Capítulo III: O Problema de Ser o Original

Atualizado: 22 de ago.
Após retornarem ao condomínio, a casa recém-comprada parecia viver uma rara manhã de tranquilidade. Na sala de estar, o clima era quase doméstico demais para aquele grupo. No centro do cômodo, uma mesa de sinuca novinha ocupava boa parte do espaço, iluminada por uma luminária pendente de vidro amarelado. Ao redor dela, espalhavam-se tacos encostados na parede, bolas numeradas e um pequeno placar improvisado feito com um quadro branco preso com fita adesiva. Ali estavam Bolozera Phillips e Bittencourt. Os dois estavam concentrados na partida. Bolozera segurava o taco com suas luvas brancas, inclinando o corpo redondo com grande esforço para calcular o ângulo perfeito.
— Essa aqui vai ser histórica… — murmurou ele.
Bittencourt observava calmamente do outro lado da mesa, tomando um milkshake de morango do Rei da Chapa, com o olhar sereno típico de quem acredita que tudo segue uma harmonia cósmica invisível. Bolozera bateu. A bola branca atravessou a mesa, bateu em três tabelas e errou completamente o alvo.
— Nossa, foi quase.
— Quase mesmo — respondeu Bittencourt, tranquilo.
Enquanto isso, no sofá ao fundo da sala, Vinícius, o rinoceronte de cinco patas, estava completamente relaxado. Ele devorava uma asinha de frango, mergulhada em uma quantidade obscena de molho. Seu focinho estava totalmente melequento, e os dedos grossos estavam cobertos de gordura.
— Vocês dois levam isso muito a sério… — resmungou ele, mastigando.
Foi então que a campainha tocou. O som ecoou pela casa. Vinícius suspirou.
— Lá vou eu…
Ele se levantou do sofá limpando a mão na própria almofada, caminhou até a porta da frente e a abriu. Do lado de fora estava uma figura peculiar. Era um Bolozera. Mas não qualquer um. Era um Bolozera de coloração Arco-Íris, cuja carne brilhava em todas as cores possíveis, como se alguém tivesse derramado um espectro inteiro sobre uma almôndega. Ele sorria alegremente. Com um entusiasmo quase infantil.
— Oi, muito prazer! Eu sou o Bolozera.
Ele inclinou levemente o corpo.
— O Bolozera está?
Vinícius ficou completamente paralisado. Ele piscou uma vez. Depois duas. O cérebro tentou processar o que estava vendo. Sem dizer uma palavra, ele fechou a porta na cara do visitante. O rinoceronte ficou parado por alguns segundos olhando para a porta fechada. Então se virou lentamente para a sala.
— Gente…
A voz dele saiu trêmula.
— Eu não sei se eu comi muitas asinhas.
Ele apontou para a porta.
— Mas tinha um Bolozera lá fora.
Bolozera e Bittencourt olharam para ele. Bittencourt franziu o cenho. Curioso, ele caminhou calmamente até a janela da sala, ainda segurando o milkshake. Tomou mais um gole. E espiou pela cortina. No segundo seguinte, os olhos dele se arregalaram. Do lado de fora do condomínio havia uma fila gigantesca de Bolozeras. Eles estavam organizados em fila indiana, um atrás do outro, ocupando toda a calçada e parte da rua. Havia dezenas deles. Cada um com uma aparência única. Um cromado. Um azul. Um com sombrero. Um transparente. Um em forma de carro. Um com tatuagens. Todos aguardando. Silenciosamente. Bittencourt ficou completamente paralisado diante da visão.
— Tem uma caralhada de Bolozeras lá fora — disse Bittencourt, ainda olhando pela janela com os olhos arregalados.
Vinícius e Bolozera se aproximaram imediatamente. Os três ficaram lado a lado, observando. A visão era surreal. Uma fila imensa de Bolozeras ocupava toda a calçada em frente ao condomínio. Almôndegas de todas as cores, formatos e estilos possíveis estavam ali, esperando como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— Nossa… são muitos eu! — disse Bolozera, maravilhado.
Ele parecia genuinamente impressionado com a diversidade de si mesmo. Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, a campainha tocou novamente. Dessa vez, Vinícius caminhou até a porta com cautela. Ele abriu apenas uma fresta. Mas foi tarde demais. Assim que a porta se abriu, a tropa de Bolozeras invadiu a casa como uma enxurrada de carne animada. Eles entraram em massa. Em segundos, a sala ficou lotada de Bolozeras. O trio foi cercado. Encurralado. Sem qualquer possibilidade de fuga.
— Que merda é essa?! — gritou Bittencourt.
Ele deu um passo para trás tentando entender o que estava acontecendo, mas escorregou no próprio susto. Ele caiu sentado no chão. O milkshake de morango do Rei da Chapa virou inteiro sobre sua roupa.
— Ah, qual foi, mano…
Os Bolozeras começaram então a formar um círculo ao redor deles. Um círculo quase perfeito. Em seguida, começaram a cantar. Um canto ritualístico estranho, quase tribal.
— Bolozera. Bolozera. Bolozera.
A melodia era repetitiva. Hipnótica. A sala inteira vibrava com o coro de dezenas de vozes almôndegadas. Foi então que o Bolozera Alfa bateu o cetro dourado no chão com autoridade.
— Alto lá!
O cântico cessou imediatamente. Silêncio. Vinícius instintivamente deu um passo à frente de Bolozera, como se estivesse tentando protegê-lo. Enquanto isso, Bolozera Phillips observava o líder com curiosidade genuína. O Bolozera Alfa abriu um sorriso cordial.
— Boa tarde, Bolozera.
Bolozera levantou a mão e acenou educadamente.
— Boa tarde!
O Alfa endireitou a postura.
— Eu sou o Alfa.
Ele fez uma pequena reverência.
— Bolozera Alfa.
Bolozera pareceu absolutamente encantado. Ele imediatamente se ajoelhou com respeito.
— Nossa, que legal!
Ele colocou a mão no peito.
— Eu sou o Bolozera Bolozera!
Por um segundo houve silêncio. Então a tropa inteira explodiu em aplausos. Alguns começaram a rir. Outros bateram palmas empolgados. O Bolozera de Sombrero gritou algo indecifrável. O Bolozera Inflável quicava de alegria. Era, sem dúvida, o encontro mais estranho que aquela casa já havia presenciado. Vinícius, ainda em alerta máximo, levantou a mão interrompendo o clima festivo que havia tomado conta da sala.
— Tá bom, tá bom… — disse ele, franzindo a testa. — O que vocês querem aqui?
O Bolozera Alfa não respondeu imediatamente. Ele caminhou até o Bolozera Móvel, que estava estacionado no meio da sala, e subiu lentamente sobre o capô como se fosse um palco improvisado. Ele ergueu o cetro. Adotou uma postura solene. Era claramente o momento de um discurso.
— Bolozera Phillips do Plano 88, — começou ele, com a voz grave ecoando pela sala abarrotada de almôndegas — nós somos a Ordem dos Cem.
Os Bolozeras ao redor assentiram respeitosamente.
— Fomos escolhidos a dedo pelo próprio Pit Mangueira…
Ele apontou o cetro para o teto.
— Para encontrarmos o Bolozera de Carne Pura.
O ambiente ficou silencioso.
— Aquele que enfrentará o tirano Sarapote de Calgude…
A voz dele ficou ainda mais dramática.
— E decidirá o destino final do Planoverso.
Vinícius cruzou os braços. O rinoceronte não parecia impressionado.
— Tá… — disse ele. — E o que isso significa pra nós?
O Bolozera Alfa abriu um sorriso misterioso.
— Significa que o seu amigo Bolozera precisa vir conosco.
Ele apontou para o pequeno bolo de carne.
— Ele deve enfrentar o cogumelo tirano. E só assim saberemos se o Planoverso encontrará a paz.
Ele fez uma pausa.
— Ou o seu fim definitivo.
Enquanto isso, no meio da confusão da sala, Vinícius ajudava Bittencourt a se levantar, ainda completamente coberto de milkshake de morango. Bittencourt piscava, tentando entender o que estava acontecendo.
— Amigo… — murmurou ele. — O que exatamente isso quer dizer?
Foi então que uma figura se adiantou no círculo. Era o Bolozera Vampiro. Sua pele era pálida, os olhos fundos e duas presas discretas surgiam no canto da boca. Ele abriu sua capa teatralmente antes de falar.
— Significa… — disse ele com solenidade dramática — que se o seu Bolozera for realmente o Bolozera de Carne Pura, então ele e Sarapote estão ligados pelo destino.
Ele ergueu um dedo.
— Enquanto um existir, o outro também existirá. E quando o confronto final acontecer…
Ele inclinou a cabeça.
— Um só poderá morrer se o outro morrer também.
Os Bolozeras trocaram olhares sérios. O peso da profecia pairava no ar. Foi nesse momento que o Bolozera Tinta de Impressora, completamente alheio ao drama, caminhou até a janela da sala. Ele puxou as cortinas.
— Nossa… — comentou inocentemente. — como aqui está escurinho.
Ele abriu as cortinas. A luz do sol invadiu a sala. O Bolozera Vampiro arregalou os olhos.
— Não!
Ele estendeu a mão desesperadamente.
— Não faça isso!
Mas era tarde. O raio de sol atingiu seu rosto. Por um segundo, a pele dele começou a borbulhar. Depois veio o cheiro. Carne queimando. O corpo do vampiro começou a se desintegrar rapidamente, rachando como porcelana aquecida. A pele abriu fissuras profundas de onde jorravam pequenas explosões de sangue seco. O crânio rachou. Os olhos evaporaram. As mãos viraram pó. Em poucos segundos, todo o corpo colapsou em uma nuvem de poeira escura misturada com fragmentos de ossos pulverizados. A poeira caiu lentamente no chão da sala. Silêncio. O Bolozera Tinta de Impressora piscou.
— Nossa.
O silêncio que se seguiu à desintegração do Bolozera Vampiro foi pesado. A poeira escura ainda caía lentamente no chão da sala, formando um pequeno monte de cinzas ao lado da mesa de sinuca. Alguns Bolozeras tossiram. Outros olharam para o chão. Mas antes que alguém pudesse realmente reagir, uma figura avançou pelo círculo. Era o Bolozera Ditador. Ele usava um uniforme militar verde-oliva, cheio de medalhas exageradas, ombreiras douradas e um pequeno boné rígido com um emblema autoritário gravado na frente. Ele caminhou até Bolozera Phillips com passos solenes. Parou diante dele. E colocou as mãos nas costas, como um comandante fazendo um discurso histórico.
— Você, meu pequenino…
Ele inclinou a cabeça dramaticamente.
— Pode ser a esperança de todo o Planoverso!
Ele levantou um dedo.
— Só você pode derrotar Sarapote de Calgude!
Vinícius olhou para ele de cima a baixo. O rinoceronte estreitou os olhos.
— Que roupa é essa que você tá usando?
O Bolozera Ditador estufou o peito com orgulho.
— É meu uniforme de ditador!
Silêncio. Bittencourt, que estava limpando o milkshake da camisa, congelou. Ele lentamente virou a cabeça.
— Você disse…
Seus olhos se estreitaram.
— Uniforme de ditador?
Antes que o clima pudesse piorar, o Bolozera Atleta de Alto Rendimento, que usava uma faixa de maratonista e um cronômetro pendurado no pescoço, decidiu esclarecer.
— Sim.
Ele apontou para o colega.
— Ele é o Bolozera Ditador, do Plano 1939.
Foi o suficiente. Bittencourt simplesmente se lançou para frente.
— Filho de uma puta!
Ele atingiu o Bolozera Ditador com uma voadora brutal, derrubando-o no chão da sala com um estrondo. Antes que o ditador pudesse reagir, Bittencourt montou sobre ele. E começou a espancá-lo. O primeiro soco esmagou o nariz de carne. O segundo abriu o lábio, espalhando sangue pela camisa do uniforme. Os golpes começaram a vir em sequência brutal. A cabeça do Bolozera Ditador batia contra o piso de madeira. O crânio começou a rachar. Carne se rasgava. Anéis de medalhas se soltavam. Um dos olhos saltou parcialmente da órbita enquanto o rosto se transformava em uma massa deformada de carne esmagada e ossos quebrados. Os Bolozeras ao redor recuaram, chocados.
— Que é isso?! — gritou o Bolozera Alfa.
Ele ergueu o cetro sem entender nada. Vinícius deu de ombros com uma expressão cansada.
— O Bittencourt veio de uma família de refugiados.
Ele limpou o molho de frango do focinho.
— Ele odeia ditaduras.
Bittencourt continuou batendo. Até que o crânio engordurado do Bolozera Ditador finalmente cedeu. A cabeça afundou parcialmente no piso, deixando escapar uma mistura grotesca de sangue escuro, massa cerebral e fragmentos de carne esmagada. O corpo parou de se mover. Morto. Bittencourt respirou fundo. Levantou-se calmamente e pegou o copo com o resto do milkshake de morango que havia caído no chão. Tomou um gole.
— Estou bem melhor.
Ele voltou a beber tranquilamente. O silêncio pesado na sala ainda pairava após a execução improvisada do Bolozera Ditador. O corpo esmagado permanecia estendido no chão, enquanto alguns Bolozeras evitavam olhar diretamente para ele. Foi então que uma voz surgiu no meio do grupo. Era o Bolozera Tatuado. Ainda com a barba bagunçada e marcas da surra recente, ele levantou uma sobrancelha e cruzou os braços.
— Espera um pouco, seus ferrolhos…
Ele olhou para todos ao redor.
— Como podemos ter certeza de que ele é o Bolozera de Carne Pura?
O comentário ecoou pela sala. Alguns Bolozeras começaram a trocar olhares. O Bolozera Fio Desencapado levantou a mão.
— É verdade.
Ele apontou para Bolozera Phillips.
— Não temos nenhuma evidência concreta.
Ele inclinou a cabeça.
— Apesar desse Plano convenientemente se chamar Plano Definitivo.
Um murmúrio começou a crescer no meio da tropa. O desconforto se espalhava rapidamente. Percebendo que o controle da situação estava se perdendo, o Bolozera Alfa levantou o cetro. Ele bateu a ponta dourada no chão com força.
— Bolozeras, vamos manter a calma!
O barulho ecoou pela casa. A sala voltou ao silêncio. O Alfa respirou fundo.
— Bolozera Secretário, por favor…
Ele apontou para o bolo de óculos.
— Faça o Teste Definitivo.
O Bolozera Secretário ajustou os óculos no nariz. Folheou algumas páginas da prancheta.
— Sim, senhor Bolozera Alfa.
Ele caminhou em direção a Bolozera Phillips com postura profissional. Vinícius franziu o cenho.
— Que porra de teste é esse?
Ele olhava para todos com desconfiança. Quem respondeu foi o Bolozera Dente do Siso, que abriu um sorriso simpático revelando um enorme dente torto e pontudo saindo da lateral da boca.
— É simples.
Ele apontou para o secretário.
— Um teste de cinco perguntas.
Ele cruzou os braços.
— Para descobrir se ele realmente é o Bolozera de Carne Pura.
Vinícius assentiu lentamente.
— Entendo.
Ele fez uma pausa.
— Não entendi porra nenhuma.
O Bolozera Secretário já caminhava em direção à porta dos fundos.
— O teste exige espaço adequado.
Ele abriu a porta que levava ao quintal.
— Por favor, todos para fora.
Em poucos segundos, a tropa inteira de Bolozeras começou a atravessar a residência, passando pela cozinha e indo para o enorme quintal gramado nos fundos da casa. O gramado verde se estendia até a cerca branca. O pequeno lago com o peixe ainda estava lá. A luz do sol iluminava a multidão absurda de almôndegas reunidas no jardim. No centro do quintal, Bolozera Phillips aguardava. Enquanto o Teste Definitivo estava prestes a começar.
O Bolozera Secretário limpou a garganta, segurando firme a prancheta enquanto dezenas de Bolozeras observavam atentamente no enorme quintal. O vento passava pelas árvores do jardim. O pequeno lago refletia a luz do sol. O clima era de tensão absoluta. Ele ajustou os óculos.
— Primeira pergunta, Bolozera Phillips.
Ele levantou a caneta.
— Qual a sua comida favorita?
Bolozera colocou a mão no queixo. Seus dentinhos apareceram enquanto ele pensava profundamente.
— Nossa…
Ele olhou para o céu.
— Essa é difícil.
Alguns Bolozeras inclinaram a cabeça.
— Mas atualmente é creme de leite.
Um murmúrio percorreu a multidão. O Secretário fez uma anotação rápida na prancheta.
— Certo.
Ele ergueu novamente o olhar.
— Segunda perguntinha.
Ele respirou fundo.
— Qual é o seu brinquedo favorito?
Bolozera respondeu imediatamente.
— Essa é fácil!
Ele abriu um sorriso.
— É o Arnaldo. Minha tarântula de pelúcia!
Os murmúrios ficaram mais intensos. O Bolozera Secretário engoliu seco. Afrouxou a gravata. A pressão começou a crescer.
— Terceira pergunta…
Ele limpou o suor da testa.
— Qual é o seu jogo favorito?
Bolozera respondeu com absoluta confiança.
— Eu gosto muito de jogar aquele da cobrinha no celular do Bit!
Um silêncio absoluto caiu no quintal. Alguns Bolozeras ficaram boquiabertos. O Bolozera Cromado levou a mão metálica à boca. O Bolozera Pizzaiolo arregalou os olhos. O Secretário respirou fundo novamente. Agora claramente nervoso.
— Quarta pergunta…
Ele olhou para a prancheta.
— Qual bichinho é o seu Apartamento?
Bolozera colocou as mãos na cintura com orgulho.
— É um coelhinho!
Ele apontou para fora de casa.
— Ele está na aula de nado sincronizado.
A reação foi imediata. Alguns Bolozeras levaram as mãos à cabeça. Outros cochichavam entre si. O Bolozera Secretário começou a tremer visivelmente. As mãos suavam tanto que a prancheta quase escorregava de seus dedos. Os óculos desceram um pouco pelo nariz, e ele precisou empurrá-los de volta com um movimento nervoso. Ao redor, os cem Bolozeras observavam em absoluto silêncio. Até o vento parecia ter parado. O Secretário engoliu seco. Então fez a última pergunta, com a voz tão baixa que quase se perdeu no ar:
— Bom. Vamos lá…
Ele respirou fundo.
— Deseja-se descobrir quantos degraus são visíveis numa escada rolante. Para isso foi feito o seguinte. Duas pessoas começaram a subir a escada juntas, uma subindo um degrau de cada vez enquanto a outra subia dois. Ao chegar ao topo, o primeiro contou vinte e um degraus enquanto o outro vinte e oito.
Ele levantou lentamente os olhos para Bolozera Phillips.
— Quantos degraus são visíveis?
O quintal mergulhou em um silêncio absoluto. Nenhum Bolozera piscava. Nenhum tossia. Nenhum ousava respirar alto demais. Todos aguardavam a resposta de Bolozera Phillips. Bolozera Phillips levou a mão ao queixo novamente. Ele franziu a testa. Os olhos se estreitaram. Era claramente a pergunta mais difícil que ele já tinha ouvido na vida. Os outros Bolozeras observavam como se estivessem assistindo ao destino do Planoverso inteiro se decidir naquele momento. Vinícius cochichou para Bittencourt:
— Ele não vai saber responder isso.
Bittencourt tomou mais um gole do milk-shake.
— Nem eu.
Passaram-se alguns segundos. Então Bolozera ergueu o dedo, como se tivesse tido uma epifania divina.
— Anchovas!
O Bolozera Secretário congelou. Ele piscou. Piscou de novo. E mais uma vez. Sua boca se abriu lentamente. A prancheta caiu de suas mãos. Sua expressão começou a mudar lentamente. Primeiro incredulidade. Depois revelação. E então êxtase absoluto.
— Eu não acredito… — balbuciou ele.
Os olhos começaram a brilhar.
— Não é possível…
Ele começou a respirar mais rápido.
— Depois de todos esses anos…
Ele arrancou os próprios óculos do rosto e os arremessou no chão.
— Finalmente!
Os Bolozeras começaram a cochichar entre si. O Secretário estava fora de controle.
— Nossa, mano! — gritou ele, completamente emocionado. — Isso é tão emocionante!
Ele pegou a prancheta. Quebrou ela na própria perna. Então caiu de joelhos no gramado.
— Meu Pit Mangueira do céu!
Ele levantou os braços para o céu.
— Eu tô muito empolgado!
O Bolozera Alfa, parado observando aquela cena constrangedora, suspirou profundamente. Então levantou o cetro. Deu uma pancada seca na cabeça do Secretário.
— Controle-se.
O Secretário congelou.
— Perdão. Mil perdões.
Ele ajeitou a gravata. Tentou recuperar a compostura. Respirou fundo algumas vezes. O Bolozera Alfa então cruzou os braços. — E então, Bolozera Secretário? Ele inclinou levemente a cabeça.
— Qual é o resultado?
Todos os Bolozeras prenderam a respiração. O Secretário respirou fundo. Olhou para Bolozera Phillips. Depois para a multidão. Então anunciou, com solenidade:
— Eu confirmo.
Uma pausa dramática.
— O Bolozera Definitivo…
Ele levantou o dedo.
— É o Bolozera de Carne Pura!
Por um segundo o mundo ficou em silêncio. Então o quintal explodiu. Os Bolozeras começaram a pular, gritar, bater palmas, abraçar uns aos outros. Alguns começaram a chorar. Outros rodopiavam. O Bolozera Pizzaiolo começou a jogar pizzas para o alto. O Bolozera Arco-Íris soltava confetes coloridos. O Bolozera Atleta de Alto Rendimento fazia flexões de comemoração. Enquanto isso, no meio da festa, o Bolozera Phillips levantou a mão timidamente.
— Que bacana, eu amo gincanas.
Ele olhou ao redor.
— Cadê o meu prêmio?
De repente, um grito ecoou no quintal.
— Ele está tentando nos ludibriar! Não caiam nesses jogos mentais! — berrou o Bolozera Degenerado, os olhos arregalados e a boca torcida em paranoia.
A comemoração congelou no mesmo instante. Alguns Bolozeras pararam no meio do salto. Outros interromperam os aplausos. O Bolozera Roteador de Internet apontou dramaticamente para o Bolozera Degenerado.
— Você está mentindo!
Um murmúrio começou a crescer. Mas então o Bolozera Espátula de Silicone avançou um passo, indignado.
— O Teste Definitivo jamais estaria errado!
Os Bolozeras começaram a discutir entre si.
— Anchovas foi uma resposta perfeita!
De repente, no meio da multidão, o Bolozera Tatuado levantou o punho. E gritou com toda a força:
— Lincha ele!
A reação foi instantânea. A tropa inteira virou para o Bolozera Degenerado. Em questão de segundos, uma horda de Bolozeras caiu sobre ele. O primeiro soco veio do Bolozera Atleta de Alto Rendimento. O Degenerado caiu no gramado. Mas não teve tempo de reagir. O Bolozera Pizzaiolo desceu uma pizza quente em sua cara. O molho escorreu pelo rosto dele. Logo em seguida Vinícius avançou. Ele arrancou um rodo que estava encostado na parede do quintal.
— Sai da frente!
O rodo desceu com força nas costas do Degenerado. Outro golpe. Enquanto isso, Bittencourt, ainda segurando o seu milk-shake de morango, ajoelhou ao lado da confusão. Ele tomou um gole. Depois cuspiu direto na cara do Degenerado.
— Seu crápula!
O Degenerado tentou levantar. Mas levou um chute do Bolozera Mestre de Obras. Um dente voou para o gramado. O rosto dele estava ensanguentado, o corpo cheio de marcas, molho de pizza e pedaços de carne espalhados pelo chão. A pancadaria continuava. Foi então que uma voz desesperada cortou o caos.
— Galerinha, por favor! Parem com isso!
Todos congelaram. Era Bolozera Phillips. Ele estava visivelmente horrorizado.
— Sem violência, por favor!
Silêncio. Imediatamente os Bolozeras pararam. Um por um se afastaram. Vinícius abaixou o rodo. Bittencourt limpou a boca com o braço. O Bolozera Degenerado ficou estendido no gramado. O rosto gorduroso inchado. Os lábios rachados. Um olho quase fechado. Molho de pizza, sangue e leite de morango misturados na grama. Os Bolozeras olharam para Bolozera Phillips. Agora todos com expressão culpada. Alguns coçavam a cabeça. Outros olhavam para o chão. O Bolozera Alfa pigarreou, constrangido.
— Desculpe, Bolozera Definitivo…
O Bolozera Atleta de Alto Rendimento levantou a mão.
— Foi reflexo…
O Bolozera Pizzaiolo murmurou:
— A gente se empolga às vezes…
No meio do gramado, o Bolozera Degenerado soltou um gemido fraco e cuspiu um pedaço de dente ensanguentado na grama. Momentos depois, enquanto o clima no quintal ainda era de comemoração constrangida, um barulho seco começou a ecoar dentro da casa. Algo estava se jogando contra uma porta. Os Bolozeras pararam de conversar.
— Que porra foi essa? — murmurou Vinícius, olhando para a casa.
O barulho continuou. De repente, a porta do corredor se abriu e um pequeno vulto molhado surgiu correndo. Era o coelho Apartamento. Ele estava vestido apenas com uma sunga azul brilhante, completamente ensopado, o pelo grudado no corpo e ainda com óculos de nado pendurados na testa. Ele pulava desesperadamente contra a porta do quarto de Nathan, batendo com o corpo repetidas vezes.
— Apartheid, o que houve? — perguntou Bolozera, preocupado, aproximando-se.
O coelho continuava se jogando contra a porta, chiando e raspando as patinhas na madeira. Vinícius franziu o cenho.
— Vocês não acham estranho…
Ele olhou para o relógio na parede.
— Que o Nathan ainda não tenha dado nenhum dos gritos vespertinos?
Bittencourt também olhou para o relógio em seu pulso.
— É verdade.
Ele coçou o queixo.
— Essa é a hora que ele pede pro Einstein parar de esfregar maracujá nas axilas.
Um silêncio desconfortável caiu sobre o grupo. Uma sensação estranha começou a se formar. Bolozera deu alguns passos até a porta do quarto. Ele bateu levemente.
— Patinho?
Silêncio.
— Tá tudo bem?
Ele tentou soar animado.
— Quer mais panquecas?
Nenhuma resposta. O Bolozera Tatuado, já perdendo a paciência, cruzou os braços.
— Abre logo essa merda de porta.
Vinícius girou a maçaneta. A porta se abriu lentamente. Todos olharam para dentro. O quarto estava estranhamente silencioso. A cama acolchoada branca estava vazia. A poltrona branca também. Os estofados nas paredes permaneciam intactos. Nathan não estava lá. Bolozera ficou parado na porta.
— Patinho?
Nenhuma resposta. Apenas o som do vento atravessando o quarto vazio.
— Meu Pit Mangueira do céu! O Patinho fugiu! — exclamou Bolozera, levando as mãos à testa, completamente desesperado.
O pequeno bolo de carne começou a andar em círculos no quarto acolchoado.
— Ele fugiu! Ele fugiu! Ele fugiu!
Vinícius cruzou os braços, olhando pela janela aberta.
— Mas pra onde ele foi?
O vento atravessava o quarto, fazendo as cortinas dançarem lentamente.
— Não sei — disse Bittencourt, balançando a cabeça com calma. — Mas do jeito que ele é louco, já deve estar bem longe daqui.
O silêncio voltou a dominar o ambiente. Foi então que o Bolozera Alfa deu um pequeno sorriso. Um sorriso confiante.
— Eu posso ajudar a descobrir onde ele está.
Bolozera Phillips virou-se imediatamente.
— Como?
O Alfa ergueu o queixo. Seus olhos brilharam com um ar misterioso.
— Meu Apartheid é um excelente farejador.
Ele caminhou até o quintal. Os outros o seguiram, curiosos. Quando chegaram ao gramado, o Alfa respirou fundo. Então bateu duas palmas fortes. E soltou um assobio agudo, que ecoou pelo condomínio inteiro. Por alguns segundos, nada aconteceu. Então um som distante surgiu no céu. Um grito estridente de águia. Todos olharam para cima. Uma sombra gigantesca passou sobre a casa. As árvores do quintal começaram a balançar violentamente. O vento aumentou. Algo enorme descia do céu. Os Bolozeras correram para o centro do gramado.
Então ele apareceu. Rasgando as nuvens com um mergulho majestoso. Um grifo colossal. Suas asas tinham quase quinze metros de envergadura, cobertas por penas douradas e verdes, que brilhavam como esmeraldas ao sol. A parte dianteira de seu corpo era de águia imperial, com um bico negro curvado, afiado como uma lâmina. Seus olhos eram amarelados, luminosos, inteligentes e ferozes. Mas o restante do corpo era de leão, com músculos poderosos e uma pelagem espessa cor de bronze. Garras gigantes cravaram-se no gramado quando ele pousou. A terra tremeu. As asas gigantes se abriram completamente. O vento empurrou todos alguns passos para trás.
O grifo sacudiu o pescoço. Penas douradas flutuaram pelo ar. No topo de sua cabeça havia uma crista verde fluorescente, semelhante a um moicano natural, que pulsava com uma energia estranha. Ao redor de seu pescoço estava um colar de medalhões antigos, cada um marcado com símbolos de diferentes planos do Planoverso. Ele ergueu a cabeça. E soltou um grito imponente. O som ecoou por todo o condomínio. Os Bolozeras ficaram maravilhados. Vinícius arregalou os olhos.
— Caralho…
Bittencourt parou de beber o milk-shake.
— Esse bicho é foda.
O Bolozera Alfa abriu os braços com orgulho.
— Apartheid!
O grifo virou a cabeça imediatamente para ele. Os olhos dourados reconheceram seu mestre. Ele abaixou ligeiramente o corpo em reverência. O Alfa caminhou até ele e colocou a mão em sua plumagem dourada.
— Precisamos encontrar alguém.
Ele apontou para a janela aberta do quarto de Nathan.
— Um pato.
O grifo fechou os olhos por um momento. Então levantou a cabeça. As narinas se abriram lentamente. Ele inspirou profundamente o ar. As pupilas se contraíram. Ele havia captado o cheiro. De repente, o Apartamento Alfa abriu as asas gigantes. O vento explodiu no quintal. Ele virou a cabeça na direção da cidade de Porto Legal. E soltou outro grito poderoso. O rastro do pato havia sido encontrado. Bolozera ficou boquiaberto diante da criatura majestosa. Seus olhinhos brilhavam.
— Minha nossa! Esse é o seu Apartamento? — perguntou ele, maravilhado.
O Bolozera Alfa assentiu, inflando o peito com orgulho.
— Sim.
Ele passou a mão pela plumagem dourada da criatura.
— O Apartamento Alfa.
Ele fez uma pausa dramática.
— Ele é um grifo.
Bolozera olhou para as garras enormes. Depois para o bico afiado. Depois para as asas gigantes.
— Ele é mansinho?
O Alfa sorriu.
— Claro.
Animado, Bolozera caminhou até o grifo. Vinícius murmurou:
— Isso vai dar merda.
Mas Bolozera já estava lá. Com cuidado, ele levantou a mão e fez um carinho de leve embaixo do bico do grifo. O grifo inclinou a cabeça. Os olhos dourados se fecharam por um instante. Ele soltou um pequeno som satisfeito. Bolozera sorriu.
— Nossa…
Ele continuou fazendo carinho.
— O meu Apartheid só sabe tomar banho de sol.
O contraste era absurdo. De um lado, um grifo colossal de guerra interplanar. Do outro, um coelhinho de sunga. Com o rastreamento pronto, o Bolozera Alfa saltou nas costas do grifo com elegância. As asas gigantes se abriram.
— Bolozeras!
Ele apontou para a cidade.
— Vamos atrás do patinho!
A multidão de Bolozeras respondeu em uníssono.
— Atrás do patinho!
E então a tropa começou a correr. Cem Bolozeras. Vinícius. Bittencourt. Todos atravessando o portão da casa e avançando pelas ruas do condomínio. Na frente, o Apartamento Alfa levantou voo com o Bolozera Alfa montado em suas costas. O grifo voava baixo, farejando o ar. A tropa seguia correndo atrás.
Em poucos minutos, o quintal ficou completamente vazio. Silencioso. O vento soprava entre as árvores. Foi então que a porta da casa se abriu novamente. E o Apartamento, o coelho, saiu caminhando tranquilamente. Ele ainda estava de sunga molhada. Carregava uma cadeira de praia dobrável, um óculos de sol gigante e um refletor portátil. Ele caminhou até o centro do quintal. Abriu a cadeira. Sentou. Colocou um par de óculos de sol. Abriu o refletor. Uma luz forte iluminou seu rosto. Ele suspirou satisfeito. E começou seu banho de sol diário. Como se nada no Planoverso estivesse acontecendo.