Capítulo II: Só se fala em outra coisa
- Vincente R. da Silva

- 13 de jun.
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Atualizado: 21 de jun.
Não muito longe do Bar da Dolores, distante o suficiente para não dividir a mesma clientela, mas perto o bastante para compartilhar o mesmo cheiro, erguia-se o Circo Mequetrefe. Ou o que restava dele. Sob o céu permanentemente embaçado do Vale do Sussurro, o circo parecia um organismo moribundo tentando fingir vitalidade. A grande lona central, que um dia foi vermelha vibrante com detalhes dourados, agora exibia tons indefinidos entre ferrugem e tristeza. Remendos costurados às pressas formavam um mosaico de fracasso acumulado.
O Circo Mequetrefe pertencia à família circense de lobos Quebra-molas. Houve um tempo, e esse tempo era repetido como lenda, em que o circo foi um espetáculo requisitado. Pessoas influentes de todos os cantos da Pangeia viajavam por semanas para assistir às apresentações. Nobres, comerciantes ricos, artistas renomados. O picadeiro já testemunhou aplausos que ecoavam como tempestades.
O fundador, Osório Quebra-molas, era lembrado como um visionário excêntrico, mas disciplinado. Um lobo que compreendia espetáculo e gestão. Agora, na quarta geração, o brilho havia sido trocado por ferrugem. As barracas laterais estavam mal cuidadas, com tecidos rasgados pendendo como bandeiras rendidas. O cheiro de pipoca velha misturava-se ao odor azedo de suor acumulado, graxa e animais que já não lembravam quando fora o último banho. O chão era coberto por uma poeira tão compacta que quase formava uma crosta. Cada passo levantava pequenas nuvens opacas que dançavam sob luzes intermitentes. As lâmpadas penduradas piscavam em ritmos desiguais, criando uma iluminação errática, como se o próprio circo estivesse respirando em espasmos.
Era um lugar onde o desespero não era acidente. Era cenário. No meio desse caos caminhava Marvin Quebra-molas. Lobo de pelagem negra e densa, forte de estrutura e instável de temperamento. O cabelo, mais longo no topo, era repartido ao meio com obsessiva precisão. Seus olhos semicerrados carregavam a constante ameaça de explosão. Havia algo nele permanentemente à beira do colapso.
Vestia um terno listrado que outrora era vermelho e branco, mas agora ostentava um tom desbotado, indefinido, que lembrava vômito diluído sob chuva. O tecido pendia sobre seu corpo musculoso, mas desalinhado, como se o traje também tivesse perdido a vontade de colaborar.
Marvin era bisneto de Osório Quebra-molas. E um péssimo administrador. Viciado em comprar qualquer objeto que lhe parecesse promissor, e acumulador compulsivo de equipamentos inúteis, artistas duvidosos e dívidas incontáveis. Sob sua gestão, o circo escorregava cada vez mais rápido rumo à falência. Ele marchava pelo picadeiro, as garras batendo no chão com irritação crescente.
— Clarissa! — rugiu, a voz reverberando sob a lona cansada. — Onde você se meteu, vagabunda?!
Silêncio. Apenas o estalo de uma lâmpada falhando. Marvin respirou fundo, os dentes à mostra. Desistiu de gritar. Seu olhar recaiu sobre um lençol escuro jogado num canto do picadeiro, cobrindo um volume metálico. Ele caminhou até lá e puxou o tecido com violência. Revelando Laércio.
Laércio era um aspirador de pó antigo. Ou melhor: um aspirador de pó vivo. O corpo cilíndrico metálico exibia riscos e manchas de ferrugem. Rodinhas tortas sustentavam sua base. A mangueira flexível pendia como um braço nervoso. Dois pequenos olhos de vidro haviam sido adaptados acima do compartimento de pó, constantemente marejados, conferindo-lhe uma expressão de pavor permanente. Ele foi comprado por Marvin por cinco unipanges no Gueto das Marmotas. Um investimento funcional, segundo o lobo.
Certa vez, enquanto limpava o picadeiro, Laércio acidentalmente aspirou a bola de cristal de Magnólia, a coruja vidente do circo. O objeto místico quebrou-se parcialmente dentro do compartimento. Desde então, algo mudou. Laércio começou a ter visões fragmentadas. Imagens borradas do futuro. Ecos de lugares ou coisas que alguém desejava encontrar. Nunca com nitidez. Nunca completas. Mas suficientes para torná-lo útil, e miserável. Marvin aproximou-se e bateu impaciente com as garras na lateral metálica.
— Levanta, seu monte de bosta! — rosnou. — Quero saber onde a Clarissa se enfiou. Agora. Antes que eu te desmonte peça por peça.
Laércio esticou o corpo metálico com um rangido baixo. Seus olhos de vidro piscaram, marejados.
— Senhor, violência não melhora a precisão das minhas visões — disse, a voz frágil, vibrando como motor cansado. — Talvez, se o senhor respirasse um pouco.
Marvin espumou e mostrou os dentes.
— Eu não estou com humor pra terapia doméstica, Laércio! Encontre a Clarissa!
O aspirador soltou um suspiro mecânico. Fechou os olhos de vidro. Uma leve fumaça começou a escapar por suas pequenas entradas de ar, como se estivesse farejando algo invisível. O corpo tremeu levemente. A mangueira se contraiu. Imagens fragmentadas atravessavam sua consciência metálica: barras de ferro, sombra felina, cheiro de carne crua, e respiração pesada. Ele abriu os olhos abruptamente. Havia brilho ali. E medo.
— Ela está… — a voz quase falhou — dentro da jaula dos leões.
Marvin piscou, incrédulo.
— Na jaula dos leões? — rosnou. — O que essa biscate acha que está fazendo lá?
Laércio apenas engoliu seco, um ruído estranho vindo do interior metálico, e desviou o olhar. Marvin já estava em movimento. Com um rosnado baixo e crescente, disparou em direção à área das jaulas. Passou por pilhas de serragem suja, caixas empilhadas, correntes jogadas no chão e o cheiro denso de animais que não viam limpeza há tempo demais. As jaulas ficavam na parte posterior do circo, atrás do picadeiro principal. De longe, ele não conseguia ver nada. Apenas as grades escuras. Então se aproximou. O cheiro de carne e pelo se intensificou. E algo ali dentro se moveu.
Dentro da jaula dos leões, sentada sobre um fardo de palha já amarelado pelo tempo, estava Clarissa Quebra-molas. Ela era uma loba que, mesmo naquele ambiente decadente, parecia carregar um resquício de outro mundo. Seus pelos tinham um tom dourado suave, quase cor de mel aquecido sob o sol. Havia um brilho natural ali, ainda que agora enfraquecido, que contrastava com o cinza poeirento do circo. Seus traços eram delicados, mas firmes. Os olhos, grandes e expressivos, carregavam uma inteligência silenciosa.
Clarissa foi, por anos, o maior espetáculo do Circo Mequetrefe. Bailarina de precisão impecável, dominava o picadeiro com movimentos que combinavam leveza e intensidade. Seu corpo desenhava arcos no ar com uma fluidez quase hipnótica. As curvas de seus gestos, mais do que as do próprio corpo, capturavam a atenção de qualquer plateia. Não era apenas beleza física. Era presença.
Ela sabia ocupar o espaço. Sabia conduzir olhares. Sabia transformar silêncio em expectativa. Mas sua história não seguiu o roteiro que merecia. A família de Clarissa era rica. Tradicional, influente, e financeiramente sólida. A dos Quebra-molas tinha nome, reputação circense, e tradição.
O casamento entre os dois foi decidido menos por amor e mais por conveniência estratégica. Dinheiro e prestígio. Uma união perfeita no papel. Marvin assumiu o circo logo depois. E gastou toda a fortuna com uma velocidade impressionante. Comprou equipamentos inúteis, investiu em atrações duvidosas, apostou em esquemas de pirâmide apresentados por um guaxinim de fala rápida, contraiu empréstimos com agiotas que sorriam demais. O dinheiro evaporou em quinquilharias, promessas e ego inflado.
Quando as finanças começaram a ruir, veio o ciúme. Clarissa continuava brilhando no picadeiro. E o brilho dela atraía olhares de barões itinerantes, comerciantes ricos, e de figuras importantes da Pangeia que ainda visitavam o circo por nostalgia. Marvin não suportava. Um dia, simplesmente proibiu. Proibiu que ela dançasse. Disse que era indecente. Disse que estava se expondo demais. Disse que precisava preservar a imagem da família.
Na verdade, ele queria preservar o próprio controle. Sem o picadeiro, Clarissa perdeu o palco. Sem o palco, perdeu parte de si. O brilho nos olhos começou a diminuir. A postura antes firme tornou-se contida. A energia vibrante transformou-se em silêncio prolongado.
Ela entrou em depressão. A melancolia tornou-se rotina. Agora, sentada na jaula dos leões, onde dois grandes felinos descansavam ao fundo, indiferentes à sua presença, ela mantinha o olhar perdido através das grades, como se buscasse no horizonte uma lembrança de quem já foi. Do lado de fora, passos pesados se aproximavam. Marvin. E naquela jaula, entre feras enjauladas e sonhos igualmente aprisionados, algo estava prestes a romper o pouco equilíbrio que restava.
Clarissa estava sentada sobre o fardo de palha quando Marvin chegou às grades. Ela não parecia surpresa. Tinha nas mãos um pequeno pedaço de papel amassado e um lápis gasto. Escrevia com calma. Traços firmes, e sem hesitação. O som do grafite raspando era quase delicado demais para aquele lugar. Marvin segurava as grades com força.
— Que porra você está fazendo aí dentro? — rosnou.
Clarissa não respondeu. Terminou a última linha. Dobrou o papel uma única vez. Depois o largou no chão da jaula. Levantou-se devagar. O olhar dela encontrou o dele. Não havia desafio. Não havia medo. Havia algo muito mais perigoso. Decisão. Ela abriu a pequena bolsa pendurada no ombro. De dentro, retirou um frasco escuro. Desrosqueou a tampa. Um cheiro intenso de carne crua espalhou-se pelo ar. Não era um cheiro sutil, era brutal. Ela borrifou o líquido sobre os próprios pelos. No pescoço, nos braços, no peito, e nas pernas. O aroma tornou-se quase insuportável.
— Clarissa… — Marvin começou, a voz vacilando pela primeira vez.
Ela virou-se. Caminhou dois passos em direção aos leões. Os dois animais, grandes, genéricos, e irracionais, estavam deitados ao fundo da jaula. Não eram treinados para delicadezas. Eram força bruta contida por barras de ferro. O cheiro os alcançou, causando primeiro, um estremecimento nas narinas. Depois, os olhos se abriram. As pupilas dilataram. Um rosnado baixo vibrou no peito de um deles. Clarissa não disse nada. Não recuou. O primeiro salto foi rápido. O segundo, inevitável. O impacto derrubou-a no chão. Garras rasgaram tecido e carne com facilidade brutal. O som foi úmido, grotesco. O segundo leão juntou-se ao ataque, mordidas violentas arrancando pedaços, sangue espalhando-se pela serragem suja. O que aconteceu foi lento demais para ser rápido. E rápido demais para ser impedido. O grito inicial de Marvin se perdeu no caos. Ele tateou o molho de chaves preso à cintura, dezenas delas se chocando, metálicas e inúteis no desespero.
Tentava encaixar uma na fechadura. Errava. Tremia. Tentava outra. Dentro da jaula, o som de ossos partindo misturava-se ao estalo de carne sendo rasgada. O cheiro de sangue tomou conta do ar. Em poucos segundos, que pareciam eternos, Clarissa estava irreconhecível. Imóvel. Dilacerada. Silêncio. Os leões ergueram a cabeça, os focinhos vermelhos, respiração pesada. Lamberam lentamente as bocas sujas de sangue. Um deles soltou um bocejo quase entediado. Depois retornaram ao fundo da jaula, e deitaram-se. E fecharam os olhos. Indiferentes.
Marvin finalmente encontrou a chave correta. A porta abriu com um rangido áspero, e ele entrou. O peito subia e descia com violência, misturando raiva, desespero e uma dor lancinante que parecia rasgar algo dentro dele. Ele parou. A poucos passos do corpo destruído. Por alguns minutos, não conseguiu se mover. O mundo ao redor parecia distante, abafado. As luzes do circo piscavam ao longe, mas ali dentro tudo era silêncio pesado.
Então algo chamou sua atenção. Entre os restos, manchado de sangue, estava o pedaço de papel. O mesmo que ela escreveu. Marvin se ajoelhou. As garras tremiam. Os olhos arregalados. Ele pegou o bilhete, sujando ainda mais o papel ao tocá-lo. E, com a respiração irregular, começou a ler.
“Caro Marvin, eu não suportava mais subsistir nessa existência penosa ao seu lado, optando, assim, por me atirar aos leões. Que você definhe e pereça em solidão. Adeus.”
Ele leu uma vez. Depois outra. A frase final parecia crescer, ocupar espaço demais dentro da cabeça. Definhe e pereça em solidão. O impacto veio como uma lâmina invisível atravessando o peito. Não era apenas dor. Era humilhação, era condenação, era o reconhecimento cru de que ela escolheu morrer para não continuar ao lado dele.
O chão pareceu inclinar. O ar ficou pesado. A mente girava em espirais caóticas, memórias, acusações, justificativas, culpas que ele nunca admitiria. A dor transformou-se. Primeiro em negação. Depois em algo mais denso. Mais quente. Mais perigoso. Ele se levantou de um salto abrupto. O urro que saiu de sua garganta não era civilizado. Não era humano. Não era sequer canino. era algo primitivo, cru, um som de agonia fundida com ódio puro. Ecoou sob a lona do circo, vibrando nas estruturas metálicas.
— Clarissa!
A voz falhou no meio do grito, mas ele continuou.
— Isso não é real! Você não podia fazer isso! Não podia!
A raiva precisava de alvo. Ele agarrou uma pilha de caixotes ao lado da jaula e os lançou contra a parede com força descomunal. A madeira explodiu em estilhaços, pedaços voando como projéteis. Marvin saiu da jaula cambaleando e então explodiu em movimento. Arrancou lonas laterais com violência, rasgando tecido como se fosse papel fino. Virou bancadas, espalhando ferramentas e restos de figurinos pelo chão. Quebrou cadeiras contra o solo, as estruturas cedendo sob sua força bruta.
Chutou as grades das jaulas. O metal vibrou sob o impacto. Dentro da jaula, os leões que antes haviam sido indiferentes agora recuaram. O ruído da destruição os deixou inquietos. Um deles soltou um rosnado baixo, mas recuou para o canto, os olhos atentos ao lobo em fúria.
Marvin rugia enquanto destruía. O som misturava-se ao estilhaçar de madeira, ao rasgar de tecido, ao bater de metal contra metal. Era um espetáculo grotesco. O espetáculo da decadência. Não o do circo. O dele. Ao fundo, parcialmente escondido sob a sombra de uma barraca tombada, Laércio observava. Os olhos de vidro refletiam o caos. Não havia surpresa ali. Apenas uma tristeza mecânica, resignada. A mangueira flexível tremia levemente, como se estivesse suspirando. Dentro de seu compartimento, fragmentos da antiga bola de cristal vibravam em silêncio.
Ele já havia visto algo parecido em suas visões fragmentadas. Nunca com nitidez. Mas sempre com o mesmo desfecho. Ruína. E ali estava. A quarta geração dos Quebra-molas, no centro do próprio picadeiro, destruindo o que restava de um império familiar que já estava condenado muito antes daquela manhã. Marvin parou no centro do picadeiro destruído, o peito ainda arfando. Os olhos ardiam. A mente não aceitava o silêncio da morte. Não aceitava a ideia de fim. Não aceitava que Clarissa tivesse escolhido sair do mundo, e dele, daquela forma.
Ele virou-se abruptamente. Laércio ainda estava ali, próximo à lateral da lona rasgada, observando com seus olhos de vidro marejados. Marvin marchou até ele. Sem aviso, agarrou o aspirador pela parte superior metálica e o ergueu até a altura dos próprios olhos. As garras pressionavam o metal com força suficiente para entortar levemente a carcaça.
— Como eu trago Clarissa de volta? — perguntou.
A voz não era alta. Era grave. Afiada. Fria. Laércio tremeu. A mangueira vibrou como se estivesse tentando se encolher.
— Senhor… — começou, hesitante — existem ciclos que não devem ser quebrados. A morte é um ponto fixo. Se foi decisão dela, talvez o senhor devesse aceitar.
As garras de Marvin se projetaram para fora com um estalo seco. Laércio entendeu o recado. Fechou os olhos de vidro. O compartimento interno começou a vibrar. Uma fumaça fina escapou pelas entradas de ar. A mangueira contraiu-se e expandiu-se rapidamente. Ele começou a hiperventilar, um som mecânico irregular, como um motor falhando sob sobrecarga.
Fragmentos da bola de cristal quebrada tilintavam dentro dele. Imagens surgiram desbotadas. Instáveis. Primeiro, um brilho dourado. Depois, um objeto alongado. Uma flauta doce, mas não comum. Feita de ouro maciço, entalhada com símbolos antigos que pareciam pulsar. A visão tremeu. Um templo escondido, esculpido em pedra antiga, parcialmente engolido por vegetação exótica. Estruturas arredondadas, cores vibrantes ao redor. Uma placa desgastada. Reino dos Melões. A imagem mudou. Túneis escuros, água correndo lenta, e tubulações interligadas. Esgotos extensos, ramificando-se por toda a Pangeia como um sistema nervoso subterrâneo. Depois, uma figura alta. Envolta em um manto encapuzado. Segurando um cajado longo, cuja ponta emitia um brilho opaco. O rosto invisível. Observando. Laércio abriu os olhos abruptamente.
— Eu vi… eu vi coisas — murmurou, contra a própria vontade. — Existe um artefato místico. A Flauta Dourada. Ela concede onipotência ao portador. Está oculta num templo secreto, no Reino dos Melões. A entrada é pelo subterrâneo da Pangeia. Pelos esgotos. Eles são interligados. Formam uma rede.
Marvin soltou um rosnado baixo. Esperança. Crua. Perigosa.
— Reino dos Melões… — repetiu, saboreando o nome como se fosse desafio. — Nunca pus os pés naquela espelunca. Você vai me guiar até lá.
Laércio piscou, desconfortável.
— Senhor, eu não posso acompanhar. O trajeto que visualizei passa por galerias inundadas. Os esgotos da Pangeia formam um sistema conectado, mas grande parte é submersa. Eu sou movido a componentes elétricos e motor interno. A exposição prolongada à água comprometeria meu funcionamento em minutos. Eu não sobreviveria ao percurso.
Marvin não respondeu. Apenas arremessou o aspirador contra a parede com violência. O impacto produziu um estrondo metálico. Laércio ricocheteou no chão, ganhando mais um amassado na lateral e soltando uma faísca breve antes de se imobilizar.
— Maldita compra de cinco unipanges no Gueto das Marmotas! — rosnou Marvin. — Eu sabia que devia ter investido em equipamento decente. Você não vale o que eu paguei.
Laércio permaneceu ali, encolhido, o motor vibrando fraco. Marvin virou-se. Caminhou em direção ao corredor que levava ao seu escritório. Os artistas do circo, espalhados pelos bastidores, congelaram. Cinco falcões trapezistas interromperam o aquecimento e desviaram o olhar imediatamente. Um flamingo siamês verde de duas cabeças, malabarista, engoliu seco, as duas gargantas sincronizadas no medo. Magnólia, a coruja vidente, fechou a porta do camarim com rapidez calculada. Um palhaço de roupas coloridas, tomado pela tensão, perdeu o controle da bexiga. A mancha escura espalhou-se pela calça enquanto ele permanecia imóvel, fingindo que fazia parte da performance.
Marvin ignorou todos. Passou como uma tempestade contida. Abriu a porta do escritório no fim do corredor e entrou. A porta fechou-se atrás dele com um estrondo seco. O ambiente cheirava a papel velho, pólvora antiga e ambição frustrada. Na parede principal, pendia um grande quadro de Osório Quebra-molas, o fundador. O lobo ancestral encarava o mundo com postura altiva, uniforme impecável e uma escopeta apoiada sobre o ombro. Marvin ficou parado diante da pintura por alguns minutos. O silêncio era pesado.
— Você nunca perdeu o controle, não foi? — murmurou, quase num sussurro.
Então estendeu as garras e retirou o quadro com cuidado da parede. Atrás dele, revelava-se um cofre embutido. Marvin girou o mecanismo com movimentos firmes, quase ritualísticos. O clique metálico ecoou quando a trava cedeu. Dentro do cofre, repousava a herança da família. Uma escopeta de cano serrado. O metal escuro estava polido com zelo obsessivo. O cano, encurtado de forma precisa, dava à arma uma aparência compacta e brutal. A madeira do cabo era antiga, marcada por pequenas cicatrizes de uso, cada uma provavelmente ligada a algum conflito resolvido sem mediação. A arma dos Quebra-molas. A solução final de gerações anteriores.
Marvin a pegou com reverência. O peso familiar acomodou-se nas mãos como se fosse extensão do próprio corpo. Ele virou-se até a escrivaninha, abriu a gaveta e retirou um coldre de couro gasto. Vestiu-o nas costas com movimentos automáticos. Pegou também cartuchos de munição, um maço de cigarros amassado e um isqueiro cromado. Guardou tudo nos bolsos do terno desbotado. Quebrou a escopeta ao meio. Inseriu os cartuchos com precisão. Fechou-a com um estalo seco. Por um segundo, ficou olhando para o cano serrado. Então passou a língua lentamente sobre o metal frio, como quem sela um pacto.
Saiu do escritório. A primeira porta que encontrou foi a do camarim de Magnólia. Ele não bateu. Chutou. A porta se partiu contra a parede. A coruja vidente mal teve tempo de erguer a cabeça. Seus olhos arregalaram-se no reflexo do cano. O disparo foi ensurdecedor. A curta distância, o impacto não deixou espaço para simbolismos. Penas brancas e fragmentos de osso se espalharam pelo espelho atrás dela. O corpo tombou sem forma, uma massa desfeita entre madeira e vidro estilhaçado.
Marvin já estava se movendo. No corredor, o flamingo siamês verde, duas cabeças sobre um único corpo, tentava recuar. As duas bocas gritavam ao mesmo tempo, vozes sobrepostas em pânico. O segundo disparo ecoou. A carga atingiu o centro do peito. A carne abriu-se num jorro vermelho espesso. As duas cabeças estremeceram, uma delas ainda tentando emitir som enquanto o corpo desabava. Sangue escorreu pelo chão em um rastro irregular. O cheiro de pólvora misturou-se ao ferro.
O palhaço estava parado, congelado. A mancha de urina havia aumentado. O sorriso pintado no rosto tremia. Marvin o encarou. Por um breve segundo, algo quase humano passou por seus olhos. Quase. O terceiro disparo foi diferente. Não letal. O tiro arrancou o dedo mindinho do pé esquerdo do palhaço. O pequeno fragmento de carne voou junto com um estilhaço de sapato colorido. O grito foi agudo, rasgado. O palhaço caiu no chão, contorcendo-se, segurando o pé ensanguentado enquanto lágrimas borravam a maquiagem.
Marvin o deixou ali. Não por misericórdia. Mas por desprezo. Acima, no alto das estruturas do picadeiro, os cinco falcões trapezistas já haviam entendido. O líder, conhecido como General Falcão, emitiu um comando curto. As asas bateram quase em uníssono. Eles se lançaram para o alto, atravessando uma abertura rasgada na lona principal. A estrutura tremeu com o impacto do vento gerado pelas asas. Um deles foi atingido de raspão por estilhaços de madeira, mas manteve voo. Em segundos, desapareceram no céu cinzento do Vale. Marvin disparou uma última vez na direção da estrutura, mas apenas rasgou mais lona.
Silêncio. Restos de madeira. Corpos. Sangue. O Circo Mequetrefe não era mais decadente. Era cenário de execução. Marvin recarregou a escopeta com movimentos mecânicos. A mente estava vazia de qualquer dúvida. Restava apenas um. Laércio. O aspirador estava no chão, amassado, imóvel, mas funcionando. Os olhos de vidro encaravam Marvin. Sem surpresa. Sem fuga. Apenas aguardando. Porque às vezes, a última testemunha é a mais difícil de silenciar.
Marvin caminhou de volta até onde Laércio havia sido arremessado. O aspirador estava tombado de lado, uma das rodinhas girando lentamente até parar. A lateral metálica carregava um novo amassado profundo. Faíscas ocasionais escapavam da base, mas o motor ainda funcionava, um zumbido fraco, persistente. Os olhos de vidro ergueram-se para encarar o lobo. Marvin aproximou-se devagar. Não havia mais explosão nos gestos, apenas frieza. Ele apontou a escopeta para o corpo metálico por alguns segundos, avaliando a cena. Depois falou, com a voz controlada.
— Não crie expectativas, Laércio. Eu mesmo nunca criei nenhuma em relação a você.
O aspirador permaneceu imóvel.
— Sempre foi uma compra impulsiva. Uma sucata funcional no máximo. Cinco unipanges jogadas no ralo. — Marvin respirou fundo, as garras apertando o cabo da arma. — Matar você seria um desperdício de pólvora. Você não merece um fim digno. Merece voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído.
Silêncio. Laércio esperava o disparo. Mas ele não veio. Para sua surpresa, Marvin abaixou a escopeta, quebrou-a ao meio e a guardou novamente nas costas. Então se inclinou. Agarrou o aspirador pela carcaça, segurando-o por baixo dos braços metálicos improvisados, e começou a arrastá-lo para fora do picadeiro. O corpo de Laércio raspava no chão, fazendo um som metálico desconfortável. Eles atravessaram o corredor, passaram pelos restos espalhados do circo, cruzaram a saída principal.
Do lado de fora, na rua de acesso ao Circo Mequetrefe, havia uma enorme caçamba de lixo. Transbordava. Sacolas rasgadas, restos orgânicos, pedaços de madeira, figurinos descartados, embalagens, trapos. Marvin caminhou até ela sem pressa. Abriu a tampa pesada. O cheiro que escapou era denso e sufocante. Ele ergueu Laércio com as duas mãos. Por um segundo, os olhos de vidro do aspirador refletiram o céu deteriorado do Vale do Sussurro. Então Marvin o lançou dentro da caçamba. O corpo metálico caiu entre restos de comida, latas amassadas e tecido encharcado, produzindo um som oco abafado pelo lixo.
Marvin fechou a tampa com um estrondo seco. O mundo ficou escuro. Dentro da caçamba, Laércio estava cercado por decomposição e silêncio. O motor vibrava baixo, irregular. Um filete de luz escapava por uma fresta mínima na tampa, mas logo foi coberto por um saco de lixo que deslizou sobre ele.
Do lado de fora, Marvin permaneceu imóvel por alguns segundos. O peito subia e descia devagar. Ele levou a mão ao bolso, tirou o maço de cigarros, puxou um com os dentes e o encaixou entre os lábios. Guardou o maço. Pegou o isqueiro cromado. A chama surgiu pequena, quase delicada. O cigarro acendeu. Ele tragou fundo. A fumaça entrou pesada nos pulmões e saiu em uma nuvem lenta, dissolvendo-se no ar já poluído do Vale do Sussurro. Marvin guardou o isqueiro. E voltou para dentro do Circo Mequetrefe. Agora o lugar estava silencioso demais.
Ele atravessou o picadeiro devastado e seguiu até a despensa. Ali, o retrato da sua própria incompetência se empilhava em forma física. Caixas lacradas nunca abertas, máquinas inúteis, figurinos extravagantes que jamais foram usados, utensílios comprados por impulso e esquecidos em semanas. Ele revirou o caos até encontrar o que procurava. Um imenso galão de gasolina. Pesado. Cheio. Ele o ergueu, abriu a tampa e levou o nariz à borda. O cheiro forte e inflamável invadiu suas narinas. Marvin fechou os olhos por um instante. Satisfeito. Saiu da despensa e começou.
Derramava gasolina sem economia. No picadeiro, nas arquibancadas, nas barracas laterais, nas lonas rasgadas. O líquido escorria pelo chão, formando trilhas brilhantes sob a luz trêmula das lâmpadas. Passou pelos camarins. Pelos corredores. Pelas caixas.
Chegou às jaulas. Sem hesitação, levantou o galão e despejou gasolina sobre as grades e para dentro do espaço dos leões. O líquido atingiu os pelos dos animais. Eles se agitaram, inquietos, sentindo o cheiro agressivo, mas não compreenderam o significado.
Marvin não parou. Completou o percurso até a entrada do circo, desenhando um rastro contínuo de combustível. Quando terminou, atirou o galão vazio para longe. Ele ficou ali, na porta. Deu uma última tragada longa no cigarro. O filtro queimava perto dos dedos. Então soltou o cigarro aceso bem no início da trilha de gasolina. Por um segundo, nada. Depois, um estalo. A chama correu. Rápida. Violenta. O fogo percorreu o rastro como se tivesse fome. As lonas pegaram primeiro. O tecido seco, embebido, e inflamável. As chamas subiram em línguas altas e vorazes, iluminando o interior em tons alaranjados intensos. A madeira das arquibancadas estalava, rachando sob o calor.
As lâmpadas explodiram uma a uma. Dentro da jaula, os leões começaram a se agitar violentamente quando o fogo alcançou as grades e o combustível espalhado. O calor tornou-se insuportável em segundos. Os rugidos ecoaram altos, desesperados, misturados ao crepitar das chamas. O fogo envolveu seus corpos com brutalidade impiedosa. Os pelos pegaram fogo rapidamente, espalhando um odor acre e denso. As sombras das feras se contorciam contra as grades enquanto o calor consumia o ar.
Não houve fuga. Não houve salvação. O Circo Mequetrefe tornou-se uma fogueira colossal. As chamas rasgavam o céu poluído do Vale do Sussurro, refletindo nas janelas quebradas dos prédios vizinhos. O brilho laranja dançava nas fachadas sujas, como se a própria cidade assistisse ao espetáculo final. Lona, madeira, papel, tecido, e sangue seco, tudo ardia. Cada centímetro daquele lugar insalubre era reduzido a carvão e cinza.
Marvin permaneceu parado. Imóvel. Os olhos fixos nas labaredas. A fumaça subia espessa, escura, formando uma coluna que se misturava às nuvens já contaminadas. Ele ficou ali por longos minutos. Um quarto de hora. Sem expressão clara. Apenas observando o que restava do legado dos Quebra-molas ser devorado pelo fogo. O espetáculo da decadência havia chegado ao seu último ato. E as cinzas ainda estavam quentes quando a obsessão começou a tomar forma definitiva dentro dele.
O último mastro central cedeu com um estalo profundo. A estrutura restante tombou sobre si mesma, levantando uma nuvem espessa de fumaça e brasas. O Circo Mequetrefe, outrora orgulho da família Quebra-molas, agora era apenas um monte ardente de madeira carbonizada e metal retorcido. Marvin permaneceu imóvel até que o último pedaço desabasse. Então baixou o olhar para as próprias mãos enegrecidas pela fuligem. Um riso baixo escapou de sua garganta.
— Queimar sempre foi muito mais simples do que reconstruir.
Ele respirou fundo, sentindo o cheiro de cinzas misturado à gasolina.
— Clarissa achou que podia me abandonar. Que podia transformar meu nome em sinônimo de fracasso. — Ele apertou os dentes. — Me condenar à solidão como se eu fosse o único culpado. Como se eu fosse o vilão dessa história miserável.
Ele cuspiu no chão, o líquido escuro misturando-se à fuligem.
— Amor é moeda de troca. Sempre foi. E ela decidiu sair do jogo antes de mim. — Os olhos brilharam com algo febril. — Mas ninguém sai antes de Marvin Quebra-molas. Ninguém escreve o fim da minha história por conta própria.
Ele ergueu o queixo, encarando o céu turvo do Vale.
— Se o mundo quer me tirar tudo, então eu tiro o mundo do caminho. Se existe algo capaz de me dar poder absoluto, eu tomo. E quando eu tomar… — um sorriso fino se formou — eu vou decidir quem vive. Quem morre. Quem dança. Quem rasteja.
A voz tornou-se quase suave.
— Não é luto. É uma oportunidade.
O fogo estalava atrás dele. Marvin virou-se. Ao lado da caçamba onde havia jogado Laércio, uma tampa de esgoto enferrujada marcava o chão da rua. Ele caminhou até ela e respirou fundo. Abaixou-se e cravou as garras na borda metálica. Com um esforço bruto, arrancou a tampa do encaixe. O metal raspou contra o asfalto. Sem hesitar, apoiou a tampa no próprio joelho e a quebrou ao meio com um estalo seco. Jogou as duas metades para longe, que caíram com um ruído metálico.
Um buraco escuro se abriu diante dele. Um sopro úmido subiu das profundezas, cheiro de água parada, ferrugem e matéria em decomposição. Marvin olhou para dentro. Não havia luz. Apenas escuridão e o som distante de água correndo pelos túneis subterrâneos da Pangeia. Ele ajustou o coldre nas costas. Deu um último olhar para as cinzas do circo. E pulou. O corpo desapareceu no buraco, engolido pelo subterrâneo.
A tampa partida permanecia ao lado, testemunha silenciosa. Acima, o Vale do Sussurro seguia seu curso decadente. Abaixo, nas galerias escuras e interligadas da Pangeia, algo começava a se mover em direção ao Reino dos Melões. E à Flauta Dourada.