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Capítulo I: Um tigre e um macaco entram em um bar

  • Foto do escritor: Vincente R. da Silva
    Vincente R. da Silva
  • 14 de jun.
  • 23 min de leitura

Atualizado: 21 de jun.

Antes de qualquer reino ser erguido, antes de qualquer profeta errar suas previsões, antes mesmo da primeira criatura inventar um deus para explicar o próprio medo, existia o Planoverso. O Planoverso não é um lugar. É uma condição. Imagine um número infinito que, ao ser multiplicado por outro número infinito, decide que ainda não é suficiente. Agora imagine que cada fração desse infinito seja um plano. Uma realidade autônoma, com suas próprias leis físicas, metafísicas, morais e fiscais.


Alguns planos são tão absurdos que a gravidade funciona por voto popular. Outros são tão parecidos entre si que a única diferença é a cor das cortinas na sala de estar de alguém que jamais notará a mudança. Cada plano é único. Cada plano é irrepetível. E ainda assim, muitos são assustadoramente semelhantes.


Dentre essa infinidade vertiginosa, há um plano específico que se tornou notório. Não por ser o mais belo, nem o mais cruel, nem o mais inteligente. Mas por ter sido declarado, com pompa e absoluto egocentrismo, como o Plano Definitivo. Quem o declarou assim foi Pit Mangueira, o criador de tudo. Ninguém sabe ao certo se Pit Mangueira criou o Planoverso por genialidade cósmica ou por tédio. Há registros conflitantes.


Os Mentalistas, grupo religioso que interpreta cada silêncio de Pit Mangueira como uma parábola profunda, defendem que foi um ato de amor transcendental. Os céticos defendem que foi um experimento mal supervisionado. O fato é que o Plano 88 recebeu o título de Plano Definitivo. E dentro dele, no meio da imensidão silenciosa do vácuo, existe uma galáxia espiral chamada Via Láctea.


A Via Láctea não é apenas um amontoado elegante de estrelas. Vista de dentro, ela aparece como uma faixa brilhante e difusa que circunda toda a esfera celeste, recortada por densas nuvens moleculares que lhe conferem um aspecto irregular, quase artesanal, como se o cosmos tivesse sido esculpido com dedos impacientes.


Entre seus braços espirais encontra-se o Sistema Solar. Um conjunto gravitacionalmente coeso composto pelo Sol e todos os corpos celestes sob sua influência. O Sol, essa fornalha nuclear majestosa, mantém sob sua autoridade oito planetas que dominam as órbitas que ocupam. Não por eleição. Por massa. Entre esses oito mundos, há um que interessa particularmente a esta narrativa. O terceiro planeta a partir do Sol. O mais denso. O quinto maior. Chamava-se Terra. Mas há algo fundamentalmente diferente nesta Terra do Plano Definitivo: aqui, a deriva continental jamais ocorreu. O supercontinente Pangeia nunca se fragmentou.


Não houve separação lenta e tectônica. Não houve oceanos dividindo civilizações. O mundo permaneceu unido. Um único continente colossal, cercado por um único oceano global, o Oceano Pantalássico. Vasto, profundo e impiedosamente indiferente. E mesmo sob essa geografia alternativa, a vida floresceu. Houve eras. Houve evolução. Houve descobertas científicas brilhantes e guerras absolutamente estúpidas. Houve arte, religião, comércio, corrupção e músicas ruins tocadas alto demais. A humanidade prosperou. Errou. Repetiu erros. Evoluiu novamente. Como faz. Até que aconteceu um evento que os Mentalistas mais tarde chamariam de o Julgamento das Estrelas. Sem aviso. Sem negociação. Sem direito a recurso. Uma chuva desenfreada de meteoros radioativos atravessou a atmosfera e colidiu contra a superfície do planeta com violência bíblica e precisão cirúrgica. Cidades evaporaram. Os oceanos ferveram em trechos costeiros. Florestas tornaram-se sombras negras estampadas na rocha.


A radioatividade infiltrou-se na terra, no ar e na água. Toda forma de vida foi aniquilada. E assim permaneceu o mundo. Vazio. Silencioso. Devastado. Por séculos, a Terra foi um cadáver cósmico orbitando uma estrela indiferente. Mas a radioatividade, essa força invisível e paciente, não apenas destruiu. Ela transformou. Lentamente, o planeta foi sendo consumido pela própria contaminação. E do que parecia ser o fim absoluto, emergiu algo inesperado.


A vida retornou. Mas não como antes. Animais passaram a falar, alguns com eloquência, outros com sotaque questionável. Objetos outrora inanimados despertaram para uma consciência própria, questionando seu propósito existencial entre uma prateleira e outra. Criaturas que antes habitavam mitos, ogros, duendes, seres feéricos e aberrações indescritíveis, agora caminhavam sob o mesmo céu radioativo. E humanos também retornaram. Alguns. Mudados. Adaptados. Sobreviventes de um mundo que já não existia.


A antiga Terra deixou de existir. O planeta passou a ser conhecido como Pós-Terra. A Pangeia intacta tornou-se palco de uma nova organização civilizatória: reinos surgiram, cidades muradas ergueram-se, províncias disputaram fronteiras, biomas desenvolveram culturas próprias. Vales ocultavam segredos radioativos. Florestas abrigavam criaturas que jamais haviam sido catalogadas por ciência alguma. Cada território possuía suas leis. Suas crenças. Suas tradições. Seus absurdos.


E acima de todos eles, invisível, silencioso, talvez atento, talvez entediado, estava Pit Mangueira. E esta história começa justamente quando seus filhos, inteligentes, monstruosos, brilhantes e profundamente idiotas, decidem fazer algo que mudará o destino da Pós-Terra mais uma vez.


Dentre os muitos territórios que disputavam espaço na vasta Pangeia intacta, na costa oeste existia um lugar que parecia ter sido esquecido até pelo próprio azar: o Vale do Sussurro. O nome sugeria poesia. A realidade oferecia tétano. O Vale era um aglomerado de ruas tortas, casas com telhados cedendo e becos que cheiravam a uma combinação agressiva de peixe morto, mofo antigo e decisões ruins. O lixo não era um problema, era parte da paisagem. Sacos rasgados se acumulavam em pilhas orgulhosas, disputando espaço com carcaças enferrujadas de eletrodomésticos conscientes que imploravam por aposentadoria. A saúde pública era uma anedota amarga contada entre tosses crônicas. A segurança? Decadente. O saneamento básico? Um conceito filosófico debatido e imediatamente ignorado.


Ainda assim, naquela manhã de terça-feira, o Vale estava estranhamente quieto. O sol subia preguiçoso por trás das colinas esverdeadas, aquecendo a bruma fina que ainda repousava sobre os telhados tortos. O cheiro de mato molhado misturava-se ao odor persistente de decomposição urbana, criando uma fragrância que poderia ser vendida como essência do descaso.


No centro do Vale, a chamada Praça Central era um espetáculo de abandono. O chafariz, outrora funcional, agora servia como reservatório de água turva onde três sapos discutiam política. O piso estava rachado, tomado por mato seco e ervas daninhas que cresciam com mais organização do que a própria prefeitura. Restos de papel, cascas de frutas apodrecidas e embalagens mastigadas pelo tempo espalhavam-se como confete pós-apocalíptico. Encostada no canto da praça erguia-se uma enorme e velha macieira. Ou o que restava dela. O tronco era torto, cheio de cavidades escuras e úmidas. A casca descascava em placas grossas, revelando madeira carcomida por vermes gordos e satisfeitos. As maçãs já nasciam podres, moles e enegrecidas, como se a árvore tivesse desistido de tentar. Algumas sequer amadureciam, simplesmente se rendiam.


No alto dessa macieira, dentro de um buraco improvisado forrado com jornais antigos e um travesseiro roubado, morava o Senhor Macaco. Naquele momento, porém, ele estava no chão, escorado no tronco como um rei contemplando seu império de lixo. O Senhor Macaco era um pequeno macaco-prego de pelos marrons ralos, marcados por falhas e placas avermelhadas de urticária. Seus olhos eram grandes demais para o próprio rosto, vazios e profundos, como se tivessem assistido a tragédias suficientes para desistir de se importar, ou talvez apenas não tivessem entendido nada mesmo.


Ele era bipolar, mal caráter e trambiqueiro profissional. Possuía medidas protetivas emitidas por aproximadamente metade da população do Vale do Sussurro, a outra metade ainda estava reunindo provas. Todos sabiam quem ele era. E quem não sabia, certamente já tinha sido avisado. Vestia um colete roxo de veludo encardido, cheio de remendos mal costurados, manchas indefinidas e um rasgo na altura das costelas que ele jurava ser design assimétrico. Na cintura, ostentava uma pochete vermelha de couro surrado, roubada meses atrás de um brechó no Gueto das Marmotas, que ele considerava o ápice da elegância utilitária.


Entre os dedos sujos, segurava uma flauta doce azul-turquesa. A flauta estava mordida nas extremidades, marcada por dentes nervosos e saliva antiga. Havia resíduos escuros nas ranhuras, e o bocal parecia ter sido mastigado durante uma crise existencial. Ele levou o instrumento aos lábios e soprou. O som que saiu foi um atentado acústico. Uma melodia arrastada, desafinada e irritantemente insistente espalhou-se pela praça como uma ofensa pública. Não havia ritmo. Não havia harmonia. Havia apenas intenção, e a intenção era incomodar.


A alguns bons metros dali, espichado sobre um banco de praça que claramente já tinha pedido aposentadoria há anos, estava Guillard Tigroso. Ou, como ele exigia ser chamado: Tigre. O banco estava podre, com uma das tábuas centrais rachada e inclinada perigosamente. Ferrugem corroía os parafusos, e ao lado dele descansava uma bicicleta de carteiro igualmente decadente, estrutura enferrujada, pneus murchos, corrente rangendo como uma porta de cripta. Na cestinha frontal, uma pilha de envelopes sujos aguardava um destino que talvez nunca chegasse.


Tigre era um tigre-de-bengala esguio, mas com uma barriga ligeiramente distendida, uma barriga de verme, como ele mesmo dizia, fruto de má alimentação e péssimas decisões. Seu umbigo saltava para fora com uma hérnia umbilical discreta, porém orgulhosa. O pelo listrado estava mal cuidado, com falhas de sarna aqui e ali. Os bigodes felinos eram tortos, desalinhados como antenas mal calibradas. Seu sorriso, quando surgia, era exageradamente largo e revelava dentes tortos, cobertos por tártaro e abraçados por gengivas inflamadas. Na cabeça, usava um chapéu de carteiro que já foi azul-marinho em algum momento histórico. Era o único carteiro do Vale do Sussurro, e fazia de tudo para não exercer essa função. Morava no Albergue das Andorinhas, pagando a exorbitante quantia de duas unipanges por ano. Valor que ele considerava uma exploração indecente e mencionava sempre que possível.


Naquela manhã, estava completamente esparramado no banco, uma perna pendendo para fora, a outra dobrada sobre o encosto. Um braço caía frouxo ao lado do corpo, a boca aberta em um ronco profundo e vibrante, digno de maquinaria industrial. Até que a flauta atingiu seus ouvidos. O efeito foi imediato. Tigre despertou como se tivesse levado um soco invisível no focinho. O corpo inteiro deu um tranco, as patas se agitaram descoordenadas, e ele quase caiu do banco antes mesmo de compreender onde estava. Seus olhos semicerrados tentaram focar o mundo, enquanto a expressão de poucos amigos se formava como uma nuvem carregada.


Ele se ergueu com indignação, e imediatamente tropeçou na própria pata, caindo de cara no chão com um baque seco. Levantou-se de novo, bufando, sacudindo a poeira e o orgulho ferido. Então avistou a origem do crime sonoro. O Senhor Macaco, sorrindo com presunção irritante, tocava como se estivesse executando uma sinfonia épica para uma plateia inexistente. Tigre marchou até ele com determinação furiosa, cada passo pesado carregando anos de frustração acumulada.


— Escuta aqui, seu desperdício de porra. Que merda é essa? — resmungou, encarando o macaco de cima.


O Senhor Macaco interrompeu a melodia com teatralidade exagerada e abriu um sorriso enviesado.


— Bom dia pra você também, listrado.


A voz era leve, quase afetuosa. O desprezo vinha no tempero.


— É melhor você parar imediatamente de atrapalhar a minha soneca remunerada — Tigre rosnou, os punhos já cerrados.


O Senhor Macaco inclinou a cabeça, como quem avalia uma obra de arte medíocre, e então, lentamente, levou a flauta à boca novamente. E soprou. Mais alto. Mais desafinado. Mais deliberadamente irritante. Ele não tocava por música. Tocava por provocação. Cada nota era um empurrão. Cada desafinação, uma ofensa calculada. Seus olhos não piscavam, estavam fixos em Tigre, desafiando.


O controle de Tigre evaporou. Com um único movimento rápido, ele avançou e desferiu um soco certeiro no diafragma do macaco. O impacto produziu um som surdo. O ar escapou dos pulmões do Senhor Macaco como um balão esvaziando abruptamente. Seu corpo se dobrou ao meio, os olhos arregalados, a boca aberta sem som. Ainda assim, ele não soltou a flauta. Tigre agarrou-o pelo colarinho do colete roxo encardido e o ergueu até ficarem cara a cara. O cheiro da respiração do tigre era uma mistura de café velho e descaso.


— Tenta fazer isso de novo, seu bosta seca, e eu vou fazer você engolir essa flauta com casca e tudo.


O Senhor Macaco, ainda recuperando o ar, respirou fundo com dificuldade. Então, lentamente, um sorriso voltou a se formar. Ele puxou do fundo da garganta um catarro poético, espesso, viscoso, e carregado de uma consistência quase elástica. O som foi deliberadamente grotesco. E cuspiu. A massa pegajosa atingiu o centro do rosto de Tigre, escorrendo pela ponta do nariz e infiltrando-se entre os bigodes tortos.


— Vai se foder, listrado! — disse o macaco, rindo.


Tigre rugiu um xingamento ininteligível, soltando-o bruscamente. Passou a pata pelo rosto com nojo e indignação, espalhando o catarro ainda mais. O Senhor Macaco aproveitou o momento. Guardou a flauta azul-turquesa na pochete vermelha surrada, ajeitou o colete remendado e ergueu o queixo com seu sorrisinho insolente intacto.


Tigre passou a pata pelo rosto com brutalidade. O erro foi insistir. O catarro espesso se espalhou como tinta mal distribuída, infiltrando-se pelos bigodes tortos, grudando nos pelos da bochecha e formando um brilho viscoso sob o sol da manhã. Ele esfregou de novo. Piorou. Tentou usar a parte interna do chapéu de carteiro. Arrependimento imediato. Parou. Respirou fundo. Desistiu. Ficou ali, com o rosto parcialmente coberto por uma mistura pegajosa de humilhação e secreção nasal alheia, encarando o Senhor Macaco com uma expressão que misturava desdém, irritação e um cansaço existencial crônico. Ele se inclinou ligeiramente para frente, braços cruzados, postura de quem estava prestes a proferir um sermão que valeria mais do que qualquer correspondência que ele deixou de entregar.


— Eu já ouvi falar de você — começou, a voz baixa e pesada. — Ouvi muito. E olha, o Vale do Sussurro não é exatamente um celeiro de excelência moral, então quando dizem que alguém é o fundo do poço, eu costumo achar que é exagero.


Ele inclinou a cabeça, analisando o macaco como quem avalia mercadoria estragada.


— Mas você não é o fundo do poço. Você é o mofo que cresce na parede do fundo do poço. É o cheiro que sobe depois que todo mundo já foi embora. Eu achei que você fosse só patético. Mas você conseguiu ser estruturalmente decepcionante. Parabéns.


Ele soltou uma risada seca, afiada, que cortava mais do que qualquer tapa.


— Se existisse um campeonato regional de inutilidade, você não ganhava. Porque até pra ser o pior precisa ter alguma competência.


O Senhor Macaco piscou lentamente. Uma vez. Duas. Como se estivesse lendo as palavras uma por uma dentro da própria cabeça. Então, para a surpresa absoluta de Tigre, ele abriu um sorriso genuinamente impressionado. Uma risadinha escapou.


— Caramba… você é honesto mesmo, né, listrado? — disse, quase admirado. — Não economiza munição. Gosto disso. É raro alguém me insultar com criatividade.


Tigre revirou os olhos com violência suficiente para quase deslocar a retina. Sem responder, virou-se e começou a caminhar de volta ao banco, decidido a retomar sua soneca sagrada e fingir que aquela interação nunca existiu. Dois passos. Três. E então uma pequena sombra ágil cruzou seu campo de visão. O Senhor Macaco correu ao redor dele com velocidade surpreendente, parando bem na sua frente. O sorriso agora era conspiratório. Os olhos brilhavam com um plano recém-nascido. Ele esticou o braço e apontou para Tigre como se estivesse recrutando um cúmplice para um crime elegante.


— Certo, listrado. Eu prometo solenemente não tocar a flauta de novo. — Fez uma pausa dramática. — Sob uma condição.


Ergueu as sobrancelhas.


— Você precisa me acompanhar até o Bar da Dolores.


Tigre franziu o cenho. O Bar da Dolores. Localizado na Rua das Pulgas, o centro comercial do Vale do Sussurro, se é que aquele amontoado de estabelecimentos tortos podia ser chamado assim. O bar era a birosca mais famosa da região. O chão grudava sob qualquer calçado, como se o próprio local tentasse impedir que os clientes fossem embora. As cadeiras estavam sempre levemente tortas, criando uma sensação constante de instabilidade moral. O grande destaque do cardápio era a Alpaca Infernal: uma batida de conhaque com leite fresco de alpaca e uma pitada generosa de cominho encrostado no fundo da garrafa. O resultado era surpreendentemente potente. E, no contexto do Vale, considerada alta gastronomia líquida.


— Você quer ir lá… comigo? — Tigre perguntou, desconfiado.


O macaco abriu os braços.


— Cultura, socialização, possível embriaguez leve. Eu estou oferecendo uma experiência.


Tigre pensou. Trabalhar significava subir na bicicleta, distribuir envelopes sujos e lidar com reclamações sobre contas atrasadas e cartas de despejo. Beber significava não fazer nada disso. Ele suspirou.


— Tá. Eu vou. Porque entre pedalar sob o sol e ouvir você falar besteira com uma bebida na mão, a bebida ganha. Mas não confunda isso com amizade.


O Senhor Macaco riu satisfeito e estendeu a mão com uma formalidade exagerada.


— Senhor Macaco, ao seu dispor.


— Guillard Tigroso. Mas me chama de Tigre — respondeu ele, apertando a mão rapidamente, como quem toca algo potencialmente infeccioso.


Ele caminhou até o banco, agarrou a bicicleta enferrujada e a puxou para perto.


— E se você me fizer me arrepender, eu te uso como selo postal.


O Senhor Macaco não respondeu. Simplesmente pulou. Direto na cesta frontal da bicicleta. Sem cerimônia, pegou todos os envelopes sujos que estavam ali, lançou-os ao chão como se fossem panfletos irrelevantes e, para reforçar o desprezo, cuspiu sobre eles com desleixo. Depois se acomodou na cesta, cruzando as pernas, apoiando o queixo na mão como se estivesse sentado em uma carruagem real.


— Avante, meu nobre cavalo de aço enferrujado! — proclamou, abrindo os braços. — Rumo à glória etílica do Bar da Dolores!


Tigre fechou os olhos por um segundo. Contou mentalmente até três. Suspirou. E começou a pedalar. A bicicleta rangeu em protesto, a cesta balançava perigosamente com o peso do macaco, e a cada risada estridente do Senhor Macaco, o guidão oscilava levemente para os lados. A terça-feira no Vale do Sussurro ganhava movimento.


A bicicleta avançava aos solavancos pelas ruas do Vale do Sussurro. O trajeto da Praça Central até a Rua das Pulgas não era longo, nada no Vale era, mas conseguia ser uma experiência sensorial completa. E por completa, entenda-se ofensiva. As rodas passavam por poças de água estagnada cuja coloração variava entre verde musgo e um marrom suspeito. Cada respingo atingia as canelas de Tigre com precisão cirúrgica. O cheiro que subia do chão era uma mistura agressiva de esgoto aberto, gordura rançosa e algo que definitivamente já teve um nome e agora era apenas textura. O Senhor Macaco, acomodado na cesta, balançava as pernas enquanto observava a paisagem como um turista perversamente satisfeito.


Casas tortas se alinhavam pelas laterais, com varais cheios de roupas que jamais voltariam a ser limpas de verdade. Uma geladeira antropomorfizada discutia com um poste de iluminação sobre taxas municipais. Um rato falante atravessou a rua carregando metade de um sanduíche que parecia ter sobrevivido ao Julgamento das Estrelas. Eles passaram por um córrego que deveria ser apenas água da chuva, mas claramente já havia desistido de fingir pureza. Um odor ácido subia do fluxo lento, onde latas, ossos e um patinho de borracha mutilado flutuavam em um silêncio acusatório.


Por fim, a Rua das Pulgas surgiu. O centro comercial do Vale do Sussurro. Uma sequência de estabelecimentos desalinhados, placas tortas pendendo por um prego solitário, letreiros apagados e vitrines rachadas. Um açougue com mais moscas do que carne. Uma farmácia que vendia mais promessas do que remédios. E ali estava ele. O Bar da Dolores. O imóvel parecia menos construído e mais sobrevivente. Era um barraco insalubre de madeira empenada e alvenaria rachada. As janelas estavam quebradas e cobertas com tábuas pregadas de forma desigual. O vidro restante exibia manchas opacas de sujeira antiga. As paredes eram marcadas por infiltrações escuras que desenhavam mapas abstratos de umidade. A tinta, outrora vermelha, descascava em placas largas, revelando camadas de tentativas fracassadas de reforma. O telhado tinha uma leve inclinação preocupante, como se estivesse considerando desabar por princípios.


Eles estacionaram na calçada irregular. O Senhor Macaco saltou da cesta com leveza, pousando no chão com um pequeno estalo dos joelhos. Tigre apoiou a bicicleta por um segundo. Olhou para ela. Olhou para o bar. Suspirou. E, num ato súbito de rebeldia e desprezo existencial, ergueu a bicicleta acima da cabeça com um rosnado e a arremessou no meio da rua. A estrutura caiu de lado com um estrondo metálico, uma das rodas girando lentamente enquanto a corrente rangia em protesto. O Senhor Macaco aplaudiu discretamente.


— Gosto quando você se permite viver, listrado.


Os dois seguiram até a porta de entrada. Mas antes que pudessem cruzá-la, dois blocos maciços de presença barraram o caminho. Os seguranças. Dois ursos polares albinos, ou melhor, ursos polares de pelagem escura como carvão recém-apagado, resultado de alguma ironia radioativa da Pós-Terra. Eram enormes. Largos. Sólidos como paredes com opinião própria.


O primeiro era mais baixo e absurdamente gordo, com uma barriga volumosa comprimida dentro de uma camisa de botão xadrez que parecia estar travando uma guerra contra os próprios botões. Ele fumava um cigarro que parecia minúsculo entre seus dedos grossos. A fumaça saía em rajadas impacientes pelo nariz. Seu rosto carregava uma expressão permanente de irritação, como se o mundo tivesse falhado em atender suas expectativas desde o nascimento. O segundo era mais alto e visivelmente mais contido. Usava um suéter escuro bem ajustado ao corpo musculoso. O cabelo, ou o que quer que substituísse isso, estava moldado em um topete alinhado com um gel brilhante. Óculos escuros escondiam os olhos. Ele mascava chiclete lentamente, o maxilar trabalhando com precisão mecânica. Seriedade e cálculo.


O urso de camisa xadrez deu uma longa tragada no cigarro, soltando a fumaça na direção dos recém-chegados. O Senhor Macaco ergueu o queixo, encarando os dois ursos como se estivesse diante de porteiros de um palácio imperial, e então, abriu um sorriso largo, teatral.


— A gente só quer encher a cara — disse, com naturalidade absoluta. — Nada revolucionário. Só intoxicação moderada e decisões ruins.


O urso mais baixo e largo, o da camisa xadrez tensionada até o limite, deu a última tragada no cigarro, mantendo os olhos fixos no macaco. A ponta do cigarro brilhou em vermelho intenso antes de apagar. Ele soltou a fumaça devagar, pelo nariz.


— Eu sei muito bem quem você é — rosnou, a voz grave vibrando no peito. — Seu punheta.


Tigre deu um meio passo para o lado. Não por medo. Por prudência estratégica. O urso continuou:


— Você devia ter vergonha de pisar em qualquer canto do Vale do Sussurro. Vergonha, ouviu? Se tivesse o mínimo de decência, se enterrava sozinho. Eu devia te dilacerar aqui e agora


Ele jogou o cigarro no chão com desprezo e esmagou a ponta com o pé pesado, espalhando cinza pela calçada já imunda. O Senhor Macaco não desviou o olhar. Nem piscou. Lentamente, com deliberada insolência, ele levou a mão para baixo da pochete vermelha, agarrou a própria virilha por baixo do tecido e deu uma puxada para cima, num gesto grotesco de provocação. O movimento foi exagerado, obsceno, quase cerimonial. Seus olhos permaneciam cravados nos do urso. Silêncio. O maxilar do urso gordo travou. Num instante, ele avançou. O chão tremeu sob o primeiro passo pesado.


Mas antes que pudesse alcançar o macaco, uma pata enorme o segurou pelo peito. O outro urso. O mais alto, de suéter e topete impecável, mascava o chiclete com lentidão calculada. Os óculos escuros não deixavam ver os olhos, mas a tensão estava no ar.


— Se controla, Augusto. Porra! — disse, firme, porém sem elevar a voz. — Não se rebaixe ao nível desse micróbio.


Augusto bufou, o peito subindo e descendo como uma locomotiva descontrolada prestes a explodir. Por um segundo, pareceu que ia ignorar o conselho. Mas não ignorou, recuou. Arrumou a camisa esticando-a sobre a barriga, ainda respirando pesado. O urso alto ajeitou o suéter, alinhou o topete com a palma da mão e deu um passo para o lado.


— Entrem. Mas não causem problema.


O Senhor Macaco abriu um sorriso triunfante. Tigre apenas passou entre eles, o olhar fixo à frente. A porta do Bar da Dolores rangeu ao ser empurrada. E, assim, Guillard Tigroso e o Senhor Macaco cruzaram o limiar do lugar onde decisões ruins deixavam de ser possibilidades e viravam tradição. A porta rangeu como um animal velho reclamando da própria existência quando Guillard a empurrou com o ombro.


O cheiro veio primeiro. Conhaque barato misturado com leite fresco de alpaca, fermentado pelo calor constante do ambiente e temperado com o suor coletivo de decisões ruins. Era um odor denso, quase mastigável. Tigre puxou o ar com profundidade, uma fungada longa e quase nostálgica. Seus olhos percorreram o interior do bar com a familiaridade de quem conhecia cada rachadura. Ele frequentava aquele lugar desde a adolescência. O que, no Vale do Sussurro, não significava muita coisa além de que seus erros tinham começado cedo.


O interior do Bar da Dolores era tão decadente quanto o exterior prometia. Goteiras pingavam de pontos aleatórios do teto, formando pequenos recipientes improvisados com baldes enferrujados e uma panela amassada. Cada barulho da água caindo parecia marcar o tempo da própria degradação. As mesas eram rachadas, riscadas por iniciais e ameaças escritas à faca. Algumas tinham uma das pernas mais curta que as outras, equilibradas por pedaços de papel dobrado. As cadeiras estavam tombadas ou bambas, como se tivessem desistido de oferecer suporte moral ou físico.


O chão era pegajoso. Não um pouco. Pegajoso de verdade. Cada passo fazia um som sutil de sucção, como se o próprio piso estivesse indeciso entre permitir que alguém fosse embora ou mantê-lo ali para sempre. As paredes exibiam manchas de mofo em padrões quase artísticos, infiltrações desenhando mapas abstratos da umidade persistente. E claro, um ambiente desses atraía clientela à altura.


Num canto, um trio de pombos mafiosos ocupava uma mesa pequena. Usavam coletes escuros e olhares desconfiados. Copos de uísque repousavam diante deles enquanto cochichavam entre si, ocasionalmente encarando o salão como quem administra território. Em um pequeno palco sujo e mal iluminado, uma égua de meia-idade dançava com movimentos calculadamente sensuais. As tábuas sob seus cascos rangiam. Diante dela, um cavalo emocionado, com olhos marejados e respiração ofegante, colocava fichas de unipange na cintura da dançarina com devoção quase religiosa. Perto de um espelho rachado, uma lontra completamente bêbada discutia com o próprio reflexo.


— Você não manda em mim! — gritou para si mesma, apontando para a superfície trincada.


O reflexo não respondeu. O que só piorou a discussão. Do outro lado do bar estendia-se o balcão das bebidas. Madeira antiga, marcada por copos arrastados e líquidos derramados ao longo dos anos. Garrafas de formatos variados se alinhavam atrás dele, algumas com rótulos desbotados, outras claramente reaproveitadas. Banquetas altas, tortas e instáveis, aguardavam ocupantes. Tigre e Senhor Macaco atravessaram o salão sob olhares dispersos. O chão sugou levemente as solas enquanto avançavam. Sem cerimônia, acomodaram-se lado a lado nas banquetas. O macaco cruzou as pernas e apoiou os cotovelos no balcão, batucando com os dedos. Tigre ajustou o chapéu de carteiro, olhou ao redor uma última vez e soltou um suspiro satisfeito.


— Lar, doce lar — murmurou.


Ali mesmo, diante do balcão, havia uma pequena janela retangular que ligava o salão à cozinha. Se o bar era decadente, a cozinha era um testemunho de guerra. Panelas enegrecidas empilhavam-se em equilíbrio questionável. Talheres sujos repousavam dentro de uma pia onde a água já havia desistido de ser transparente. Copos trincados aguardavam uso como se rachaduras fossem apenas detalhes estéticos. Sobre a bancada engordurada, estavam os ingredientes de procedência duvidosa, que conviviam em harmonia duvidosa. Um saco aberto de cominho empedrado, um pão endurecido que talvez fosse ancestral de outro pão, e um pedaço de carne que parecia estar negociando seu prazo de validade. Se existisse vigilância sanitária no Vale do Sussurro, aquele lugar seria interditado antes mesmo de terminar a inspeção.


De dentro da cozinha, observando pela janelinha, estava Dolores. Ela já conhecia Tigre, ele era cliente antigo, recorrente e moderadamente previsível. O outro, o macaco de colete roxo e olhar insolente, ela conhecia apenas por reputação. E reputação, no Vale, nunca vinha limpa.


Dolores era uma galinha transexual que ergueu aquele bar sozinha, tijolo por tijolo, ameaça por ameaça. Suas penas brancas estavam impecáveis, mesmo naquele ambiente hostil. Um lenço vermelho vibrante envolvia sua cabeça, caindo lateralmente sobre um par de brincos prateados que reluziam sob a luz amarelada. A postura era firme. A presença, dominante. Sua voz, quando surgia, era grave e rouca, com um toque de ousadia permanente. O olhar, afiado como lâmina recém-amolada. Sem que os dois precisassem pedir, ela já começou a preparar as bebidas.


Pegou dois copos largos, limpando-os com um pano que talvez estivesse mais comprometido do que ajudando. Serviu uma dose generosa de conhaque âmbar, que escorreu espesso pelo vidro. Em seguida, abriu a porta lateral da cozinha, onde uma alpaca de expressão resignada estava amarrada a uma coluna. Dolores aproximou-se com naturalidade profissional. Ordenhou o animal ali mesmo, o leite espumoso enchendo uma caneca metálica. A alpaca suspirou, como quem já aceitou o próprio papel na cadeia produtiva do desespero alcoólico. De volta ao balcão, Dolores despejou o leite fresco nos copos, criando um redemoinho turvo no conhaque. Finalizou com uma pitada generosa de cominho encrostado, que caiu como pequenos fragmentos terrosos na superfície da mistura.


Duas Alpacas Infernais estavam prontas. Ela empurrou a porta de dupla ação com o quadril. As portas se abriram para os dois lados e retornaram ao centro com um estalo suave. Dolores surgiu diante deles, impondo presença. Apenas o balcão separava as três figuras. Colocou os dois copos à frente da dupla com firmeza controlada.


— Duas Alpacas Infernais para esses dois visionários — disse, com uma ironia elegante escorrendo na entonação


Tigre encarou o copo por um instante. Depois lançou um olhar lateral para o Senhor Macaco.


— Você pelo menos sabe beber… ou eu vou ter que te carregar depois?


O macaco já estava com os dedos envolvendo o copo. Ergueu-o, sorriso largo, olhos brilhando com entusiasmo quase infantil.


— Listrado… é terça-feira. A única coisa que eu levo a sério nas terças é bebida.


Eles se entreolharam por um segundo. Então brindaram. O líquido desceu forte e amargo, queimando a garganta com a autoridade do conhaque barato. O leite fresco suavizava apenas o suficiente para enganar, enquanto o cominho crocante estalava entre os dentes no final, deixando um gosto terroso persistente. Tigre soltou o ar devagar. O Senhor Macaco fechou os olhos por meio segundo, apreciando. Dolores observou os dois virarem a bebida com atenção clínica.


O canto do bico se curvou num sorriso discreto, satisfeito. Havia orgulho ali. Não apenas pelo drink, mas por ter construído aquele império decadente com as próprias asas. Ela pegou uma jarra suja que repousava ao lado do balcão, cuspiu dentro com precisão casual e começou a esfregá-la com um pano que tinha mais história do que higiene. O gesto era quase artístico. Tigre e Senhor Macaco assistiam como quem contempla um ritual sagrado. Tigre apoiou o cotovelo no balcão, inclinando-se levemente na direção dela, sorriso enviesado e olhar avaliador.


— Dolores… me diz uma coisa — murmurou, a voz baixa e arrastada. — Você tá diferente hoje. Fez alguma coisa nessas penas ou eu que já comecei a beber antes de chegar? Porque, olha… se beleza fosse crime, você já tinha ficha corrida.


Dolores soltou uma risada rouca, batendo levemente uma asa no balcão.


— Pelo amor de Pit Mangueira, Guillard… — inclinou-se para frente, diminuindo a distância entre eles. — Você sabe que eu sou areia demais pra esse seu carrinho de mão enferrujado.


Ela então deslizou o olhar para o Senhor Macaco, analisando-o de cima a baixo.


— E outra coisa, desde quando você anda se misturando com esse tipo de espécime exótico? Eu não sabia que você estava colecionando mascotes problemáticos.


O Senhor Macaco, já levemente corado pela Alpaca Infernal, soltou uma risada nasal.


— Calma, galinha peituda. Eu e o listrado não somos amigos — disse, girando o copo vazio entre os dedos. — Foi só uma negociação estratégica. Eu parei de infernizar a manhã inútil dele e, em troca, ele me trouxe pra consumir cultura líquida aqui no seu templo.


Tigre riu alto, quase engasgando com o resto da bebida.


— Consegue imaginar? Eu, amigo desse delinquente arborícola? — bateu a pata no balcão. — Dolores, eu jamais colocaria meu nome ao lado do dele. Mas se eu conseguir instalar um mínimo de bom senso nesse cérebro do tamanho de um caroço de azeitona, já vai ser serviço comunitário.


Dolores arqueou uma sobrancelha, inclinando a cabeça com um brilho quase sádico no olhar.


— Olha só… Guillard Tigroso, o missionário social. — Ela apoiou o queixo na asa. — Sempre tão generoso com os menos favorecidos intelectualmente.


Tigre ficou sério por um segundo. Apenas um. Depois tirou o chapéu de carteiro e fez uma pequena reverência caricata.


— Renomado distribuidor de correspondências e valores morais, minha cara. — recolocou o chapéu. — Eu chamo isso de pesquisa comportamental aplicada. Estou analisando o espécime.


— Pesquisa comportamental? — o Senhor Macaco repetiu, fingindo espanto, levando a mão ao peito. — Vai se foder, listrado. Eu não preciso da sua caridade fajuta. Você adora posar de exemplo cívico, mas olha pra você. Era pra estar entregando cartas, e tá aqui bebendo comigo. No fundo, você é tão inútil quanto eu. A diferença é que eu não finjo que sou melhor.


O riso morreu. O trio se entreolhou. O bar parecia, por um segundo, mais silencioso do que antes. Tigre segurou o olhar do macaco. Dolores observava, curiosa.


E então o Senhor Macaco sentiu. Um giro estranho no estômago. Não o tipo comum de queimação alcoólica. Algo mais profundo. Algo que começou como um leve aperto, e evoluiu para uma rotação interna desconfortável, quase elétrica. O Senhor Macaco engoliu em seco. O problema foi que o engolir não resolveu nada. Seu rosto começou a mudar de cor com velocidade preocupante. Do marrom habitual para um verde acinzentado radioativo que combinava perigosamente com o tom do chão do bar. Os olhos se arregalaram.


— Galinha… você tem um baldinho aí? — perguntou, a voz trêmula, já tarde demais.


Tigre abriu a boca para comentar alguma coisa. Não deu tempo. O macaco se inclinou abruptamente sobre o balcão e vomitou. Não foi discreto. Foi um jato espesso, volumoso e surpreendentemente projetado, uma mistura cremosa de conhaque, leite de alpaca parcialmente digerido e fragmentos de cominho que se espalharam pela madeira em uma explosão pastosa. O líquido escorreu pelas rachaduras do balcão, pingando no chão pegajoso com um som úmido. Tigre recuou alguns centímetros num salto instintivo.


— Qual foi, caralho?! — torceu o focinho, sentindo a própria náusea subir pela garganta. — Segura essa porcaria dentro de você!


Ele virou o rosto, respirando pela boca, lutando contra a vontade de acompanhar o espetáculo.


— Talvez essa batida tenha sido avançada demais pro seu currículo alcoólico, meu chapa — comentou, tentando parecer superior enquanto engolia o próprio enjoo.


Dolores, no entanto, não perdeu a compostura. Com a serenidade de quem já viu coisa pior, e provavelmente já limpou coisa pior, ela pegou um pano, jogou-o sobre o balcão e começou a agir com eficiência cirúrgica. Movimentos firmes, precisos. Empurrava, recolhia, torcia o pano num balde ao lado e voltava a esfregar. Em menos de um minuto, o estrago estava controlado. Ela deu dois tapinhas leves nas costas do Senhor Macaco.


— Acontece, meu amor. — A voz grave tinha um toque quase maternal, mas ainda carregava ironia. — Essa bebida é para estômagos preparados e decisões mal pensadas.


O macaco respirava fundo, olhos marejados, tentando se recompor. Enquanto isso, Tigre lançou um olhar pelo salão. Foi quando percebeu. Numa mesa distante, parcialmente engolida pela iluminação fraca e irregular do bar, havia uma figura imóvel. Um indivíduo de boina. O rosto estava escondido pelas sombras. Vestia um sobretudo sujo que parecia ter atravessado estações demais. Em uma das mãos, segurava uma caneca enorme de cerveja sabor mostarda, espessa, e amarelo-escura. Na outra, um cigarro aceso que queimava lentamente. Ele observava. Sem pressa. Sem expressão visível, apenas assistindo. Tigre franziu a testa.


— Dolores, quem é aquele filho de uma cadela? — murmurou, inclinando-se sobre o balcão.


Dolores, que agora limpava talheres com o mesmo pano de antes, multitarefa prática, lançou um olhar discreto na direção da mesa. Um sorriso misterioso se formou.


— Ah, ele? — respondeu, casual. — Gente desse tipo vem e vai. O bar é porto de quem não quer ser visto.


Ela voltou os olhos para Tigre e o macaco.


— Mas fiquem atentos, meninos. No Vale do Sussurro, sombra raramente é só sombra.


O Senhor Macaco, ainda pálido, olhou para o homem de boina. Depois para Tigre, e depois para Dolores. Fez uma careta.


— Quer saber o que eu acho? — murmurou. — Esse sujeito tá forçando um personagem. Vem no Bar da Dolores, não é qualquer espelunca, e fica ali todo misterioso, como se estivesse esperando algum aplauso. Se quer atenção, que peça direito. Ele tá querendo queimar a rosquinha e não tá sabendo pedir.


Tigre e Dolores trocaram um olhar rápido. Havia algo naquela presença que não combinava com o restante do caos natural do bar. Para quebrar o clima, Dolores apoiou as asas no balcão.


— E então, segunda rodada?


Tigre ergueu o copo vazio imediatamente. O Senhor Macaco, ainda respirando fundo, levantou o dele também, com menos convicção, mas determinação suficiente. Dolores recolheu os copos e empurrou a porta de dupla ação, retornando à cozinha. E naquela simples manhã de terça-feira, o Bar da Dolores seguiu seu curso habitual. Risadas tortas, debates existenciais de balcão, apostas mal resolvidas e a sensação sutil de que algo fora do comum estava prestes a acontecer.

 
 

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