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Capítulo III: Um Guia para Lugar Nenhum

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
12 de jun.
15 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

A manhã tinha evaporado sem que ninguém percebesse. O começo da tarde infiltrava-se pelas frestas das janelas quebradas do Bar da Dolores, iluminando partículas de poeira e fumaça de cigarro que flutuavam como constelações decadentes. Tigre e o Senhor Macaco ainda ocupavam as banquetas diante do balcão. Oitava rodada. Oito copos. Oito decisões questionáveis. Diante deles, apenas vidros vazios e um leve tremor nas mãos.


As risadas ecoavam pelo ambiente, altas demais, fáceis demais. Eles conversavam sobre tudo e sobre nada. Sobre como o Vale do Sussurro precisava de um prefeito que soubesse ler, sobre a diferença entre heroísmo e estupidez, e sobre a possibilidade de um dia abrirem um negócio juntos. A leveza era artificial. Era líquida. Era sustentada por conhaque e leite de alpaca.


Quando estavam prestes a erguer os copos vazios e pedir mais uma rodada, uma sombra se projetou sobre o balcão. Dolores. Ela surgiu firme, segurando a conta entre as asas impecavelmente cuidadas, o pé batendo no chão pegajoso com um ritmo que não sugeria conversa amigável.


— E então, meus amores… — disse, com um sorriso que era menos gentileza e mais advertência. — Chegou a hora de acertarmos.


Tigre piscou duas vezes, focando com dificuldade. Tirou o chapéu com uma reverência cambaleante, enfiou a pata no bolso interno e puxou uma pequena sacolinha com fichas de unipange.


— Certo, tia Dolores… — murmurou, o sorriso torto. — Quanto ficou pra cada artista dessa tragédia?


Dolores ergueu uma sobrancelha. O olhar deslizou para o Senhor Macaco. Ele estava lustrando cuidadosamente a flauta azul-turquesa com a ponta do colete, como se fosse um instrumento de valor histórico. Dolores inclinou a cabeça.


— Tenho uma forma bem simples de pagamento. — Sua voz ficou mais baixa. — Quero a flauta do macaco.


Silêncio. Um silêncio que não combinava com o Bar da Dolores. Até a égua no palco diminuiu o ritmo da dança. Os pombos mafiosos interromperam a conversa. A lontra parou de discutir com o próprio reflexo.


Tigre virou lentamente a cabeça para o macaco. O Senhor Macaco piscou. Depois ergueu as sobrancelhas. O sorriso travesso começou a se formar. Com um movimento deliberadamente teatral, ele guardou a flauta na pochete. Subiu no banco. Abaixou ligeiramente a pochete. E então, com absoluto desrespeito à lógica e ao bom senso, bateu o próprio pênis no balcão. O pênis pulsava, rígido, balançando de um lado para o outro como uma serpente provocadora.


— Aqui está a minha flauta! — anunciou, exibindo um sorriso insolente.


O bar explodiu. Gargalhadas altas. Assobios. Murmúrios indignados. Um copo caiu no chão. Dolores ficou imóvel por meio segundo. Depois o rosto dela ficou vermelho. Não de vergonha. De fúria. Ela deu um passo para trás, abriu as asas em imponência total e ergueu a voz:


— Augusto! Rômulo! Levem esses dois idiotas daqui!


A porta do bar se abriu com violência. Augusto, o urso mais baixo e volumoso, vestindo uma camisa xadrez tensionada, entrou primeiro, os olhos estavam brilhando com sede de vingança. Atrás dele, Rômulo, o mais alto, com um topete impecável, que usava óculos escuros mesmo dentro do bar, e mascava chiclete com uma calma irritante. Os dois avançaram com passos pesados.


O chão pegajoso estalava sob o peso deles. Augusto soltou um grunhido baixo, claramente ansioso para quebrar algo, ou alguém. Rômulo apenas inclinou a cabeça, avaliando a situação com frieza calculada. Tigre olhou para o macaco. O macaco olhou para Tigre. A oitava rodada evaporou da mente dos dois.


— Tá vendo? — murmurou Tigre. — Eu falei que você ia dar problema.


— Relaxa, listrado — respondeu o macaco, ainda sorrindo. — Vai ser só uma conversa corporal.


Os ursos estavam a poucos passos. Augusto foi o primeiro a atacar. O urso gordo avançou como um bloco de concreto com raiva acumulada. Tigre mal teve tempo de sair da banqueta antes que o primeiro empurrão o lançasse contra uma mesa lateral. O impacto derrubou copos, espalhando restos de bebida e fazendo o chão já pegajoso se tornar uma armadilha ainda mais traiçoeira. Tigre reagiu por instinto. Desferiu um soco direto no queixo de Augusto. Foi como socar uma parede estofada. O urso mal moveu a cabeça. Rômulo, mais calculado, interceptou o Senhor Macaco que tentava escapar por baixo do balcão. O primata deu uma cambalhota sobre uma mesa, chutou um copo no ar e tentou se lançar em direção à porta da cozinha.


Rômulo agarrou-o pela cauda no meio do salto. O macaco rodopiou no ar como um brinquedo arremessado e bateu com as costas no chão, arrancando uma reação coletiva da plateia improvisada. Tigre tentou avançar novamente, mas Augusto o ergueu pela cauda e o suspendeu do chão com uma facilidade constrangedora. Tigre debateu-se, desferindo dois socos rápidos na barriga volumosa do urso, que respondeu apertando-o contra o peito com força esmagadora.


O Senhor Macaco tentou morder a pata de Rômulo. Rômulo levantou-o com uma só mão, segurando-o pelo pescoço do colete, enquanto mascava chiclete com uma expressão entediada. Em menos de dez segundos, a resistência acabou. Os dois estavam suspensos no ar, cada um nas mãos de um urso. Dolores observava da porta do bar, asas cruzadas, expressão satisfeita.


— Vocês estão banidos do meu bar para sempre! — gritou, com voz que cortava o ambiente.


Augusto e Rômulo atravessaram a porta e arremessaram Tigre e o Senhor Macaco na rua de pedra do Vale do Sussurro. Os dois bateram no chão com um baque seco, levantando poeira. A porta do bar se fechou com força atrás dos ursos. Silêncio momentâneo. Deitados na calçada, olhando para o céu turvo, Tigre virou a cabeça lentamente para o lado. O Senhor Macaco começou a rir. Primeiro um riso baixo, e depois gargalhadas descontroladas, quase histéricas. Tigre ajustou o chapéu amassado com dignidade ofendida. Levantou-se devagar.


— Você é imbecil, seu filho de um cacete? — explodiu, apontando para o macaco. — Bater a porcaria do seu pênis no balcão? A gente acabou de ganhar uma expulsão vitalícia! Eu amava aquele bar!


O Senhor Macaco se levantou, sacudindo o colete roxo como se nada tivesse acontecido.


— Relaxa, listrado — disse, ainda rindo. — Você fala como se fosse a primeira vez que é expulso de algum lugar. Banimento é currículo.


Tigre rangeu os dentes.


— Eu frequentava aquele lugar desde adolescente!


— E agora você evoluiu — respondeu o macaco, com brilho malicioso nos olhos. — Tá pronto pra explorar novos horizontes alcoólicos.


Antes que Tigre pudesse responder, um estrondo ecoou pela Rua das Pulgas. Um caminhão de lixo surgiu na entrada da rua, desgovernado, avançando em velocidade imprudente. O caminhão passou como um míssil enferrujado. E então veio o impacto. A bicicleta de carteiro de Tigre, largada no meio da rua, foi esmagada sob as rodas pesadas. O metal entortou com um estalo brutal. O caminhão deu um pequeno salto, como se tivesse passado por um obstáculo qualquer, e uma parte da carga se desprendeu.


Sacos de lixo, restos orgânicos, papelões e trapos voaram e caíram no meio da rua. O motorista sequer reduziu a velocidade. Seguiu adiante. Silêncio. Entre os montes de lixo recém-despejados, algo se mexeu.


— Socorro!


Tigre e o Senhor Macaco se entreolharam. O lixo tremeu novamente.


— Alguém me ajude!


Um braço metálico emergiu entre sacos rasgados.


— Eu não gosto da sensação de decomposição!


Laércio. O aspirador estava coberto de restos de comida, papéis sujos e uma meia solitária. Os dois correram. O Senhor Macaco começou a puxar sacos de lixo para o lado, jogando-os na rua com pressa. Tigre segurou Laércio pelas laterais metálicas e puxou com força até libertá-lo da montanha de detritos. Juntos, arrastaram o aspirador até a calçada em frente ao bar recém-banido. Laércio estava amassado, sujo, mas funcional. Os olhos de vidro piscavam.


— Eu prefiro a violência à coleta pública — murmurou, fraco.


Tigre e o Senhor Macaco se entreolharam novamente. A tarde, que prometia apenas ressaca e orgulho ferido, agora tinha um aspirador de pó vivo resgatado do lixo. Laércio estava coberto de restos de lixo, mas o que mais chamava atenção não era a sujeira. Era o olhar. Os olhos de vidro, normalmente marejados por medo constante, agora exibiam algo diferente. Pânico real.


— Por favor… — disse ele, a voz metálica falhando levemente. — Vocês precisam me ajudar. Precisamos deter Marvin Quebra-molas.


Tigre franziu a testa. O Senhor Macaco inclinou a cabeça. Tigre se agachou ao lado do aspirador, apoiando os cotovelos nos joelhos.


— Deter Marvin? — repetiu. — O lobo dono daquele circo decadente? O que foi que ele fez agora? Cobrou ingresso pra ver ensaio?


Laércio respirou fundo, o motor vibrando baixo enquanto tentava estabilizar a própria narrativa.


— Ele enlouqueceu. A esposa morreu. Ele destruiu o circo. Matou quem estava lá. Incendiou tudo. — A voz ficou mais grave. — E agora ele quer a Flauta Dourada.


O nome pairou no ar.


— Flauta Dourada? — murmurou Tigre.


— Um artefato místico — continuou Laércio. — Concede onipotência ao portador. Ele acredita que pode usá-la para trazer Clarissa de volta. Se conseguir, não haverá limite para o que fará depois. Ele já não tem controle. Com poder absoluto, se tornará algo pior que isso.


O Senhor Macaco, que até então parecia apenas curioso, teve os olhos iluminados por algo bem diferente de preocupação.


— Onipotência? — repetiu, lentamente.


Ele coçou a virilha com displicência e lançou um sorriso enviesado para Tigre.


— Cheirador de pó, hoje é o seu dia de sorte. — Ele apontou para o tigre. — O listrado aqui é praticamente um herói comunitário. Um bastião moral. Ele jamais recusaria ajudar um miserável fodido e desprezível como você.


Tigre lançou um olhar atravessado. O Senhor Macaco deu de ombros. Tigre ficou em silêncio por alguns longos segundos. Ele deveria dizer não. Era o lógico. Era o responsável. Mas a palavra onipotência ecoava com força desconfortável. E havia outra coisa. A perspectiva de não voltar para o trabalho naquela tarde. A possibilidade de uma aventura que não envolvesse cartas atrasadas e bicicletas esmagadas. E, talvez, a chance de provar que era melhor que o Senhor Macaco em alguma coisa que realmente fosse importante. Ele suspirou.


— Tá. — Passou a pata pelo rosto. — Tá bom. Se tem um lobo psicótico indo atrás de poder divino, alguém precisa pelo menos verificar.


O Senhor Macaco abriu um sorriso largo. Laércio se ajeitou sobre as rodinhas tortas, sacudindo discretamente um pedaço de papel sujo que ainda estava preso à sua lateral, e endireitou o corpo metálico como pôde.


— Meu nome é Laércio — declarou, tentando soar solene apesar da amassadura evidente. — Sou, como podem ver, um aspirador de pó. Mas o que não sabem é que aspirei acidentalmente uma bola de cristal pertencente a uma vidente. Desde então, tenho visões fragmentadas. Relances do futuro. Ecos de eventos. Caminhos possíveis.


Tigre e o Senhor Macaco se entreolharam. O macaco, teatral como sempre, fez uma reverência exagerada.


— Prazer, cheirador de pó. Eu sou o Senhor Macaco. Gênio do improviso, apreciador da boa vida, artista plástico nas horas vagas e, se tudo der certo, seu novo melhor amigo.


Piscou. Tigre suspirou. Tirou o chapéu, coçou a cabeça e recolocou-o com dignidade cansada.


— Guillard Tigroso. — Fez uma leve inclinação de cabeça. — Mas pode me chamar de Tigre. Só minha mãe me chama de Guillard quando quer me humilhar.


Nesse momento, o Senhor Macaco, distraído, retirou uma pequena meleca do nariz com o dedo indicador e, com uma naturalidade perturbadora, esfregou-a na lateral metálica de Laércio.


— Um presente inaugural — disse, sorrindo.


Tigre ficou vermelho. Ele usou a própria cauda para limpar o metal do aspirador, esfregando com força. Laércio decidiu ignorar o gesto.


— Como eu dizia… — retomou, apressado — a Flauta Dourada está em um templo escondido no Reino dos Melões. Há um guardião. Alto. Encapuzado. Armado com um cajado. O único trajeto que visualizei passa pelo sistema de esgoto. Todos os esgotos da Pangeia são interligados. Formam uma rede subterrânea que leva até lá.


Ele baixou levemente a mangueira.


— Porém, grande parte desse trajeto é inundado. Há trechos completamente submersos. Meu motor interno e meus circuitos não resistiriam à imersão prolongada. Eu entraria em curto-circuito em minutos. Não sobreviveria.


Tigre coçou o queixo, pensativo. O Senhor Macaco bateu palmas uma vez, animado.


— Então deixa eu ver se entendi, meu pequeno caralho de metal. Você quer impedir um lobo psicótico de alcançar onipotência, mas não consegue nem atravessar o próprio caminho que viu? Isso está ficando cada vez mais interessante.


Tigre lançou-lhe um olhar atravessado.


— Ele não pediu pra nascer eletrodoméstico.


O macaco abriu os braços.


— Honestamente eu iria preferir me matar.


Tigre suspirou.


— Tá. Se o esgoto é inviável pra você, a gente precisa de alguma alternativa.


Foi então que um som de vidro rangendo ecoou atrás deles. Os três se viraram. O indivíduo de boina aproximava-se da entrada do bar. Agora, sob a luz turva da Rua das Pulgas, sua aparência ficava clara. Ele era um grande copo de leite antropomórfico. O líquido branco preenchia seu corpo translúcido. Braços e pernas saíam da estrutura de vidro espesso. Vestia um sobretudo velho, manchado, e uma boina rasgada inclinada para o lado. O rosto era sério. Olheiras profundas marcavam o vidro, como sombras internas no leite. Uma barba por fazer desenhava-se na superfície externa, como se tivesse sido desenhada e nunca apagada. Em uma mão, segurava um cigarro aceso. Na outra, uma caneca de cerveja sabor mostarda.


Ele deu um longo gole. Depois arremessou a caneca no chão, que se despedaçou em fragmentos amarelos e viscosos. Tragou o cigarro. Aproximou-se mais. A voz saiu grave, áspera, como vidro raspando vidro.


— Oi, bando de baitolas. Eu não pude deixar de ouvir a conversa de vocês.


Pausa. O olhar passou por cada um.


— E já adianto que existe sim outro caminho para chegar até o Reino dos Melões.


O silêncio que se seguiu não era cômico. Era esperança. Tigre estreitou os olhos. O Senhor Macaco sorriu. Laércio vibrou levemente. E a aliança improvável começava a ganhar um quarto elemento. O copo de leite deu mais uma tragada lenta, como se o tempo obedecesse ao seu ritmo. Depois deixou o cigarro cair no chão da Rua das Pulgas e esmagou a ponta com o sapato gasto. A fumaça subiu fina.


— Eu me chamo Desnatado — disse, ajustando a boina rasgada. — Caçador de recompensas. Especialista em localizar iguarias raras, artefatos escondidos e gente que prefere não ser encontrada. Pelo preço certo, eu posso ajudar vocês a chegar até essa tal Flauta Dourada.


Laércio piscou devagar. O metal rangeu levemente quando ele endireitou o corpo.


— Agradeço, mestre Desnatado. Seu conhecimento pode ser decisivo para evitar uma catástrofe. No entanto… — hesitou — eu não possuo nenhuma unipange comigo.


O Senhor Macaco já estava se aproximando. O sorriso que ele usava em golpes pequenos agora surgia com ambição maior.


— Escuta aqui, caro lactose — disse, estendendo a mão como se estivesse fechando contrato de milhões. — Eu sou um primata de recursos. Posso compensá-lo generosamente. Muito generosamente.


Desnatado sorriu. Mas o olhar permaneceu duro. Cético.


— É claro que você pode — respondeu, seco. — Eu ouvi a conversa inteira dentro do bar. Se eu estivesse atrás de entretenimento barato, teria ficado pra ver vocês apanharem mais um pouco. Aliás… excelente desempenho contra os seguranças.


O Senhor Macaco abriu um sorriso afetuoso. Desnatado retirou outro maço de cigarros do bolso do sobretudo. Acendeu mais um com o isqueiro. Tragou. Ele lançou um olhar breve para Tigre e Laércio, avaliando. Depois assentiu levemente com a cabeça.


— Vou pegar minhas tralhas.


E virou-se para entrar novamente no bar. A porta abriu e fechou atrás dele. Tigre cruzou os braços. O silêncio que ficou entre ele e o macaco era carregado de análise.


— Muitos recursos, é? — disse Tigre, arqueando uma sobrancelha. — Desde quando você tem alguma coisa além de um laudo cheio de doenças sexualmente transmissíveis?


O Senhor Macaco inclinou-se para perto dele, falando em tom baixo.


— Quem disse que eu tenho? — murmurou, com um meio sorriso. — A questão não é ter. É fazer parecer que tem.


Ele lançou um olhar rápido para a porta do bar.


— E quem garante que esse copo de leite sabe mesmo outro caminho? Se ele estiver blefando, a gente descobre no meio do percurso. Até lá, ele serve.


Tigre bufou, ele conhecia aquele olhar. Poucos minutos depois, a porta do bar abriu novamente. Desnatado saiu com uma mochila jogada sobre um dos ombros. Era uma mochila antiga, de lona grossa, manchada por respingos de algo que poderia ser mostarda, ou algo menos identificável. Costuras reforçadas com linha preta grossa seguravam rasgos antigos. Pequenos bolsos laterais estavam inchados, como se guardassem ferramentas ou objetos metálicos. Uma alça havia sido remendada com fita isolante enrolada várias vezes. Ela tinha aparência de quem já cruzou mais fronteiras do que devia. Desnatado ajustou a boina, puxou o sobretudo para baixo e encarou o trio.


— Estou pronto. — A voz era firme. — Quanto antes começarmos, melhor.


Tigre assentiu, mas não respondeu imediatamente. Seus pensamentos estavam ocupados. Ele observava o Senhor Macaco pelo canto do olho. O primata parecia animado demais. Havia um brilho que não combinava apenas com ajudar a salvar o mundo. Tigre sentia um desconforto crescente. A suspeita de que o macaco já estivesse calculando como se beneficiar daquela jornada. Talvez até planejando se livrar de Desnatado assim que o copo de leite cumprisse seu papel. Laércio interrompeu.


— Antes de partirmos, preciso entender. Desnatado, você mencionou outro caminho. Qual exatamente?


Desnatado caminhou alguns passos à frente, como se já estivesse conduzindo uma tropa.


— Existem três rotas possíveis. A primeira é o subterrâneo da Pangeia. Esgoto interligado, acesso direto, mas perigoso e impraticável para nosso amigo eletrodoméstico.


Ele levantou um dedo.


— A segunda é a Rota da Penitência. Uma avenida longa que contorna toda a costa oeste. Conecta vários territórios até alcançar o Reino dos Melões. É mais segura, mas exige um veículo próprio.


Ele lançou um olhar significativo. Tigre e o Senhor Macaco olharam automaticamente para a bicicleta esmagada no meio da rua, ainda retorcida sob as marcas do caminhão de lixo. Silêncio. Desnatado continuou.


— Como eu posso ver, nenhum dos marmanjos aqui tem carro.


O Senhor Macaco pigarreou.


— Eu tenho carisma.


— Carisma não anda na Rota da Penitência — respondeu Desnatado.


Ele levantou outro dedo.


— A terceira opção é atravessar o Vale do Sussurro por dentro. Pegamos um ônibus até a antiga Fábrica de Palmitos da Madame Brígida. O terreno da fábrica marca o limite final do Vale. Depois disso, atravessamos o Desfiladeiro das Almas Desesperadas.


Laércio emitiu um ruído nervoso.


— Nome reconfortante.


— É o único ponto natural que separa o Vale do Sussurro do Reino dos Melões — completou Desnatado. — E sim, eu pago o ônibus.


O Senhor Macaco abriu um sorriso largo. Tigre respirou fundo. Era insano. Mas era possível. E, no fundo, melhor do que voltar para o Albergue das Andorinhas e encarar a realidade de duas unipanges por ano.


— Tá — disse ele. — Terminal de ônibus então.


O grupo começou a se mover. Laércio rolava ao lado deles, ainda com restos de lixo presos à carcaça. O Senhor Macaco caminhava saltitando de leve, aparentemente empolgado. Desnatado seguia à frente, postura firme, como alguém acostumado a conduzir missões perigosas. O Terminal de Ônibus do Vale do Sussurro ficava a duas quadras da Rua das Pulgas. À medida que se aproximavam, o cheiro de óleo queimado e metal quente começava a substituir o odor de conhaque e leite de alpaca.


O Terminal de Ônibus do Vale do Sussurro parecia ter sido construído na mesma época em que o conceito de manutenção foi abandonado. O teto de zinco estava manchado por infiltrações antigas. Goteiras constantes alimentavam poças que jamais secavam. O chão era um mosaico de chicletes fossilizados, manchas indefinidas e bitucas de cigarro esmagadas. O cheiro era uma combinação agressiva de óleo queimado, suor envelhecido e urina que já havia se tornado parte estrutural do concreto.


Os bancos eram de metal, tortos e gelados, alguns com parafusos aparentes. Um deles estava parcialmente derretido, ninguém sabia como. O quarteto se acomodou ali. Tigre sentou-se e começou a jogar o chapéu para cima, pegando-o de volta com precisão quase infantil. Repetia o gesto como quem tenta provar para si mesmo que ainda controla alguma coisa. O Senhor Macaco estava absorto, polindo novamente sua flauta azul-turquesa com a ponta do colete. Girava o instrumento sob a luz suja do terminal, admirando as marcas de mordida como se fossem medalhas. Laércio tremia levemente com a mangueira encolhida, e estava com uma ansiedade crescente. Desnatado retornou da bilheteria com passos firmes. Na mão, quatro passagens amareladas.


— Vamos descer no Ponto 12½ — anunciou. — Mesma rua da antiga Fábrica de Palmitos da Madame Brígida.


Entregou uma a cada um. O Senhor Macaco olhou para o papel, depois para Desnatado.


— E comida? Eu tô com fome.


Desnatado não respondeu com palavras. Abriu a mochila e retirou um pacote de Baunilhetes, bolinhos amanteigados de baunilha, famosos em toda a Pangeia pelo aroma doce e textura macia. Antes que qualquer divisão fosse sugerida, o Senhor Macaco arrancou o pacote das mãos dele.


— Nutrição é essencial para manter o meu pênis em forma! — declarou.


E começou a devorar os bolinhos um atrás do outro, sem cerimônia, migalhas grudando nos pelos do queixo e no colete. Tigre apenas observou.


— Você é uma vergonha ambulante.


O macaco resmungou com a boca cheia. Um ronco metálico anunciou a chegada do ônibus. Ele surgiu na esquina tossindo fumaça escura pelo escapamento. A lataria era azul desbotado, com remendos de tinta em tons ligeiramente diferentes. As portas rangiam ao se abrir, liberando um suspiro hidráulico cansado. O interior era igualmente sofrido. Assentos de tecido rasgado, espuma exposta em alguns pontos. Barras de ferro pegajosas ao toque. Uma lâmpada piscava intermitente no teto. No banco do motorista estava um camaleão velho. A pele variava entre tons desbotados de verde e marrom, adaptando-se lentamente ao ambiente. Seus olhos esbugalhados se moviam de forma independente, analisando passageiros com desconfiança burocrática. Ele mascava algo indefinido.


— Passagem — disse, a voz rouca.


Desnatado entregou as quatro. O camaleão examinou cada uma demoradamente, como se estivesse procurando motivo para implicar. Depois assentiu. O grupo subiu.


Tigre escolheu um banco próximo à janela, ajustando o chapéu e esticando as pernas. O Senhor Macaco ocupou o assento atrás, colocando os pés no banco da frente sem qualquer pudor. Laércio posicionou-se no corredor, travando as rodinhas para não deslizar. Desnatado sentou-se mais à frente, perto da porta, postura alerta.


O ônibus fechou as portas com um estalo pesado. O motor roncou. E começou a se mover. Pelas ruas irregulares do Vale do Sussurro, deixando para trás o terminal decadente, o bar do qual foram expulsos, e as cinzas invisíveis do Circo Mequetrefe.

 
 
Capítulo II: O Circo Depois dos Aplausos

Não muito longe do Bar da Dolores, distante o suficiente para não dividir a mesma clientela, mas perto o bastante para compartilhar o mesmo cheiro, erguia-se o Circo Mequetrefe. Ou o que restava dele.

 
 
Capítulo IV: Penas na Cena do Crime

O que restava do Circo Mequetrefe ainda fumegava sob o céu cinzento do Vale do Sussurro. Cinzas quentes espalhavam-se como neve suja sobre o terreno. Estruturas retorcidas de ferro emergiam do chão ca

 
 

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