top of page

Capítulo IV: Antes que Tudo se Cumpra

Foto do escritor: Soraia de Paula Mesquita
Soraia de Paula Mesquita
14 de fev.
14 min de leitura

Atualizado: 22 de ago.

No meio das ruas agitadas de Porto Legal, carros passavam buzinando, vendedores gritavam ofertas nas calçadas e helicópteros distantes cortavam o céu azulado. Entre a multidão, quase despercebido, caminhava Thales, o cogumelo champignon robusto, mantendo um pequeno walkie-talkie fungi encostado na boca. O aparelho chiava com um som úmido e orgânico, como se respirasse.


— Saulo, qual a situação? — perguntou Thales em voz baixa.


Do outro lado da transmissão, o vento forte do helicóptero misturava-se à resposta.


— Já estou com o Gustavo — disse Saulo, o shitake. — E você?


Thales parou no meio da calçada e lançou um olhar atento ao horizonte da cidade. Seus olhos se fixaram em uma direção específica.


— Estou procurando ele.


Do outro lado, Saulo franziu a testa.


— Ele é quem eu acho que ele é?


Thales sorriu discretamente.


— Se você estiver achando que ele é quem ele é…


Ele fez uma pausa dramática.


— Então é ele.


Saulo suspirou do outro lado do rádio.


— Certo. Vou levar o Gustavo para a base da Sociedade dos Fungos. Depois vou atrás do outro.


O rotor do helicóptero rugia ao fundo.


— Você vai atrás do inimigo do grandioso Sarapote de Calgude?


Thales abriu um sorriso tranquilo.


— Pode deixar com o pai que é sucesso.


Ele desligou o walkie-talkie. Guardou o aparelho no bolso. E então ergueu os olhos. À sua frente estava o condomínio fechado de Porto Legal. Muros altos. Portões eletrônicos. Câmeras de segurança girando lentamente. Thales não hesitou. Ele correu alguns passos, e saltou a cerca com uma agilidade surpreendente para um cogumelo robusto. Caiu no gramado interno do condomínio. Ao redor, as casas elegantes estavam silenciosas. Mas algo chamou sua atenção imediatamente. Uma casa em específico. A porta da frente estava completamente aberta. As cortinas balançavam com o vento.


Thales caminhou devagar até a entrada. Cada passo era cuidadoso. Ele espiou para dentro. A sala estava bagunçada. Mesas deslocadas. Copos espalhados. Sinais claros de que muita coisa havia acontecido ali. Thales colocou a mão na parede e entrou lentamente. O silêncio da casa era estranho. Pesado. Ele avançou pelo corredor. Então ouviu um pequeno som vindo do quintal. Um zumbido elétrico constante. Thales franziu a testa. Caminhou até a porta dos fundos. E abriu. No quintal ensolarado, estava o coelho Apartamento. Deitado numa cadeira de praia. Usando óculos escuros. Com um refletor ligado apontado diretamente para ele. Tomando tranquilamente seu banho de sol. O coelho virou lentamente a cabeça. Olhou para Thales. E levantou uma das orelhas. Thales piscou.


— Que porra é essa?


Thales estreitou os olhos. Do quintal, ele observou ao longe a tropa de Bolozeras correndo pelas ruas, uma verdadeira avalanche de almôndegas agitadas avançando pela cidade. Acima deles, cortando o céu como um estandarte vivo, voava o Apartamento Alfa, o grifo majestoso, com suas asas gigantes batendo o ar. O vento levantava folhas e poeira por onde o grupo passava. Thales rangeu os dentes.


— Eu não vou deixar isso acontecer.


Sem perder tempo, ele disparou em corrida pelo gramado. No caminho, saltou por cima do coelho Apartamento, que continuava deitado na cadeira de praia, acompanhando tudo com o olhar tranquilo por trás dos óculos escuros. Thales passou voando por cima dele. O coelho apenas virou lentamente a cabeça, seguindo o movimento. Thales chegou ao fundo do quintal. Pulou a cerca. Do compartimento preso às costas, ele puxou uma carabina de esporos tranquilizantes, um rifle orgânico com veias pulsantes e um reservatório translúcido cheio de esporos esverdeados. Ele se ajoelhou. Apoiou a arma no joelho. Inspirou fundo. Através da mira, o alvo estava claro. Bolozera Phillips. O pequeno bolo corria no meio da multidão. Thales ajustou o foco.


— Agora sim…


O disparo saiu silencioso, um projétil de esporo comprimido cortando o ar como uma bala viscosa. Mas, no mesmo instante, o Apartamento Alfa ergueu a cabeça no céu. Os olhos dourados se arregalaram. Ele percebeu o disparo. O grito do grifo ecoou como um alarme. Lá embaixo, Bolozera levantou a cabeça, confuso.


— O que foi, bichinho?


Vinícius foi o primeiro a perceber. Seus olhos se arregalaram.


— Bolozera, cuidado!


Sem pensar duas vezes, o rinoceronte se lançou na frente do amigo. O projétil atingiu em cheio sua quinta pata. Aquela pata estranha e murcha, grudada inutilmente na parte inferior de seu corpo, balançando como um apêndice sem função. O impacto fez a pata explodir em uma mistura grotesca de carne, pus e sangue escuro. A pele rasgou como papel molhado. Esporos tranquilizantes se espalharam junto com fragmentos da carne necrosada da pata inútil.


— Puta merda, a minha pata da sorte!


Vinícius caiu de joelhos no asfalto. A quinta pata pendia rasgada, aberta como uma fruta podre, fios de tecido muscular rompidos e vazando um líquido espesso e amarelado misturado ao sangue escurecido. O projétil havia perfurado profundamente. A ferida pulsava. Vinícius segurou o próprio corpo tentando conter a dor.


— Vini! — gritou Bittencourt, correndo até ele.


Ele se ajoelhou ao lado do rinoceronte.


— Caralho, Vini!


Vinícius tremia.


— Minha quinta pata…


Ele olhou para o pedaço de carne destruído.


— Eu nem sabia que ela doía…


Enquanto isso, ao fundo do condomínio, Thales bufou irritado enquanto puxava o ferrolho da carabina.


— Puta que me pariu…


Ele recarregou o rifle com outro esporo.


— Errei o tiro.


Thales manteve a carabina apontada por um instante, mas então baixou lentamente o cano da arma. O pequeno coelho Apartamento estava parado alguns metros à sua frente, encarando-o com aquele olhar duro e absolutamente imóvel. Thales levantou uma mão em gesto pacificador.


— Oi, coelho. — disse ele, respirando fundo. — Eu não quero problemas com você.


O coelho não respondeu. Não piscou. Não mexeu as orelhas. Apenas deu um passo à frente. Thales franziu o cenho.


— Coelho?!


Antes que ele pudesse terminar a frase, o punho minúsculo do coelho afundou diretamente no diafragma de Thales. O impacto foi preciso, brutal e seco, como um golpe treinado. O ar saiu do cogumelo de uma vez só.


— Porra!


Os olhos de Thales se arregalaram. A carabina caiu de suas mãos. Ele levou as duas mãos ao peito. Tentou respirar. Nada. Apenas um som agudo escapava de sua garganta.


— Vai se foder, coelho imundo do caralho!


Ele começou a hiperventilar, dobrado ao meio, incapaz de puxar ar suficiente para os pulmões. O coelho permaneceu parado, olhando para ele. Frio. Implacável. Thales cambaleou alguns passos para trás. O rosto ficando roxo. Depois de alguns segundos desesperados, ele finalmente conseguiu puxar um fio de ar. Ele respirou com dificuldade. O olhar agora cheio de irritação.


— Filho de uma puta!


Mas antes que reagisse, Thales tomou uma decisão. Ele olhou ao redor, respirou fundo, e então o seu corpo começou a se desfazer em esporos escuros. A pele se rachou como terra seca. O corpo se dissolveu lentamente. Em poucos segundos, ele se misturou ao próprio chão de terra do quintal. Desaparecendo completamente. O coelho continuou olhando para o local vazio por alguns segundos. Depois simplesmente virou as costas. No meio da rua, a situação era caótica. Vinícius estava sentado no chão, segurando o corpo enquanto sangue escorria da quinta pata dilacerada.


— Caralho, tá doendo muito! — murmurou ele entre dentes.


A pata extra pendia aberta, a carne rasgada e pulsando enquanto o sangue escuro escorria pelo asfalto. Bolozera ajoelhou ao lado dele, visivelmente preocupado.


— Relaxa, Vini, vai ficar tudo bem.


Alguns Bolozeras se aproximaram rapidamente. Com esforço, eles levantaram o rinoceronte. Eles ergueram Vinícius e o colocaram nas costas do Apartamento Alfa, o grifo. O animal abriu parcialmente as asas para estabilizar o peso. Bittencourt subiu atrás dele.


— Vamos levar ele pro hospital.


Ele olhou para o Bolozera Alfa.


— Agora.


Mas um dos Bolozeras, vestido com um traje negro e máscara, o Bolozera Ninja, levantou a mão.


— Mas e aquele tal de Nathan?


O grupo hesitou por um segundo. Foi então que Bittencourt explodiu.


— Um pau bem duro e grosso no cu do Nathan!


Ele apontou para Vinícius.


— O Vini levou um tiro!


O grifo soltou um grito poderoso. As asas gigantes se abriram. O vento levantou poeira e folhas. E em segundos o Apartamento Alfa levantou voo com Vinícius ferido nas costas. Os Bolozeras começaram a correr atrás. A direção agora era clara. Hospital de Porto Legal.


De volta à base da Sociedade dos Fungos, nos escombros de Sete Chaves, o clima dentro do Laboratório Esporádico era pesado. Tubulações improvisadas gotejavam um líquido esverdeado. Máquinas fungosas pulsavam lentamente nas paredes. No centro da sala, Sarapote de Calgude estava sentado diante de uma mesa coberta de mapas e recipientes com culturas estranhas. A porta se abriu com um rangido. Thales entrou. Seu rosto carregava um claro sinal de irritação. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Virgílio, o pequeno cogumelo shimeji, virou-se imediatamente.


— O que fez você demorar tanto?


Thales olhou para ele com um sorriso torto.


— Tava comendo a sua mãe.


Por um segundo houve silêncio. Então Klépter, que estava sentado numa cadeira giratória bebendo um copo de suco de pêssego, começou a gargalhar. Ele quase cuspiu o suco.


— Essa foi clássica, Amadeu!


Marvin Quebra-molas, encostado numa bancada com os braços cruzados, franziu o cenho.


— Thales, olha como fala.


Thales nem virou o rosto.


— Não se intrometa, micropênis.


A sala começou a ficar tensa. Marvin avançou um passo. Mas antes que a discussão escalasse, Sarapote de Calgude bateu as duas mãos na mesa com força suficiente para fazer os frascos tremerem.


— Chega, vocês dois!


O silêncio voltou imediatamente. Sarapote então virou lentamente o olhar para Thales.


— Cadê o Saulo?


Thales respirou fundo e cruzou os braços.


— Ele foi atrás de um aliado nosso.


Ele deu de ombros.


— Deve voltar para cá em breve.


Sarapote assentiu lentamente.


— Muito bem.


Mas naquele exato momento, uma batida tímida veio da porta do laboratório. Todos olharam. A porta se abriu apenas alguns centímetros. Um cogumelo genérico apareceu, visivelmente nervoso. Ele segurava o próprio chapéu com as duas mãos.


— Com licença…


Ele engoliu seco.


— Posso entrar?


Sarapote levantou uma sobrancelha.


— Entre.


O cogumelo genérico entrou devagar. Parecia muito intimidado por estar na presença de tantas figuras perigosas. Ele olhou para Sarapote. Depois para Klépter. Depois para Marvin. E então falou com voz trêmula:


— Perdão atrapalhar a reunião de vocês… — disse o cogumelo, dando mais alguns passos para dentro da sala. — Eu sou o cogumelo genérico número 9833.


Ele parou por um instante, claramente nervoso. Engoliu seco.


— Eu estou vendendo rifas para ajudar o meu enteado a conseguir colocar um aparelho odontológico. O prêmio vai ser uma bicicleta com rodinhas.


A sala ficou em silêncio. Sarapote piscou lentamente. Klépter tomou mais um gole de suco de pêssego. Marvin cruzou os braços. O Senhor Macaco coçou o queixo. Depois de alguns segundos, Sarapote perguntou, com um tom quase burocrático:


— Quanto custa?


O cogumelo endireitou a postura.


— Três unipanges cada rifa, senhor.


Sarapote deu de ombros.


— Justo.


Ele começou a fuçar nos bolsos inexistentes. Ao ver aquilo, os outros na sala também começaram a procurar dinheiro. O som de fichas de unipange sendo puxados ecoou pelo laboratório. Sarapote tirou um pequeno maço de fichas.


— Quatro rifas.


O cogumelo anotou rapidamente e entregou quatro pequenos papéis numerados.


— Muito obrigado, senhor.


Klépter levantou a mão.


— Eu também quero três.


Marvin pegou duas. O Senhor Macaco comprou uma só, dizendo:


— Eu nunca ganho nada mesmo.


O cogumelo recolheu cuidadosamente as unipanges, guardando-as em uma pequena bolsa de pano. Depois distribuiu as rifas restantes. Antes de sair, ele fez uma pequena reverência.


— Obrigado, senhores. O resultado vai sair na terça-feira.


Ele abriu a porta. Saiu. E a fechou atrás de si. O laboratório mergulhou em silêncio novamente. Sarapote puxou o ar pelo nariz. Ele fungou pensativo. Depois se levantou.


— Justino.


Klépter imediatamente largou o copo de suco e se colocou em posição quase militar.


— Quero uma reunião com você.


Sarapote começou a caminhar para fora da sala.


— Venha comigo até a minha sala.


Klépter fez uma reverência exagerada.


— Sim, senhor, grandioso Sarapote de Calgude!


Sarapote parou na porta. Olhou por cima do ombro.


— Acho que o Senhor Macaco e Marvin também têm interesse nessa reunião.


Ele apontou para os dois.


— Vocês dois. Venham também.


Ambos responderam imediatamente, quase em coro:


— Sim senhor, grandioso Sarapote de Calgude!


Os quatro saíram do laboratório. Os passos ecoando pelos corredores úmidos da base fungosa. Prontos para discutir os próximos movimentos do plano que poderia decidir o destino do Planoverso.


No Hospital Municipal de Porto Legal, o cheiro de desinfetante impregnava o ar. Monitores apitavam ao longe, macas passavam pelos corredores e enfermeiros corriam de um lado para o outro tentando manter alguma ordem no caos constante do lugar. Dentro de um quarto simples, iluminado por uma luz branca quase agressiva, Vinícius abriu lentamente os olhos. Tudo estava um pouco turvo. Ele piscou algumas vezes até que sua visão se estabilizou. Estava deitado numa cama hospitalar. A quinta pata, aquela estranha pata murcha presa na parte inferior do corpo, estava grosseiramente enfaixada, com manchas avermelhadas começando a surgir através do curativo. Ao redor da cama estavam Bittencourt, Bolozera e Bolozera Alfa. Vinícius respirou fundo.


— Onde estamos? — perguntou ele, ainda meio grogue.


O Bolozera Alfa cruzou os braços e respondeu com tranquilidade:


— No hospital.


Ele sorriu.


— Você protegeu o buchinho do Bolozera Definitivo de tomar um tiro.


Bolozera imediatamente levou as mãos à própria barriga.


— Meu buchinho… — murmurou ele, acariciando o ventre redondo com carinho.


Bittencourt se aproximou da cama.


— Você vai ter que ficar aqui alguns dias.


Ele apontou para o curativo.


— Vão operar a sua quinta pata pra tirar a bala de esporos.


Vinícius olhou para a pata enfaixada. Fez uma careta.


— Justo agora que eu estava aprendendo a gostar dela…


Ele suspirou. Depois olhou para os três.


— E o que vocês vão fazer?


Bittencourt coçou o queixo.


— Pelo o que eu entendi, iremos ao Espaço Térmico.


O Bolozera Alfa assentiu imediatamente.


— Sim. Espaço Térmico.


Ele caminhou alguns passos pelo quarto.


— O Bolozera de vocês disse que tem aliados por lá.


Ele olhou para os dois.


— E quanto mais aliados tivermos, melhor.


Bolozera abriu um sorriso confiante.


— O Torresminho e o resto da galera vão nos ajudar!


Ele deu um pequeno salto animado.


— Eu tenho certeza!


Vinícius respirou fundo, tentando absorver tudo aquilo. Mas naquele exato momento, a porta do quarto se abriu violentamente. Um médico entrou quase correndo, acompanhado de duas enfermeiras. Ele olhou para o grupo com absoluta indignação.


— O que vocês ainda estão fazendo aqui?!


Bolozera piscou. Bittencourt levantou as mãos. O médico apontou para a porta.


— Saiam! Imediatamente!


As enfermeiras já começavam a preparar instrumentos ao redor da cama.


— Precisamos preparar o paciente para a cirurgia!


Bittencourt levantou-se imediatamente.


— Tá bom, tá bom!


O Bolozera Alfa fez um gesto de respeito. Bolozera acenou para Vinícius.


— Tchau, Vini!


Vinícius levantou uma mão fraca.


— Boa sorte com sei lá o que vocês vão fazer…


Os três foram empurrados para fora do quarto. A porta se fechou. Vinícius ficou sozinho com a equipe médica. O médico puxou uma luva de borracha.


— Certo…


Ele olhou para a quinta pata enfaixada.


— Vamos ver o que exatamente está preso dentro disso aqui.


Do lado de fora do quarto cirúrgico, o coelho Apartamento estava sentado no corredor do hospital. A pequena cadeira de plástico rangia sob seu peso quase inexistente. Ele continuava de sunga, com as orelhas eretas e os braços cruzados, observando a porta da sala de cirurgia com uma calma quase filosófica. Ali ele ficaria. Esperando Vinícius sair da operação.


Enquanto isso, o restante do grupo atravessou os corredores do hospital e saiu para a fachada do prédio. Do lado de fora, a situação era quase surreal. O estacionamento estava lotado de Bolozeras. Dezenas deles conversavam, gesticulavam e discutiam animadamente enquanto aguardavam instruções. No centro da multidão estavam Bolozera Phillips, Bittencourt e Bolozera Alfa. O Definitivo olhou para o Alfa com determinação.


— Como nós vamos fazer pra ir pro Espaço Térmico?


O Bolozera Alfa cruzou os braços com confiança.


— O Bolozera Reptiliano tem uma nave capaz de viajar tranquilamente pelo cosmos.


Nesse momento, uma almôndega escamosa deu um passo à frente. Era o Bolozera Reptiliano. Sua almôndega era coberta por escamas verde-escuras, com pequenas cristas ósseas ao redor da cabeça e olhos verticais de lagarto. Ele ergueu o peito com orgulho.


— O nome dela é Espermacete de Baleia!


Ele disse aquilo como se fosse o nome mais respeitável do Planoverso. Bittencourt franziu o cenho.


— Claro que é.


Ele então virou para Bolozera.


— Você sabe onde os seus amigos estão, Bolozera?


Bolozera pensou por um segundo. Depois abriu um sorriso gigantesco.


— Não, bobinho!


Os Bolozeras começaram a rir. Alguns deram tapinhas uns nos outros. O bom humor de Bolozera era contagiante. Mas então ele levantou um dedo.


— Mas!


Todos ficaram atentos.


— Há muito tempo, o Torresminho me deu um rastreador caso eu me perdesse.


Ele tirou do bolso um pequeno aparelho redondo com uma luz piscando.


— Podemos usar isso pra encontrar a galera!


Os Bolozeras começaram a comemorar. Bittencourt olhou ao redor, meio confuso com a empolgação coletiva.


— Isso é normal?


O Bolozera Tatuado deu um tapinha no ombro dele.


— Relaxa. Isso é normal.


O Bolozera Reptiliano então pegou uma chave estranha do bolso. Parecia uma chave de carro comum. Mas com símbolos reptilianos gravados. Ele apertou o botão. Por alguns segundos, nada aconteceu. Então o céu começou a escurecer. Uma sombra colossal passou sobre o hospital. Todos olharam para cima. Um rugido profundo cortou as nuvens. Algo gigantesco atravessava a atmosfera. As nuvens começaram a se abrir como cortinas rasgadas. E então ela apareceu. A Espermacete de Baleia. A nave era enorme, quase do tamanho de um prédio. Seu formato lembrava vagamente o corpo de uma baleia colossal, mas toda construída com metal orgânico escamoso, semelhante à pele de um réptil.


As placas metálicas eram verdes e negras, sobrepostas como escamas vivas. Ao longo do casco havia espinhos curvos, lembrando a coluna de um dragão. Na parte frontal, dois grandes olhos luminosos amarelos davam à nave a aparência de uma criatura viva observando o mundo. As turbinas traseiras expeliam um vapor azulado, que lembrava respiração. Na parte inferior, diversas mandíbulas metálicas retráteis se abriram lentamente enquanto a nave pousava. O chão do estacionamento tremeu. Carros alarmaram. O vento levantou folhas, papéis e muita poeira. Uma rampa se abriu na parte lateral da nave com um chiado hidráulico.


— Bem-vindos à Espermacete de Baleia! — anunciou orgulhosamente o Bolozera Reptiliano.


Os Bolozeras começaram a subir a rampa em fila. Bittencourt suspirou.


— Eu ainda não acredito que estou entrando numa nave chamada Espermacete de Baleia…


Ele subiu junto com os Bolozeras. Em poucos minutos, todos estavam a bordo. Mas uma criatura ficou para trás. No estacionamento silencioso, o Apartamento Alfa, o grifo majestoso, permanecia sentado no asfalto. As asas dobradas. Observando a nave. A rampa se fechou. As turbinas começaram a brilhar. A nave levantou voo. Subindo rapidamente para o céu. Rasgando as nuvens. Seguindo na direção do sinal de Torresminho. Enquanto o grifo continuava ali. Assistindo a decolagem. Como um guardião silencioso da Pós-Terra.


Em outro canto da Pangeia, muito distante das cidades e ruínas de Porto Legal, uma cadeia de montanhas colossal rasgava o horizonte como dentes de pedra. Eram os Alpes Circuncidados, picos brutais e afiados que se erguiam acima das nuvens, onde o vento uivava como uma matilha faminta. Uma tempestade furiosa dominava a região. Raios rasgavam o céu com estrondos que ecoavam pelos vales gelados. A neve rodopiava no ar como lâminas. No meio daquele caos, uma figura subia lentamente pela encosta. Era Camilo, o cachorro sacerdote.


Seu manto sagrado chicoteava ao vento enquanto ele avançava passo a passo pela neve profunda. Cada rajada ameaçava lançá-lo precipício abaixo. Mas ele não recuava. Um relâmpago explodiu a poucos metros dele. A luz revelou seu rosto determinado. Camilo cravou o Cajado Celestial no gelo. O céu rugiu. Outro raio caiu. Outro vento tentou derrubá-lo. Camilo então ergueu o cajado para o alto. As inscrições antigas gravadas na madeira começaram a brilhar com uma luz azul profunda. Ele falou em voz firme, quase como uma oração antiga:


— Que os ventos se calem diante da vontade de Pit Mangueira.


O cajado pulsou. Uma onda de energia se espalhou pela montanha. O vento parou abruptamente. As nuvens começaram a se abrir. Os relâmpagos se dissiparam como se estivessem sendo apagados por uma mão invisível. Em poucos segundos, o céu acima dos Alpes se tornou silencioso e claro. A tempestade havia sido literalmente expulsa da montanha. Camilo respirou fundo. E continuou a subida. Minutos depois ele chegou ao topo.


Ali, no ponto mais alto dos Alpes Circuncidados, ficava uma fortaleza natural construída nas rochas: o Ninho dos Falcões. Uma estrutura de pedra negra e madeira antiga, com plataformas de voo e bandeiras tremulando nas torres. Antes que Camilo pudesse avançar, duas sombras gigantes desceram do céu. Dois falcões gigantescos, com armaduras de bronze presas ao peito e olhos penetrantes, pousaram diante da entrada. Eles bloquearam o caminho. Um deles abriu as asas parcialmente.


— Ninguém pode passar por nós dois.


O outro inclinou a cabeça.


— Ordens do General.


Camilo manteve o olhar firme. Sem medo.


— Eu posso.


Ele apoiou o cajado no chão.


— Sou o sacerdote deste Plano.


Ele apontou para dentro da fortaleza.


— E tenho que tratar de um assunto com seu general.


Os dois falcões trocaram um olhar. Antes que respondessem, uma figura apareceu atrás deles. Uma figura conhecida. Vestido com seu uniforme ridículo e expressão permanentemente debochada. Era o General Palhaço. Ele caminhou até os guardiões e colocou as mãos nas costas.


— O que foi, Camilo?


Camilo não perdeu tempo. Seus olhos carregavam urgência.


— A hora chegou, palhaço mijão.


O vento voltou a soprar lentamente ao redor do ninho.


— Devemos nos juntar à almôndega.


Ele apertou o cajado com força.


— Antes que seja tarde.


O General Palhaço ficou em silêncio por alguns segundos. Então assentiu. Ele virou-se para os falcões. Os dois guardiões abriram caminho imediatamente. Camilo entrou no Ninho dos Falcões. Determinado. Enquanto em todos os cantos do Planoverso, forças antigas começavam a se mover.

 
 
Capítulo III: O Problema de Ser o Original

Após retornarem ao condomínio, a casa recém-comprada parecia viver uma rara manhã de tranquilidade. Na sala de estar, o clima era quase doméstico demais para aquele grupo. No centro do cômodo, uma mes

 
 

© 2018 Planoverso™ — Todos os direitos reservados.

bottom of page