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Capítulo II: Três é uma Ótima Ideia

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
25 de mar.
12 min de leitura

Atualizado: 22 de ago.

Bolozera e Bittencourt caminharam por boa parte da Rua Dezesseis, a grande artéria comercial de Porto Legal. A avenida era um espetáculo de movimento e diversidade urbana. Lojas iluminadas exibiam vitrines coloridas, bondes passavam rangendo sobre trilhos antigos e turistas caminhavam carregando sacolas cheias. Opções de comida não faltavam. Havia sorveterias artesanais, bares lotados com mesas na calçada, uma unidade reluzente da rede de vitaminas Pura Polpa, carrinhos de rua vendendo espetinhos de lula e até um restaurante temático de frutos do mar onde garçons se vestiam como crustáceos. Mas os dois acabaram escolhendo algo mais prático.


— Rei da Chapa — disse Bittencourt, apontando para o enorme letreiro vermelho.


A maior rede de fast foods da Pangeia. Eles entraram. O interior era exatamente o que se esperava de uma unidade em cidade grande. Chão gorduroso, cheiro forte de fritura pairando no ar, crianças correndo entre as mesas, uma área de brinquedos onde um polvo inflável estava parcialmente murcho e funcionários com expressões derrotadas atendendo pedidos sem entusiasmo. Enquanto Bittencourt foi ao banheiro, Bolozera se sentou em uma mesa e começou a devorar uma porção generosa de cenourinhas fritas e cação empanado, mergulhando tudo em um potinho cheio de molho de pimenta malagueta.


— Nossa, que delicinha! — murmurava ele entre uma mordida e outra.


Pouco tempo depois, percebeu que o molho estava quase acabando. Bolozera levantou-se educadamente e caminhou até o balcão. Atrás dele estava a atendente. Uma barracuda gótica, pele azul-escura e expressão cansada. Seu cabelo estava raspado dos lados com um moicano tão baixo que parecia quase invisível. Ela bebia um refrigerante sem gás cheio de gelo, olhando para o nada como quem já desistiu da vida. Bolozera fez uma pequena reverência.


— Com licença, moça. Lindo moicano.


A barracuda suspirou e se aproximou.


— Obrigada… — disse ela, entre um gole e outro. — Pode me chamar de Kimberly. Como posso ajudar?


Bolozera sorriu e fez outra reverência respeitosa.


— Claro, belo nome. Será que vocês teriam mais molho de pimenta buceta?


Kimberly congelou. Ela parou no meio do gole. Quase cuspiu o refrigerante.


— Pimenta de quê?


Bolozera suspirou, paciente, e repetiu como se estivesse explicando algo muito importante. Então soletrou lentamente:


— Buceta.


Na fila atrás dele, alguém começou a rir. Era um rinoceronte enorme, bípede, gordo e musculoso. Sua pele cinza tinha cicatrizes antigas e ele vestia uma bermuda jeans rasgada. Do lado do torso, na altura do baço, saía uma pata extra murcha, aparentemente implantada ali, pendendo sem qualquer movimento ou sensibilidade. Ele coçou o queixo e falou:


— Com licença, eu acho que ele quis dizer malagueta.


Kimberly piscou algumas vezes.


— Ah… — murmurou ela.


Sem discutir, virou-se e foi buscar mais molho. Bolozera então se virou para o rinoceronte com um sorriso admirado.


— Obrigado, moço! Você é muito gentil! Como se chama?


O rinoceronte inclinou a cabeça, simpático.


— Vinícius Bertioga Ramalho. Mas pode chamar de Vini.


Nesse momento Kimberly voltou com o molho. E, sem muita explicação, colocou também uma porção de anéis de cebola na bandeja de Vini. Bolozera pegou o potinho de molho e fez outra reverência educada.


— Muito obrigado!


Então olhou novamente para o rinoceronte.


— Ei, Vini, você gostaria de sentar conosco? Estou com um amigo muito simpático chamado Bittencourt do Amaral.


Ele apontou para uma mesa próxima. Vini abriu um sorriso. E assim, no meio da bagunça gordurosa do Rei da Chapa de Porto Legal, uma nova amizade improvável começava a se formar.


De volta à mesa, Vinícius se acomodou na cadeira de plástico que rangeu sob seu peso considerável. A pata extra pendurada em seu flanco balançou levemente, sem vida, enquanto ele puxava a bandeja de anéis de cebola para perto. Nesse momento, Bittencourt voltou do banheiro, ajustando a corda do roupão alaranjado enquanto caminhava.


— Bolinho, você não faz ideia de como é difícil mijar sem ter um pênis…


Ele ergueu o olhar. E viu o enorme rinoceronte sentado à mesa. Bittencourt parou no meio do passo. O rosto dele se contorceu em desconfiança.


— Que merda é essa, bolinho?!


Vinícius reagiu na hora, batendo a mão na mesa.


— Olha como fala comigo, filho de uma puta!


Bittencourt estreitou os olhos. Num impulso teatral, ele subiu na mesa, pisando entre as cenourinhas fritas.


— Não intrometa minha mãe, sua vadia desmamada!


Algumas pessoas no restaurante começaram a olhar. Uma criança parou de correr. Um funcionário tirou o boné para assistir melhor. A tensão crescia. Bolozera percebeu que aquilo ia virar briga. Ele imediatamente levantou as mãos, como um mediador espiritual.


— Calma, meus amiguinhos!


Os dois ainda estavam se encarando.


— Vocês podem conviver em sintonia caso saibam apreciar as nossas diferenças.


Bolozera apontou primeiro para Vinícius.


— O Vini tem uma perna implantada na barriguinha!


Ele deu uma risadinha inocente.


Depois apontou para Bittencourt.


— E o Bitt não tem o pênis!


Bolozera abriu os braços, radiante.


— Eu acho que podemos juntos formar um ótimo clubinho!


O restaurante inteiro ficou em silêncio absoluto. Uma bandeja caiu ao fundo. Kimberly, no balcão, parou de beber o refrigerante. Vinícius virou lentamente a cabeça para Bittencourt. Ele olhou para baixo. Depois voltou a olhar para ele.


— Você realmente não tem pênis?


Bittencourt ficou vermelho. Ele pegou uma cenourinha frita do prato. Mordeu. E fez um pequeno aceno de cabeça, confirmando em silêncio. Os dois ficaram se encarando por alguns segundos. Parecia um momento de avaliação profunda. Finalmente, Vinícius pegou um anel de cebola.


— Entendo.


Bittencourt pegou mais uma cenourinha. Bolozera voltou a sentar, feliz. Os três começaram a comer. O clima ainda era consideravelmente estranho, mas agora era uma trégua silenciosa. E, de forma totalmente improvável, uma amizade começou a nascer ali também. Apesar do início turbulento no Rei da Chapa, algo naquele momento estranho havia criado um pequeno vínculo entre os três. Talvez fosse a honestidade involuntária de Bolozera, talvez o constrangimento compartilhado, ou talvez simplesmente a fome saciada.


Entre risadas ocasionais, comentários sobre a qualidade duvidosa do cação frito e disputas amistosas pelas últimas cenourinhas fritas, o trio começou a se conhecer melhor. Vinícius descobriu que Bolozera tinha vindo de uma navezinha muito legal e cheia de bichinhos, embora boa parte da explicação tenha sido difícil de entender. Por outro lado, Bittencourt contou que vivia de tocar violão pelas ruas, sobrevivendo de apresentações improvisadas e favores ocasionais. Bolozera, por sua vez, parecia genuinamente feliz apenas por estar ali. Depois de terminarem a refeição, eles saíram do restaurante e começaram a caminhar pela cidade.


O sol da tarde iluminava Porto Legal, refletindo nos prédios altos e nas vitrines. O trio acabou seguindo em direção ao cais, onde enormes diques de concreto protegiam os navios que chegavam do Oceano Pantalássico. O cheiro de sal e combustível pairava no ar, enquanto as gaivotas gritavam acima das docas. Durante a caminhada, Vinícius decidiu contar um pouco da própria história. Ele colocou as mãos nos bolsos da bermuda jeans e falou com um tom sério:


— Eu fugi do zoológico. Pulei o muro e fui até o Rei da Chapa, pois eu estava sedento por uma porção reforçada e oleosa de anéis de cebola.


Bolozera virou a cabeça imediatamente, curioso.


— Desculpe perguntar, mas o que é um zoológico?


Bittencourt soltou um suspiro longo.


— É um lugar terrível onde os animais são confinados — explicou ele. — Sem escolha, e sem liberdade.


Vinícius concordou com um aceno.


— A gente fica preso lá enquanto as pessoas nos olham como se fôssemos brinquedos.


Bolozera parou de andar por um momento. Ele pensou. Pensou mais um pouco. E então começou a rir de forma inocente.


— Então é tipo um prostíbulo?


Bittencourt não conseguiu segurar a gargalhada.


— É, bolinho… — disse ele entre risos. — De certa forma, é tipo um prostíbulo.


Vinícius também riu, balançando a cabeça.


— Nunca tinha pensado por esse lado.


Enquanto continuavam caminhando pelo cais movimentado, Vinícius apontou para uma placa grande presa a um poste enferrujado.


— Galera, olha ali.


A placa era de uma imobiliária que mostrava diversas opções de apartamentos disponíveis para compra por preços imperdíveis. Bittencourt ficou atento, e levantou uma sobrancelha. Após a grande guerra e a queda do Império Primata, muitas residências que antes pertenciam a oficiais e militares primatas haviam sido abandonadas ou confiscadas. Sem compradores interessados, o valor dos imóveis em várias cidades, vales ou reinos da Pangeia, havia despencado. Era possível conseguir apartamentos grandes por preços ridiculamente baixos. Bolozera olhou para os dois amigos.


— Nós poderíamos morar juntos!


Vinícius cruzou os braços, pensativo.


— Um lugar pra dormir sem grades.


Bittencourt olhou para o céu por um instante.


— E sem precisar tocar violão na chuva.


Os três se entreolharam. Então, Bolozera abriu um sorriso enorme.


— Vamos ter uma casinha!


E assim, naquele fim de tarde ensolarado em Porto Legal, entre os cheiros do porto e o barulho distante das embarcações, o trio tomou uma decisão simples, mas que mudaria completamente o rumo da vida deles na Pangeia. Após uma rápida reunião na pequena imobiliária da Rua Dezesseis, o trio conseguiu resolver tudo com surpreendente facilidade. O corretor, um castor magricela com óculos grossos e uma gravata torta, parecia muito mais interessado em se livrar de propriedades vazias do que em fazer perguntas. Menos de um quarto das unipanges que haviam arrecadado na apresentação de rua foram suficientes para pagar a entrada.


— Excelente escolha, senhores — disse o corretor, empurrando os papéis pela mesa. — Depois da queda do Império Primata, este tipo de imóvel perdeu muito valor. O mercado ainda está se recuperando.


Ele sorriu.


— Mas vocês estão levando um excelente apartamento.


O prédio ficava em um dos bairros mais refinados de Porto Legal. A construção era alta, revestida com pedra clara e varandas elegantes que davam vista para o cais e para as avenidas arborizadas da região. A localização era perfeita. Ficava a poucos minutos do centro comercial, e praticamente ao lado da linha do bonde urbano, que cortava a cidade inteira. Quando finalmente subiram de elevador e abriram a porta do novo lar, Bolozera foi o primeiro a reagir.


— Nossa casinha!


Ele saiu correndo pela sala e se jogou no enorme sofá de couro, afundando nas almofadas com um grito de pura felicidade.


— Nossa, que confortável!


O sofá praticamente engoliu o pequeno bolinho. Enquanto isso, Vinícius tentou entrar logo atrás, mas sua enorme estrutura não colaborou. A pata extra que saía de sua costela ficou presa no batente da porta, fazendo o rinoceronte parar abruptamente.


— Espera, já estou indo.


Ele tentou puxar o corpo. A pata extra dobrou de um jeito estranho.


— Caralho…


Ele tentou virar de lado.


— Pera aí.


Do outro lado da sala, Bittencourt comemorava do seu próprio jeito. Ele tirou as calças sem qualquer cerimônia.


— Isso se chama liberdade!


Ele levantou os braços em vitória. E imediatamente vomitou no tapete da sala. Bolozera ergueu a cabeça do sofá, ainda sorrindo.


— Eu estou muito feliz!


Bittencourt, ainda zonzo, sentou no chão perto do vômito. Ele começou a rir. Vinícius finalmente conseguiu se soltar da porta com um estrondo pesado. Ele entrou no apartamento, caminhou até um canto da sala e se sentou no chão, encostando as costas na parede. O rinoceronte parecia pensativo. O olhar distante. Por um momento ele ficou apenas observando o novo espaço. O sofá. As janelas grandes. A varanda com vista para os prédios da cidade. Depois de alguns segundos, ele respirou fundo.


Bolozera percebeu o silêncio pesado no canto da sala. Enquanto Bittencourt ria sozinho no chão e o cheiro de vômito ainda pairava no ar, o pequeno bolinho caminhou até Vinícius, que continuava olhando pela janela do apartamento, observando a cidade de Porto Legal pulsando lá embaixo. Ele se aproximou devagar.


— Vini? O que foi?


Bolozera inclinou a cabeça, preocupado.


— Já te disse que te amamos mesmo com os seus peidos fedidos.


Vinícius soltou um pequeno suspiro, ainda olhando para fora.


— Eu sei, Bolozera… — disse ele com calma. — Não é isso. Eu sinto orgulho dos meus peidos quentes.


Ele finalmente virou o rosto.


— Acontece que eu fico pensando nos outros animais, aqueles que estão naquele fim de mundo que é o zoológico.


Bolozera franziu a testa, tentando lembrar da conversa anterior.


— O prostíbulo?


Vinícius não conseguiu evitar um sorriso.


— Isso, o prostíbulo.


Nesse momento, algo se arrastou pelo chão. Era Bittencourt. Completamente pelado, ainda sujo de vômito e com o roupão pendurado em um dos ombros, ele rastejou até os dois e se sentou ao lado deles no chão.


— Amigos… — disse ele, respirando fundo. — Infelizmente não temos o que fazer. Vamos aproveitar nossa nova vida.


Ele deu de ombros.


— Porto Legal é grande, a gente pode sobreviver aqui.


Por alguns segundos o silêncio voltou. Mas então, Bolozera levantou de repente.


— Eu não aceito!


Ele bateu a mão no próprio peito com convicção.


— Vamos ao prostíbulo!


Os dois olharam para ele.


— E vamos soltar toda a galerinha!


Vinícius arregalou os olhos. Por um instante ele ficou completamente imóvel. Então um sorriso começou a surgir lentamente em seu rosto. Uma esperança nova. Bittencourt olhou para os dois. Ainda sentado no chão. Ele distraidamente passou o dedo no próprio vômito que havia escorrido no tapete, e deu uma pequena lambida.


— É isso aí, bolinho — disse ele com um sorriso relaxado.


Ele assentiu.


— Vamos libertar todo mundo.


Os olhos de Bolozera brilhavam de entusiasmo. Vinícius levantou lentamente, já imaginando os portões sendo abertos e os animais correndo livres. Ali, no meio de um apartamento elegante recém-alugado, com um tapete arruinado e dois amigos completamente malucos, o trio acabava de iniciar uma nova missão.


Na unidade do Rei da Chapa da Rua Dezesseis, a tarde seguia no ritmo habitual. Chão engordurado. Crianças correndo na área de brinquedos. Funcionários entediados olhando o relógio. Kimberly, a barracuda gótica de moicano discreto, estava atrás do balcão mexendo no celular enquanto tomava mais um gole do seu já clássico refrigerante sem gás com gelo. Tudo parecia normal. Até que uma enorme picape vermelha atravessou a parede lateral do restaurante como um estrondoso meteoro avassalador. Tijolos, vidro e placas metálicas explodiram pelo salão, levantando uma nuvem densa de poeira e gordura antiga.


Mesas foram empurradas. Um fliperama quebrado tombou. Crianças começaram a chorar e gritar. Kimberly reagiu imediatamente. Com um movimento rápido, ela saltou sobre o balcão, puxando uma carabina escondida sob a caixa registradora. Seus olhos afiados vasculharam a picape destruindo metade do restaurante.


— Que porra foi essa?!


A porta da frente da picape se abriu com um rangido metálico. De dentro saiu um homem elegante. Era o naturalista Charles Darwin. Vestia um paletó alinhado, um chapéu de motorista e óculos escuros, caminhando calmamente entre os destroços como se estivesse chegando a uma conferência acadêmica. Ele parou ao lado do veículo. Com um gesto teatral, abriu a porta traseira da picape. E de dentro dela surgiu a Sereia da Montanha. Ela saltou do veículo com um olhar feroz, as pupilas dilatadas e o cheiro do deserto ainda impregnado na pele. Assim que seus pés tocaram o chão destruído do restaurante, ela ergueu o nariz, e inspirou profundamente.


— Ele esteve aqui… — murmurou.


Seus olhos ficaram vermelhos.


— Eu sinto o cheiro.


Ela ergueu a cabeça e gritou:


— Onde eu encontro o Torresminho?!


Kimberly franziu o cenho. Ainda com a carabina apontada, respondeu com puro desprezo:


— Do que a baranga está falando?


A Sereia ignorou completamente o insulto. Em vez disso, ela se ajoelhou no meio dos destroços e tirou um baralho do bolso. Começou a organizar cartas no chão, empilhando-as em pequenas torres delicadas, como uma cartomante preparando um ritual.


— Um ser tesudo… — murmurou ela. — Feito de carne…


Ela colocou outra carta.


— E de pura sensualidade…


Kimberly piscou. Então reconheceu.


— Sei… — disse ela lentamente.


Ela apontou com o polegar para trás.


— Você está falando da almôndega de carne?


A Sereia levantou os olhos. Kimberly deu de ombros.


— Ele me deu esse convite pro open-house dele.


Ela tirou um pequeno cartão do bolso do avental.


— Vai ter creme de leite de graça.


Antes que ela pudesse terminar a frase, uma mão elegante arrancou o convite de seus dedos. Era Darwin. Ele guardou o cartão dentro do bolso do paletó com um movimento rápido. Kimberly arregalou os olhos.


— Filho de uma puta, devolve o meu convite!


Darwin levou calmamente um dedo aos lábios. Pedindo silêncio. Ele não disse uma única palavra. Mas isso só deixou Kimberly mais irritada.


— Ah, você quer brincar?


Ela ergueu a carabina. E avançou contra ele com toda a fúria de uma barracuda que não queria correr o risco de perder um evento com creme de leite gratuito. A Sereia da Montanha ergueu o queixo, observando Kimberly avançar com a carabina apontada. Um sorriso frio e cruel começou a se espalhar em seu rosto. Ela estalou os dedos.


— Darwin, cuide disso.


Charles Darwin não respondeu. Ele apenas se moveu. Com a elegância calculada de um coreógrafo mortal, o naturalista deu um passo à frente, saltou sobre uma mesa tombada e, em pleno movimento, sacou o guarda-chuva preto que carregava. O mecanismo se abriu com um clique metálico. Mas aquele não era um guarda-chuva comum. A ponta era uma lâmina fina e reluzente. Kimberly apertou o gatilho da carabina, mas Darwin já estava em cima dela. Com um giro rápido do corpo, ele conduziu o guarda-chuva como um espadachim conduz uma katana. A lâmina atravessou o ar com precisão cirúrgica. Por um instante, tudo ficou em silêncio.


Kimberly ainda estava de pé. Então a cabeça dela se separou do corpo. O corte havia sido limpo. A cabeça da barracuda girou no ar, os olhos ainda arregalados, antes de bater no chão entre os destroços do restaurante. Um jato grosso de sangue escuro explodiu do pescoço decepado, espalhando-se pelo balcão destruído e respingando nas paredes gordurosas do Rei da Chapa.


O corpo de Kimberly deu dois passos involuntários para trás. Depois desabou no chão com um impacto pesado, enquanto o sangue se espalhava lentamente pelo piso engordurado. Darwin sacudiu levemente o guarda-chuva. Algumas gotas vermelhas pingaram da lâmina. Então ele o fechou com calma. A Sereia observava tudo com satisfação. Ela soltou uma pequena risada. Sem pressa, a criatura se arrastou de volta até a picape vermelha destruída. Subiu na carroceria e se acomodou no banco traseiro como se estivesse entrando em uma limusine. Antes de fechar a porta, lançou um olhar maníaco para o restaurante devastado. Seus olhos brilharam.


— Vamos, Darwin. Tem uma almôndega me esperando para copular.


Ele entrou no banco do motorista. O motor da picape rugiu. Com o convite roubado guardado no bolso do paletó e o plano traçado em silêncio, o veículo deu ré entre os escombros e acelerou para fora da Rua Dezesseis, deixando para trás um restaurante destruído e um cadáver sangrento no chão. Em algum lugar da cidade, Bolozera e seus novos amigos ainda planejavam libertar os animais do zoológico. Sem saber que uma criatura obcecada já estava seguindo o cheiro dele, e se aproximando cada vez mais.

 
 
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