Capítulo VII: O Primeiro Dia dos Próximos

Atualizado: 22 de ago.
Quivi estava deitado sobre os degraus frios da escadaria, o corpo tremendo enquanto o sangue escorria em rios escuros pelos ombros mutilados. Seus olhos estavam semicerrados e o rosto contraído numa mistura de dor e pânico. Cada respiração parecia um esforço impossível.
— Eu tenho fimose… — gemia ele, os dentes cerrados.
Ernestina se ajoelhou imediatamente ao lado dele. Com rapidez surpreendente, ela rasgou um pedaço largo de sua própria saia estampada e pressionou o tecido contra os ferimentos.
— Fique comigo, guri… — disse ela com firmeza, tentando conter o sangramento.
Quivi chorava silenciosamente. A escadaria estava manchada de vermelho. Acima deles, no alto do porão, Dorotéia observava a cena. Ainda pendurada no lustre, balançando lentamente entre as correntes, a imperatriz parecia estar se divertindo. Seu sorriso era puro sadismo.
— Passarinho doente… — disse ela, inclinando a cabeça. — Vai cair muito bem na minha sopa de bergamota!
Ela soltou uma gargalhada. Mas, naquele instante, Torresminho não estava mais olhando para ela. Seus olhos haviam encontrado outra coisa. No chão da escadaria. Entre os destroços, estava o machado imperial. A arma que Dorotéia havia lançado. Sem hesitar, Torresminho correu até ele. Ele agarrou o cabo com força e o puxou do chão com um movimento brutal, o metal raspando entre ossos e pedras. Quando se virou novamente, Dorotéia ainda estava no lustre. E ainda sorria. Torresminho não disse uma palavra. Ele respirou fundo. E arremessou o machado.
A lâmina girou pelo ar com um assobio mortal. Por um segundo, Dorotéia ainda estava sorrindo. Então o machado atravessou seu pescoço. O impacto foi preciso. Violento. A lâmina cortou carne, músculos e vértebras com um estalo úmido. A cabeça de Dorotéia se separou do corpo, voando pelo ar enquanto um jato espesso de sangue escuro explodia do pescoço decapitado. O corpo da imperatriz permaneceu preso ao lustre. Sem cabeça. Mas ainda se movendo. Os músculos convulsionaram. As mãos agarravam as correntes do lustre como se o corpo ainda tentasse lutar.
Por alguns segundos horríveis, o corpo decapitado continuou se debatendo. O sangue jorrava em pulsos violentos pelo pescoço aberto, respingando nas paredes e no chão do porão. Então o peso do corpo fez o lustre ranger violentamente. As correntes começaram a ceder. Primeiro um estalo. Depois outro. E então, o lustre inteiro despencou do teto. A estrutura de metal caiu como uma avalanche diretamente sobre os soldados Girilo-Milo que estavam reunidos abaixo. Os corpos foram esmagados instantaneamente.
O impacto espalhou ossos, metal e carne pelo chão do porão, misturando os cadáveres recém-esmagados com os esqueletos antigos que Dorotéia havia acumulado como troféus. No meio da destruição, o corpo sem cabeça da imperatriz finalmente ficou imóvel. O silêncio que se seguiu foi pesado. Lá em cima na escada, Plinky observava a cena. Ela girou lentamente as rodas.
— Por que não fez isso antes?! — perguntou, semicerrando os olhos.
Torresminho virou o rosto para ela. Exausto. Coberto de sangue e poeira.
— Vai tomar no meio do seu cu.
Plinky deu de ombros. A adrenalina da batalha finalmente começou a desaparecer, e Torresminho caminhou de volta até a escadaria e caiu de joelhos ao lado de Quivi. Com cuidado, ele apoiou a cabeça do irmão no próprio colo.
— Ei… — disse ele suavemente.
Quivi abriu os olhos com dificuldade. Torresminho passou a mão pelo rosto dele com carinho.
— Eu tô aqui.
Pablo se aproximou logo em seguida, trazendo mais pedaços de tecido improvisado para ajudar Ernestina a estancar o sangramento.
— Segura firme… — disse o canguru, apertando os curativos.
Quivi tremia. Mas ainda estava vivo. E pela primeira vez desde que tudo aquilo havia começado, o castelo de Dorotéia estava silencioso.
Na manhã seguinte, o Planeta Esferográfico parecia outro. A destruição da noite anterior ainda era visível nas torres quebradas do castelo, nas crateras espalhadas pelo pátio e nas estruturas queimadas pelas batalhas. Mesmo assim, os Girilo-Milo sobreviventes já estavam trabalhando. Alguns recolhiam destroços, outros organizavam grupos de reconstrução, e muitos discutiam, ainda confusos, como governariam o planeta agora que a imperatriz havia desaparecido para sempre.
Dentro da Base Panspérmica, porém, o clima era mais tranquilo. Torresminho estava inclinado sobre um painel de controle da nave, analisando os sistemas com atenção. As telas holográficas refletiam em seu rosto enquanto ele testava motores, rotas e sensores de navegação. Ele levantou o olhar por um momento e observou pela grande janela frontal da base. Lá fora, a cidade tentava se reorganizar.
— Espero que eles encontrem um novo rei que seja decente — comentou ele, cruzando os braços.
Ele observou os habitantes do castelo carregando ferramentas e levantando novas estruturas improvisadas.
— E que ele queira governar, porque eu nunca governaria esse fim de mundo do cacete.
Plinky estava acomodada na cadeira de piloto, girando lentamente as rodas enquanto analisava os sistemas de navegação da Base Panspérmica.
— Concordo — disse ela. — A política aqui parece extremamente desagradável.
Pablo ocupava um painel lateral, onde manipulava mapas holográficos do Espaço Térmico, analisando rotas entre os sete planetas do sistema.
— Pelo menos agora aquela vadia psicótica não está mais no comando — comentou o canguru.
Do outro lado da sala, Ernestina limpava cuidadosamente uma escrivaninha antiga que ficava próxima ao Translocador da nave. Depois de terminar, ela retirou de uma caixa uma pequena escultura de pedra irregular. Era uma réplica improvisada de Reboco. Ela colocou a escultura sobre a mesa e a alinhou com cuidado.
— Pronto — disse ela em voz baixa.
Por alguns segundos, ninguém falou nada. Perto do Translocador, Quivi se preparava para partir. Os ferimentos já estavam enfaixados. No lugar de seus braços agora restavam dois cotoquinhos cuidadosamente bandados, mas ele parecia determinado a seguir em frente. Ele caminhou até o irmão. Então o abraçou. Mesmo sem braços, ele pressionou o corpo contra o de Torresminho com toda a força.
— Certeza que não quer vir? — perguntou ele, com os olhos úmidos.
Torresminho sorriu.
— Agora eu sou um protetor do Espaço Térmico.
Ele apontou para a equipe ao redor.
— E olha só a equipe incrível que você me arrumou, irmão.
Plinky levantou uma roda em saudação. Pablo fez um gesto com a cabeça. Ernestina apenas sorriu.
— Eu nunca pertenci à Pós-Terra — continuou Torresminho.
Quivi enxugou uma lágrima com o ombro.
— Boa sorte então.
Ele encostou a testa na do irmão por um instante.
— Cuide de você.
Torresminho assentiu. Então fez um pequeno sorriso torto.
— Manda um abraço ao papai, punheteiro.
Quivi riu.
— Vai se foder.
Ele respirou fundo.
— Estou pronto.
Quivi entrou na plataforma circular do Translocador, o enorme dispositivo criado pelo falecido Doutor Justino Klépter. A máquina ocupava metade da sala, formada por anéis metálicos concêntricos que giravam lentamente enquanto acumulavam energia. Plinky girou a cadeira de piloto para o painel de ativação.
— Coordenadas da Pós-Terra confirmadas.
Ela apertou os comandos. As luzes da máquina começaram a brilhar. O ar ao redor do Translocador distorceu levemente enquanto um campo energético azul se formava.
— Nivenção interdimensional ativada — anunciou Pablo.
O campo de energia se intensificou. Por um instante, Quivi ficou ali, olhando para todos. Então o corpo dele começou a se dissolver em partículas de luz. Em segundos, ele desapareceu. O Translocador desligou. O silêncio tomou conta da sala. Torresminho ficou parado olhando para o local onde o irmão havia estado. Ele respirou fundo. E enxugou discretamente as lágrimas que haviam escapado. Então se virou para o resto da equipe. Os olhos agora estavam firmes novamente.
— Vamos ao trabalho, equipe.
Enquanto isso, na Fazenda da Família Otapas, a tranquilidade rural da manhã havia sido completamente substituída por um escândalo doméstico de proporções épicas. A sala da casa estava em estado de guerra. Um vaso quebrado jazia no chão, a cortina havia sido arrancada de um dos lados da janela, e um quadro antigo de Astolfo segurando um prêmio de melhor produtor de torresmos da região estava torto na parede.
No centro do caos, Astolfo Otapas estava furioso. O velho kiwi fazendeiro, ainda usando suas calças largas de algodão, camisa xadrez aberta no peito e chinelos gastos, segurava Hillary pelo cabelo, esfregando o rosto da filha contra a parede de madeira da sala.
— Como assim, vocês duas são lésbicas?! — berrava ele com seu sotaque caipira carregado. — Eu criei vocês para isso?!
Hillary gemia enquanto tentava se soltar.
— Pai! Para com isso!
Astolfo continuava sacudindo a filha.
— E o Vasitio, como fica nessa história?!
Ele deu um murro no meio do rosto de Hillary e a empurrou contra o sofá.
— O menino tá lá pensando que nasceu de um milagre do Pit Mangueira?!
Hillary respirou fundo, tentando recuperar a calma enquanto ajeitava o cabelo bagunçado.
— Pai, escuta — disse ela, tentando manter a voz firme. — Vasitio é adotado. Eu e Ivana adotamos ele juntas para criar como o nosso filho.
Astolfo piscou. O cérebro dele levou alguns segundos para processar a informação, e então os seus olhos se arregalaram.
— O quê?!
Ele deu dois passos para trás, completamente desnorteado.
— Como assim adotado?!
Ele apontou para Hillary, indignado.
— Eu passei sete anos pensando que você tinha parido aquela jaguatirica!
Hillary suspirou.
— Pai, jaguatiricas nem nascem de kiwis…
— Eu não sou biólogo! — gritou Astolfo.
Antes que a discussão pudesse continuar, Vasitio entrou na sala. O pequeno corpo infantil com cabeça de jaguatirica apareceu na porta segurando um caderno aberto. Ele parecia completamente alheio ao caos.
— Vovô — disse ele calmamente — o senhor pode me ajudar com essa fórmula de matemática?
Ele mostrou o caderno.
— Eu não entendi essa parte aqui do cálculo.
Astolfo estava vermelho de raiva. Ele olhou para Hillary. Depois para Vasitio. Depois novamente para Hillary. Seu cérebro claramente estava tentando processar três crises familiares ao mesmo tempo. Ele esfregou o rosto com irritação.
— Agora não, Vasitio. Isso é conversa de adulto.
Vasitio franziu o cenho.
— Mas, vovô…
— Agora não! — repetiu Astolfo.
Vasitio insistiu, aproximando-se um pouco.
— É rapidinho…
Astolfo perdeu a paciência.
— Agora não, moleque filho de uma puta!
Ele deu um empurrão no pequeno jaguatirica. Vasitio cambaleou alguns passos para trás, segurando o caderno. O menino ficou olhando para o avô por um segundo. Depois olhou para Hillary. Depois para o chão. Ele suspirou irritado.
— Tá bom então.
Ele fechou o caderno com força.
— Família desgraçada.
Sentindo-se ainda mais deslocado, Vasitio entrou na cozinha com o caderno ainda apertado nas mãos. O ambiente estava silencioso, exceto pelo leve chiado da panela esquecida sobre uma das bocas do fogão. Ele colocou o caderno sobre a mesa. Por alguns segundos, ficou parado olhando para o nada. Do outro lado da casa, os gritos de Astolfo ainda ecoavam pela sala enquanto ele discutia com Hillary.
Vasitio suspirou. Seus olhos felinos se estreitaram lentamente, e com uma calma estranhamente adulta para uma criatura tão jovem, ele caminhou até o fogão. Estendeu a mão e girou devagar a válvula do botijão de gás conectado à parte inferior do fogão. Um silvo suave começou a escapar. O cheiro forte de gás logo começou a se espalhar pela cozinha. Vasitio não demonstrou nenhuma pressa. Ele observou o vazamento por alguns segundos, como se estivesse pensando. Então abriu todas as bocas do fogão. O gás começou a escapar em quantidade muito maior agora, espalhando-se pela cozinha e lentamente invadindo o restante da casa.
O garoto observava tudo em silêncio. Depois caminhou calmamente até a porta. Antes de sair, ele ligeiramente voltou e pegou um fósforo de uma pequena caixa sobre a bancada. Girou o palito entre os dedos. Então saiu de casa. Caminhou alguns metros pela varanda de madeira. Desceu os degraus. E seguiu andando em direção ao campo aberto da fazenda. O vento da manhã agitava os vastos campos de torresmos cultivados, que se espalhavam em fileiras crocantes até onde a vista alcançava. Atrás dele, dentro da casa, o gás continuava a se acumular. A cozinha. A sala. O corredor. O quarto. Tudo começava a se encher da mistura explosiva.
Vasitio parou no meio do campo. Olhou para a casa. Então riscou o fósforo. A chama acendeu. Ele observou o pequeno fogo por um instante. E lançou o fósforo pela porta aberta da cozinha. O palito em chamas caiu no chão. Por um segundo, nada aconteceu. Então o gás acumulado encontrou a chama. A explosão veio como um trovão. A casa da Família Otapas simplesmente desapareceu em uma bola de fogo. O impacto sacudiu o campo inteiro. A onda de choque lançou pedaços da estrutura pelos ares. Vigas, móveis, janelas, utensílios de cozinha e fragmentos da própria parede foram arremessados para todos os lados. Dentro da casa, Astolfo e Hillary não tiveram qualquer chance.
A explosão rasgou seus corpos instantaneamente. Astolfo foi lançado contra a parede oposta com tanta força que sua caixa torácica cedeu no impacto. Ossos quebraram para dentro do corpo enquanto pedaços de madeira atravessavam sua carne. Seu corpo caiu no chão entre chamas e destroços, completamente irreconhecível. Hillary foi atingida pela onda inicial da explosão e arremessada contra o teto antes de despencar de volta sobre a mesa da sala, que se partiu sob o peso do impacto. O fogo rapidamente consumiu o que restava de seu corpo enquanto o teto colapsou sobre ela. A casa inteira desmoronou em segundos. Chamas subiram alto no céu.
Vasitio permaneceu parado no campo de torresmos, observando o incêndio. Os destroços ainda caíam do céu ao redor da propriedade. Ele não demonstrava expressão alguma. Apenas observava. O vento carregava a fumaça negra sobre as plantações. A antiga casa da Família Otapas agora era apenas um monte de madeira em chamas no meio da fazenda. Alguns minutos depois da explosão, o ar ainda estava pesado com fumaça, cinzas e o cheiro de madeira queimada quando um clarão azul rasgou o campo de torresmos.
No meio da plantação carbonizada, o Translocador abriu uma fenda luminosa, e dela emergiu a silhueta trêmula de Quivi. A luz desapareceu. Ele caiu de joelhos no chão seco. Por alguns segundos, ficou desorientado, tentando recuperar o equilíbrio após a travessia interdimensional. Então levantou os olhos. E viu. A Fazenda da Família Otapas estava em chamas. O que antes era a casa onde cresceu, agora era apenas um esqueleto negro sendo consumido pelo fogo. As vigas estalavam enquanto o teto colapsava lentamente, e labaredas se erguiam contra o céu da manhã. Quivi congelou.
— Não… — murmurou.
Ele começou a correr. Mesmo sem braços, ele avançou desajeitado pelo campo, tropeçando entre os montes de torresmos espalhados pela explosão.
— Não!
Quando finalmente chegou perto da estrada de terra que passava diante da casa, ele viu algo que o fez parar. Vasitio. O pequeno jaguatirica estava montado na velha motocicleta da família Otapas, ajustando o acelerador enquanto observava o incêndio com um olhar estranho, entre tristeza e frieza. Quivi se aproximou, ofegante.
— Vasitio! — gritou. — O que está acontecendo?!
O jovem virou o rosto lentamente. Por um momento, os dois ficaram em silêncio. Atrás deles, a casa continuava a queimar. Vasitio falou com uma calma assustadora.
— Eles tiveram o que mereciam, tio Quivi.
Quivi piscou.
— O quê?
O motor da motocicleta roncou. Vasitio apertou o guidão.
— Algumas famílias precisam acabar para que outras histórias possam começar.
Quivi ficou parado. Confuso. Chocado.
— Vasitio… o que você fez?
Mas antes que qualquer explicação pudesse surgir, o garoto acelerou a motocicleta. A roda traseira levantou a poeira da estrada. E em segundos ele já estava se afastando pelo horizonte da Pangeia. Quivi ficou parado observando até que a silhueta desaparecesse entre as colinas. O vento trouxe novamente o calor do incêndio. Ele virou o rosto lentamente para a casa destruída. As chamas iluminavam o campo inteiro. Nenhuma voz. Nenhum sinal de vida. Apenas fogo. Quivi caiu de joelhos no chão. E pela segunda vez em pouco tempo, ele estava sozinho no mundo.
Após a tragédia na fazenda, Quivi desapareceu da vida rural. Sem família, sem casa, e sem braços. Ele passou os meses seguintes vagando pela Pangeia inteira como um mendigo. Dormia em estações abandonadas, sob pontes de pedra ou em becos nas cidades de comércio entre as regiões do supercontinente. Sobrevivia pedindo unipanges nas ruas, trocando histórias por comida barata e restos de bebida.
O pequeno kiwi de braços amputados tornou-se uma figura conhecida entre viajantes e comerciantes. Alguns humilhantemente o chamavam de passarinho quebrado. Outros apenas o ignoravam. Mas Quivi nunca abandonou seu objetivo. Ele repetia sempre a mesma frase para quem estivesse disposto a ouvir:
— Um dia eu vou conseguir braços mecânicos.
Algumas pessoas riam. Outras apenas davam algumas unipanges por pena. Mas ele continuava contando sua história. A história da fazenda. Do irmão. Do castelo. Da guerra no Espaço Térmico. Da imperatriz. Do cientista louco. Da nave. Do útero implantado no ânus. Pouquíssimos acreditavam. A maioria achava que era apenas mais um mendigo delirante inventando histórias. Os anos passaram assim. Até que, um dia, enquanto Quivi estava sentado em um beco do Reino dos Melões, duas figuras pararam diante dele. Um macaco. E um tigre. Eles não riram. Não foram embora. Eles apenas ficaram ali, ouvindo atentamente.
Quatro meses haviam se passado desde a queda de Dorotéia. No interior da Base Panspérmica, agora transformada em um quartel-general improvisado da nova equipe do Espaço Térmico, Torresminho retornava de mais uma missão. A nave deslizava silenciosamente entre os asteroides próximos ao Planeta Esferográfico enquanto os sistemas de navegação eram desligados. Plinky conduziu a nave até uma plataforma de acoplamento com a calma habitual, suas rodas girando lentamente enquanto ela analisava os últimos dados do painel.
— Missão concluída — disse ela. — Nenhuma anomalia no setor três.
Torresminho caminhava pelo corredor principal da nave, limpando um pouco de poeira espacial da roupa quando, de repente, o pequeno comunicador preso à sua cintura emitiu um som agudo. Um sinal que ele não ouvia havia muito tempo. Torresminho congelou. Ele olhou para o dispositivo. O visor piscava. Os olhos dele se arregalaram. Ele virou-se imediatamente para Plinky.
— Plinky… — disse, incrédulo.
O sorriso começou a surgir.
— Ele fez contato!
Enquanto isso, a milhares de quilômetros dali, na Pós-Terra, um avião comercial cruzava o céu sobre o supercontinente Pangeia. Dentro da cabine, entre passageiros entediados e o barulho constante das turbinas, Quivi estava sentado em uma poltrona, segurando cuidadosamente um pequeno filhote em seu colo. O bebê tinha penas macias e um olhar curioso. Era Querosene, seu filho. Quivi pegou alguns amendoins de um pequeno pacote e os aproximou da boca do garoto.
— Devagar — disse ele com um sorriso cansado. — Mastiga direito.
Querosene abriu o bico pequeno e pegou o amendoim com entusiasmo. A cabine estava tranquila. Até que uma luz intensa começou a preencher o interior do avião. Primeiro alguns passageiros olharam para os lados. Depois começaram os murmúrios. Quivi já conhecia aquele brilho. Ele arregalou os olhos. O campo energético do Translocador abriu-se diretamente dentro da cabine. Uma coluna de energia azul envolveu Quivi e o pequeno Querosene. Os passageiros começaram a gritar. Mas antes que qualquer um pudesse reagir, os dois desapareceram.
Na Base Panspérmica, o Translocador ainda brilhava quando duas silhuetas surgiram dentro do campo de energia. A luz se dissipou lentamente. Quivi apareceu primeiro, e depois o pequeno Querosene. Torresminho já estava esperando. Por um segundo, os dois irmãos apenas ficaram olhando um para o outro. Quatro meses. Guerras, mortes, e distâncias entre planetas. E agora, estavam ali novamente. Torresminho caminhou até ele. Quivi deu um passo à frente. E os dois se abraçaram. Torresminho segurou o irmão com cuidado, tomando cuidado com os cotos enfaixados onde antes havia braços.
— Caralho… — murmurou Torresminho. — Eu achei que tinha te perdido de novo.
Quivi soltou uma pequena risada emocionada.
— Nem tenta se livrar de mim.
Torresminho então olhou para o bebê.
— E esse aqui?
Quivi enxugou uma lágrima com o ombro.
— Esse é Querosene.
O bebê encarou Torresminho com curiosidade. Torresminho abriu um sorriso.
— Nome forte.
Quivi respirou fundo. O sorriso desapareceu.
— Você não tem ideia do que aconteceu…
Ele começou a contar. Falou sobre a explosão na fazenda. Sobre Vasitio. Sobre os anos vivendo nas ruas. Sobre o encontro com o Senhor Macaco. Sobre promessas. Sobre manipulações. Sobre tudo que havia acontecido desde que os dois haviam se separado. Torresminho escutava em silêncio. Mas conforme a história avançava, o rosto dele começou a mudar. O sorriso desapareceu. A mandíbula travou. Os olhos começaram a endurecer. Quando Quivi terminou, Torresminho estava furioso. Ele virou-se lentamente para Plinky.
— Plinky.
A gata levantou os olhos do painel.
— Sim?
Torresminho respirou fundo.
— Cuide da Base Panspérmica na minha ausência.
Plinky inclinou a cabeça.
— Você vai para a Pós-Terra.
Não era uma pergunta. Torresminho assentiu.
— Eu tenho uns assuntos para resolver.
Ele caminhou até o painel do Translocador principal. As luzes da máquina começaram a se ativar. Quivi olhou para ele.
— Você tem certeza?
Torresminho deu um pequeno sorriso torto.
— Família é complicada, lembra?
Ele programou as coordenadas.
— Nós temos algumas contas para acertar.
A máquina começou a vibrar. O campo interdimensional se abriu novamente, Torresminho pegou Querosene no colo por um instante. Ele entregou o bebê novamente a Quivi.
— Vamos.
A luz envolveu os três. E em um clarão intenso, Torresminho, Quivi e Querosene desapareceram. O destino estava definido, e alguém iria pagar pelo que tinha feito.
Enquanto isso, no Planeta Esferográfico, longe das torres reconstruídas do castelo e da nova ordem política que tentava nascer após a morte de Dorotéia, existia um lugar que ninguém visitava voluntariamente. Os esgotos do planeta. Uma rede vasta de túneis úmidos, tubos enferrujados e canais de resíduos químicos corriam sob a superfície das cidades Girilo-Milo. Vapores quentes escapavam de válvulas rachadas, e o ar era denso com o cheiro ácido de produtos industriais e matéria orgânica em decomposição.
No fundo de um desses túneis esquecidos, escondido atrás de uma grade arrancada e várias chapas metálicas improvisadas, havia um pequeno laboratório clandestino. Ali dentro, cercado por equipamentos remendados e computadores roubados das instalações imperiais, Miguel, o jacaré, trabalhava concentrado. Seus óculos escorregavam constantemente pelo focinho enquanto ele digitava com rapidez no teclado do computador central. As telas piscavam com códigos genéticos, diagramas biológicos e registros de experimentos. Miguel respirava rápido, animado. Ele ainda vestia o jaleco velho que havia roubado da Base Panspérmica. A lente de seus óculos refletia a luz azulada dos monitores enquanto ele ajustava parâmetros de energia em um painel improvisado.
De repente, um som metálico ecoou pelo laboratório. Miguel parou de digitar. Outro som. O jacaré virou lentamente a cabeça. No centro da sala, onde antes havia apenas uma placa metálica enferrujada no chão, o piso começou a se abrir. Uma estrutura circular emergia lentamente do solo, acompanhada por um barulho mecânico profundo. A plataforma subiu alguns centímetros. Depois mais. Uma câmara cilíndrica totalmente selada revelou-se, coberta por cabos antigos e símbolos de identificação científica. Vapor escapava pelas juntas metálicas. Miguel se aproximou cautelosamente. Os sensores da câmara piscavam em vermelho. Ele inclinou a cabeça.
O jacaré caminhou até o painel lateral da estrutura erguida, e passou os olhos pelos comandos. Ele começou a digitar rapidamente no terminal. Os sistemas da câmara responderam. As travas internas se liberaram. Miguel deu um passo para trás. Com um último comando, ele ativou a abertura. Vapor branco explodiu da estrutura enquanto as portas metálicas da cápsula se abriram lentamente. Por alguns segundos, nada podia ser visto dentro da névoa. Então, uma silhueta se moveu. Miguel franziu o cenho. A figura dentro da cápsula começou a se levantar. Quando o vapor finalmente se dissipou, o jacaré ficou completamente imóvel.
Diante dele estava o Doutor Justino Klépter. O corpo estava grotescamente reconstruído. Partes do tronco haviam sido costuradas novamente com fios cirúrgicos grossos. A pele cinzenta estava marcada por cicatrizes recentes e remendos de carne incompatível. Uma das pernas parecia ter sido reencaixada de forma imperfeita, e o peito apresentava uma grande cicatriz vertical onde o corpo havia sido aberto e reconstruído. Os óculos de fundo de garrafa ainda estavam no rosto. Klépter respirou fundo. Os pulmões emitiram um som estranho. Ele moveu lentamente o pescoço. Os olhos brilharam atrás das lentes quebradas. Então, ele começou a rir. Uma gargalhada horrível. Longa. Ecoando pelas paredes do laboratório subterrâneo. Miguel levou a mão à boca. Klépter abriu os braços. As articulações rangiam como dobradiças velhas.
— Ah, Ângelo… — disse ele com sua voz rouca e arrastada. — Meu pequeno estagiário míope…
Ele olhou para o próprio corpo reconstruído. E sorriu.
— A morte… — murmurou. — É apenas um inconveniente técnico.
O cientista levantou a cabeça. Os olhos brilharam com uma loucura renovada.
— Agora, vamos continuar… — disse ele lentamente.
Ele abriu um sorriso enorme.
— Pelo bem da ciência.