias levantou o monitor com cuidado. Apertou o botão. Por um segundo, nada. Depois, um chiado eletrônico. A tela piscou. Ligou.


— Milagre administrativo — murmurou Elias, sentando-se na cadeira meio quebrada.


Começou a digitar com rapidez desajeitada, preenchendo um formulário digital de solicitação de táxi. Enquanto isso, o palhaço ainda estava no chão, tentando erguer o tronco com os cotovelos. A maquiagem borrada transformava seu rosto num retrato trágico de abandono.


— Pelo amor das plumas de vocês… — gemeu, a voz falhando — me levem para o hospital, eu tô todo quebrado…


Ele estendeu a mão, trêmula. Elias e Héctor trocaram um olhar. Um olhar cúmplice. E um pequeno sorriso torto surgiu nos dois bicos.


— De novo essa ladainha? — disse Elias, sem sequer virar o rosto. — Como se a gente fosse da ambulância, né, Héctor?


Héctor aproximou-se do palhaço com passos leves, fingindo uma postura solidária, e agachou-se ao lado dele.


— Então você precisa de ajuda? — perguntou com voz doce demais. — Veja bem, nós estamos conduzindo uma operação de alto risco, envolvendo um possível artefato de poder absoluto.


Ele fez uma pausa dramática.


— Sua emergência pessoal, infelizmente, não entrou na pauta estratégica de hoje.


O palhaço encarou-o com incredulidade. Os dois começaram a gargalhar, mais interessados na perspectiva de promoção e reconhecimento do que no artista ensanguentado diante deles. O palhaço caiu novamente contra o chão, ofegante. A buzina do táxi ecoou ao longe. Curta. Impaciente. Héctor ergueu a cabeça.


— Chegou.


Antes de sair, porém, seu olhar vagou pelo escritório. O computador ainda estava ligado, a tela exibindo a confirmação da corrida solicitada. Algo brilhou nos olhos dele.


— Espera, Elias.


Ele se aproximou do equipamento e começou a desconectar os cabos com movimentos desajeitados. Puxava fios, arrancava conectores, tropeçava na própria gravata torta. Por fim, agarrou o monitor pesado e tentou erguê-lo. Não conseguiu. Arrastou. O computador raspou no chão, deixando um rastro na fuligem. Elias observava tudo com absoluto desprezo.


— Me dá uma razão plausível. Só uma — disse, cruzando as asas. — Por que você está sequestrando um computador chamuscado?


Héctor parou por um segundo, tentando parecer estrategista. O monitor escorregou de suas asas e caiu com um baque surdo no chão. Ele piscou.


— Pode conter indícios. Sabe? Arquivos, registros, ou talvez um diário.


Elias suspirou, exasperado.


— O palhaço urinado já nos deu tudo que precisamos. Marvin matou geral, incendiou o circo e fugiu para o Reino dos Melões atrás de uma flauta mística. Isso já é mais informação do que o nosso departamento consegue processar em um trimestre.


Héctor olhou para o computador caído. Chutou-o levemente. Depois, num gesto teatral de frustração, cuspiu na carcaça.


— Ingrato.


A buzina soou novamente. Eles caminharam até a porta do escritório. Quando estavam prestes a sair, Elias parou abruptamente.


— Espera.


Deu dois passos para trás. Héctor piscou.


— O que foi agora?


Elias apontou para a porta do escritório.


— Esqueci de fechar.


Héctor inclinou a cabeça.


— Você está falando sério?


Elias endireitou o fedora.


— Somos profissionais, Héctor. Procedimentos existem por um motivo.


Ele fechou a porta com firmeza. Girou a trava. O clique ecoou seco. Do lado de dentro, o palhaço gemia, ainda no chão, ouvindo o som da tranca se fechar. Elias guardou a chave do carro no bolso com satisfação metódica.


— Organização é tudo.


A dupla atravessou os destroços do que restou do Circo Mequetrefe e caminhou até o táxi estacionado na rua. Era um carro antigo, pintura amarela descascando, motor vibrando de maneira desconfiável. Entraram no banco de trás. O motorista olhou pelo retrovisor.


— Pra onde?


Elias respondeu sem hesitar:


— Reino dos Melões.


O motorista levantou as sobrancelhas.


— É um pouco longe.


— Por acaso te perguntamos alguma coisa? — disse Elias.


O táxi arrancou com um solavanco que fez Héctor bater o topete no encosto do banco. O motorista era um gengibre. Literalmente. Um grande pedaço de gengibre antropomórfico, de casca rugosa e levemente ressecada, com olhos pequenos e irritadiços. Usava uma camiseta com estampa de palmeiras coloridas e uma bermuda cavada que parecia inadequada para qualquer clima, mas especialmente para o Vale do Sussurro. Ele já estava com o pé cravado no acelerador. O carro vibrou.


— Meu nome é Mautheus — disse ele, sem tirar os olhos da estrada. — Vou pegar a Rota da Penitência. É mais longa, mas é o caminho mais direto por fora. Deve demorar um pouco.


Ele fez uma careta súbita.


— Desculpa. Eu sofro de refluxo crônico.


Elias piscou lentamente.


— Nós não perguntamos o seu nome.


Mautheus engoliu seco.


— Eu gosto de me apresentar.


Héctor cruzou as asas.


— O Departamento de Segurança do Vale do Sussurro vai arcar com a ajuda de custo, então apenas dirija.


Mautheus assentiu e manteve o carro acelerando pelas ruas irregulares do Vale, afastando-se da fumaça do circo. No banco de trás, os dois patos começaram a conversar com animação crescente.


— Finalmente — disse Elias, ajeitando o chapéu. — Um caso de verdade. Nada de furtos de galinha ou briga de vizinhos por farinha de rosca.


— É coisa grande — concordou Héctor, empolgado. — Artefato místico. Onipotência. Reino distante. Isso é digno de relatório especial.


Ele olhou para o teto do carro.


— Graças a Pit Mangueira.


Mautheus pigarreou.


— Eu tenho refluxo crônico e não acredito em Pit Mangueira.


Silêncio. Elias virou lentamente a cabeça.


— De novo isso? Ninguém perguntou sobre o seu refluxo — disse, seco. — E muito menos sobre a sua falta de fé, seu ateu do caralho.


Mautheus arregalou os olhos.


— Eu só estava comentando.


— Cala a boca e dirige — cortou Héctor.


Mautheus respirou fundo.


— Perdão, eu só queria interagir. A viagem é longa.


O gengibre engoliu mais uma vez, soltando um pequeno arroto involuntário. O carro ganhou velocidade. Pouco depois, passaram pelo arco de entrada da Rota da Penitência, uma estrada longa e sinuosa que contornava a costa oeste da Pangeia, marcada por placas enferrujadas e iluminação precária. A estrada se estendia como uma cicatriz no horizonte. O táxi avançou por ela. E, em algum ponto adiante, o Reino dos Melões aguardava. Sem saber que múltiplos grupos, cada um com sua própria incompetência, obsessão ou ambição, estavam a caminho.

 
 
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