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Capítulo I: O Filho da Discórdia

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
7 de mai.
31 min de leitura

Atualizado: 22 de ago.

Para compreender a origem de certas histórias, especialmente aquelas que envolvem revoluções improváveis, líderes tirânicos e aves de aparência modesta, é necessário voltar no tempo. Muito no tempo. Cerca de vinte anos antes dos acontecimentos que levariam ao surgimento do chamado Reino dos Primatas. Essa história não começa na Pós-Terra, nem no Vale do Sussurro, tampouco em qualquer uma das regiões caóticas que os habitantes da Pangeia conhecem. Ela começa muito mais longe, em um lugar que a maioria das civilizações sequer imagina existir.


No Planoverso, no Plano 88, perdido na imensidão da Via Láctea, embora não tão distante do velho e conhecido Sistema Solar, existe um sistema estelar peculiar chamado Espaço Térmico. À primeira vista, ele não aparece em mapas astronômicos convencionais. Nenhum telescópio da maioria das civilizações consegue detectá-lo. Para observadores externos, aquela região do espaço parece simplesmente vazia. Mas não está. O Espaço Térmico é composto por sete planetas habitados, cada um é o lar de povos diferentes, culturas distintas e histórias que raramente cruzam o resto do Planoverso.


Esses planetas orbitam não uma, mas duas estrelas azuis gigantes. A maior delas chama-se Azul Primeiro. A segunda, ligeiramente menor e mais densa, recebe o nome de Azul Profundo. Diferente das estrelas amarelas comuns, como o Sol do Sistema Solar, essas duas estrelas emitem um espectro energético peculiar, dominado por radiação azul de alta frequência combinada com uma forma rara de energia térmica gravitacional conhecida entre os físicos do Plano 88 como Fluxo Termodinâmico Estelar Sincronizado.


Quando o Azul Primeiro e o Azul Profundo alinham seus campos gravitacionais, algo que acontece constantemente devido à dança orbital das duas, suas radiações interagem e criam uma espécie de bolha térmica ao redor de todo o sistema. Essa bolha funciona como um fenômeno extremamente raro chamado Camada de Distorção Termo-Gravitacional.


Na prática, ela faz três coisas ao mesmo tempo. Primeiro, dobra a luz que entra e sai do sistema, desviando ondas eletromagnéticas e impedindo que telescópios detectem os planetas lá dentro. Segundo, cria uma barreira térmica natural, estabilizando temperaturas extremas e protegendo os mundos internos de radiações destrutivas vindas de fora. E terceiro, talvez o mais curioso, desloca levemente a percepção espacial da região, fazendo com que navegadores interestelares simplesmente ignorem aquele espaço ao traçar rotas. Não porque ele seja invisível exatamente. Mas porque o cérebro tende a interpretar aquela área como vazio absoluto.


Assim, durante milhares de anos, o Espaço Térmico permaneceu isolado do restante do Planoverso. Um pequeno conjunto de mundos escondidos. Protegidos. Quase esquecidos. Entre esses sete planetas existiam impérios comerciais, sociedades tribais, cidades suspensas em oceanos gasosos e até civilizações inteiras que acreditavam ser as únicas formas de vida do Planoverso.


Entre os sete mundos do Espaço Térmico, um em particular possuía uma história marcada por rivalidade, cobiça e uma longa tradição de guerras que atravessaram gerações. Esse mundo era conhecido como Planeta Esferográfico. O segundo maior planeta do sistema.


Visto do espaço, o Planeta Esferográfico possuía uma aparência singular. Seu formato era quase perfeitamente esférico. Mais regular que a maioria dos planetas conhecidos, e sua superfície apresentava dois grandes hemisférios visualmente distintos. Um lado era dominado por extensas cadeias montanhosas, vales pedregosos e planícies secas de tons avermelhados. O outro era coberto por vastos campos orgânicos de vegetação úmida, rios espessos e florestas pulsantes de vida.


Essa divisão natural havia se transformado, ao longo dos séculos, em uma fronteira política. De um lado, erguia-se o Império Suínico. Do outro, o Reino Placentário. Os dois povos compartilhavam o mesmo planeta, respiravam o mesmo ar e caminhavam sobre o mesmo solo. Mas suas diferenças culturais, biológicas e filosóficas eram tão profundas que a convivência pacífica havia se tornado praticamente impossível.


Assim, durante séculos, os dois reinos viveram em um estado de conflito permanente. Não exatamente uma guerra constante em todos os momentos. Havia pausas, tratados frágeis e negociações ocasionais, mas era o tipo de rivalidade que se transmite de geração em geração como uma herança amarga. Uma guerra que parecia não ter fim.


O Império Suínico dominava a metade montanhosa do planeta. Suas cidades eram construídas em pedra escura e metal pesado, com fortalezas gigantescas erguidas sobre penhascos e planícies rochosas. Colunas monumentais, esculturas de heróis de guerra e enormes estátuas de porcos lendários decoravam praças, avenidas e salões imperiais. No centro desse império governavam o Imperador Diógenes e a Imperatriz Daisy.


Diógenes era uma figura difícil de ignorar. Ele era, literalmente, o maior e mais gordo suínico do império. Seu corpo colossal parecia uma montanha de carne e gordura coberta por uma pele escamosa e alaranjada que brilhava sob a luz azul dos sóis do Espaço Térmico. Caminhar exigia esforço, mas isso não diminuía em nada sua presença dominante. Vestia longos mantos imperiais bordados em ouro, mantidos sobre os ombros por correntes grossas e medalhões militares. Seu rosto era largo, com presas enormes emergindo da mandíbula inferior, e sua voz tinha o peso de um trovão.


Diógenes era conhecido por sua brutalidade política, seu apetite colossal e sua crença inabalável de que força e prosperidade eram sinônimos. Ao seu lado governava Imperatriz Daisy. Diferente do marido, Daisy não era gigantesca, mas ainda possuía o corpo robusto típico de sua espécie. Sua pele alaranjada era mais lisa, suas presas menores e seus olhos constantemente semicerrados, como se estivesse sempre analisando algo. Ela usava vestes imperiais elegantes, adornadas com placas metálicas ornamentais e joias pesadas. Mas o que realmente a tornava temida era sua mente. Daisy era maquiavélica, calculista e sádica em um nível quase artístico. Enquanto Diógenes representava força bruta, Daisy representava estratégia fria.


Os dois juntos formavam um governo temido e respeitado. O povo Suínico era composto por porcos antropomórficos bípedes, de pele escamosa e alaranjada, corpos naturalmente robustos e presas proeminentes. Sua cultura valorizava três coisas acima de tudo. Força física, resistência, e prosperidade corporal. Para os Suínicos, a gordura era um símbolo de status. Ser gordo significava ser bem-sucedido. Magreza era vista quase como um sinal de fraqueza.


Entre seus festivais mais famosos estava a Grande Fartura, uma celebração anual onde nobres e guerreiros competiam para ver quem conseguia acumular mais gordura ao longo do ano. O vencedor recebia honrarias militares e prestígio social. As festividades incluíam grandes banquetes, caçadas coletivas e cerimônias de preparação para futuras guerras. Para os Suínicos, a guerra não era apenas um conflito. Era uma forma de honrar sua própria natureza.


Do outro lado do planeta existia uma civilização completamente diferente. O Reino Placentário. Governado pelo Rei Sérgio e pela Rainha Fátima, esse reino possuía uma cultura quase oposta à dos Suínicos.


Sérgio era uma figura serena. Seu corpo tinha a aparência de uma grande massa orgânica verde e translúcida, semelhante a uma placenta viva. Sob sua superfície gelatinosa era possível ver órgãos pulsantes, vasos luminosos e fluxos internos de energia vital. De seu rosto crescia uma longa barba orgânica, uma espécie de tecido placentário fibroso que caía até o peito. Ele vestia roupas leves feitas de fibras naturais do próprio planeta e usava uma coroa viva, composta por raízes entrelaçadas que cresciam lentamente ao redor de sua cabeça. Ao seu lado estava a Rainha Fátima, igualmente serena. Seus cabelos eram longos filamentos placentários trançados que desciam como cordas orgânicas sobre seus ombros. Seu vestido era feito de tecidos leves e translúcidos que pareciam respirar junto com seu corpo. Sua coroa também era viva, formada por pequenas ramificações orgânicas que floresciam lentamente.


Os Placentários eram seres biologicamente únicos. Seu corpo era composto por tecidos regenerativos altamente adaptáveis. Ferimentos cicatrizavam rapidamente, membros danificados podiam se regenerar parcialmente e suas células possuíam uma capacidade de renovação extremamente avançada. Essa biologia fazia com que muitos Placentários vivessem por séculos. Não eram imortais. Mas estavam muito próximos disso. Sua cultura celebrava essa característica. Para eles, a morte não era um fim absoluto. Era apenas uma etapa de transformação dentro de um ciclo maior de renovação.


Os Placentários acreditavam profundamente na ideia de que todas as formas de vida estavam conectadas por uma teia invisível de equilíbrio natural. E no centro dessa crença existia um elemento sagrado. Nas profundezas do Planeta Esferográfico existia um mineral raríssimo chamado Esmeralda Regenerativa. Essas pedras eram cristais verde-luminosos formados naturalmente nas camadas mais profundas do planeta, onde a pressão geológica e os campos energéticos do núcleo interagiam com a radiação das estrelas Azul Primeiro e Azul Profundo. O resultado era um minério com propriedades únicas. A Esmeralda Regenerativa emitia uma forma de energia biológica conhecida como ressonância vital planetária. Essa energia acelerava processos de regeneração celular, estabilizava ecossistemas inteiros, e mantinha o equilíbrio energético do planeta.


Para os Placentários, a Esmeralda não era apenas um recurso. Era um órgão do próprio planeta. Removê-la em excesso poderia desestabilizar todo o sistema biológico de Esferográfico, provocando colapsos ecológicos, extinções em massa e até alterações geológicas irreversíveis. Por isso, o Rei Sérgio e a Rainha Fátima defendiam uma política rígida. A Esmeralda Regenerativa deveria permanecer onde nasceu. Explorá-la seria uma violação do equilíbrio natural do mundo. Mas o Império Suínico via a situação de forma completamente diferente.


Para Diógenes e Daisy, a Esmeralda Regenerativa representava poder absoluto. Seus efeitos regenerativos poderiam fortalecer guerreiros, prolongar a vida da elite e criar um império praticamente invencível. Na visão Suínica, deixar aquele recurso enterrado no chão era uma estupidez. Eles acreditavam que o planeta existia para ser dominado, explorado, e controlado. Assim, a demanda pela Esmeralda cresceu. Minas começaram a surgir. Expedições militares atravessaram fronteiras. E cada nova escavação aproximava os dois povos de mais um confronto. Os Suínicos viam os Placentários como criaturas fracas, ingênuas e supersticiosas.


Já os Placentários viam os Suínicos como bárbaros cegos pela ganância. Durante décadas, negociações falharam. Tratados foram quebrados. Escaramuças se tornaram batalhas. E batalhas se tornaram guerras abertas. No Planeta Esferográfico, a paz havia se tornado apenas uma memória distante.


Entre os Placentários existiam muitos exploradores talentosos, mas poucos eram tão conhecidos quanto o Príncipe Fabrício, filho do Rei Sérgio e da Rainha Fátima. Fabrício era, para o desespero silencioso de seus pais, o completo oposto do que se esperava de um herdeiro real contemplativo e espiritual.


Ele era impulsivo, aventureiro, e absurdamente irresponsável. Seu corpo placentário tinha um tom verde translúcido mais intenso que o da maioria de seu povo, e suas veias internas brilhavam em um tom azulado quando ele se excitava ou se empolgava com alguma aventura. Seus cabelos orgânicos, fios longos de tecido placentário, eram mantidos presos em um rabo de cavalo bagunçado que balançava atrás de sua cabeça sempre que ele acelerava sua prancha. Ao invés das vestes leves tradicionais da realeza placentária, Fabrício preferia roupas práticas de explorador. Mantos curtos, cintos de ferramentas e joelheiras metálicas para suportar pousos violentos.


Sua verdadeira paixão não era política. Era voar. E caçar. O Espaço Térmico não era um lugar vazio. Muito pelo contrário. Entre os sete planetas e as correntes térmicas invisíveis que serpenteavam pelo sistema existiam criaturas que não pertenciam a nenhum mundo específico. Criaturas conhecidas como Virklers.


Os Virklers eram predadores irracionais que habitavam o espaço aberto do sistema. Eles não construíam civilizações, não possuíam linguagem estruturada e aparentemente não seguiam nenhum tipo de lógica social. Eles simplesmente existiam. Fisicamente, eram criaturas grandes, com corpos alongados cobertos por uma pele escura e fibrosa capaz de suportar o frio do Espaço Térmico. Possuíam grandes asas membranosas que vibravam em frequências específicas, permitindo que navegassem pelas correntes energéticas invisíveis que atravessavam o sistema.


O aspecto mais perturbador dos Virklers era sua cabeça. Eles não possuíam olhos. Onde deveria haver um rosto havia apenas uma mandíbula larga cheia de dentes serrilhados e uma cavidade pulsante que emitia um berro grave e contínuo, um som que ecoava pelo espaço como um rugido distante. Apesar de irracionais, eram incrivelmente velozes. E agressivos. Muitas vezes desciam sobre planetas habitados como pragas aladas, devorando colheitas, animais ou qualquer criatura menor que encontrassem. Caçar um Virkler era perigoso.


Mas havia um motivo pelo qual aventureiros arriscavam suas vidas fazendo isso. A carne dos Virklers era considerada uma das iguarias mais raras do Espaço Térmico. Extremamente saborosa. E extremamente difícil de conseguir.


Fabrício era um dos poucos jovens do Reino Placentário capazes de perseguir Virklers no espaço aberto. Tudo graças à sua prancha espacial. O artefato era uma espécie de prancha voadora feita de ligas orgânicas e metalizadas, alimentada por pequenos núcleos de energia térmica. Ela não usava propulsores tradicionais. Em vez disso, surfava nas correntes energéticas criadas pelas duas estrelas do sistema.


Montado nela, Fabrício deslizava entre os planetas como um surfista atravessando ondas invisíveis. Ele mergulhava entre nuvens de poeira cósmica, desviava de asteroides menores e perseguia Virklers com uma mistura de imprudência e habilidade natural. Era imprudente. Era perigoso. E ele amava cada segundo disso. Foi durante uma dessas caçadas que o destino decidiu brincar com ele.


Enquanto atravessava a atmosfera superior do Planeta Esferográfico, Fabrício estava perseguindo um Virkler jovem que havia se separado de um bando. Ele inclinou a prancha, acelerou e quase conseguiu alcançá-lo. Quase. No meio da perseguição, algo pequeno passou voando pelo seu campo de visão. Uma pequena massa escura flutuando lentamente. Fabrício nem teve tempo de reagir.


A prancha colidiu diretamente com aquilo. Eram fezes de Virkler. O impacto foi suficiente para desequilibrar completamente a prancha. Ela girou. Tremeu. E perdeu estabilidade.


— Ah, não… — murmurou Fabrício, percebendo tarde demais o que havia acontecido.


A prancha começou a rodopiar descontroladamente. O príncipe tentou recuperar o equilíbrio, inclinando o corpo, puxando os controles laterais, mas era tarde demais. Ele entrou em uma queda direta em direção à superfície do planeta. E, por uma combinação absurda de azar e ironia cósmica, a trajetória apontava diretamente para o castelo do Império Suínico. O castelo suínico era uma construção colossal de pedras escuras e torres gigantescas que dominavam o horizonte.


Fabrício atravessou as nuvens girando. Passou por uma das torres. E então, a prancha colidiu violentamente contra uma das janelas superiores do palácio. O vidro explodiu em milhares de fragmentos. Fabrício foi arremessado para dentro do quarto real como um projétil desajeitado. Ele rolou pelo chão, derrubou uma mesa, bateu contra um armário e finalmente parou aos pés de uma enorme cama imperial. Sentada naquela cama estava a Princesa Amália. Filha única de Diógenes e Daisy.


Amália herdou muito da aparência do pai. Seu corpo era grande, robusto e quase tão volumoso quanto o dele. Embora ainda mantivesse uma certa elegância aristocrática que atraía a atenção de pretendentes de todo o império. Sua pele escamosa alaranjada brilhava sob a luz azul que entrava pelas janelas, e suas presas eram delicadamente lixadas para manter um formato mais refinado. Ela usava um vestido real de seda escura que se ajustava às curvas de seu corpo volumoso, adornado com joias pesadas e bordados dourados. Nos braços, pulseiras metálicas tilintavam sempre que ela se movia. Naquele momento, estava relaxada na cama gigantesca do quarto real, pintando as unhas com uma tinta metálica escarlate.


Quando a janela explodiu e um estranho caiu no quarto, ela levantou a cabeça lentamente. Seus olhos se estreitaram.


— Quem é você, seu pedaço de merda? — perguntou, arqueando uma sobrancelha com a autoridade natural de alguém que cresceu mandando em soldados e generais.


No chão, Fabrício ergueu a cabeça. Seus olhos encontraram os dela. E naquele instante, algo aconteceu. Ele sorriu. Um sorriso confiante. Travesso. Quase irresponsável.


— Delícia, não precisa dizer nada. Só sentir.


A resposta foi tão absurda, tão descarada e tão inesperada que Amália simplesmente corou. Por um momento inteiro, os dois apenas se encararam. Dois herdeiros de reinos inimigos. Dois mundos opostos. E então, como se alguma força invisível tivesse empurrado os dois na mesma direção, eles se aproximaram. A curiosidade venceu o ódio ancestral.


E ali, no meio do quarto destruído e dos estilhaços de vidro espalhados pelo chão, o príncipe placentário e a princesa suínica se beijaram. O encontro rapidamente se transformou em algo mais intenso, impulsivo e proibido. Um ato completamente inconsequente. Um erro. Ou talvez, o início de algo que mudaria muito mais do que apenas a vida deles. Porque daquele encontro improvável, escondido no coração do castelo inimigo, nasceria uma história que, anos depois, mudaria o destino do Planoverso inteiro.


Os dias que se seguiram ao acidente no castelo suínico foram preenchidos por algo que nenhum dos dois havia previsto. Encontros. Secretos. Arriscados. E cada vez mais frequentes. Nas semanas seguintes, Fabrício e Amália passaram a se encontrar sempre que conseguiam escapar dos olhos atentos de seus respectivos reinos. Às vezes nas torres mais altas do castelo, às vezes em passagens esquecidas do palácio, e em algumas ocasiões mais ousadas nas florestas rochosas próximas à fronteira entre os dois reinos.


O que começou como um impulso imprudente rapidamente se transformou em algo maior. Havia paixão, claro. Havia desejo. Mas também havia algo que nenhum dos dois havia experimentado antes. Uma estranha sensação de cumplicidade, como se, por algumas horas, o peso da guerra secular entre seus povos simplesmente deixasse de existir. Cada encontro carregava um sabor perigoso. Um pequeno erro poderia significar guerra aberta. Ou pior. Ainda assim, a ideia de parar simplesmente não parecia possível. Era como se aquele romance proibido tivesse se tornado o centro silencioso de suas vidas.


Certa noite, o castelo suínico estava mergulhado em silêncio. A lua do Planeta Esferográfico atravessava as nuvens altas e iluminava as torres de pedra escura com uma luz fria. Do lado de fora do palácio, uma pequena silhueta verde deslizou pelo ar. Fabrício, montado em sua prancha espacial, se aproximou da torre conhecida, já quase íntima, onde ficava o quarto de Amália. Com a precisão de quem havia repetido aquela manobra muitas vezes, ele desacelerou, segurou a borda da janela e entrou silenciosamente no aposento.


Assim que pousou no chão, levantou a cabeça. Amália estava ali. Mas algo estava diferente. Normalmente ela o recebia com um sorriso provocador ou alguma piada indecente. Dessa vez, ela estava em pé, imóvel perto da cama, com os braços cruzados e uma expressão que ele nunca tinha visto antes. Quando Fabrício se aproximou, percebeu imediatamente. Havia medo nos olhos dela.


— Amália? — ele perguntou, já abaixando as calças. — O que aconteceu?


A princesa respirou fundo. Por um instante, pareceu que ela estava tentando reunir coragem. Então disse:


— Fabrício… eu estou grávida.


O silêncio que se seguiu pareceu se estender por uma eternidade. O príncipe placentário ficou completamente imóvel. Seus olhos se arregalaram. Sua boca abriu, e nenhuma palavra saiu. Ele piscou algumas vezes, tentando reorganizar os próprios pensamentos.


— Grávida? Como isso é possível? Quer dizer… — ele gesticulou desajeitadamente — eu até percebi que você está um pouco mais robusta que o normal, mas justo agora?


Amália estreitou os olhos imediatamente. Os braços dela se cruzaram com mais força.


— Claro. Porque a culpa obviamente é minha, não é? — ela sussurrou, mas com um tom que poderia cortar pedra. — Quer que eu faça o quê, Fabrício? Eu fiz isso com o dedo?


Fabrício levantou as calças, tentando recuar. Os dois começaram a discutir em um sussurro furioso, cada um tentando manter a voz baixa para não alertar os guardas do castelo. Mas a tensão entre eles só aumentava.


— Você acha que isso é fácil pra mim? — disse Amália, aproximando-se dele. — Se meus pais descobrirem que eu estou esperando um filho de um placentário, vai ser o maior escândalo da história do império!


Fabrício passou a mão pelo rosto.


— E você acha que vai ser tranquilo do meu lado? Meu pai passa metade do dia tentando evitar uma guerra com o seu império!


Amália suspirou irritada. Por alguns segundos, os dois apenas se encararam. A discussão havia consumido o primeiro choque. Agora restava algo mais pesado. A realidade.


— Então… o que a gente faz? — perguntou Fabrício finalmente.


Amália não respondeu imediatamente. Ela caminhou até a janela quebrada, olhando para as luzes distantes do castelo. Quando falou, sua voz estava mais baixa. Mais séria.


— Nós vamos ter esse filho.


Fabrício piscou.


— Você tem certeza?


Ela virou o rosto lentamente. Nos olhos da princesa havia algo que ele nunca tinha visto antes. Determinação.


— Absoluta.


Ela colocou uma mão sobre o próprio ventre.


— E se os nossos pais descobrirem… — continuou — então eles que se fodam.


Fabrício ficou em silêncio por alguns segundos. Depois sorriu. Um sorriso torto.


— Sabe… — disse ele — quando eu acordei hoje, não imaginei que meu dia ia terminar com a possibilidade de iniciar uma guerra interplanetária.


Amália bufou.


— Para de fazer piada.


Ele deu um passo à frente e segurou a mão dela.


— É provavelmente a maior aventura da minha vida.


Ela revirou os olhos. Mas não soltou a mão dele. E naquele instante silencioso, entre dois herdeiros de reinos inimigos, um novo destino começava a se formar. Antes que qualquer decisão pudesse ser tomada, fugir, esconder a gravidez, ou tentar algum plano desesperado para evitar o desastre, um som cortou o silêncio do quarto. Um grito agudo de puro horror.


Os dois se viraram ao mesmo tempo. Na entrada do aposento, parcialmente iluminado pela luz azul que entrava pela janela destruída, estava Gurgel, o principal conselheiro diplomático do Império Suínico.


Gurgel era uma figura impossível de ignorar. Diferente da maioria dos suínicos, que eram pesados e lentos, ele possuía um corpo relativamente mais estreito, o que lhe dava uma aparência quase esquelética para os padrões de seu povo. Sua pele escamosa alaranjada era bem cuidada, e suas presas eram pequenas e meticulosamente polidas, sinal claro de alguém que passava mais tempo em salões políticos do que em campos de batalha. Vestia roupas diplomáticas elegantes. Um longo casaco escuro com bordados imperiais, uma faixa cerimonial atravessando o peito e um pequeno broche com o selo do império preso próximo ao colarinho.


Mas o detalhe mais marcante eram suas asas enormes. Duas grandes asas cobertas por penas espessas e alaranjadas que se abriam atrás dele como as de um pássaro de rapina. Uma mutação rara. Ou, como alguns cochichavam nos corredores do palácio, um presente particular da Imperatriz Daisy. Rumores persistentes circulavam entre a corte de que o conselheiro e a imperatriz mantinham um relacionamento secreto há anos. Ninguém jamais ousava falar disso em voz alta. Mas todos sabiam. E todos sabiam também que Gurgel era o maior puxa-saco do imperador. Uma criatura que prosperava no poder alheio.


Agora ele estava ali. Olhando diretamente para o casal. Os seus olhos estavam arregalados, e sua boca estava aberta. Por um instante, ele parecia incapaz de produzir qualquer som. Então seu corpo inteiro começou a tremer. E, de repente, ele entrou em um ataque de histeria completo. Gurgel começou a girar pelo chão do quarto como uma bola descontrolada, batendo as asas freneticamente enquanto rodopiava de um lado para o outro.


— Eu não posso acreditar no que eu acabei de ouvir! — berrava ele, sua voz ecoando pelas paredes do quarto.


Ele apontou uma das asas para os dois.


— O príncipe placentário, e a princesa suínica, juntos?! Isso é um escárnio! Uma afronta! Uma profanação imperial!


Amália empalideceu. Sem pensar duas vezes, ela correu até ele e ergueu as mãos em um gesto desesperado.


— Gurgel, espera! Por favor! Não conte a ninguém! Não é o que parece!


O conselheiro parou de girar. Lentamente, levantou a cabeça. Então começou a rir. Um riso fino, arrastado e profundamente malicioso.


— Não é o que parece? — repetiu ele, saboreando cada palavra.


Ele apontou um dedo trêmulo para Fabrício.


— Tenho certeza absoluta de que o imperador vai adorar saber que a própria filha anda trepando com o inimigo.


Seu sorriso se alargou.


— E a imperatriz… ah, vai ser um prazer especial contar cada detalhe nojento para ela.


O pânico atravessou o rosto de Amália. Sem pensar, ela avançou. Num movimento impulsivo, agarrou Gurgel pelo pescoço e o empurrou contra a parede.


— Você não vai contar nada! — sussurrou ela entre dentes.


Gurgel começou a se debater imediatamente, suas asas batendo contra móveis e paredes enquanto ele tentava se soltar.


— Sua traidora! — ele conseguiu grunhir, sendo lentamente sufocado.


Por um instante pareceu que Amália realmente poderia impedir que ele escapasse. Então Gurgel reagiu. Com um movimento desesperado, ele virou a cabeça e cravou os dentes na mão da princesa. Amália soltou um grito de dor e afrouxou o aperto. Foi o suficiente, Gurgel abriu as asas com força e se lançou para trás.


Num único impulso poderoso, atravessou o quarto e voou diretamente pela janela quebrada. O vento noturno invadiu o aposento enquanto ele ganhava altitude. Do lado de fora, sua voz ecoou pelo ar frio.


— Vocês vão pagar por isso!


Ele girou no ar e apontou novamente para o quarto.


— Todo o Planeta Esferográfico vai ficar sabendo da traição!


E então desapareceu na escuridão da noite, voando cada vez mais longe até se tornar apenas um pequeno ponto contra o céu azul-escuro do Espaço Térmico. Dentro do quarto, o silêncio voltou. Amália e Fabrício permaneceram imóveis por alguns segundos. Ambos pálidos. Ambos conscientes da mesma coisa. O que antes era um segredo perigoso, agora estava prestes a se transformar em uma catástrofe política.


O quarto ainda vibrava com o eco das palavras de Gurgel quando o pânico finalmente tomou conta da situação. Fabrício segurou as mãos de Amália com força. Seus olhos brilhavam com urgência, a mente tentando encontrar uma saída em meio ao desastre que se formava ao redor deles.


— Vamos fugir daqui, meu amor! — disse ele, apressado, quase atropelando as próprias palavras. — Precisamos sair deste planeta agora. Antes que as tropas suínicas nos encontrem e façam o pior com você, e com o nosso filho!


Mas Amália não se moveu. Ela estava ofegante. Uma expressão estranha começou a surgir em seu rosto. Primeiro tensão, depois desconforto, e então dor. A princesa levou as mãos ao próprio ventre. Seu corpo inteiro se contraiu.


— Fabrício… — ela murmurou, a voz tremendo.


Ele congelou.


— O que foi, gostosa?


Ela tentou responder, mas outra contração atravessou seu corpo como um raio. Amália se curvou para frente, apoiando uma das mãos na cama gigantesca enquanto respirava com dificuldade.


— É impossível… — ela disse entre dentes. — O bebê está está prestes a nascer!


Fabrício piscou. Uma vez. Duas. Seu cérebro parecia incapaz de aceitar aquela informação.


— Puta que pariu! — ele explodiu, levando as mãos à cabeça. — Como assim já? Isso não faz o menor sentido! Eu fiquei sabendo disso há vinte minutos!


Amália levantou o rosto, suada e irritada.


— A gestação dos suínicos dura no máximo treze horas, seu idiota! — gritou ela, enquanto outra contração violenta a fez se dobrar novamente.


Fabrício ficou completamente atordoado.


— Treze horas?! Quem inventou uma biologia dessas?!


Amália respondeu com outro grito de dor.


— Não é o momento para discutirmos sobre isso!


Ele começou a andar de um lado para o outro do quarto destruído, passando as mãos pelos cabelos orgânicos enquanto tentava desesperadamente pensar. Então ele ouviu. Passos. Pesados. Muitos. Vindos da base da torre. Fabrício parou. Devagar, caminhou até a janela quebrada e olhou para fora. Seu estômago afundou.


Lá embaixo, iluminando o pátio com tochas e lanças erguidas, soldados suínicos cercavam o castelo inteiro, usando armaduras pesadas, escudos imperiais, e dezenas de guardas apontando diretamente para a torre onde estavam.


— Puta merda… — murmurou Fabrício.


Atrás dele, Amália soltou outro gemido de dor. Ele virou-se rapidamente.


— O que foi agora, cacete?!


Ela olhou para ele, respirando com dificuldade.


— Fabrício… — disse, quase sem fôlego.


Ele se aproximou correndo.


— O quê? O que foi?


Ela segurou o braço dele com força.


— Eu acho que o bebê decidiu que quer nascer agora.


No mesmo instante, um estrondo ecoou na porta do quarto. Uma batida pesada. Depois outra.


— Princesa Amália! — rugiu uma voz do lado de fora. — Abra a porta em nome do Imperador Diógenes e da Imperatriz Daisy!


Fabrício e Amália se entreolharam. O pânico crescente nos olhos dos dois dizia a mesma coisa. Eles tinham minutos. Talvez menos. O estrondo veio como um trovão. A porta do quarto foi arrebentada com tanta força que as dobradiças de ferro quase saltaram da parede. Lasca de madeira voou pelo ar.


No vão da porta surgiu primeiro o contorno colossal do Imperador Diógenes, respirando pesado, seu corpo gigantesco ocupando quase todo o espaço da entrada. Atrás dele vinha a figura elegante e fria da Imperatriz Daisy, seguida por uma fileira de guardas suínicos armados. E, naturalmente, como uma sombra ansiosa por assistir ao desastre que ele mesmo havia causado, Gurgel.


O conselheiro estava atrás dos guardas, com um sorriso quase histérico estampado no rosto. A cena no quarto congelou por um instante. Fabrício ao lado da cama. Amália curvada de dor. Estilhaços espalhados pelo chão. E o silêncio breve antes da explosão. Então Diógenes rugiu.


— Minha filha! — sua voz sacudiu o quarto inteiro. — Como pôde se envolver com esse ser repugnante?!


Seu rosto enorme estava vermelho de fúria, as presas expostas enquanto ele apontava uma das mãos gordas diretamente para Fabrício. A Imperatriz Daisy avançou alguns passos. Seus olhos frios examinaram o príncipe placentário da cabeça aos pés com uma expressão que misturava desprezo e incredulidade. Ela cruzou os braços.


— Um Placentário… — disse lentamente, como se estivesse experimentando o gosto da palavra. — Você, filha minha, envolvida com um Placentário?


Ela inclinou levemente a cabeça.


— Eu sempre soube que você tinha gostos excêntricos. — suas presas apareceram em um sorriso fino — Mas isso…


Ela gesticulou para Fabrício.


— Isso é intolerável.


Amália tentou se levantar, mas outra contração atravessou seu corpo. Ela agarrou o lençol da cama e respirou com dificuldade.


— Mãe e pai… — disse entre ofegos — eu amo ele.


O quarto inteiro pareceu congelar por um instante.


— Eu sei que parece errado… — continuou ela — mas ele me fode de uma forma que ninguém nunca me fodeu.


Diógenes soltou um rosnado profundo. Atrás dele, Gurgel parecia quase vibrar de excitação. Fabrício respirou fundo e deu um passo à frente. Ele ergueu a mão em um gesto de paz.


— Imperador Diógenes e Imperatriz Daisy… — começou ele, tentando manter a voz estável. — Eu não vim aqui para desonrar ninguém.


Ele olhou para Amália.


— Nós nos encontramos por acaso. Mas o que sentimos é real. Eu prometo que vou proteger Amália, e cuidar da criança.


Diógenes não deixou que ele terminasse.


— Protegerá?!


A palavra saiu como um trovão.


— Como, exatamente, seu saco de porra verde gosmenta?!


O imperador apontou novamente para a filha.


— Isso é uma vergonha para o nosso reino! Seu olhar caiu sobre o ventre de Amália.


— E agora um filho?! Um híbrido?!


Sua respiração pesada ecoava pelo quarto.


— Essa união é uma afronta à linhagem suínica!


Daisy soltou um suspiro irritado.


— Eu realmente esperava mais de você, Amália.


Ela observou a filha com frieza quase clínica.


— Um Suínico deve se unir a um Suínico. Não a uma aberração esverdeada.


Nesse momento Amália soltou um grito muito mais alto. Seu corpo inteiro se contraiu, as mãos agarraram a borda da cama com tanta força que o metal rangiu. Fabrício correu até ela imediatamente.


— Calma! Calma! — disse ele, segurando a mão dela. — Aguenta firme, meu amor. Eu estou aqui.


Ela respirava rápido. Muito rápido.


— Fabrício… — murmurou.


Ela não terminou a frase. Uma pressão violenta atravessou seu corpo. E então aconteceu. Amália soltou um espirro monumental. O que aconteceu em seguida levou um segundo para ser compreendido por todos no quarto. Algo pequeno, escorregadio e muito vivo foi lançado para frente como uma bala. O pequeno corpo atravessou o ar. Guardas arregalaram os olhos. Daisy ficou imóvel. Diógenes piscou confuso.


E então, Fabrício ergueu os braços instintivamente. E, para sua própria surpresa, acabou segurando o bebê. Ele ficou ali parado, completamente atônito, olhando para o pequeno ser híbrido em seus braços. O bebê tinha traços misturados. A pele era parcialmente translúcida como a de um placentário, mas com manchas alaranjadas típicas dos suínicos. Pequenas presas ainda minúsculas despontavam na boca, e seu corpo parecia envolto por uma leve membrana orgânica. Por um segundo inteiro, houve silêncio. Então o bebê abriu a boca. E soltou um choro estridente que ecoou pelo quarto inteiro.


O choro do recém-nascido ecoava pelo quarto destruído enquanto todos observavam aquela pequena criatura que havia acabado de chegar ao mundo em circunstâncias absolutamente caóticas. Fabrício segurava o bebê com cuidado, ainda tentando entender o que exatamente tinha acabado de acontecer. O pequeno híbrido se mexia em seus braços, emitindo choros estridentes e desajeitados.


Sua pele semi-translúcida deixava ver pequenas veias pulsando, enquanto manchas alaranjadas suínicas se espalhavam por seu corpo. Pequenas presas ainda minúsculas surgiam na boca, e seus olhos, grandes e curiosos, piscavam contra a luz do quarto. Amália, ainda exausta sobre a cama, olhou para o filho. Mesmo em meio à dor e ao caos, um sorriso suave apareceu em seu rosto. Fabrício olhou para ela. E os dois compartilharam um breve momento de felicidade silenciosa.


— Ele é perfeito… — sussurrou Fabrício, com a voz baixa e emocionada, ignorando completamente os olhares horrorizados que o cercavam.


O Imperador Diógenes, porém, não via nada de perfeito naquela cena. Ele tremia. Não de emoção. Mas de raiva. Seu rosto estava vermelho, as presas expostas enquanto ele apontava primeiro para o bebê, e depois para o casal.


— Isto é uma aberração! — rugiu ele, a voz ecoando pelas paredes da torre.


Os guardas suínicos se moveram instintivamente. Diógenes levantou o braço com violência.


— Mas isso acaba agora! — continuou ele. — Guardas! Prendam os dois!


Ele apontou diretamente para o bebê.


— E matem essa criança!


O ar do quarto pareceu congelar. Amália arregalou os olhos. Por um instante inteiro, ninguém se moveu. Então os guardas começaram a avançar. Lanças erguidas. Espadas prontas. O imperador continuava apontando com desprezo absoluto.


— Esse erro não vai manchar a história do meu império!


Amália percebeu imediatamente que não havia negociação possível. Não havia mais tempo. Ela olhou para Fabrício.


— Fabrício, vá! — gritou ela, com uma força que surpreendeu até ela mesma. — Leve nosso filho e fuja!


Fabrício ficou paralisado.


— Mas e você?!


Amália já havia tomado sua decisão. Sem hesitar. Sem olhar para trás. Ela se lançou para frente. Diretamente contra o próprio pai. Seu corpo ainda enfraquecido pelo parto colidiu contra o enorme corpo de Diógenes com toda a força que conseguiu reunir. O impacto foi brutal.


— Amália?! — gritou Daisy


Diógenes perdeu o equilíbrio. Os dois começaram a se debater violentamente. O imperador tentou agarrá-la pelos braços, mas a princesa estava completamente tomada pelo desespero. Ela empurrou. Arranhou. Lutou com uma força que parecia impossível para alguém que havia acabado de dar à luz. Os dois cambalearam até a borda da janela destruída da torre. Por um segundo terrível, os dois ficaram suspensos ali. Então o peso colossal de Diógenes fez o resto. O chão desapareceu sob os pés deles. Os dois despencaram no vazio. O vento da noite engoliu seus gritos. Lá embaixo, a queda foi brutal. O corpo gigantesco do imperador atingiu o pátio primeiro.


O impacto fez um som seco e pesado. O peso absurdo de sua massa esmagou seu próprio peito contra o chão de pedra, quebrando costelas que atravessaram a carne. Sangue espirrou entre as fendas da armadura, enquanto seu corpo gordo se deformava com a violência da colisão. Amália caiu logo depois. Seu corpo atingiu o imperador parcialmente, mas o impacto ainda foi devastador. O pescoço torceu em um ângulo impossível. Um estalo horrível ecoou no pátio. E então tudo ficou imóvel. Os dois corpos jaziam esmagados no chão, cercados por uma mancha crescente de sangue escuro. O som da queda ecoou pela torre.


No quarto, todos ficaram congelados por um instante. A Imperatriz Daisy olhava pela janela, completamente petrificada. Gurgel estava pálido. Os guardas pareciam incapazes de processar o que haviam acabado de testemunhar.


E foi nesse momento que Fabrício percebeu. Era sua única chance. Sem dizer mais nada, ele apertou o bebê contra o peito. E correu. Passou direto pelos guardas ainda paralisados. Atravessou o corredor da torre como um relâmpago verde. Atrás dele, o choque começou a se transformar em gritos. Espadas foram sacadas. Lanças bateram contra o chão de pedra. Alarmes começaram a ecoar pelo castelo. Mas Fabrício já estava correndo pelos corredores do palácio suínico, segurando o filho contra o peito enquanto o caos explodia atrás dele.


Fabrício corria pelos corredores do castelo como um fantasma verde atravessando um labirinto de pedra. Atrás dele, o caos se espalhava. Guardas gritavam ordens, lanças batiam contra armaduras, e o som de botas pesadas ecoava pelas escadarias da torre. A notícia da morte do imperador já começava a se espalhar, misturando-se ao pânico e à fúria da corte.


Mas Fabrício não podia parar. Ele apertava o bebê contra o peito com uma das mãos enquanto usava a outra para se apoiar nas paredes e fazer curvas rápidas pelas passagens do castelo. O pequeno híbrido choramingava, confuso com o frio da noite e com a agitação ao redor.


— Calma, pequeno… — murmurava o príncipe, ofegante.


Ele conhecia parte daquele castelo graças às suas escapadas secretas com Amália. Sabia quais corredores terminavam em becos sem saída, quais passagens serviam apenas aos criados e quais levavam às áreas externas do palácio. Virou uma esquina. Desceu uma escadaria estreita. Empurrou uma porta de serviço. E finalmente saiu para o pátio das espaçonaves reais. O espaço era amplo, iluminado por torres de energia azul.


Várias naves imperiais estavam estacionadas ali. Grandes cruzadores de guerra e transportes diplomáticos, mas Fabrício não precisava de nenhuma delas. Ele correu direto até uma pequena nave de fuga, um modelo compacto usado para evacuações rápidas. A porta lateral estava destrancada. Ele entrou. O interior da nave era apertado, cheio de painéis e controles simples. Com cuidado, Fabrício colocou o bebê dentro do compartimento de segurança da cabine. O pequeno híbrido chorava, os braços minúsculos se movendo no ar.


Fabrício respirou fundo. Suas mãos tremiam enquanto ele programava as coordenadas no painel. Um planeta distante, além do campo térmico gerado pelas estrelas Azul Primeiro e Azul Profundo. Um lugar onde ninguém procuraria um filho proibido de duas civilizações inimigas. A nave confirmou a rota com um brilho suave no painel. Fabrício parou por um instante. Olhou para o filho. O pequeno ser híbrido ainda chorava, completamente alheio ao peso da história que havia começado no momento em que nasceu. Fabrício se aproximou. Passou a mão suavemente pela pequena cabeça. E então falou.


— Eu queria poder te ver crescer.


Sua voz estava baixa, mas firme.


— Queria poder te ensinar a voar pelas correntes térmicas do Espaço Térmico, a surfar entre os planetas, a caçar Virklers, e a rir do perigo como um idiota irresponsável.


Ele deu um pequeno sorriso triste.


— Mas parece que o Planoverso decidiu que o meu papel termina aqui.


Fabrício encostou a testa no vidro do compartimento onde o bebê estava.


— Você nasceu de dois mundos que aprenderam a se odiar… — continuou. — Mas talvez… talvez você seja exatamente a prova de que esses mundos não precisam continuar assim.


Ele respirou fundo. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.


— Vá, meu filho. O papai te ama.


Ele ativou a ignição.


— Encontre seu próprio destino.


Os motores da pequena nave começaram a vibrar. A escotilha externa se fechou. A nave se ergueu lentamente. Então disparou para o céu com um estrondo. Fabrício saiu da nave e observou enquanto ela subia cada vez mais alto, atravessando as nuvens da noite e se tornando uma estrela em movimento no horizonte.


Por um breve instante ele acreditou que tinha conseguido. Então ouviu. Guardas suínicos invadiram o pátio. Armas erguidas. Sem hesitação. Dispararam. A primeira rajada atingiu Fabrício no peito. Seu corpo sacudiu com o impacto. Uma explosão de tecido placentário rasgou sua pele translúcida, espalhando fluido orgânico e sangue verde pelo chão de pedra. Ele cambaleou. A segunda rajada veio imediatamente. Tiros atravessaram seu ombro, seu abdômen e suas pernas.


Normalmente, o corpo placentário teria começado a se regenerar. Suas células regenerativas tentaram reagir. Mas havia tiros demais. Rápidos demais. Cada impacto rasgava novas áreas antes que o tecido pudesse se recompor. Buracos começaram a se abrir por seu corpo. Fragmentos orgânicos se espalharam pelo pátio. O sangue verde escorria pelas pedras. Fabrício não tentou fugir. Ele apenas virou lentamente o rosto. Olhou para o céu. A pequena nave já era apenas um ponto distante desaparecendo no espaço. Um sorriso leve apareceu em seus lábios.


— Vai… — murmurou, quase sem voz. — Vai viver…


Outro disparo atravessou seu torso. Seu corpo finalmente perdeu força. Os joelhos tocaram o chão. Ele ainda conseguiu olhar uma última vez para o horizonte, até que então, caiu. O corpo do príncipe placentário permaneceu imóvel no pátio do castelo suínico, envolto em uma poça crescente de sangue verde e tecido orgânico rasgado. Mas muito acima dali, uma pequena nave cruzava a fronteira invisível do Espaço Térmico.


O Planoverso era vasto demais para permitir previsões simples. Planetas surgiam e desapareciam em mapas estelares, civilizações nasciam e ruíam em escalas de tempo que nenhum indivíduo poderia compreender plenamente. Histórias começavam em um canto e terminavam em outro completamente distante. E agora, muito acima das fronteiras do Espaço Térmico, uma pequena nave solitária cruzava o vazio. Dentro dela, no compartimento de segurança, chorava um bebê híbrido que não fazia ideia de que havia acabado de perder tudo. Seus pais, seu planeta e o único mundo que poderia chamar de lar.


A nave atravessou o campo térmico gerado pelas duas estrelas azuis. Quando cruzou a última camada da barreira invisível, o ambiente ao redor mudou drasticamente. Ali começava outra região do cosmos. Um lugar mais familiar para quem conhecia os mapas da galáxia. A nave entrou lentamente no Sistema Solar. Os sensores da nave, já danificados pela pressa da fuga e pela idade do equipamento, começaram a apresentar falhas. Alarmes internos piscavam em vermelho enquanto o piloto automático tentava recalcular a trajetória. O destino programado ainda estava ativo. O planeta habitável mais próximo era a Pós-Terra. O planeta azul-esverdeado girava lentamente abaixo da nave enquanto ela atravessava a atmosfera superior.


As placas do sistema começaram a chiar. Um circuito queimado falhou. Um alerta sonoro disparou. Era um alarme de falha crítica. Dentro da cabine, as luzes piscaram. A nave começou a tremer. Então, sem aviso, uma explosão rasgou o casco da pequena nave, transformando-a em uma bola de fogo que atravessou o céu da Pós-Terra como um meteoro incandescente. Fragmentos metálicos se espalharam pelo ar. Destroços giravam em chamas enquanto caíam em direção à superfície. E, no meio daquela tempestade de ferro derretido, o compartimento de segurança se rompeu. O bebê foi lançado para fora. Seu pequeno corpo atravessou o ar em alta velocidade, girando entre pedaços de metal e labaredas que se apagavam conforme desciam pela atmosfera. Era impossível dizer se aquilo era sorte. Ou alguma espécie de ironia cósmica.


Mas a trajetória daquele pequeno corpo terminou em um lugar extremamente específico. No supercontinente Pangeia. Mais precisamente, em uma região rural próxima à cidade de Sete Chaves. Ali ficava uma das propriedades agrícolas mais conhecidas daquela parte do mundo. A Fazenda da Família Otapas. Era uma grande fazenda cercada por colinas baixas, galpões rústicos e extensos campos cultivados que se espalhavam até onde a vista alcançava. Mas aquelas plantações não eram de milho. Nem de trigo. Nem de qualquer grão convencional. Ali cresciam torresmos. Ou, mais precisamente, torresminhos.


Pequenas estruturas orgânicas cultivadas em grandes hortas especializadas, semelhantes a brotos vegetais, mas compostas por tecidos gordurosos que, após colhidos e preparados, se transformavam nos famosos torresmos crocantes consumidos em toda a Pangeia. A Fazenda Otapas era conhecida por produzir os melhores torresmos do continente. E também por ser a maior exportadora de torresmos da Pangeia.


A família que comandava a fazenda era composta por aves da espécie kiwi. Mas não eram kiwis comuns. Diferente da maioria das aves, os membros da Família Otapas não possuíam asas. Em vez disso, seus corpos eram interligados com longos braços humanos, fortes e ágeis, perfeitos para o trabalho agrícola. Com eles, os kiwis da família conseguiam colher, carregar e preparar toneladas de torresminhos todos os dias. Era uma linhagem de trabalhadores dedicados. Orgulhosos. E completamente alheios ao fato de que, naquele exato momento, algo extraordinário estava prestes a cair em suas terras.


No meio da noite silenciosa da fazenda, um pequeno objeto atravessou o céu como uma estrela cadente. Passou zunindo sobre os celeiros. Cruzou o campo principal de torresminhos. E caiu. Diretamente dentro de um grande barril de torresmos frescos, recém-preparados e ainda mornos. Os torresmos crocantes absorveram o impacto como uma cama improvisada. Por alguns segundos tudo ficou quieto. Então, do meio daquele monte de torresmos dourados, ouviu-se um pequeno choro. O bebê híbrido, coberto de gordura crocante e migalhas salgadas, abriu os olhos pela primeira vez naquele novo mundo. A noite na Fazenda Otapas era tranquila. Os campos de torresminhos balançavam lentamente com o vento morno da madrugada, e o cheiro de gordura recém-preparada ainda pairava no ar ao redor dos galpões de produção. Alguns barris cheios de torresmos frescos estavam empilhados perto da varanda da casa principal, esperando para serem carregados para as carroças pela manhã.


Foi nesse silêncio rural que Astolfo Otapas ouviu o choro. Astolfo era o patriarca da família. Uma ave kiwi robusta, de penas marrons desalinhadas e bico longo levemente torto, marcado por anos de trabalho pesado no campo. Seus braços eram fortes e calejados, com mãos grossas de fazendeiro que conheciam cada etapa do cultivo de torresminhos. Ele era o tipo de cidadão simples que acreditava em três coisas. Trabalho duro, comida farta e família unida. Naquela madrugada ele saiu da casa esfregando os olhos, segurando um lampião de querosene que iluminava seu caminho com uma luz tremida. Astolfo vestia um pijama antigo de algodão xadrez vermelho e branco, com suspensórios frouxos e chinelos gastos arrastando pelo chão de terra. O choro agudo ecoava novamente. Ele franziu o cenho.


— Será que é impossível ter uma noite de sono decente por aqui?! — murmurou, coçando a cabeça.


O som vinha da direção dos barris de torresmos. Astolfo suspirou, já irritado.


— Aposto que são aqueles malditos coiotes safados de novo. Eles aparecem de madrugada querendo comer os meus torresmos.


Ele ergueu o lampião e caminhou até o barril. O choro continuava. Astolfo encostou na borda do barril e olhou para dentro. Silêncio. Ele piscou uma vez. Depois outra.


— Como foi que você veio parar aqui, rapaz?


Dentro do barril, coberto de torresmos frescos e ainda mornos, estava um bebê. Um bebê estranho. Pequeno, com pele parcialmente translúcida e manchas alaranjadas espalhadas pelo corpo, completamente lambuzado de gordura e migalhas crocantes. Ele coçou o bico pensativo.


— Esse é o torresminho mais feio que eu já vi na minha vida.


Com cuidado, ele pegou o bebê nos braços. A criança chorou mais alto.


— Será que Pit Mangueira nos mandou uma benção?


Segurando o bebê com certa habilidade surpreendente para um fazendeiro recém-acordado, Astolfo voltou para dentro da casa. Assim que abriu a porta, encontrou sua esposa na cozinha. Raimunda Otapas. Raimunda era uma kiwi de personalidade forte, conhecida na região por ser trabalhadora, direta e absolutamente incapaz de tolerar preguiça ou besteira. Ela vestia uma camisola florida azul clara, com um avental velho amarrado na cintura e vários bobes coloridos enrolados nas penas da cabeça, preparando o cabelo para o dia seguinte. Quando viu o marido entrando com algo nos braços, ela estreitou os olhos.


— Astolfo, o que você está carregando?


Ele levantou o bebê como se estivesse mostrando um objeto suspeito.


— Raimunda, me diga se não é o torresminho mais feio que você já viu.


Raimunda arregalou os olhos.


— Que horror!


Ela vomitou e deu dois passos para trás.


— Astolfo! Ele é mais feio que bater em mãe! Onde você achou isso?


Astolfo deu de ombros.


— Ele estava largado dentro do barril de torresmos frescos lá fora.


Raimunda olhou para o bebê. O bebê olhou para ela. Houve um silêncio.


— Misericórdia…


Ela suspirou.


— Deve ter caído do céu.


Astolfo pensou um pouco.


— Ele é uma benção.


Ele olhou novamente para o bebê. E então falou com um tom mais firme.


— Nós vamos cuidar dele.


Raimunda ergueu uma sobrancelha. Astolfo continuou.


— Ele pode ser horroroso e nojento, mas parece estar precisando de ajuda.


Raimunda bufou. Mas não discutiu.


— Amanhã cedo a gente lava esse bicho. Ele está com cheiro de adubo velho.


Astolfo assentiu satisfeito. Alguns minutos depois, os dois entraram no quarto das crianças. Astolfo acendeu uma pequena lamparina.


— Acordem logo, meninas — disse ele.


A primeira a levantar a cabeça foi Ivana Otapas, a filha mais velha e lésbica. Ivana tinha penas curtas, olhar cansado e uma expressão permanentemente irritada. Era conhecida na família por seu humor ácido, sua rebeldia e por não ter paciência nenhuma com tradições da fazenda. Ela abriu um olho só.


— Que horas são?


Astolfo levantou o bebê.


— Achei isso no barril.


Ivana olhou. Depois esfregou os olhos.


— Que fragmento de escrotisse é esse?


Antes que alguém respondesse, outra voz surgiu deitada na mesma cama. Hillary Otapas, a filha do meio. Hillary era completamente diferente da irmã. Elegante, vaidosa, e dramaticamente convencida de que havia nascido para coisas maiores que uma fazenda de torresmos. Ela se sentou na cama, arrumando as penas como se estivesse em uma sessão de fotos imaginária. Olhou para o bebê. E soltou uma risada seca.


— Pelo amor de Pit Mangueira, vocês acharam um cu e decidiram trazer pra casa?


Astolfo e Raimunda lançaram olhares duros para as duas. Mas não responderam. Em vez disso, Raimunda pegou uma manta quentinha do armário. Astolfo enrolou cuidadosamente o bebê dentro dela. Depois caminharam até o pequeno berço de madeira no canto do quarto. Lá dormia tranquilamente o filho caçula deles.


Um pequeno kiwi com braços humanos curtos e penas ainda fofas. Quivi Otapas. Astolfo colocou o bebê híbrido no berço, ao lado dele. Os dois pequenos ficaram ali, dormindo lado a lado. O pai então se virou para as filhas, e apontou para o bebê enrolado na manta.


— Escutem bem, meninas.


Sua voz estava firme. Mas havia um calor inesperado nela.


— Esse aqui é Torresminho Otapas.


As duas irmãs trocaram olhares. Astolfo continuou.


— O novo membro da nossa família.


Ele cruzou os braços.


— Agora podem começar a tratar ele como um de nós.


Ivana suspirou. Hillary revirou os olhos. Mas nenhuma das duas discutiu. Assim, naquela casa barulhenta, cheia de torresmos e discussões familiares, o pequeno bebê que havia caído do céu passou a ser conhecido como Torresminho Otapas.

 
 
Capítulo II: O Último Dia de Normalidade

Sete anos haviam se passado desde a noite em que um bebê estranho caiu do céu dentro de um barril de torresmos na Fazenda Otapas. Tempo suficiente para transformar o caos daquela madrugada em rotina.

 
 

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