Capítulo III: Longe Demais de Casa

Atualizado: 22 de ago.
O interior do Triturador Interplanetário Classe Oráculo era muito menos grandioso do que a aparência externa da nave sugeria. Os corredores metálicos eram estreitos, iluminados por luzes azuladas que pulsavam ritmicamente como se o próprio casco respirasse. Tubulações translúcidas percorriam as paredes transportando líquidos desconhecidos que borbulhavam lentamente, e o ar tinha um cheiro desagradável, uma mistura de vinagre ácido com borracha queimada, como se motores antigos e produtos químicos compartilhassem o mesmo sistema de ventilação.
Torresminho e Quivi foram conduzidos sem qualquer cerimônia por dois guardas Girilo-Milo até uma pequena cela de contenção. Assim que chegaram, os alienígenas os empurraram para dentro e a porta metálica se fechou atrás deles com um estalo seco. O interior era simples. Com paredes lisas de liga metálica escura, um banco preso ao chão e um pequeno campo luminoso azul que pulsava no teto, provavelmente algum tipo de sistema de vigilância. Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou. Ainda vestiam as becas de formatura, agora cobertas de poeira, pedaços de concreto e manchas do caos que haviam deixado para trás.
O silêncio dentro da cela parecia pesado demais, como se o espaço inteiro estivesse esperando alguém dizer algo primeiro. Torresminho foi o primeiro a quebrar o silêncio. Ele passou a mão pelo rosto, respirou fundo e balançou a cabeça lentamente.
— A mãe se fodeu de verdade, né? — murmurou ele, a voz baixa e carregada de algo que ele próprio ainda não sabia identificar. — Eu não queria que fosse assim...
Ele encostou as costas na parede fria da cela e ficou olhando para o chão por um momento, como se estivesse tentando organizar pensamentos que não estavam acostumados a existir. Quivi não respondeu. Em vez disso, começou a se masturbar repetidamente no chão. Pequenos movimentos rápidos, quase mecânicos, como se cada flexionada fosse uma tentativa de acordar de um pesadelo. O som seco dos dedos apertando a pele ecoava pela cela metálica. Torresminho ergueu os olhos.
— Cacete, Quivi, o que você tá fazendo? — perguntou ele, franzindo a testa. — Não é hora de ficar batendo punheta, cara.
Quivi continuou por mais alguns segundos antes de parar. Respirou fundo, os olhos vermelhos e úmidos.
— Eu me masturbo quando estou nervoso, tá legal? — respondeu ele, com a voz trêmula. — Isso me ajuda a saber que eu ainda tô aqui.
Ele engoliu seco.
— A gente acabou de perder a mãe… — murmurou. — E eu nem consegui me despedir.
As lágrimas começaram a escorrer de novo, silenciosas e pesadas. Torresminho observou aquilo por alguns segundos. Então se aproximou. Sentou ao lado do irmão e colocou uma mão grande sobre o ombro dele, apertando com firmeza.
— Escuta, Quivi. — disse ele, tentando manter a voz estável. — A gente vai sair dessa.
Ele respirou fundo.
— Eu tô aqui. E não vou deixar nada separar a gente.
Quivi levantou os olhos lentamente.
— Somos irmãos… — continuou Torresminho. — Pra sempre.
Por um breve momento, Quivi conseguiu esboçar um pequeno sorriso tímido, apesar das lágrimas ainda escorrendo. Mas naquele exato instante, algo estranho aconteceu. Um brilho azul apareceu de repente ao redor do corpo de Torresminho. Foi rápido. Quase imperceptível. Como um piscar de luz. O ar ao redor dele vibrou por um segundo, distorcendo ligeiramente a imagem da cela.
Então ele desapareceu. Simplesmente deixou de estar ali. Nenhum som. Nenhuma transição gradual. Apenas um lampejo e o espaço vazio onde antes estava seu corpo. Quivi levou alguns segundos para perceber o que tinha acontecido. Ele piscou. Olhando para o lugar vazio ao lado.
— Torresminho?
Silêncio. Ele virou a cabeça para todos os lados da cela.
— Torresminho?
O pânico começou a crescer no peito dele como uma maré.
— Torresminho!
Quivi começou a se masturbar novamente, agora mais rápido, quase freneticamente, como se estivesse tentando acordar de um sonho ruim. O som dos movimentos ecoava contra as paredes metálicas.
— Torresminho!
Mas não havia resposta. A cela continuava exatamente a mesma. Fria. Metálica. E agora completamente vazia ao lado dele. Quivi deslizou lentamente até o chão, encostando as costas na parede enquanto as lágrimas continuavam a cair.
— Não, não, não…
Ele abraçou as próprias pernas. Sozinho. Preso em uma nave alienígena. Sem entender para onde o irmão havia ido. Ou se ainda o veria novamente.
Torresminho piscou várias vezes seguidas, como alguém tentando acordar de um sonho estranho. Um segundo antes ele estava dentro de uma cela metálica, sentado ao lado do irmão, ainda sentindo o cheiro azedo da nave alienígena. No instante seguinte, o chão sob seus pés havia mudado completamente. Ele se encontrava em um salão colossal. O teto se perdia na escuridão acima, sustentado por colunas orgânicas que pareciam crescer do próprio chão como raízes petrificadas.
A iluminação não vinha de lâmpadas convencionais, mas de grandes esferas translúcidas suspensas no ar, cheias de um líquido azul pulsante que emitia uma luz fria e alienígena. Aquela luz dava ao ambiente uma aparência quase aquática, como se todo o salão estivesse submerso em um oceano invisível. Torresminho girou lentamente, tentando entender onde estava.
Em volta dele, arquibancadas circulares se erguiam em níveis elevados, formando uma arena natural. E nelas havia centenas de criaturas Girilo-Milo. Todos possuíam a mesma estrutura básica, corpos esguios, membros longos demais para um humano, pele amarelada e texturizada como carapaças vegetais queimadas. Seus olhos negros, sem pupila visível, estavam todos voltados para ele. O murmúrio da multidão era baixo, mas constante. Um burburinho curioso, quase reverente. Torresminho percebeu rapidamente uma coisa. Ele não estava mais na nave, nem na Pós-Terra, e nem sequer no sistema solar. Ele estava no Planeta Esferográfico.
No centro do salão havia uma plataforma elevada que lembrava um tribunal ou arena de execução. No ponto mais alto dessa estrutura estava um trono monumental, construído de metal escuro e pedras verdes que brilhavam levemente, provavelmente fragmentos da famosa Esmeralda Regenerativa. Sentada naquele trono estava a figura que claramente dominava toda a sala. Dorotéia. Ela era diferente dos outros Girilo-Milo. Seu corpo era mais alto, mais elegante, com uma postura que transmitia autoridade absoluta. A carapaça amarelada de sua pele possuía padrões naturais mais complexos, quase ornamentais, como se sua biologia tivesse sido refinada artificialmente. Seus olhos negros eram mais alongados, mais afiados, e as unhas de suas mãos eram longas como pequenas lâminas.
Ela vestia uma túnica cerimonial negra e roxa reforçada por placas de armadura orgânica, decorada com símbolos genéticos e circuitos metálicos incrustados. Em uma das mãos, ela segurava um enorme machado, enquanto na outra, ela segurava um pequeno dispositivo metálico brilhante. Era o Translocador Portátil. O aparelho tinha o tamanho de uma pedra grande, cheio de anéis metálicos que giravam lentamente ao redor de um núcleo energético azul pulsante. Pequenas antenas microscópicas vibravam na superfície enquanto o aparelho emitia uma leve distorção no ar, como se o espaço ao redor dele estivesse constantemente sendo dobrado. Era aquele objeto que havia puxado Torresminho da nave em um piscar de olhos.
Quando Dorotéia ergueu o machado, o murmúrio da multidão cessou. Silêncio absoluto. Ela se levantou do trono com elegância calculada. Então começou a falar. Sua voz era grossa, poderosa e ecoava pelo salão inteiro como se o próprio planeta estivesse amplificando suas palavras.
— Vejam, meus súditos!
Os Girilo-Milo permaneceram imóveis, atentos.
— Este ser diante de vocês — ela apontou diretamente para Torresminho — é a escória de todo o Planeta Esferográfico.
A multidão murmurou levemente.
— Um vira-lata biológico. Um mestiço. Um erro genético.
Ela deu alguns passos à frente.
— Meu próprio sobrinho.
Torresminho arregalou os olhos. A palavra atravessou sua cabeça como um soco.
— Sobrinho?
Ele olhou ao redor, completamente perdido. Depois voltou o olhar para Dorotéia.
— Sobrinho? O que você quer dizer com isso, vagabunda?
Alguns Girilo-Milo reagiram com indignação. Mas Dorotéia apenas riu. Um riso seco, amargo, e triunfante.
— Vejam só, o animal sabe falar.
Ela começou a caminhar lentamente ao redor dele, como alguém examinando um animal raro.
— Eu sou Dorotéia.
Ela ergueu o queixo.
— Sou o ser perfeito.
Ela levantou o Translocador levemente enquanto falava.
— O resultado da união genética entre dois povos que você jamais conseguiria imaginar convivendo em harmonia.
Ela parou diante dele.
— Fui criada pelo grandioso Doutor Justino Klépter, o maior cientista que este planeta já abduziu.
Seus olhos negros brilharam.
— Ele misturou o conteúdo genético do seu avô paterno e da sua avó materna.
Ela sorriu.
— Portanto, tecnicamente…
Ela inclinou a cabeça.
— Eu sou sua tia.
Torresminho permaneceu imóvel. Processando. Dorotéia abriu os braços lentamente, como alguém apresentando uma obra de arte para a multidão.
— Eu sou o resultado perfeito da engenharia genética.
Ela apontou novamente para ele.
— Enquanto você…
O desprezo em sua voz se tornou quase palpável.
— Você é apenas o fruto de um amor proibido e tolo.
Ela cuspiu as palavras.
— Um pecado em forma de carne.
Seus olhos brilharam de orgulho.
— Enquanto eu sou uma joia rara em forma de Dorotéia.
O salão inteiro permaneceu em silêncio reverente. Torresminho olhou ao redor lentamente. Todos aqueles Girilo-Milo observavam Dorotéia com adoração absoluta, como súditos diante de uma divindade. Ele engoliu seco. A cabeça girava. O mundo inteiro que ele conhecia havia acabado de mudar em poucos minutos. Ele levantou lentamente os olhos para a mulher no trono. E pela primeira vez desde que chegou, Torresminho percebeu que talvez sua própria existência fosse muito maior, e muito mais perigosa, do que ele jamais imaginou. A ascensão de Dorotéia ao trono do Planeta Esferográfico foi o resultado de um processo histórico complexo, que começou pouco depois do nascimento de Torresminho.
Durante séculos, o planeta foi dividido entre duas grandes civilizações. O Império Suínico, governado pelos suínicos alaranjados de pele escamosa, e o Reino Placentário, formado pelos seres translúcidos e regenerativos que cultuavam o equilíbrio biológico do planeta. As duas sociedades possuíam valores radicalmente diferentes. Os Suínicos valorizavam força, expansão territorial e prosperidade material. E os Placentários, por sua vez, acreditavam na harmonia ecológica e na preservação dos ciclos naturais do mundo. O ponto central do conflito entre esses dois povos sempre foi a Esmeralda Regenerativa, um minério raro encontrado nas profundezas do planeta.
Para os Placentários, a esmeralda era sagrada, pois suas propriedades biológicas mantinham o equilíbrio dos ecossistemas e ajudavam a sustentar o processo regenerativo de sua própria espécie. Já os Suínicos viam o minério como um recurso estratégico de imenso valor. Ele podia fortalecer organismos vivos, prolongar a vitalidade e aumentar a resistência física de guerreiros e trabalhadores. Durante gerações, essa disputa alimentou guerras violentas que devastaram regiões inteiras do planeta. Com o passar dos anos, porém, a situação começou a mudar.
A exploração excessiva da Esmeralda Regenerativa fez com que o minério se tornasse cada vez mais escasso. As reservas naturais diminuíram drasticamente, e tanto o Império Suínico quanto o Reino Placentário começaram a perceber que a continuidade do conflito levaria apenas ao colapso completo do planeta. Foi nesse momento que surgiu a tentativa de reconciliação. Os líderes de ambas as espécies, a Imperatriz Daisy, representando os Suínicos, e o casal real Sérgio e Fátima, governantes do Reino Placentário, decidiram firmar uma trégua histórica. O objetivo era criar um novo caminho para o planeta, substituindo séculos de rivalidade por uma forma inédita de cooperação entre as espécies.
Para simbolizar essa nova era, os governantes tomaram uma decisão radical. Criariam uma nova raça, um povo que carregaria em si o melhor das duas civilizações. Essa espécie híbrida seria um símbolo vivo da união entre os antigos inimigos. Para realizar esse projeto, os governantes recorreram ao maior cientista do Planoverso conhecido naquele período, o Doutor Justino Klépter. Klépter era um gênio da bioengenharia genética, conhecido por sua mente brilhante e por sua personalidade excêntrica. Ele dominava tecnologias capazes de manipular materiais genéticos em níveis extremamente avançados, misturando características biológicas de diferentes espécies para criar organismos completamente novos.
Segundo registros históricos, Klépter não aceitou inicialmente participar do projeto. Sua reputação científica e sua independência intelectual o tornavam avesso à interferência política. No entanto, os governantes do Esferográfico não estavam dispostos a ouvir recusas. O cientista foi abduzido e levado para um laboratório secreto no planeta. Lá, trabalhando sob vigilância constante, Klépter começou a desenvolver o que chamou de Projeto Girilo-Milo. Usando amostras genéticas cuidadosamente selecionadas das duas espécies dominantes, material biológico de Daisy e de Sérgio, o cientista criou um novo tipo de organismo. O resultado foi uma raça híbrida dotada de carapaça biológica resistente, metabolismo altamente eficiente e capacidade de adaptação muito superior à das espécies originais.
Klépter, em seus próprios registros, descreveu os Girilo-Milo como a mais avançada síntese biológica do Planoverso conhecido. A primeira criatura produzida pelo experimento foi Dorotéia. Ela não era apenas um protótipo, ela era o modelo perfeito. Desde o início, Dorotéia demonstrou inteligência excepcional, força física impressionante e uma capacidade estratégica incomum. Justino Klépter rapidamente percebeu que sua criação possuía algo além de simples eficiência biológica, ela tinha ambição. Dorotéia cresceu sabendo que havia sido projetada para ser o símbolo da união entre dois povos. Contudo, em vez de enxergar essa missão como um ideal de equilíbrio, ela passou a interpretá-la de maneira diferente.
Para ela, o fato de ter sido criada a partir das duas espécies significava apenas uma coisa. Ela era infinitamente superior às duas. A jovem Girilo-Milo convenceu Klépter a continuar o projeto e produzir mais indivíduos de sua nova raça. Aos poucos, o número de Girilo-Milo no planeta começou a crescer. E então, Dorotéia agiu. Ela liderou uma revolução violenta que rapidamente se transformou em uma campanha de extermínio. Usando a força física de sua nova espécie e tecnologias desenvolvidas por Klépter, os Girilo-Milo se voltaram contra os povos que os haviam criado. A guerra foi rápida e brutal. Os Suínicos foram massacrados. Os Placentários foram exterminados. Cidades inteiras desapareceram em poucas semanas. Quando o conflito terminou, apenas uma espécie permanecia viva no Planeta Esferográfico. Os Girilo-Milo.
Dorotéia então se proclamou Imperatriz Suprema do planeta, governando com autoridade absoluta sobre a nova civilização. Quanto ao Doutor Justino Klépter, o cientista não foi eliminado. Dorotéia reconhecia o valor de sua mente. Ela o manteve vivo, não como um prisioneiro comum, mas como o seu cientista imperial permanente, responsável por desenvolver tecnologias avançadas para sustentar o domínio Girilo-Milo. Sob sua supervisão surgiram invenções fundamentais para o império, como o Translocador, o Translocador Portátil, o Detector de Placenta, as Armas de Plasma Vegetativo, e diversas outras tecnologias interplanetárias. No imaginário coletivo do novo império, Dorotéia passou a ser venerada como algo mais do que uma governante. Ela se autoproclamava a coroa de todas as criações.
A síntese perfeita de duas espécies antigas e o ápice da engenharia genética. Para seus súditos, ela representava a evolução final do Planeta Esferográfico. Para si mesma, porém, Dorotéia acreditava ser algo ainda maior. A prova viva de que a perfeição podia ser fabricada.
Torresminho respirava rápido agora. O peito subia e descia com força enquanto ele tentava entender como escapar daquele salão colossal. O chão de pedra polida parecia frio sob seus pés descalços, e o eco das vozes Girilo-Milo ressoava pelas paredes como um coro hostil. Ele deu dois passos para trás. Seus olhos percorriam o ambiente com rapidez, procurando qualquer abertura, qualquer corredor, qualquer ponto que não estivesse cercado por carapaças amarelas e olhos negros. Mas os guardas já estavam se movendo. Quatro Girilo-Milo armados avançaram ao mesmo tempo, suas lanças de energia apontadas na direção dele enquanto fechavam o círculo. Seus movimentos eram calculados e sincronizados, como predadores acostumados a encurralar presas. A voz de Dorotéia atravessou o salão novamente.
— Ah, tentando fugir, sobrinho?
Ela desceu dois degraus do trono, os olhos negros brilhando com diversão cruel.
— Sinto muito, mas hoje não haverá escapatória.
Enquanto falava, ela ergueu lentamente a arma que carregava. Não era exatamente um machado comum. O objeto parecia um cajado de execução ceremonial. A haste era longa e metálica, feita de uma liga escura entrelaçada com filamentos verdes da Esmeralda Regenerativa. A lâmina na ponta lembrava um machado gigantesco, mas possuía uma forma irregular e orgânica, como se tivesse sido cultivada em vez de forjada. A superfície da lâmina pulsava com uma energia verde esmeralda que vibrava lentamente, emitindo um leve zumbido de poder acumulado. Pequenos circuitos orgânicos percorriam o cabo do cajado, conectando a lâmina a um núcleo energético que brilhava próximo à base. Era uma arma tanto simbólica quanto mortal. Algo feito para executar inimigos diante da multidão.
Torresminho agora estava completamente cercado. E a multidão Girilo-Milo começou a reagir. Primeiro vieram os insultos. Depois os objetos. Um pedaço de pão seco voou e acertou seu ombro. Em seguida veio uma garrafa de tinta guache azul, que explodiu ao atingir seu peito, espalhando pigmento viscoso por toda a beca de formatura. Tomates amassados começaram a cair sobre ele. Alguém arremessou uma panela pequena que bateu em sua perna antes de rolar pelo chão. Louças quebradas, restos de comida, pedaços de frutas fermentadas e copos vazios voavam de todos os lados.
Em poucos segundos, Torresminho estava coberto de uma mistura grotesca de tinta colorida, restos de comida e sujeira, escorrendo pela pele translúcida e pela beca rasgada.
— Esse é o sobrinho da nossa rainha? — gritou um Girilo-Milo da arquibancada. — Um vira-lata desses?
A chuva de objetos continuava. Dorotéia observava tudo do alto do trono com expressão de puro deleite. Sua risada ecoava pelo salão. Um som frio. Metálico. Cruel. Ela girava o machado-cajado nas mãos como alguém impaciente esperando o momento certo de terminar um espetáculo. Torresminho limpou o rosto com o antebraço, espalhando tinta e molho de tomate pela pele. Seus olhos varreram o salão mais uma vez. E então ele viu uma janela enorme no lado oposto do salão. Uma abertura alta que dava para o exterior do castelo.
A ideia surgiu tão rápido que ele não teve tempo de pensar nas consequências. Ele simplesmente correu. Os guardas reagiram tarde demais. Torresminho atravessou o espaço entre eles com um impulso desesperado, ignorando os gritos e os objetos ainda sendo arremessados. Em três passos ele chegou à janela. No quarto passo ele saltou. O vidro se estilhaçou com violência quando seu corpo atravessou a estrutura. Fragmentos transparentes voaram para todos os lados enquanto ele desaparecia pelo vão aberto.
Por um segundo inteiro houve apenas o som do vento. Torresminho estava caindo. O ar gelado do Planeta Esferográfico cortava seu rosto enquanto o castelo se erguia atrás dele como uma torre colossal de pedra alienígena. Mas no meio da queda ele conseguiu reagir. Seus braços se esticaram. E suas mãos agarraram um varal metálico estendido entre duas torres menores do castelo. O impacto fez o cabo vibrar violentamente, Torresminho ficou pendurado ali por um segundo, balançando no ar enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Eu consegui…
Mas o varal não foi feito para suportar aquele peso. O metal já estava velho e enferrujado. Com um estalo seco, o cabo arrebentou. Torresminho despencou novamente. Dessa vez a queda foi curta. Ele caiu direto dentro de um grande cesto de roupas cheio de tecidos, lençóis uniformes de lavanderia do castelo. O impacto levantou uma nuvem de pó e sabão seco. Por alguns segundos ele ficou completamente imóvel. Finalmente ergueu a cabeça lentamente para espiar ao redor. O lugar era uma espécie de lavanderia do castelo, cheia de cestos, cordas de secagem e máquinas alienígenas que lavavam roupas usando vapor químico.
Torresminho olhou para cima. A janela quebrada estava muito distante agora. Ele respirou fundo. Depois se afundou novamente dentro do cesto de roupas, puxando alguns lençóis por cima da cabeça para se esconder. O coração ainda batia rápido. Mas a mente começou a funcionar novamente. Porque agora havia apenas uma coisa em que ele conseguia pensar. Quivi. Onde quer que o irmão estivesse, Torresminho sabia que precisava sair daquele castelo.
Enquanto Torresminho tentava sobreviver escondido na lavanderia do castelo, Quivi vivia uma realidade muito diferente. A pequena cela onde ele havia sido deixado ficava em uma ala inferior do Triturador Interplanetário Classe Oráculo. As paredes metálicas estavam cobertas por manchas antigas de ferrugem e condensação, e a iluminação vinha de um tubo luminoso fraco que piscava intermitentemente no teto. O ar era úmido, pesado, e carregava um cheiro ácido que lembrava produtos de limpeza mal diluídos.
Quivi estava sentado no chão. Seu rosto estava inchado de tanto chorar, e o corpo pequeno tremia de tempos em tempos com os soluços que ainda escapavam involuntariamente. Além das lágrimas, havia outra substância grudando em suas penas, um líquido pegajoso de suco de caju. Algumas horas antes, os guardas haviam decidido que o prisioneiro parecia excessivamente deprimido, e resolveram animá-lo da maneira mais absurda possível. Despejaram sobre ele um balde cheio de suco fermentado da fruta alienígena equivalente ao caju.
O resultado foi um banho improvisado que deixou o kiwi completamente melado e cheirando a bebida doce e azeda. Mas aquilo não foi o pior. Ao redor dele havia pequenas poças de sêmen seco espalhadas pelo chão. Quivi continuava a repetir o hábito nervoso que carregava desde criança. Se masturbar quando estava assustado. O problema é que o pânico constante havia transformado o gesto em algo quase compulsivo. Os soluços ecoavam no corredor vazio.
— Torresminho… — murmurou ele mais uma vez, com a voz rouca.
Foi então que algo mudou. Um forte impacto atravessou a estrutura metálica da nave. O chão vibrou sob seus pés. A nave havia pousado. Quivi levantou a cabeça lentamente, o coração disparando dentro do peito. Alguns minutos depois, passos ecoaram no corredor. Pesados. Metálicos. A porta da cela se abriu com um estrondo. Dois guardas Girilo-Milo apareceram na entrada, suas silhuetas altas bloqueando a luz do corredor, um deles olhou para o kiwi, encolhido no chão.
— Chegamos, periquito.
Sua voz era neutra, quase entediada.
— O Doutor Justino Klépter quer examinar você.
O nome caiu no ar como uma sentença. Quivi sentiu um frio atravessar a espinha, e encolheu ainda mais.
— Eu… eu não preciso de exame nenhum — respondeu, tentando forçar um sorriso nervoso. — Eu tô ótimo. Pode dizer pro doutor que eu estou bem.
Os dois guardas não pareciam impressionados. Um deles simplesmente deu um passo à frente. O soco veio rápido. Preciso. A carapaça amarelada da mão alienígena atingiu o rosto do kiwi com força suficiente para apagar qualquer tentativa de conversa. Quivi caiu de lado imediatamente. Inconsciente. Sem dizer mais nada, os guardas o agarraram pelos braços e começaram a arrastá-lo para fora da cela.
A cabeça do pequeno pássaro balançava sem controle enquanto o corpo era puxado pelo corredor metálico. Alguns minutos depois, eles chegaram à rampa de saída da nave. Do lado de fora, o Triturador Interplanetário Classe Oráculo repousava sobre o grande pátio do Castelo Girilo-Milo. O céu do Planeta Esferográfico estava mergulhando na noite.
No horizonte distante, as duas estrelas do sistema, Azul Primeiro e Azul Profundo, já estavam se pondo, tingindo o céu com uma mistura estranha de azul escuro e violeta. O pátio do castelo era enorme, cercado por torres angulares e plataformas de pouso espalhadas em vários níveis. Diversas naves alienígenas estavam estacionadas ali, algumas com formas orgânicas, outras com design industrial. Os guardas atravessaram o pátio carregando Quivi como se fosse apenas um pacote. O destino deles era uma nave específica estacionada na borda da plataforma.
Era uma estrutura gigantesca, muito maior do que qualquer nave convencional. O casco era branco brilhante, quase clínico, com dezenas de linhas geométricas coloridas correndo pela superfície. Essas linhas eram laranja e verde, formando padrões complexos que lembravam circuitos vivos ou vasos sanguíneos tecnológicos. Partes da nave eram transparentes, revelando estruturas internas cheias de tubos, cápsulas e laboratórios móveis. O design lembrava as naves de exploração científica vistas em histórias espaciais antigas. Algo que parecia metade hospital interplanetário, metade laboratório ambulante.
Os guardas pararam diante da escotilha principal. Um deles pressionou um pequeno interfone metálico embutido na lateral da nave. A resposta veio alguns segundos depois. Uma voz masculina chiada, distorcida por interferência eletrônica.
— Quem é?
O guarda respondeu.
— Trouxemos um espécime para o seu trabalho.
Houve um breve silêncio do outro lado. Então a voz respondeu novamente.
— Podem entrar.
Com um som hidráulico profundo, a nave abriu a escotilha frontal. Uma rampa branca metálica desceu lentamente até o chão do pátio. Os guardas começaram a subir carregando o corpo inconsciente de Quivi. Atrás deles, as portas da nave se fecharam novamente. E dentro daquela gigantesca estrutura científica, o destino do pequeno kiwi estava prestes a cruzar o caminho do homem que havia criado uma espécie inteira.