top of page

Capítulo II: O Último Dia de Normalidade

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
6 de mai.
26 min de leitura

Atualizado: 22 de ago.

Sete anos haviam se passado desde a noite em que um bebê estranho caiu do céu dentro de um barril de torresmos na Fazenda Otapas. Tempo suficiente para transformar o caos daquela madrugada em rotina. Tempo suficiente para que o pequeno híbrido encontrado no barril deixasse de ser apenas o torresminho feio da história. Agora ele era Torresminho Otapas. E, junto com Quivi Otapas, o filho biológico da família, os dois haviam se tornado uma dupla praticamente inseparável. Porque quando Torresminho e Quivi estavam por perto, alguma coisa inevitavelmente estava prestes a dar errado.


Naquela manhã, a cozinha da casa Otapas estava silenciosa demais. E isso já era um péssimo sinal. Sentados no chão de madeira, cercados por uma pequena pilha de gizes de cera coloridos, estavam os dois garotos.


Quivi era um pequeno kiwi de penas bagunçadas e braços ainda finos demais para o trabalho pesado da fazenda. Seu rosto sempre parecia carregado de curiosidade infantil, aquela curiosidade perigosa que normalmente terminava em algum tipo de acidente. Torresminho, por outro lado, tinha uma aparência peculiar. Seu corpo carregava os traços híbridos herdados de sua origem desconhecida. A pele possuía áreas levemente translúcidas misturadas com manchas alaranjadas. Seus olhos tinham um brilho estranho, e sua fisiologia parecia reagir a estímulos de formas que ninguém na família conseguia explicar completamente.


Naquele momento, porém, os dois estavam ocupados com uma atividade profundamente questionável. Comer giz de cera. Quivi mastigava um pedaço de giz amarelo com uma expressão pensativa. Ele franziu o rosto. Depois cuspiu o pedaço no chão.


— Esse daqui tem gosto de chão.


Torresminho estava mastigando um pedaço azul com muito mais entusiasmo.


— É porque o amarelo é fraco — disse ele com convicção científica infantil. — O verde é melhor.


Quivi olhou para ele desconfiado.


— Você tem certeza?


Torresminho já estava pegando outro.


— Irmão, quer ver uma coisa legal?


Quivi imediatamente ficou interessado.


— Claro que quero.


Torresminho pegou um pedaço de giz roxo. Sem qualquer hesitação, ele enfiou o giz no próprio ouvido. Quivi piscou.


— Você é doido?


O garoto começou a fazer uma careta exagerada enquanto empurrava o giz cada vez mais fundo.


— Acho que agora vai…


De repente o corpo dele começou a tremer. Quivi arregalou os olhos. Torresminho abriu a boca. E então, um monte de algodão saiu de dentro da boca dele e caiu no chão da cozinha. Pequenos tufos brancos espalhados pela madeira. Torresminho limpou a boca, como se aquilo fosse completamente normal. Quivi estava absolutamente fascinado.


— Como é que você fez isso?!


Torresminho deu de ombros.


— Acho que é instinto.


Quivi ficou olhando para o algodão no chão. Depois para o giz. Depois sentiu o próprio ouvido.


— Eu também quero fazer isso.


Quivi pegou um pedaço de giz vermelho. Sem pensar muito, enfiou no ouvido, e empurrou. Torresminho observava curioso. De repente Quivi parou. Seu rosto mudou completamente.


— Torresminho. Está doendo.


Uma pequena linha de sangue começou a escorrer do ouvido dele.


— Nossa. Está doendo muito!


Quivi começou a gritar.


— Irmão, por favor! Faz parar!


Torresminho entrou em pânico imediatamente.


— Eu não sei como parar!


Quivi começou a se debater.


— Tá parecendo que o meu cérebro está derretendo!


Torresminho olhou ao redor da cozinha. Nenhum adulto. Nenhuma solução. Então fez a primeira coisa lógica que lhe veio à cabeça. Ele agarrou o braço do irmão. Ele arrastou Quivi pela porta da cozinha. Os dois saíram correndo pelo quintal da fazenda. Passaram pelo galinheiro. Pelo varal. Até chegarem à lagoa no fundo da propriedade.


Torresminho apontou para a água. Antes que Quivi pudesse protestar, Torresminho deu um empurrão. Quivi caiu na lagoa com um baque. A água turva se espalhou em ondas, e por um segundo tudo ficou quieto. Então Quivi começou a se debater.


— Torresminho, eu não sei nadar!


O garoto afundava lentamente enquanto agitava os braços no desespero. Bolhas subiam à superfície. Torresminho ficou parado na margem. Observando. Pensando profundamente. Quivi afundou mais um pouco. O garoto híbrido finalmente concluiu sua análise.


— Acho que eu fiz besteira.


Astolfo Otapas estava no meio da horta de torresminhos, supervisionando a plantação com a calma típica de quem já tinha feito aquilo milhares de vezes. Vestia sua roupa de trabalho. Uma calça de brim surrada presa por suspensórios, botas de borracha cobertas de terra e um chapéu de palha largo que sombreava o rosto. No canto do bico ele mastigava lentamente um talo de trigo, hábito antigo que mantinha enquanto trabalhava.


Com um dos braços ele arrancava ervas daninhas do solo, analisando as fileiras gordurosas de torresminhos que cresciam como pequenos brotos crocantes entre a terra escura. Foi então que ouviu.


— Socorro, Torresminho!


Astolfo levantou a cabeça. Lá do fundo da propriedade, perto da lagoa, vinha um barulho de água batendo e um grito desesperado. Ele estreitou os olhos. E viu. Um pequeno kiwi se debatendo na água. Afundando.


— Mas o que cargas d’água tá acontecendo ali?!


Sem pensar duas vezes, Astolfo largou o trigo, saiu correndo pela horta e atravessou o campo em disparada.


— Aguenta aí, menino!


Ele chegou na beira da lagoa e se jogou direto na água barrenta. O mergulho levantou uma onda turva. Astolfo tateou por alguns segundos até agarrar Quivi pela roupa.


— Peguei!


Com um puxão forte, ele arrastou o garoto para fora da água e o colocou no chão de terra. Quivi tossia desesperadamente, cuspindo água e barro. Astolfo virou o menino de lado e deu algumas batidas firmes nas costas.


— Vai, cospe isso tudo aí!


Quivi finalmente puxou um grande gole de ar. Ainda zonzo, mas vivo. Enquanto isso, alguns passos atrás, Torresminho estava completamente pálido. Os olhos arregalados. E, ao perceber a dimensão do problema que tinha causado, começou a chorar.


— Eu só queria ajudar…


Mas a frase morreu no meio. Porque ele viu algo. Na porta da casa. Parada como uma estátua de condenação rural. Raimunda Otapas. A mãe. Ela estava segurando um sifão de ferro pesado, daqueles usados para desentupir o encanamento. Seu vestido de casa estava manchado de farinha, os bobes ainda firmes na cabeça, e sua expressão era absolutamente mortal. Ela apoiou o sifão no ombro. Sorriu. Um sorriso que não tinha absolutamente nada de maternal.


— Você está fodido, moleque.


Torresminho arregalou ainda mais os olhos. Raimunda não deixou ele falar. Ela avançou. Torresminho tentou correr. Mas Raimunda era uma mulher criada em fazenda, ela já estava acostumada a correr atrás de galinha, de porco e até de cabra fugindo. O sifão desceu. Torresminho desviou por centímetros.


Dentro da casa, alguns minutos depois, Astolfo estava sentado na mesa da cozinha secando Quivi com um pano velho e sujo de graxa e gordura saturada. O garoto ainda estava meio tonto, mas respirava normalmente. Astolfo examinava o ouvido ferido com cuidado. Ele pegou um pedaço de gaze.


— Pai, não foi culpa do Torresminho — murmurou Quivi.


Astolfo suspirou.


— Fica quieto, menino.


Ele apertou o curativo no ouvido.


— Aquela peça rara é mais estragada do que eu imaginava.


Astolfo amarrava o curativo enquanto balançava a cabeça.


— Tá vendo só? Eu já te avisei que você não tem as mesmas habilidades do seu irmão.


Quivi bufou.


— Eu só queria cuspir algodão…


No quarto ao lado, o barulho continuava.


— Vai fazer o seu irmão sangrar, é?! Vai enfiar giz na orelha dos outros?!


Torresminho corria em círculos tentando escapar, mas era enchido de cacetadas.


— Foi só um experimento, mãe!


Enquanto isso, na sala, Ivana e Hillary estavam largadas no sofá. Completamente indiferentes. Ivana passava esmalte preto nas unhas, já Hillary se masturbava em frente a um pequeno espelho. O barulho de Raimunda gritando ecoava pela casa. Ivana nem levantou os olhos.


— A mãe está educando alguém.


Hillary deu de ombros.


— Deve ser o Torresminho.


Mais um grito vindo do quarto.


— Experimento é o meu sifão no meio da sua cara!


Ivana soprou as unhas para secar o esmalte.


— Normal.


Quando o barulho aumenta, elas acabam por ignorar completamente e, meio entediadas, decidem se beijar, sem se importar com o caos ao redor. E assim, entre giz de cera mastigado, tentativas científicas absurdas, afogamentos acidentais e sessões educativas com sifão de ferro, a infância de Torresminho e Quivi Otapas seguia exatamente como sempre. Caótica. Barulhenta. Levemente traumática. E, para todos os efeitos, um dia absolutamente normal na Fazenda da Família Otapas.


Mais seis anos haviam passado desde o infame episódio da lagoa. O tempo transformou os dois garotos desajeitados em adolescentes magros, compridos e ainda mais problemáticos do que antes. Torresminho e Quivi cresceram praticamente como duas metades da mesma criatura.


A Fazenda Otapas, com suas hortas intermináveis de torresminhos e o cheiro permanente de gordura frita no ar, continuava sendo o mundo inteiro deles. Ali aprenderam a dirigir carroças, a colher torresminhos sem arrancar a raiz e a fugir de Raimunda quando ela aparecia armada com o sifão de ferro. Agora, já na adolescência, novas curiosidades começaram a surgir.


O corpo estava mudando, e para dois garotos criados no meio do mato, sem nenhuma aula de educação sexual e com a maturidade emocional de dois gambás brigando dentro de um saco, essas descobertas vinham acompanhadas de confusão científica e experimentos extremamente questionáveis. Naquela manhã, os dois estavam deitados no beliche do quarto que dividiam.


O sol atravessava a janela de madeira e iluminava o quarto bagunçado, cheio de roupas jogadas, ferramentas agrícolas e revistas velhas de propaganda de torresmo. Ambos estavam na parte de cima do beliche, de barriga para cima, em um silêncio concentrado, explorando um passatempo clássico da adolescência rural.


Eles estavam se masturbando. Quivi, agora mais alto e com penas desgrenhadas que insistiam em crescer em direções estranhas, observava cuidadosamente o estado de seu pênis antes de decidir o destino do material coletado.


— Está meio seco — comentou ele, analisando o próprio pênis.


Torresminho, deitado ao lado, parecia igualmente concentrado em sua própria exploração biológica.


— O meu parece mais elástico — respondeu ele, puxando lentamente um fio viscoso e estudando-o contra a luz.


Era nesse momento de intensa investigação científica que a porta do quarto se abriu sem qualquer cerimônia. Quem entrou foi Vasitio. Vasitio era uma criatura peculiar até mesmo para os padrões da família Otapas. Tinha o corpo pequeno de uma criança, braços humanos finos e desajeitados, mas a cabeça era a de uma jaguatirica, com orelhas pontudas, bigodes sensíveis e olhos grandes demais para o próprio rosto.


Foi adotado alguns anos antes por Hillary e Ivana, que, por algum motivo que ninguém na família compreendia totalmente, decidiram que criar uma criança híbrida felina seria uma boa ideia. O resultado era um menino inocente, curioso e extraordinariamente inconveniente. Vasitio tinha o hábito irritante de aparecer em lugares sem bater, fazer perguntas constrangedoras e narrar em voz alta qualquer coisa estranha que observasse. Ele entrou no quarto com a naturalidade de quem acreditava que todas as portas existiam para ser abertas.


— Ei, tios! A vovó mandou chamar vocês pra almoçar.


A frase morreu no meio. Ele havia levantado os olhos e percebido exatamente o que os dois estavam fazendo. Os três ficaram imóveis por um segundo inteiro. Torresminho levou um susto absurdo. Seu corpo reagiu por puro reflexo. Antes mesmo de entender o que estava fazendo, ele disparou o conteúdo viscoso que havia acabado de ejacular diretamente na direção do sobrinho. O sêmen atravessou o pequeno espaço entre eles e atingiu o rosto de Vasitio.


No primeiro instante parecia apenas uma gosma comum. Então começou a reagir. A secreção orgânica de Torresminho, resultado de uma biologia híbrida que ninguém na família compreendia totalmente, começou a borbulhar ao entrar em contato com a pele do menino. A substância espessa ganhou um tom esverdeado e quente, espalhando-se pelo rosto felino como uma pasta corrosiva. A pele de Vasitio começou a avermelhar instantaneamente, os pelos da jaguatirica se encolheram e pequenas áreas da superfície da pele começaram a deformar como se estivessem sendo queimadas por um ácido lento. Vasitio deu um passo para trás, completamente assustado.


— Tio?


O desconforto virou dor em questão de segundos. Ele levou as mãos ao rosto enquanto a substância continuava a reagir.


— Meu rosto!


Os olhos arregalados, a pele ardendo e o catarro ainda escorrendo pela bochecha, Vasitio saiu correndo do quarto em pânico, gritando pelo corredor.


— Vovô! Vovó! O meu rosto está ardendo!


Torresminho e Quivi se entreolharam no beliche. Quivi piscou devagar.


— Eu acho que isso foi pior do que o negócio do giz.


Torresminho ficou alguns segundos completamente imóvel, tentando processar o que havia acabado de acontecer.


— Eu não sabia que isso fazia isso.


Alguns segundos depois, ouviram passos pesados atravessando a casa. E uma voz que ambos conheciam muito bem. Raimunda Otapas não gritava imediatamente quando estava realmente irritada. Quando a situação era grave, ela ficava silenciosa primeiro. E agora ela estava muito silenciosa. Logo depois, a voz de Vasitio ecoou novamente pela casa, chorando e apontando para o rosto ainda coberto de secreção corrosiva.


Raimunda ouviu tudo. O olhar dela se moveu lentamente na direção do corredor que levava ao quarto dos dois. Sem dizer uma palavra, ela caminhou até o canto da cozinha, e lá estava ele. O velho sifão de ferro. Ela o pegou com calma, girando o peso do objeto na mão como alguém que já conhecia muito bem o uso pedagógico daquela ferramenta. Então começou a caminhar na direção do quarto. Torresminho, ainda sentado no beliche, ouviu o som familiar dos passos da mãe. Ele olhou para Quivi.


— Pronto, eu me lasquei mais uma vez.


Quivi não discutiu. Os dois saltaram do beliche ao mesmo tempo. Raimunda chegou à porta do quarto sem qualquer pressa. O sifão de ferro repousava em sua mão como se fosse apenas mais um utensílio doméstico comum, mas o sorriso que ela exibia deixava claro que aquele objeto estava prestes a cumprir uma função muito específica. Seus olhos percorreram o quarto rapidamente até encontrarem o responsável pela nova calamidade doméstica. Torresminho congelou no meio do quarto. Por um segundo, o silêncio dominou o ambiente. Então Raimunda ergueu o sifão devagar, apoiando-o sobre o ombro.


— Você vai desejar ser estuprado, moleque.


Ela avançou. Torresminho reagiu tarde demais. A primeira pancada veio rápida, atingindo o colchão ao lado dele e fazendo a estrutura do beliche estremecer violentamente. O impacto levantou poeira e fez o adolescente saltar para o lado com um grito.


— Mãe, espera!


Raimunda não estava interessada em negociações diplomáticas. O segundo golpe acertou sua canela esqueda. Não chegou a quebrar nada, mas foi o suficiente para fazê-lo tropeçar e cair sentado no chão.


— Você achou que ia derreter o rosto do seu sobrinho e ficar por isso mesmo?!


Torresminho tentou se levantar, mas o sifão já descia novamente. Ele rolou para o lado e escapou por centímetros. Ela avançava com a eficiência de alguém acostumado a lidar com adolescentes problemáticos. Torresminho tentou correr até a porta, mas Raimunda o alcançou pelo colarinho da camisa e o puxou de volta para o centro do quarto. O sifão voltou a descer, dessa vez atingindo o chão ao lado da mão dele. O impacto ecoou pela casa inteira.


— Você vai aprender hoje a manter esse pênis demoníaco sob controle!


Torresminho se contorcia tentando escapar, protegendo a cabeça enquanto as pancadas acertavam o braço, o rosto e, ocasionalmente, alguma parte menos protegida de seu corpo. Cada tentativa de fuga terminava com Raimunda interceptando-o com surpreendente agilidade para alguém que passava boa parte do dia administrando uma fazenda.


Enquanto isso, Quivi já havia descido correndo para a cozinha. Astolfo estava colocando grandes travessas de comida na mesa com a calma de quem já conhecia aquele tipo de situação. A mesa estava cheia. Havia torresmos fritos recém-saídos da colheita, legumes processados, pão de milho e uma jarra grande de suco fermentado de jabuticaba. Quivi se sentou na cadeira ainda ofegante.


— A mamãe pegou o sifão.


Astolfo apenas assentiu, colocando um prato na frente do filho.


— Eu ouvi.


De cima, o barulho de objetos sendo arrastados e pancadas abafadas atravessava o teto da casa. Hillary apareceu primeiro, puxando uma cadeira com elegância despreocupada.


— O que ele fez dessa vez?


— Eu prefiro não entrar em detalhes — respondeu Quivi.


Ivana entrou logo atrás, já se servindo de torresmos.


— Então tá.


Ela deu uma mordida.


— Justo.


No corredor, Vasitio estava sentado numa cadeira com o rosto coberto por uma mistura de pomada e compressas improvisadas. Ele ainda fungava, indignado.


— Meu rosto está latejando.


Astolfo colocou um pedaço grande de pão seco no prato dele.


— Come. Isso ajuda.


No andar de cima, o som de Torresminho implorando ecoava pela casa.


— Eu juro que eu não sabia!


Uma pancada pesada interrompeu a frase. A família começou a se servir. Raimunda ainda gritava lá do quarto, misturando sermões com ameaças pedagógicas bastante criativas. Astolfo mastigava calmamente enquanto observava os filhos.


— Passem o molho.


Ivana deslizou a tigela pela mesa. Hillary cruzou as pernas na cadeira e olhou para o teto quando um novo grito ecoou pela casa.


— Ele devia ter aprendido depois do negócio da lagoa.


Quivi encolheu os ombros enquanto pegava mais torresmos.


— Ele aprende, mas esquece rápido.


Mais uma pancada abafada ressoou no andar de cima. A família trocou alguns olhares constrangidos. Para qualquer visitante, aquilo pareceria caos absoluto. Mas para os Otapas, era apenas o almoço de uma segunda-feira comum.


Mais quatro anos se passaram desde os episódios domésticos que já haviam se tornado lenda dentro da família Otapas. O tempo avançou, as crianças cresceram, e finalmente chegou um momento que Astolfo e Raimunda jamais imaginaram testemunhar sem algum tipo de desastre associado. A formatura de ensino médio de Torresminho e Quivi. Ambos agora eram jovens quase adultos. Usavam becas pretas largas demais para seus corpos desajeitados e seguravam os capelos com um misto de orgulho e desconforto.


Haviam estudado na Escola Municipal de Sete Chaves, a pequena cidade mais próxima da fazenda Otapas, onde crianças de diversas espécies da região recebiam uma educação que variava entre razoável e profundamente improvisada. Apesar de todos os incidentes acumulados ao longo dos anos, alguns envolvendo experimentos corporais, outros envolvendo pequenos acidentes químicos, os dois conseguiram completar o ensino médio. No auditório da escola, a cerimônia estava prestes a começar. O lugar era grande demais para a cidade, construído anos atrás por um prefeito excessivamente otimista que acreditava que Sete Chaves se tornaria um polo educacional da Pangeia.


O teto alto era sustentado por vigas metálicas enferrujadas, cortinas vermelhas desbotadas pendiam nas laterais do palco e dezenas de cadeiras dobráveis preenchiam o espaço. Placas com letras tortas anunciavam a formatura da turma de Sete Chaves, e um palco de madeira improvisado havia sido montado na frente com um púlpito, microfone e uma mesa cheia de diplomas. O auditório estava completamente cheio. Pais, mães, avós, irmãos e criaturas de todo tipo ocupavam as fileiras. Algumas famílias estavam vestidas de maneira elegante, enquanto outras haviam aparecido com roupas de trabalho, chapéus de campo e botas sujas. Crianças corriam entre as cadeiras enquanto fotógrafos amadores tentavam ajustar celulares antigos para registrar o momento.


Em meio à multidão, a família Otapas ocupava uma fileira inteira. Astolfo estava sentado com seu tradicional chapéu de palha no colo, vestindo uma camisa social que claramente não havia sido usada com frequência nos últimos anos. Raimunda usava um vestido floral exageradamente formal para alguém acostumada a administrar uma fazenda, e mantinha uma postura rígida, como se estivesse tentando lembrar a si mesma que aquele era um evento respeitável. Ivana estava recostada na cadeira, pernas cruzadas e expressão entediada, enquanto Hillary mexia no cabelo e observava discretamente as outras famílias ao redor.


Ao lado delas, Vasitio, agora um pouco mais velho, mantinha no rosto as cicatrizes irregulares deixadas pelos acidentes da infância. A pele felina havia cicatrizado de maneira estranha, criando manchas e deformações leves que lhe davam uma aparência permanentemente irritada, embora seu comportamento continuasse tão inocente quanto sempre.


No palco, professores organizavam papéis enquanto a plateia aguardava o início da cerimônia. Foi então que algo começou. Um zumbido agudo surgiu no ambiente. No início parecia apenas um som distante, como o ruído de um aparelho eletrônico antigo ou um microfone mal ajustado. Mas rapidamente começou a se intensificar. Ivana franziu o rosto. Ela levou a mão até a orelha esquerda.


— Puta merda, minha orelha tá doendo demais.


Ela esfregou o ouvido com força, fazendo uma careta. Ao lado dela, Vasitio virou a cabeça curioso.


— Deixa eu ver.


Sem qualquer cerimônia, ele cuspiu na própria mão, espalhou a saliva entre os dedos e então esfregou a mistura na orelha da mãe adotiva.


— Vai melhorar. Só precisa esfregar um pouco.


Ivana o encarou com uma expressão que misturava dor e incredulidade.


— Que porra de medicina é essa?


Enquanto isso, Astolfo começou a mexer na própria orelha. Ele apertou o ouvido com os dedos e fez uma careta.


— Nossa, mas que coisa, eu também estou com dor na orelha.


Raimunda virou a cabeça imediatamente.


— Eu também!


Ela apertava o ouvido com força agora. O zumbido estava ficando mais intenso. Nas cadeiras ao redor, outras pessoas começaram a reagir. Primeiro foram alguns murmúrios. Depois expressões de incômodo. Então dezenas de pessoas passaram a levar as mãos aos próprios ouvidos. O desconforto começou a se espalhar rapidamente pela plateia. Crianças choravam. Adultos franziram o rosto tentando suportar o som agudo que parecia vibrar diretamente dentro das cabeças. Algumas pessoas levantaram das cadeiras. Outras pressionavam as orelhas com as mãos, tentando bloquear o ruído. O auditório inteiro começava a mergulhar em um desconforto coletivo crescente. E no palco, os professores ainda não tinham percebido o que estava acontecendo.


Atrás das cortinas do auditório, longe do olhar da plateia, a turma de formandos aguardava o momento de entrar no palco. O espaço era um corredor improvisado formado por divisórias de madeira e cortinas pesadas, onde dezenas de estudantes de beca conversavam, riam nervosamente ou tentavam parecer mais confiantes do que realmente estavam. O cheiro de madeira antiga, perfume barato e ansiedade adolescente misturava-se no ar. Entre os formandos estavam Torresminho e Quivi, posicionados um ao lado do outro perto da parede.


Torresminho já não lembrava em quase nada o bebê estranho que havia caído dos céus anos atrás. Agora era um jovem adulto alto e robusto, com quase dois metros de altura e uma presença física que chamava atenção mesmo em silêncio. Seu corpo carregava claramente a herança híbrida de seus pais biológicos. A pele possuía um tom alaranjado translúcido, típico dos suínicos, mas com áreas gelatinosas e brilhantes que denunciavam sua natureza placentária. Sob certas luzes, era possível enxergar sombras de veias e órgãos pulsando de maneira sutil sob a superfície da pele. Seu torso era largo e musculoso, os braços fortes e longos, enquanto pequenas presas suínicas surgiam discretamente nos cantos da boca. Os olhos, porém, eram inquietos, quase sempre observando o ambiente como se procurassem algo além do que os outros viam.


Ao lado dele estava Quivi, praticamente o oposto físico do irmão. O jovem kiwi era mais baixo e arredondado, com o corpo compacto típico da espécie. Seus braços longos pendiam de maneira um pouco desajeitada ao lado do corpo, e profundas olheiras marcavam seu rosto, resultado de anos dormindo pouco e pensando demais. Enquanto Torresminho ocupava espaço naturalmente, Quivi parecia sempre tentar ocupar o mínimo possível. Ele mantinha os ombros ligeiramente curvados, olhando para o chão ou para o irmão sempre que alguém se aproximava demais.


— Você acha que a mãe trouxe o sifão? — murmurou Quivi, olhando de relance para a cortina que dava acesso à plateia.


Torresminho soltou um suspiro.


— Se ela trouxe, pelo menos hoje eu estou protegido pela beca.


Quivi assentiu, tentando parecer tranquilo, mas o nervosismo ainda era evidente. Foi então que dois colegas se aproximaram. O primeiro era Borges, um humano ruivo cuja pele era completamente coberta de sardas, como se alguém tivesse espalhado tinta ferrugem sobre o rosto dele. O detalhe mais estranho, porém, era que Borges possuía apenas um enorme nariz cobrindo rosto inteiro. Nenhuma outra estrutura. Apenas um único nariz grande e ligeiramente torto bem no centro da face, o que dava a impressão constante de que seu rosto inteiro havia sido construído ao redor dele.


Ao lado de Borges vinha Abílio, uma pequena abelha que usava uma beca adaptada ao pequeno corpo insetoide. Ele flutuava acima do chão com o zumbido leve das asas. Seus olhos compostos eram grandes e curiosos, e um aparelho ortodôntico brilhava em seus dentes minúsculos sempre que ele falava. Borges abriu um sorriso provocador ao ver os dois.


— Olha só, os irmãos escrotos e pobres da fazenda de torresmo.


Abílio riu com um som agudo, as asas vibrando.


— Eu ainda não acredito que vocês dois chegaram até aqui sem explodir a escola antes.


Quivi automaticamente abaixou o olhar, encolhendo os ombros. Torresminho, porém, apenas virou a cabeça lentamente para encarar os dois.


— Vocês dois vieram até aqui só pra isso?


Borges deu um passo mais perto.


— Eu só queria ter certeza de uma coisa antes da gente receber o diploma.


Ele apontou para Torresminho.


— Você é mesmo feito de gosma de placenta e toucinho, ou isso é só aparência?


Abílio começou a rir de novo. Torresminho coçou o queixo lentamente.


— Sabem de uma coisa?


Ele inclinou a cabeça.


— Por que vocês dois não dão uma mamada suculenta no meu saco antes de subirmos no palco?


O sorriso de Borges desapareceu. Abílio fez um barulho irritado com as asas. Antes que a discussão pudesse evoluir para algo mais físico, uma voz firme surgiu atrás deles.


— Chega.


Os quatro viraram a cabeça ao mesmo tempo. Senhora Dirce, a professora, acabou de entrar pelos bastidores vindos do palco. Ela era uma girafa peculiar, com o corpo alto e elegante da espécie, mas um pescoço surpreendentemente curto, quase comprimido entre os ombros largos. Usava um vestido formal e segurava uma prancheta cheia de nomes e anotações, que consultava com expressão profissional. Ela olhou para os quatro com severidade.


— Vocês acham que isso aqui é um curral para ficarem fazendo balbúrdia?


Torresminho cruzou os braços.


— Senhora Dirce, eles nos provocaram.


Dirce ergueu a mão.


— Nem uma palavra. Vocês estão fazendo contato visual.


Ela apontou para as marcas no chão onde os formandos deveriam se posicionar.


— Borges, Abílio, Torresminho e Quivi. Cada um no seu lugar. A cerimônia começa em dois minutos.


Os quatro começaram a se posicionar. Foi então que Dirce levou a mão ao ouvido. Seu rosto se contorceu.


— Puta que me pariu! O que é isso?!


Ela apertou o ouvido com força.


— Minha orelha…


Atrás dela, alguns alunos também começaram a reagir. Vários estudantes começaram a pressionar os ouvidos, fazendo caretas enquanto o zumbido agudo se espalhava pelo corredor dos bastidores. Borges franziu o rosto imediatamente.


— Que diabos…


Abílio começou a vibrar as asas de maneira descontrolada.


— Eu tô ouvindo isso também!


Quivi levou a mão ao próprio ouvido, confuso.


— Tá doendo…


Mas uma pessoa não reagiu. Torresminho permanecia parado. Imóvel. Observando todos ao redor com uma expressão estranha. O zumbido parecia atravessar o corredor inteiro. Mas não o afetava. E quanto mais o som aumentava, mais ele começava a sentir algo diferente. Algo que parecia menos dor, e mais reconhecimento. Atrás das cortinas, Quivi afastou ligeiramente o tecido pesado e colocou o rosto entre as frestas, tentando enxergar o que estava acontecendo no auditório.


O som agudo continuava vibrando pelo ambiente, como se algum aparelho gigantesco estivesse sendo ligado dentro da cabeça de todos ali. Ele mantinha as duas mãos pressionadas contra os ouvidos, o rosto contorcido pela dor enquanto observava a plateia cada vez mais inquieta.


— Torresminho… — murmurou ele, sem tirar os olhos da abertura da cortina. — Acho que tem alguma coisa acontecendo. Tá estranho lá fora…


A voz saiu abafada, quase um sussurro, porque o zumbido parecia aumentar a cada segundo. Torresminho também se aproximou da cortina e espiou por cima do ombro do irmão. Do outro lado, o auditório estava se transformando lentamente em um caos coletivo. Pessoas se levantavam das cadeiras, outras pressionavam as orelhas com as mãos, crianças choravam e adultos trocavam olhares confusos tentando entender o que estava acontecendo. Torresminho observou tudo aquilo com calma. E então deu de ombros.


— Olha lá a mãe se fodendo — comentou em voz baixa, com um sorriso torto. — Que frescura, por que tá todo mundo com dor de orelha?


Ele inclinou a cabeça ligeiramente, intrigado. Porque enquanto todos pareciam sofrer com aquele zumbido infernal, ele não sentia absolutamente nada. Nenhuma dor, ou desconforto. Na verdade, quanto mais prestava atenção, mais percebia que aquele som estranho lhe causava algo diferente. Uma sensação distante de familiaridade, como se alguma parte esquecida de seu corpo estivesse tentando reconhecer aquilo. Quivi, ainda segurando os ouvidos, virou o rosto para ele.


— Você não está ouvindo isso?


Torresminho franziu a testa.


— Eu tô ouvindo.


Ele voltou a olhar para o auditório.


— Mas não dói.


Quivi não teve tempo de responder. Porque naquele exato momento, algo gigantesco atravessou o céu acima do prédio da escola. O primeiro sinal foi uma sombra enorme passando pelas janelas do auditório. Em seguida veio um estrondo monumental. O teto do prédio explodiu para dentro como se tivesse sido atravessado por um meteoro metálico. Placas inteiras de concreto se romperam, vigas metálicas foram arrancadas do lugar e fileiras de refletores despencaram junto com pedaços do teto.


Uma estrutura colossal desceu rasgando o ar e atravessando o prédio. Quando finalmente se estabilizou, estava pousada diretamente sobre o palco. Era uma nave. Uma enorme espaçonave prateada, cuja forma lembrava de maneira absurda um liquidificador gigante. A base da nave era larga e circular, como o copo de um aparelho doméstico desproporcionalmente ampliado. O corpo principal se estreitava conforme subia, terminando em uma cúpula metálica cheia de antenas, turbinas laterais e anéis de propulsão que giravam lentamente emitindo o mesmo zumbido estridente que vinha atormentando os ouvidos de todos no prédio.


Diversos painéis luminosos percorriam a superfície da nave, com inscrições alienígenas correndo pelas laterais como dados de navegação. Turbinas menores projetadas ao redor da estrutura lembravam braços mecânicos de um equipamento industrial, enquanto luzes azuis pulsavam ao longo da fuselagem. Mas a silhueta geral continuava absurdamente parecida com a de um liquidificador colossal de metal cromado. O impacto da aterrissagem fez o palco tremer. Fileiras de cadeiras tombaram. Pedaços de concreto, vidro e refletores despencaram pelo auditório. E então veio o pânico. Gritos ecoaram por todo o salão. Pessoas começaram a correr desesperadamente para as saídas, tropeçando umas nas outras enquanto tentavam escapar. Crianças choravam, professores gritavam ordens inúteis, e o auditório inteiro rapidamente se transformou em uma multidão caótica tentando fugir do que quer que tivesse acabado de pousar ali.


Em meio à confusão, uma chuva de poeira e fragmentos de teto continuava caindo lentamente pelo ar. Atrás das cortinas, Torresminho e Quivi permaneciam parados. Ainda vestidos com suas becas de formatura. Observando. A gigantesca nave prateada em formato de liquidificador ocupava agora todo o palco destruído, suas turbinas ainda vibrando enquanto o zumbido metálico continuava ecoando pelo auditório devastado. Quivi engoliu seco.


— Torresminho…


Ele não terminou a frase. Porque algo na superfície da nave começava a se abrir. A estrutura metálica da nave permaneceu imóvel por alguns segundos, enquanto o zumbido agudo continuava vibrando pelo auditório destruído. Poeira de concreto flutuava no ar, misturando-se com faíscas de fios elétricos rompidos que ainda pendiam do teto aberto. O palco havia se transformado em um amontoado de madeira quebrada e cabos expostos sob a presença colossal da nave prateada. Então algo se moveu. Na parte frontal da estrutura metálica, uma rampa começou a descer lentamente, acompanhada por um rangido hidráulico profundo. As placas da nave se abriram com movimentos precisos, revelando uma porta circular que se separou em segmentos metálicos.


De dentro da abertura escapou uma nuvem espessa de vapor branco, como se o interior da nave estivesse mantendo uma atmosfera diferente do ambiente externo. A névoa se espalhou pelo palco destruído, rastejando sobre os destroços. Duas silhuetas começaram a emergir lentamente daquele vapor. Quando finalmente se tornaram visíveis, ficou claro que não eram humanos. Ambos eram criaturas altas e esguias, com membros desproporcionalmente longos e finos. Seus braços quase tocavam os joelhos, e as pernas lembravam a estrutura de insetos gigantes adaptados à postura bípede. A pele possuía um tom amarelado chamuscado, como se tivesse sido queimada pelo sol durante séculos, e sua superfície era composta por placas naturais que lembravam grãos de milho comprimidos. Aquela textura irregular formava uma espécie de carapaça orgânica, dura e resistente, parecida com couro de crocodilo.


As mãos terminavam em unhas longas e afiadas, enquanto os dentes expostos em suas bocas eram serrilhados como lâminas pequenas. Seus olhos eram talvez o traço mais perturbador. Longos, inclinados e completamente negros, sem pupila visível, como fendas escuras que pareciam absorver a luz. Vestiam túnicas roxas reforçadas com placas metálicas, uma mistura entre roupas cerimoniais e armadura leve, adornadas com símbolos geométricos desconhecidos.


O primeiro deles era mais alto. Seus movimentos eram controlados e elegantes, e sua postura transmitia a segurança de alguém acostumado a comandar situações diplomáticas. O segundo era um pouco mais baixo, com um corpo mais compacto e musculoso. Em uma das mãos ele segurava um dispositivo estranho cheio de sensores e antenas telescópicas, e na outra carregava uma arma tecnológica cujo cano brilhava com uma energia azul pulsante.


O auditório inteiro ficou em silêncio. As poucas pessoas que ainda não haviam fugido observavam aquelas figuras com os olhos arregalados, incapazes de compreender o que estavam presenciando. O alienígena mais alto deu alguns passos à frente, até o limite da rampa. Então ergueu o queixo e falou. Sua voz ecoou pelo auditório como se estivesse amplificada por algum tipo de tecnologia invisível.


— Nativos deste planeta insignificante!


O eco de sua voz reverberou pelas paredes quebradas do auditório.


— Nós, do povo Girilo-Milo, do Planeta Esferográfico, viemos em nome de Sua Majestade, a Imperatriz Dorotéia.


Ele fez uma breve pausa, observando a multidão aterrorizada.


— Estamos aqui em busca de seu sobrinho mestiço.


A tensão no ambiente parecia congelar o ar.


— Entreguem-no — continuou o alienígena — e partiremos sem causar mais confusão neste mundo primitivo.


Ninguém respondeu. A plateia inteira permanecia paralisada, tentando processar aquelas palavras absurdas. Foi então que o Girilo-Milo mais alto virou levemente a cabeça na direção de seu companheiro. Fez um gesto simples com a mão. O segundo alienígena imediatamente ergueu o dispositivo que carregava. Era um objeto metálico alongado, cheio de pequenos sensores, tubos translúcidos e um núcleo pulsante de energia verde no centro.


A superfície do aparelho estava coberta por inscrições tecnológicas alienígenas, enquanto antenas finíssimas se estendiam e se retraíam continuamente, como se estivessem cheirando o ambiente. Ele pressionou um botão. O dispositivo ganhou vida. Um feixe de luz verde oscilante começou a sair da extremidade frontal do aparelho, varrendo o auditório lentamente como um radar. Pequenos sinais luminosos piscavam na lateral da máquina. Aquilo era um Detector de Placenta. A tecnologia havia sido desenvolvida no Planeta Esferográfico especificamente para rastrear organismos com composição biológica placentária, algo extremamente raro fora daquele sistema estelar.


O feixe percorreu as cadeiras vazias, passou pelos corredores, e subiu pelas paredes. Então apontou para as cortinas atrás do palco. O aparelho começou a emitir sinais cada vez mais intensos. Os sensores vibraram. O núcleo verde pulsou com força. E a luz se estabilizou. Apontando diretamente para o espaço entre as cortinas onde Torresminho observava. O jovem híbrido imediatamente tentou se encolher, recuando instintivamente. Mas já era tarde. O Girilo-Milo mais baixo inclinou a cabeça. Seus olhos negros se fixaram na abertura da cortina. Ele apontou diretamente para lá.


— Ali.


O alienígena mais alto virou o rosto lentamente. Seus olhos escuros encontraram Torresminho escondido. Um sorriso fino e predatório apareceu em sua boca.


— Encontramos você.


O Girilo-Milo mais baixo não perdeu tempo. Assim que o detector confirmou o sinal, ele avançou com passos longos e silenciosos pelo palco destruído, atravessando a cortina como se aquilo não fosse mais do que um pano sem importância. Antes que qualquer reação mais organizada pudesse surgir, sua mão ossuda e revestida pela carapaça amarelada agarrou Torresminho pelo braço com força brutal. O jovem híbrido tentou reagir por instinto.


— Me solta, porra!


Mas a tentativa foi inútil. A força da criatura era desproporcional. Torresminho sentiu os dedos duros como garras apertando seu braço com precisão cirúrgica. No puxão violento, seu capelo caiu no chão, rolando pelos destroços do palco enquanto ele era arrastado para frente. Torresminho tentou se soltar, girando o corpo e puxando o braço para trás, mas o alienígena simplesmente continuou andando, arrastando-o como se ele fosse apenas um objeto incômodo. Quivi entrou em pânico imediatamente.


— Irmão!


Sem pensar, ele se jogou para frente e agarrou a perna do irmão com as duas mãos, prendendo-se desesperadamente enquanto lágrimas já escorriam pelo rosto. Seu choro veio com força.


— Por favor! Por favor, não levem meu irmão!


Ele soluçava enquanto tentava puxar Torresminho de volta, os braços longos tremendo de esforço.


— Não levem ele!


O Girilo-Milo mais baixo parou por um instante e olhou para baixo. Seus olhos negros observaram o pequeno kiwi agarrado à perna do híbrido como se ele fosse um inseto irritante. O alienígena mais alto se aproximou calmamente, as túnicas roxas arrastando pelos destroços do palco. Ele observou Quivi chorando. Depois respondeu com frieza absoluta.


— Dorotéia o quer vivo.


Ele inclinou levemente a cabeça na direção de Torresminho.


— Ele possui algo que precisamos.


Quivi balançava a cabeça desesperadamente.


— Ele não fez nada! A gente só veio se formar!


O Girilo-Milo simplesmente ignorou. Foi então que uma voz rasgou o caos do auditório.


— Largue imediatamente os meus meninos!


Todos se viraram. Raimunda Otapas avançava pelo corredor central do auditório destruído como um furacão furioso. Seu rosto estava vermelho de raiva, os olhos brilhando com uma fúria que nenhum alienígena parecia ter previsto naquele planeta primitivo. Na mão direita ela empunhava o velho sifão de ferro, que havia trazido dentro da bolsa como sempre fazia quando saía de casa. Ela parou entre os alienígenas e os filhos. O sifão ergueu-se no ar.


— Vocês vão soltar meus filhos agora mesmo, seus arrombados!


O silêncio que seguiu foi curto. O Girilo-Milo mais alto virou lentamente a cabeça para o companheiro. Eles trocaram um olhar rápido. Então o alienígena diplomata apenas estalou os dedos. A reação foi imediata. Na lateral da nave, um compartimento se abriu com um som metálico. De dentro dele emergiu uma torreta automática, cuja estrutura giratória começou a alinhar rapidamente os sensores na direção da mulher.


Antes que qualquer pessoa pudesse reagir, o cano da arma brilhou. A rajada veio sem aviso. O disparo tecnológico rasgou o ar do auditório com velocidade brutal. A primeira sequência de projéteis atravessou Raimunda no peito e no abdômen com violência devastadora. O impacto fez o corpo da matriarca estremecer violentamente enquanto o sangue se espalhava pelo vestido floral em uma explosão vermelha. A segunda rajada foi ainda mais brutal. Os projéteis atravessaram seu corpo como lâminas invisíveis, rasgando carne e ossos. Fragmentos de sangue e tecido foram projetados para trás enquanto o sifão de ferro escapava de sua mão e caía no chão do auditório. Por um breve segundo Raimunda ainda permaneceu de pé. Então os seus joelhos cederam. O corpo tombou pesadamente sobre os destroços do palco.


A plateia entrou em pânico absoluto. Gritos ecoaram por todo o auditório. Pessoas correram para as saídas em desespero, derrubando cadeiras, empurrando umas às outras enquanto tentavam escapar daquela cena impossível. No meio do caos, Quivi ainda estava agarrado à perna de Torresminho. Ele olhou para o corpo da mãe no chão. E começou a chorar ainda mais forte.


— Mãe!


Mas o Girilo-Milo mais baixo simplesmente continuou andando. Como Quivi se recusava a soltar o irmão, ele acabou sendo arrastado junto pelo chão do palco, ainda agarrado à perna de Torresminho enquanto soluçava e se engasgava no próprio choro.


— Não! Por favor!


O alienígena não demonstrava qualquer emoção. Ele apenas subiu a rampa da nave com os dois jovens sendo puxados junto. Assim que entraram na nave, a rampa começou a se recolher. As portas metálicas se fecharam com um som pesado. Os motores voltaram a vibrar. A gigantesca nave, conhecida entre os Girilo-Milo como o Triturador Interplanetário Classe Oráculo, uma nave de captura usada para missões especiais no Planoverso, começou a subir lentamente do palco destruído.


O vento gerado pelos propulsores espalhou papéis, cadeiras e poeira pelo auditório enquanto a nave atravessava novamente o buraco aberto no teto. Em poucos segundos, ela já era apenas um ponto prateado no céu. Dentro da nave, ainda vestidos com as becas de formatura, Torresminho e Quivi permaneciam em choque. A poeira da viagem ainda tremia sob seus pés enquanto o planeta começava a se afastar pelas janelas metálicas da nave.

 
 
Capítulo I: O Filho da Discórdia

Para compreender a origem de certas histórias, especialmente aquelas que envolvem revoluções improváveis, líderes tirânicos e aves de aparência modesta, é necessário voltar no tempo. Muito no tempo. C

 
 
Capítulo III: Longe Demais de Casa

O interior do Triturador Interplanetário Classe Oráculo era muito menos grandioso do que a aparência externa da nave sugeria. Os corredores metálicos eram estreitos, iluminados por luzes azuladas que

 
 

© 2018 Planoverso™ — Todos os direitos reservados.

bottom of page