Capítulo I: Perdido, Porém Otimista

Atualizado: 22 de ago.
A manhã finalmente chegou ao Planeta Fígado de Galinha. Durante toda a noite anterior, o planeta havia sido castigado por uma violenta tempestade de líquido biliar, um fenômeno climático típico daquela região do Espaço Térmico. Torrentes viscosas haviam caído dos céus esverdeados, escorrendo pelos prédios, inundando becos e deixando o ar impregnado por aquele conhecido aroma ácido de suor misturado com vinagre. Mas agora tudo havia passado. O céu, ainda manchado por nuvens amareladas, lentamente recuperava sua tonalidade habitual. As ruas começavam a se iluminar com os letreiros neon dos prédios vizinhos, que voltavam a piscar após horas de pane elétrica causada pela tempestade.
Ali perto, estacionada com tranquilidade ao lado de um viaduto manchado de bile seca, repousava a Base Panspérmica. A nave parecia adormecida. Dentro dela, a maioria de seus tripulantes ainda dormia profundamente, recuperando-se da longa noite. Mas nem todos. No pequeno quarto improvisado no interior da nave, um som suave rompeu o silêncio. O despertador de Bolozera tocava. Não era um alarme estridente como os usados por criaturas mais pragmáticas. Não. O despertador de Bolozera reproduzia uma melodia inspiradora de harpa, acompanhada por clarinetes suaves ao fundo, como se o próprio Pit Mangueira estivesse convidando alguém a começar o dia com entusiasmo.
Os olhos redondos do pequeno bolinho se abriram lentamente. Ele ficou alguns segundos apenas ouvindo a música. Então sorriu. Um sorriso sincero, aberto e iluminado.
— Bom dia, mundão — murmurou ele, com satisfação.
Bolozera se levantou da cama com energia. Ainda ao som da melodia, começou a fazer uma pequena dancinha matinal. Nada muito elaborado, alguns passos para um lado, um giro tímido, um pequeno pulo. Mas cada movimento carregava uma alegria genuína, como se aquele fosse o primeiro dia mais feliz de sua vida. Quando a música terminou, ele respirou fundo.
— Nossa, que delícia de manhã.
Com extremo cuidado, Bolozera começou a dobrar o cobertor. Alisou as pontas. Ajustou as dobras. Refez uma delas porque não tinha ficado perfeita. Para Bolozera, cada pequeno detalhe importava. Quando terminou, assentiu satisfeito.
— Organização é a base de um bom dia.
Ele então saiu caminhando em direção ao banheiro da nave. O chão ainda estava levemente pegajoso da confusão da noite anterior, mas Bolozera não parecia se importar. Entrou no banheiro. Pegou a escova de dentes. Colocou uma quantidade generosa de creme dental. Parou por um segundo. Pensou. E então, em um gesto completamente natural para ele, devorou a escova inteira. Ele mastigou satisfeito, e depois abriu um pequeno armário. Lá dentro estavam cuidadosamente organizados seus itens favoritos. Bolozera pegou seu chapéu-coco preto, perfeitamente alinhado, suas luvas elegantes, e suas sandálias verdes, que rangiam um pouco ao caminhar. Vestiu cada peça com atenção. Por fim, olhou para o espelho. Ajustou o chapéu. Inclinou a cabeça para um lado. Depois para o outro. Sorriu para seu próprio reflexo.
— Perfeito.
Ele colocou as mãos na cintura. E disse com confiança absoluta:
— Hoje vai ser mais um belo dia.
Mal sabia ele que em poucas horas sua vida tomaria um rumo completamente inesperado. Bolozera surgiu no corredor como se tivesse sido lançado por uma mola invisível. Saltitando. Girando. Com a expressão radiante de quem claramente acreditava que aquele seria o melhor dia da história da existência.
— Bom dia, galerinha! Bom dia, mundão! — anunciou ele com entusiasmo exagerado. — Eu acordei para vencer!
Totó, ainda carregando seu humor ácido matinal, passou por ele segurando um prato de panquecas. Sem sequer parar de andar, murmurou:
— Vai se foder. Alegria é o caralho.
Bolozera apenas sorriu, completamente imune ao veneno cotidiano de Totó. Ele continuou sua pequena marcha triunfal até a mesa da cozinha e pulou na cadeira com a energia de um ser que aparentemente funcionava movido a entusiasmo puro. Ao lado da mesa, Plinky estava ocupada mexendo em um grande baú metálico cheio de equipamentos misteriosos. Foi então que ela franziu o focinho. Um cheiro estranho pairava no ar. Algo desagradável. Ela virou lentamente a cabeça para Bolozera.
— Bolozera, desculpa a pergunta…
Ela hesitou por um segundo.
— Você cagou nas calças de novo?
Bolozera congelou. Os olhos arregalaram. Um silêncio dramático tomou a cozinha.
— Por que tem que ser eu?! — respondeu ele, visivelmente ofendido.
Seus olhos começaram a lacrimejar.
— Todo mundo sabe que já fazem cinco dias que isso não acontece!
Plinky piscou duas vezes. Percebendo imediatamente que tinha cometido um erro diplomático. Ela levantou as mãos.
— Perdão, Bolozera. Eu achei que tivesse sido você.
Por um momento pareceu que ele realmente estava magoado. Mas então o pequeno ser soltou um sorriso largo e benevolente.
— Claro que te desculpo!
Ele abriu os braços.
— Todo mundo erra!
Totó soltou uma risadinha sarcástica enquanto se sentava na cadeira.
— Porra, Plinky…
Ele apontou para Bolozera.
— Ele nem usa calças.
Antônio estava encostada na bancada da cozinha. Vestindo uma lingerie confortável e sensual, segurando uma caneca de café fumegante. Ela observava a cena com uma calma quase científica. Deu um gole. Depois levantou uma sobrancelha para Totó.
— Não julgue, cachorro.
Ela soprou o café.
— Sempre piora as coisas.
Do outro lado da mesa, Bolozera estava enfrentando um desafio logístico. Uma lata de creme de leite repousava na prateleira mais alta do armário. Muito fora do alcance da pequena almôndega. Ele esticava os braços. Saltava. Tentava subir em cima de uma cadeira. Nada funcionava. Ele olhou ao redor.
— Ponto!
Um dos Pontos imediatamente respondeu. O pequeno pinguim elegante caminhou até ele com postura profissional.
— Sim?
Bolozera apontou para a lata.
— Eu preciso daquilo.
O Ponto avaliou a situação. Calculou. Depois virou a cabeça para um Pontilho que estava passando. Ele bicou de forma agressiva a cauda do minúsculo pinguim. O Pontilho virou. O Ponto apontou para a prateleira. O Pontilho assentiu com grande senso de dever. Ele correu até o armário. Subiu pela lateral. Esticou o pequeno corpo o máximo possível. As asinhas minúsculas tremiam de esforço. Então, ele finalmente alcançou a lata. Pegou. Desceu com cuidado. Entregou a Bolozera. Bolozera abriu um sorriso enorme.
— Obrigado!
Enquanto isso, na Pós-Terra, o dia nascia brutalmente quente sobre o vasto Deserto de Gergelim. Aquele bioma ocupava uma imensa faixa da Pangeia, um mar interminável de dunas compostas não por areia comum, mas por bilhões de sementes de gergelim, que refletiam a luz do sol como pequenas lâminas douradas. De longe, o deserto parecia um oceano de pó marfim, ondulando lentamente sob o vento seco. Mas de perto a experiência era quase agressiva. Cada passo produzia um som peculiar, um chiado granulado, como caminhar sobre uma mistura de areia e grãos torrados. O ar carregava um leve aroma oleoso e tostado, lembrando padarias antigas e cozinhas orientais abandonadas.
Quando o vento soprava com força, redemoinhos de sementes subiam aos céus, criando pequenas tempestades de gergelim, que raspavam a pele e entravam nas roupas. Entre as dunas se erguiam grandes montanhas naturais de sementes compactadas, formadas por milênios de acúmulo e compressão. Algumas eram tão altas quanto prédios.
Era nessas formações que dois homens surgiram correndo. Ofegantes. Suados. Cada um carregava um grande saco de unipanges, a moeda corrente da Pangeia. Os sacos estavam tão cheios que tilintavam a cada passo. Os dois ladrões escalaram uma duna mais alta e se jogaram atrás de uma montanha de sementes. O primeiro caiu de joelhos.
— Caralho, essa foi por pouco!
Ele respirava como se os pulmões estivessem pegando fogo. O outro olhava ao redor, nervoso, com os olhos arregalados.
— Não tinha lugar melhor pra gente se esconder?!
O primeiro limpou o suor da testa. O vento soprou novamente. As sementes deslizaram pelas encostas das dunas com um som seco. Então, um assobio ecoou. Suave, melódico, e hipnotizante. Os dois homens congelaram. O som parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo, reverberando entre as montanhas de gergelim.
— Que merda é essa? — murmurou um deles.
O outro ergueu a arma.
— Quem tá aí?!
O assobio continuava. Agora parecia estar mais perto. Das sombras entre duas dunas, algo se moveu. Uma figura feminina emergiu lentamente. Ela caminhava deslizando sobre as sementes como se o chão não oferecesse resistência. Seu corpo tinha formas elegantes e sinuosas, a cintura fina, quadris largos que se moviam em um ritmo hipnótico de dança do ventre, enquanto o assobio continuava saindo de seus lábios. Mas quanto mais ela se aproximava, mais a beleza se tornava errada.
Sua pele era úmida e brilhante, como a de uma criatura marinha fora d’água. As pernas pareciam humanas à primeira vista, mas se dobravam em ângulos estranhos. Nos tornozelos havia pequenas membranas translúcidas que vibravam quando ela se movia. Os braços eram longos demais. Os dedos terminavam em garras finas como lâminas. O rosto era ao mesmo tempo belo e perturbador. Os olhos eram grandes e escuros, quase sem pupila, refletindo a luz do sol como poços de água profunda. Quando ela sorria, revelava duas fileiras de dentes afiados, semelhantes aos de um tubarão. E por trás do cabelo escuro e ondulado, pequenas fendas branquiais pulsavam lentamente no pescoço. Uma sereia monstruosa, deslocada de qualquer oceano.
Um dos bandidos deu um passo para trás. O outro, em puro reflexo de pânico, apontou a arma para ela. Antes que pudesse atirar, ela riu. Um riso suave. Quase cansado.
— Vocês são todos iguais…
No segundo seguinte, ela se moveu. Foi um movimento tão rápido, que o homem nem conseguiu reagir. A criatura avançou com um salto fluido. Suas garras atravessaram o peito do primeiro ladrão como se fosse papel. Ela puxou o braço para trás. O homem caiu no chão, o corpo se debatendo entre as sementes. O outro tentou disparar. O tiro errou. A sereia girou o corpo com elegância sobrenatural e agarrou o rosto dele. Com um único movimento brutal, arrancou sua garganta. O sangue escorreu pelas dunas de gergelim, desaparecendo entre as sementes. O homem caiu. Silêncio. O vento voltou a soprar.
A criatura limpou lentamente as garras na própria pele. Olhou para os dois corpos. Depois voltou a assobiar. O mesmo assobio hipnótico. Sem pressa, ela recolheu os sacos de unipanges. E desapareceu novamente entre as montanhas de gergelim, deixando apenas o vento, o cheiro de sangue, e o vasto silêncio do deserto.
Satisfeito com a conquista da lata de creme de leite, Bolozera deu mais uma olhada na mesa, como um estrategista culinário avaliando os próximos passos de uma nova campanha. Então ele se virou para um Pontilho que passava carregando uma colher do tamanho dele.
— Amiguinho, você sabe se tem geleia de morango?
O Pontilho parou. Virou lentamente a cabeça. Ele emitiu uma sequência estranha de grunhidos. Então, para o absoluto espanto de todos na cozinha, o Pontilho levou a pequena asa até o próprio pescoço. Ele fez um corte limpo. A cabeça abriu para o lado como a tampa de uma lixeira automática. Totó parou de mastigar o Baunilhete. Risoto congelou. Plinky apenas levantou os olhos. Dentro do corpo do Pontilho havia um pequeno compartimento, ele enfiou a asa lá dentro, revirou, e puxou um pote de geleia de morango. O Pontilho entregou o pote para o Bolozera, como se aquilo fosse a coisa mais normal possível. Bolozera recebeu com os olhos brilhando.
— Obrigado, amigão!
O Pontilho assentiu. Depois recolocou a cabeça no lugar. Ele deu uma pequena tosse. E voltou a caminhar como se nada tivesse acontecido. Totó virou para Risoto.
— Eu nunca vou me acostumar com isso.
Risoto respondeu calmamente:
— Eu já me acostumei.
Na mesa, Bolozera estava focado em uma nova batalha. Ele tentava abrir o pote de geleia. Girava. Forçava. Tentava com as duas mãos. Nada. Ele olhou ao redor.
— Bichinho!
Vasitio levantou a cabeça do outro lado da cozinha.
— Oi.
Bolozera ergueu o pote.
— Dá uma força aqui.
Vasitio pegou o pote. Segurou firme. Girou. Forçou. Nada. Ele suspirou.
— Isso está lacrado, Bolozera.
Foi quando Bolozera fez aquela expressão clássica de quem acabou de ter uma ideia absolutamente genial.
— Já sei onde a gente pode abrir essa geleia!
Ele saltou da cadeira.
— Bichinho, vem comigo.
Vasitio hesitou.
— Você precisa me guiar, Bolozera.
Bolozera inclinou a cabeça. Confuso.
— Por quê? Você não consegue vir comigo só olhando?
Totó explodiu em gargalhadas. Risoto quase caiu da cadeira rindo. Vasitio suspirou profundamente.
— Tio Torresmo, eles tão rindo de mim.
Nesse momento, Torresminho apareceu no corredor. Vestindo uma samba-canção larga, lendo calmamente um jornal quadridimensional que projetava manchetes flutuantes diante do rosto dele. Sem levantar os olhos da leitura, respondeu:
— Caguei.
Ele virou a página holográfica.
— Só segue logo o Bolozera.
Bolozera já estava segurando o braço de Vasitio.
— Vem, bichinho.
Ele começou a guiá-lo pela cozinha. Os dois caminharam rapidamente em direção ao corredor. Bolozera ria enquanto andava. Um riso inocente, mas com aquela leve ironia involuntária de quem não percebe completamente a situação. Vasitio apenas aceitava o destino. Eles chegaram até uma porta metálica. Bolozera a abriu. O interior era uma sala circular cheia de painéis luminosos, cabos e plataformas metálicas, com um grande arco tecnológico no centro, o Translocador da Base Panspérmica. Vasitio entrou primeiro, batendo a bengala no chão.
— Aqui é o banheiro? — perguntou ele, desconfiado.
Bolozera respondeu imediatamente, sem pensar muito:
— Não, bobinho.
Ele olhou em volta.
— É a despensa.
Na cabeça de Bolozera, aquilo fazia total sentido. Vasitio franziu a testa, ainda sem entender muito bem o ambiente. Bolozera ignorou o silêncio de Vasitio. Ele colocou o pote de geleia no chão.
— Pronto.
— Agora é só quebrar.
Vasitio ergueu a bengala.
— Com isso?
— Isso! — respondeu Bolozera animado. — Quebra com a bengala que abre rapidinho!
Vasitio respirou fundo e começou a tatear o espaço à sua frente. A bengala tocou no chão. Depois em um painel. Depois em um cabo.
— Espera, acho que achei o pote…
A ponta da bengala pressionou um botão metálico no console do Translocador. Um pequeno som eletrônico ecoou pela sala.
— Sistema ativado.
As luzes do equipamento começaram a piscar. Bolozera piscou. Antes que pudessem entender o que estava acontecendo, o arco do Translocador começou a vibrar com energia azul intensa. Painéis se acenderam. O chão emitiu um zumbido grave.
— Inicializando sequência de translocação.
Vasitio arregalou os olhos.
— Acho que isso não era o pote.
Bolozera abraçou o frasco de geleia instintivamente. Uma coluna de luz azul brilhante tomou conta da plataforma. Tudo aconteceu em um piscar de olhos. O clarão iluminou toda a sala. Quando a luz desapareceu, Bolozera não estava mais lá. Nem o pote de geleia. A sala voltou ao silêncio. Vasitio ficou parado no meio do Translocador, segurando a bengala. Ele inclinou a cabeça.
— Bolozera?
Silêncio. Ele respirou fundo.
— Acho que fiz alguma besteira.
Bolozera sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Ou melhor, percebeu que não havia chão nenhum. Ele estava sendo puxado através de um túnel espiralado de energia azul, girando sem parar, como se tivesse sido engolido por um redemoinho feito de luz líquida. O vento zumbia nos ouvidos dele enquanto o corpo rodopiava no vazio.
— Socorro, eu quero minha casa! — gritou o pequeno bolinho, agarrando o pote de geleia com toda a força, como se aquilo fosse um amuleto de sobrevivência.
O espiral azul girava mais rápido. Mais rápido. Mais rápido. Completamente apavorado, Bolozera teve uma ideia desesperada.
— Eu preciso ver onde eu estou!
Ele esticou o corpinho e colocou a cabeça para fora da corrente de energia. Por um segundo, tudo ficou escuro. Não era uma escuridão comum. Era o Escuro. O ponto do Planoverso onde não existia luz nenhuma, um vazio infinito onde apenas formas estranhas ocasionalmente surgiam e desapareciam como sombras dentro de um oceano preto. E no meio daquele nada absoluto, Bolozera viu algo.
Vários camelos. Muitos camelos. Dezenas deles. Eles estavam amontoados em uma orgia extremamente caótica e confusa, se empurrando, tropeçando uns nos outros, emitindo sons estranhos e completamente desorganizados naquele infinito vazio cósmico. Parecia algum tipo de reunião extremamente errada de camelos interdimensionais, girando lentamente no espaço sem gravidade. Bolozera arregalou os olhos.
— Eu não quero mais!
Um dos camelos virou a cabeça lentamente e olhou diretamente para ele no meio do túnel dimensional. Foi o suficiente.
— Tchau!
Bolozera puxou a cabeça imediatamente de volta para dentro do espiral.
— Eu não quero saber!
Ele fechou os olhos com força.
— Eu não quero saber o que eu vi!
O túnel azul continuava girando violentamente ao redor dele. E o pequeno bolinho, ainda abraçado ao pote de geleia, só conseguiu pensar em uma coisa:
— Eu devia ter ficado sem geleia.
O túnel azul desapareceu tão abruptamente quanto havia surgido. Bolozera despencou no chão quente do Deserto de Gergelim, levantando uma pequena nuvem de sementes ao redor do corpo. Ele caiu sentado. Logo em seguida, o pote de geleia de morango, que ele abraçava como um tesouro, foi esmagado sob seu peso. O vidro se estilhaçou, espalhando pedaços transparentes e uma poça generosa da substância doce e vermelha sobre as sementes douradas do deserto.
Por alguns segundos, Bolozera ficou parado. Piscando. O mundo ao redor dele era completamente diferente da Base Panspérmica. Dunas gigantes de sementes de gergelim se estendiam até onde os olhos alcançavam. O vento quente soprava, fazendo as montanhas de grãos escorregarem lentamente como ondas douradas. Mas Bolozera não estava preocupado com a geografia. Ele olhou para si mesmo. Estava completamente lambuzado de geleia. O pequeno bolinho arregalou os olhos. Então abriu um sorriso imenso.
— Oba! Geleia!
Sem perder tempo, começou a lamber os próprios braços, depois as mãos, depois a poça espalhada nas sementes.
— Que delícia!
Ele se jogou no chão, feliz da vida, espalhando ainda mais geleia pelo corpo. Foi então que um som ecoou. Um assobio. Longo. Melódico. Hipnotizante. O vento pareceu carregar a melodia pelas montanhas de gergelim ao redor. Bolozera parou de lamber a geleia. Levantou a cabeça.
— Que música bonitinha…
O assobio ficou cada vez mais forte. Mais próximo. Como se alguém estivesse chamando. Bolozera se levantou devagar. E começou a dançar. Primeiro um passo para o lado. Depois outro. Ele girava lentamente, acompanhando o ritmo da melodia, soltando pequenos grunhidos de felicidade. O assobio parecia involuntariamente guiar os seus movimentos. As dunas ao redor sussurravam com o vento. E então, das sombras entre duas montanhas de gergelim, ela apareceu. A Sereia da Montanha. Seu corpo surgiu lentamente da penumbra das dunas, movendo-se com uma elegância quase sobrenatural. A luz do sol refletia na pele úmida e brilhante, revelando curvas sedutoras e movimentos fluidos de uma dança do ventre natural e predatória.
Os olhos escuros estavam fixos nele. Observando. Estudando. As fendas branquiais no pescoço pulsavam lentamente. O sorriso dela revelou dentes finos e afiados, escondidos atrás de lábios quase perfeitos. Ela continuava assobiando. Bolozera parou de dançar e ficou em silêncio. Os dois se encararam no meio do deserto. Ele ainda estava coberto de geleia. Ela estava parada entre as dunas. O vento soprou novamente. As sementes deslizaram pelas encostas. E por um momento estranho, pareceu que o próprio deserto estava observando aquele encontro improvável.
Ela interrompeu o assobio. Seus olhos escuros deslizavam lentamente sobre a figura diante dela. Um pequeno bolo de carne coberto de geleia de morango, brilhando sob o sol inclemente do Deserto de Gergelim. A expressão da criatura mudou para algo entre curiosidade e surpresa.
— Que ser mais sensual é você? — disse ela, inclinando levemente a cabeça.
Bolozera ficou vermelho, ou pelo menos o mais vermelho que um bolo de carne já coberto de geleia poderia ficar. Ele juntou as mãos atrás das costas, balançando um pé na areia de sementes.
— O Torresminho diz que não devemos falar essas coisas de adulto…
A Sereia da Montanha passou a mão lentamente pelos cabelos escuros, deixando os dedos escorregarem pelas mechas úmidas.
— Então você se chama Torresminho? — murmurou ela, aproximando-se com passos suaves. — Eu sou a Sereia da Montanha, e você me excita arduamente.
Bolozera piscou várias vezes. Tentou explicar, meio atrapalhado:
— Moça, na verdade esse não é o meu nome.
— Quero procriar contigo. Me fecunde, e depois eu finalmente devorarei o seu intestino delgado! — declarou a criatura de forma abrupta, avançando com determinação.
Bolozera congelou. Seus olhos se encheram de medo. Ele deu alguns passos para trás, quase tropeçando nas sementes.
— Eu… eu não quero… — balbuciou ele, a voz trêmula. — Eu tenho que ir.
Por um momento, o rosto da Sereia permaneceu imóvel. Então a expressão dela se contorceu. Os olhos escureceram, e ficaram vermelhos como brasas. O sorriso se abriu, revelando fileiras de dentes longos e serrilhados. O corpo dela começou a mudar. A pele ficou mais pálida e brilhante, quase translúcida. As brânquias no pescoço abriram-se como pétalas grotescas. Os braços alongaram-se ainda mais, terminando em garras curvas. No peito, o corpo da criatura se deformou, surgindo três seios grotescos, pulsando como órgãos vivos sob a pele. Agora ela não parecia mais sedutora. Parecia algo antigo e predatório, uma aberração nascida das profundezas do Planoverso. Ela rosnou, a voz arranhando o ar:
— Você vai procriar comigo! Querendo ou não!
O coração de Bolozera disparava. Mas então, algo inesperado aconteceu. Ele sentiu uma coragem que nunca havia sentido antes. Uma pequena chama de raiva acendeu dentro dele. Ele olhou ao redor. No chão, entre as sementes e a geleia, estava um pedaço do vidro do pote quebrado. Bolozera pegou o caco. Quando a Sereia avançou para agarrá-lo, ele cravou o vidro no joelho da criatura.
— Eu já falei que eu não quero! — gritou ele.
A Sereia soltou um urro brutal. Sangue escuro escorria pela perna dela enquanto ela cambaleava. Ela cuspiu no chão, os olhos queimando de fúria.
— Filho de uma puta! — berrou ela. — Você vai me fecundar!
Mas Bolozera já estava correndo. Ele virou e disparou pelas dunas de gergelim, as sandálias verdes chutando sementes para todos os lados. O sol queimava no céu. O vento soprava. Atrás dele, a voz da Sereia ecoou pelo deserto:
— Eu irei te encontrar, Torresminho!
Bolozera não olhou para trás. Ele correu. E correu. E correu. Até desaparecer entre as infinitas montanhas douradas do Deserto de Gergelim, enquanto o calor e o vento engoliam seus passos. Após horas correndo e tropeçando entre as intermináveis dunas do Deserto de Gergelim, Bolozera finalmente começou a perceber uma mudança no horizonte. Primeiro vieram algumas estradas largas, cortando o deserto como cicatrizes de asfalto quente. Depois surgiram torres de concreto, arranha-céus espelhados refletindo o sol da tarde. E então, como um milagre urbano emergindo do nada, Porto Legal.
A grande metrópole da Pangeia se erguia majestosa diante dele. Prédios altos com varandas ornamentadas lembravam a arquitetura mediterrânea, enquanto avenidas largas e movimentadas eram cruzadas por bondes suspensos e carros velozes. Ao fundo, era possível ver os diques e portos que se estendiam até o Oceano Pantalássico, cujas águas brilhavam como uma lâmina azul no horizonte. Mas Bolozera não estava em estado de contemplação arquitetônica. Ele estava exaurido. Coberto de sementes de gergelim grudadas na geleia seca, o pequeno bolinho parecia uma espécie de croquete empanado e suado. Arrastando os pés pelas ruas movimentadas, ele finalmente chegou à Rua Dezesseis, uma das avenidas mais movimentadas do centro da cidade. No meio da praça havia uma grande fonte de pedra branca, de onde jorravam vários arcos de água cristalina. Bolozera viu aquilo. E correu.
— Suquinho de gelo!
Ele se jogou na borda da fonte e começou a beber desesperadamente, mergulhando o rosto na água fria. Alguns turistas olhavam a cena com curiosidade. Um deles tirou uma foto. Depois de vários goles, Bolozera levantou a cabeça, completamente molhado. Ele respirou fundo.
— Que delícia.
Foi então que um som chamou sua atenção. Uma melodia suave começou a se espalhar pela praça. Era um violão. Sentado em um pequeno banquinho em frente à imponente Biblioteca Histórica de Porto Legal, um músico tocava com habilidade e emoção. Os dedos dele deslizavam pelas cordas com precisão, criando uma melodia quente e envolvente que parecia conversar com o vento da cidade. Bolozera ficou imóvel. Os olhos brilharam. Ele se aproximou lentamente. O músico continuava tocando. Sem olhar para ele. Sem dizer uma palavra. Então, de forma completamente espontânea, Bolozera começou a dançar. Primeiro um passo tímido. Depois um giro. Depois um salto pequeno. As sandálias verdes batiam no chão de pedra acompanhando o ritmo do violão. O músico percebeu. Sem interromper a música, começou a acelerar levemente o ritmo.
Bolozera respondeu com passos mais animados. Agora a dança era mais intensa. Mais expressiva. As pessoas começaram a parar. Um casal de turistas. Depois um grupo de estudantes. Depois um ônibus inteiro de visitantes curiosos. Em poucos minutos, uma pequena multidão se formou. No chão, diante do músico, havia um chapéu virado para cima. Alguém jogou algumas unipanges. Outro fez o mesmo. Logo começaram a cair fichas e mais fichas. A melodia crescia. Bolozera rodopiava. O músico improvisava acordes cada vez mais emocionantes. Era uma dupla improvisada, mas perfeitamente sincronizada. Sem trocar uma palavra sequer. Uma senhora comentou:
— Isso é arte.
Um turista filmava. Uma criança começou a imitar os passos de Bolozera. O espetáculo continuou. Dez minutos. Trinta minutos. Uma hora. Duas horas. Quando finalmente o músico terminou o último acorde, a praça explodiu em aplausos. Bolozera fez uma pequena reverência. O músico apenas inclinou a cabeça. Eles olharam para o chapéu no chão. Cheio. Muito cheio. O músico contou rapidamente. Ele arregalou os olhos.
— Trinta mil unipanges.
Bolozera piscou.
— Nossa, tudo isso?!
Ele nunca tinha visto tantas fichas juntas na vida. E sem saber, aquele pequeno momento improvisado havia dado o primeiro passo de uma jornada que mudaria completamente sua vida na Pós-Terra. Bolozera bateu as mãos, satisfeito, ainda ofegante da dança. A praça aos poucos voltava ao ritmo normal enquanto alguns turistas ainda comentavam sobre o espetáculo inesperado. Ele olhou para o músico e abriu um sorriso largo.
— Foi uma bela performance, amiguinho! Até nunca mais!
Bolozera já ia sair andando quando ouviu a voz do homem atrás dele.
— Calma aí, bolinho.
Bolozera se virou. Foi então que percebeu melhor a figura do músico. O homem era alto e esguio, com um corpo magro que parecia sempre um pouco curvado para frente. Os cabelos castanho-claros estavam bagunçados e oleosos, caindo sobre os olhos cansados. Uma barba por fazer cobria o queixo e as bochechas. Ele usava apenas um roupão alaranjado, gasto nas bordas, e estava descalço, revelando pés ásperos com unhas encravadas que denunciavam alguém acostumado a andar muito pela cidade. Quando ele se levantou para pegar o chapéu no chão, o roupão abriu um pouco, revelando algo peculiar. O homem não possuía pênis, apenas o escroto pendendo sob o tecido. Mas o detalhe mais marcante era o sorriso tranquilo, quase sereno. Ele pegou o chapéu cheio de unipanges e sacudiu levemente as fichas.
— Nós conseguimos isso juntos — disse ele com naturalidade. — Nada mais justo do que dividirmos a bufunfa.
Bolozera ficou um pouco sem graça. Ele balançou as mãos rapidamente.
— Moço, que gentileza sua, mas eu não moro aqui. Não vou usar essas fichas.
O homem inclinou a cabeça, pensativo. Depois respondeu com um tom calmo e acolhedor:
— Me chamo Bittencourt.
Ele colocou o chapéu debaixo do braço.
— E talvez eu possa te ajudar a arrumar um novo lar.
Bolozera ficou imóvel por um instante. Ninguém jamais tinha lhe oferecido algo tão nobre assim. Os olhos do pequeno bolinho brilharam. Mas antes que ele pudesse responder, a barriga dele roncou alto. Tão alto que algumas pessoas que ainda estavam perto viraram a cabeça. Bittencourt soltou uma gargalhada tranquila.
— Tá com fome, bolinho?
Bolozera colocou a mão na barriga e assentiu com entusiasmo.
— Sim, é o meu buchinho!
Bittencourt começou a caminhar pela rua.
— Então vamos resolver isso primeiro.
Os dois seguiram juntos pela movimentada Rua Dezesseis, passando por vendedores, turistas e vitrines iluminadas. O sol começava a baixar sobre Porto Legal, refletindo nas janelas dos prédios e nos bondes que cruzavam as avenidas. E assim, entre passos simples e conversas ainda por acontecer, uma nova amizade começava a nascer na Pós-Terra.