Capítulo VII: Mudanças são necessárias
- Vincente R. da Silva

- 22 de fev.
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A poeira começa a assentar lentamente sobre a rua devastada. Aos poucos, as silhuetas do grupo voltam a ficar nítidas entre os destroços, manchas de neve derretida e pedaços retorcidos das decorações de Mangital espalhadas pelo chão. Um a um, eles se aproximam do centro da rua. Há arranhões, roupas rasgadas, manchas de fuligem e sangue seco aqui e ali, mas todos ainda estão de pé. Exaustos. Mas vivos.
O ar está carregado de um misto estranho de alívio, cansaço e descrença pelo que acabou de acontecer. Bittencourt, ainda respirando pesado, passa a mão pelo cabelo bagunçado e olha para os amigos ao redor. Então ele sorri discretamente. Virando-se, ele faz um gesto na direção da figura que permanece alguns passos atrás, observando tudo com seus olhos atentos.
— Pessoal… — diz Bittencourt. — Esse aqui é o raposa.
Ele aponta para ele.
— Sem ele, provavelmente eu não teria conseguido voltar a tempo.
Bittencourt dá de ombros, ainda meio incrédulo.
— Eu até agora não sei o nome dele, mas garanto que é um cara de fé.
A raposa dá um passo à frente. Ele faz uma leve reverência elegante, ajeitando o quimono, que agora está amarrotado e manchado de poeira da batalha. A cauda balança suavemente atrás dele.
— Prazer, amigos do Bittencourt.
Sua voz é calma e controlada.
— Espero que não me considerem invasivo, mas eu diria que foi uma honra lutar ao lado de vocês contra aquele desgraçado.
Ele lança um olhar de profundo desprezo para o ponto da rua onde os restos fumegantes do Papai Neon ainda espalham fumaça no ar frio. Então volta sua atenção ao grupo.
— O meu nome é Sigurður Guðmundur Stefánsdóttir.
Ele faz uma pequena pausa.
— Mas eu prefiro apenas raposa.
Por alguns segundos, o grupo apenas observa. Então eles assentem lentamente, ainda absorvendo tudo o que aconteceu. Vinícius solta uma risada curta, ainda meio sem acreditar que tudo terminou. Ele dá um tapa amigável no ombro de Bittencourt.
— Bitt, você chegou bem na hora certa. Pensei que já era o nosso fim!
Ele vira o olhar para Bolozera. Bolozera acena com a cabeça. O rosto ainda está coberto de poeira e fuligem, mas os olhos finalmente mostram alívio. Enquanto eles trocam olhares e pequenos sorrisos cansados, Mandrágora se afasta discretamente. Sem fazer barulho, ele se aproxima dos destroços do trenó espalhados pela rua. Ali, entre pedaços de metal retorcido e restos queimados de decoração de Mangital, algo chama sua atenção. O gorro chamativo do Papai Neon. Ele pega o gorro com cuidado. Observa por um instante. Então o coloca sobre a cabeça. O gorro fica um pouco grande, escorregando levemente sobre seus olhos.
E então, algo estranho acontece. Os carneiros deformados, que até então estavam parados, confusos após a explosão, levantam lentamente as cabeças. Um a um. Seus olhos se voltam para Mandrágora. Eles começam a se aproximar. Cercando-o. Mas não de forma hostil. As criaturas abaixam as cabeças grotescas. Inclinando-se em respeito. Mandrágora olha ao redor, percebendo a atenção súbita das criaturas. Então ele olha para o grupo. Sem dizer uma palavra. Ele sobe no trenó, que ainda chia e solta pequenas faíscas entre suas engrenagens deformadas. Sentando-se no lugar onde Papai Neon estava antes. Ele ajeita o gorro na cabeça. Segura as rédeas. E um sorriso lento surge em seu rosto. Um sorriso pequeno. Mas cheio de pura satisfação. Ele olha mais uma vez para o grupo. E faz um pequeno aceno. Imediatamente os carneiros se levantam. O trenó treme. Então começa a subir. Devagar no início. Depois ganhando altura.
Os carneiros puxam o trenó pelo céu cinza de Porto Legal enquanto pequenas luzes piscantes surgem ao redor da estrutura danificada. A turma observa em silêncio enquanto a figura de Mandrágora se afasta. Cada vez menor. Até desaparecer lentamente entre as nuvens. No ar frio, ainda ecoa uma gargalhada aguda e enigmática que se perde na distância. Bolozera observa o céu. Então abre um sorriso emocionado.
— É um milagre de Mangital!
Ninguém discute. Um a um. Eles se aproximam. E todos se abraçam. De longe, Nathan e Cerejo, ainda ofegantes e cobertos de poeira da explosão recente, caminham pela rua parcialmente destruída. A fumaça ainda sobe em alguns pontos, e pequenos pedaços de neve suja derretem lentamente sobre o asfalto quente. De repente, eles avistaram uma figura parada sob a luz amarelada de um poste. O manto negro. A postura calma. O olhar que parece enxergar tudo. Era Nicolau Maquiavel. Ele os observa com a mesma expressão enigmática de antes, como se soubesse perfeitamente que eles viriam. Nathan e Cerejo trocam um olhar cúmplice. Exaustos, mas determinados, eles caminham até ele. Nathan toma a dianteira.
— Então, Maquiavel… — diz, num tom que mistura cansaço e cobrança. — A gente cumpriu a missão.
Ele gesticula para trás, na direção de onde vieram.
— Enfrentamos o touro e quase morremos no processo. Cadê a nossa recompensa?
Maquiavel observa os dois em silêncio por um momento. Então um pequeno sorriso surge em seus lábios.
— Aqui está.
Ele coloca a mão dentro da cueca. Nathan franze a testa emplumada. Cerejo já parece desconfiado. Maquiavel tira algo de dentro do tecido e o ergue solenemente.
— Ministros, vocês são merecedores do meu prêmio supremo.
Ele estende a mão.
— Um verdadeiro artefato único.
Na palma da mão dele, está uma tampa de caneta pela metade, completamente mastigada e babada. Nathan pisca. Uma vez. Duas. Cerejo cruza os braços imediatamente.
— Então foi tudo pra isso? — Nathan pergunta, incrédulo.
Maquiavel suspira profundamente. Ergue as mãos de forma teatral. E recita com voz grave e solene:
— A recompensa verdadeira é o que aprendemos ao longo do caminho e as cicatrizes que nos lembram de nossa bravura.
Ele abre um sorriso tranquilo.
— Nada é mais valioso que isso.
Nathan abre a boca para responder. Cerejo também se prepara para retrucar. Mas antes que qualquer um dos dois consiga dizer algo, Maquiavel e a tampa de caneta simplesmente desaparecem. Como fumaça dispersa pelo vento noturno. A luz do poste continua ali. O silêncio também. Nathan e Cerejo ficam parados no meio da rua vazia.
— Certo. Então, no final, não tinha recompensa nenhuma. E sabe o que mais? — Nathan vira para Cerejo, os olhos estreitados. — Acho que você também é esquizofrênico e tem a mesma condição maluca que eu. Só assim pra explicar por que você também vê filósofos.
Cerejo solta uma risada curta. Ele tira um pequeno cachimbo do bolso, acende com calma e puxa uma longa tragada antes de responder. A brasa ilumina brevemente o rosto cansado dele. Então ele dá um tapinha amigável nas costas de Nathan.
— Esquizofrênico, nada.
Ele solta a fumaça devagar, com um sorriso tranquilo.
— Eu só uso drogas muito fortes.
Outra baforada de fumaça sobe preguiçosamente sob a luz do poste.
— Talvez um dia eu te apresente a algumas delas...
Nathan apenas suspira e balança a cabeça, sem saber se ri ou se se preocupa. Cerejo então se afasta, caminhando pela rua silenciosa. Ele segue rolando pelo asfalto cheio de marcas da batalha até alcançar o final da rua. Lá, sob outra luz fraca, estão algumas figuras conhecidas. Patrão Bexigo, flutuando acima do chão. Efigênio, o pequeno velociraptor de óculos. Doutor Gansítico, ainda com seu jaleco amarrotado. E Conselheiro Falcão, de braços cruzados.
Eles estão reunidos, passando um cigarro eletrônico entre si. Quando veem Cerejo se aproximar, todos acenam de longe. Cerejo acena de volta e se junta ao grupo. Os quatro começam a caminhar juntos pela rua, desaparecendo lentamente na distância enquanto continuam dividindo o cigarro eletrônico. Nathan permanece parado. Sozinho. Observando-os ir embora sob as luzes distantes da cidade.
A raposa, com o quimono já um tanto chamuscado pela batalha, aproxima-se do grupo que ainda observa, em silêncio, os restos do caos espalhados pela rua. Ele para a poucos passos de Bittencourt. Com a mesma calma elegante de sempre, ajeita a gola do quimono, alisando o tecido queimado como se nada tivesse acontecido. Então tira um pequeno cartão de dentro da manga, com o contato de um serviço de entrega de botijão de gás, e o estende.
— Foi uma aventura e tanto, Bittencourt. — diz ele, com um sorriso leve. — Mas agora, preciso voltar ao chalé.
Bittencourt pega o cartão com cuidado.
— Se algum dia precisar desabafar ou simplesmente degustar queijos e vinhos, sabe onde me encontrar.
Bittencourt observa o cartão por um momento. Depois levanta o olhar e sorri.
— Obrigado, raposa. Por tudo o que você fez. — diz ele, sincero. — Foi a ajuda mais inesperada que eu já recebi.
A raposa apenas inclina levemente a cabeça. Sem mais palavras, ele se vira. Começa a caminhar pela rua silenciosa. Os passos são suaves. Quase silenciosos sobre a neve derretida e o asfalto rachado. A silhueta peluda e laranja se afasta lentamente entre os postes de luz. Até desaparecer pelas ruas de Porto Legal, levando consigo aquele mesmo ar enigmático que sempre o acompanhou.
Depois de um instante de silêncio, o grupo se virou para encarar o prédio deles. Ou melhor, o que restou dele. A fachada está chamuscada e completamente coberta de rachaduras escuras. Várias janelas estão quebradas, com estilhaços ainda presos nas molduras tortas. O interior, visível através dos buracos na parede, está completamente destruído pelo bombardeio de Papai Neon e pelos jatos de lava dos carneiros. Um pedaço de decoração de Mangital ainda pisca fracamente sobre a porta destruída. O Bolozera solta um suspiro longo e resignado. Ele passa a mão pelo rosto de carne gordurosa, ainda coberto de fuligem.
— Acho que vamos ter que procurar uma casinha nova.
Vinícius concorda imediatamente, soltando uma pequena risada cansada. Apartamento, ainda segurando sua espingarda, olha para cima. Ele observa os destroços das janelas e as paredes queimadas com uma expressão difícil de interpretar. Nathan se aproxima lentamente. A cabeça baixa. Ele para ao lado do grupo, olhando para o prédio em silêncio. Vinícius, completamente exausto, se recosta em um poste próximo e balança a cabeça.
— Vamos pedir indenização com o seguro… — diz ele — e arrumar um cantinho novo.
Por alguns segundos, ninguém fala. Eles apenas se encaram. Cansados. Cobertos de poeira e neve. Com um último olhar para o prédio destruído, o grupo começa a se afastar. Eles caminham lentamente pelas ruas de Porto Legal, ainda cobertas de neve, fumaça e destroços da batalha. Seguindo adiante, e prontos para enfrentar a próxima aventura. Onde quer que ela os leve.