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Capítulo IV: Tudo ao Mesmo Tempo

Foto do escritor: Vincente Roberto da Silva
Vincente Roberto da Silva
23 de mar.
14 min de leitura

Atualizado: 22 de ago.

O dia havia amanhecido em Porto Legal. Depois de saírem do prédio e caminharem por horas pela cidade, ainda tentando esquecer o caos que haviam causado, Bolozera, Bittencourt e Vinícius finalmente chegaram a uma rua tranquila cheia de lojas menores e mais modestas. Entre elas havia um pet shop iluminado, com aquários na vitrine e gaiolas empilhadas. Bolozera parou imediatamente. Os olhos dele brilharam.


— Eu quero um bichinho.


Bittencourt sorriu e olhou para Vinícius. Vinícius retribuiu o sorriso.


— Eu falei que sabia de algo para deixar ele feliz.


Os três entraram na loja. O interior estava cheio de sons. Passarinhos piando, roedores correndo em rodas, um papagaio insultando clientes e um aquário com peixes que pareciam deprimidos. Atrás do balcão estava o atendente, um sujeito magro com cabelo espetado, olheiras profundas e uma camisa cheia de pelos de animais. Bolozera se aproximou educadamente.


— Eu quero um bichinho que não seja muito grande e nem muito pequeno.


O atendente inclinou a cabeça, pensativo. Sem dizer nada, ele tirou um coelho assustado de dentro do próprio sapato.


— Esse aqui serve.


Ele colocou o coelho nas mãos de Bolozera. O pequeno bolinho segurou o animal com extremo cuidado. O coelho tremia. Mas aos poucos se acalmou. Bolozera abriu um sorriso enorme.


— Pessoal…


Ele levantou o animal.


— Esse é o Apartheid.


Vinícius franziu o cenho.


— Apartheid?


Bolozera corrigiu imediatamente, radiante:


— Apartamento!


Bittencourt riu. Depois de assinarem os papéis da adoção e pagarem algumas unipanges, o trio começou a sair da loja. Mas ao dar os primeiros passos, Bolozera tropeçou.


— Opa!


O coelho escorregou de suas mãos e caiu no chão. Apartamento deu um pequeno pulo assustado. Bolozera imediatamente o pegou de volta com cuidado.

 

— Desculpa, Apartamento!


Ele abraçou o coelho contra o peito. Os três amigos sorriram. Agora tinham um novo membro da gangue. Mas então Vinícius parou. Ele estava olhando para um calendário preso no balcão do pet shop. Os olhos dele se arregalaram.


— Bolinho…


Bolozera virou.


— Oi, Vini.


Vinícius apontou para o calendário.


— Não era hoje o seu open house?


Silêncio. Bolozera congelou. Os olhos dele se arregalaram de pânico.


— Meu open house!


Ele começou a correr em círculos.


— A gente precisa voltar agora! E se alguém chegar antes da gente?!


Bittencourt pegou a cadeirinha de transporte do coelho. Vinícius já estava indo para a porta.


— Vamos!


Os três saíram correndo para a rua. A poucos metros dali passava a linha do bonde urbano, que cortava Porto Legal e levava diretamente para o bairro onde ficava o prédio deles. O bonde estava prestes a partir. Bolozera correu segurando Apartamento em suas mãos. Bittencourt vinha logo atrás. Vinícius corria pesadamente pela calçada.


Vinte e sete minutos depois, o bonde finalmente parou na estação próxima ao prédio onde o trio morava. Bolozera foi o primeiro a descer, segurando Apartamento contra o peito. Bittencourt veio logo atrás, ajeitando o roupão. Vinícius desceu por último, fazendo o chão do bonde vibrar levemente com o peso. Eles caminharam até a frente do edifício. Mas pararam imediatamente. Encostados em uma picape vermelha amassada, estavam a Sereia da Montanha e Charles Darwin. Bolozera congelou.


— Ah não… — murmurou ele, assustado. — Essa madame de novo não…


Bittencourt franziu a testa.


— Bolozera, que tipo de gente você convidou?


A Sereia começou a rir. Uma risada baixa, lenta e inquietante. Ela se afastou da picape e começou a caminhar na direção deles, os quadris balançando com uma confiança predatória.


— Não tem como escapar, Torresminho…


Ela falou pausadamente, como se saboreasse cada palavra.


— Eu já preparei o enxoval do bebê.


Ela abriu os braços.


— E depois que eu for fecundada…


Seu sorriso ficou ainda mais perturbador.


— Não irei mais querer devorar o seu intestino delgado.


Ela apontou para Darwin.


— Eu te darei de alimento para Darwin.


Ao ouvir seu nome, Charles Darwin retirou lentamente os óculos escuros. Seus olhos eram completamente pretos, como poços sem fundo. Ele abriu um sorriso. Revelando dentes afiados demais para um humano. Bolozera começou a recuar lentamente, enquanto Apartamento tremia em seus braços. Vinícius olhou para os dois lados, confuso.


— O que está acontecendo?


E então, algo caiu violentamente entre eles. Era o orangotango. O mesmo que os havia seguido desde o zoológico. Ele aterrissou na frente do grupo, apontou diretamente para Bolozera e começou a berrar com fúria:


— Putaria! Putaria! Putaria!


Darwin ergueu uma sobrancelha. Antes que alguém reagisse, o naturalista avançou e agarrou o braço do orangotango. O símio respondeu imediatamente. Um soco brutal atingiu o rosto de Darwin. Darwin revidou com um golpe de guarda-chuva. O orangotango mordeu o ombro dele. Darwin chutou a costela do animal. Os dois começaram a se espancar violentamente no meio da rua, rolando sobre o capô da picape amassada enquanto trocavam golpes ferozes. Carros começaram a frear. Um cachorro latiu. Bittencourt piscou duas vezes.


— Eu não sei quem é mais maluco aqui.


A Sereia observava a briga com irritação crescente. Vinícius ficou em posição defensiva. E Bolozera apenas segurava Apartamento com força, completamente perdido no meio daquele encontro absurdo de destinos cruzados. Com rapidez inesperada para alguém tão pequeno, Bolozera correu até a borda da calçada e colocou Apartamento dentro de uma caixa de papelão vazia encostada no muro do prédio.


— Fica aqui, Apartheid! Não se mexe! — disse ele, ajeitando o coelho com cuidado.


O animal apenas tremeu levemente. Bolozera voltou correndo. Agora ele, Bittencourt e Vinícius se posicionavam diante da Sereia da Montanha, prontos para enfrentá-la. Mas poucos metros adiante, outra batalha acontecia. Darwin e o orangotango se enfrentavam com violência brutal. O naturalista permanecia em silêncio absoluto, movendo-se com precisão quase clínica, enquanto o símio berrava sem parar:


— Putaria! Putaria! Putaria!


Darwin desviou de um soco e cravou a ponta metálica do guarda-chuva no ombro do animal. O orangotango respondeu com uma cabeçada que fez Darwin cambalear. Os dois rolavam sobre o asfalto, rasgando roupas, quebrando dentes e cuspindo sangue fresco. Apesar da força monstruosa do símio, Darwin tinha algo que o animal não possuía, conhecimento profundo do comportamento animal. Ele antecipava movimentos. Bloqueava ataques. Girava o corpo com técnica calculada. Mas o orangotango também lutava com a fúria pura da selva. Num movimento desesperado, ele mergulhou para frente e mordeu violentamente o pênis de Darwin. O naturalista finalmente urrou de dor.


Ele chutou o rosto do símio e usou as pernas para prender o pescoço do orangotango, tentando estrangulá-lo. O animal começou a sufocar. Os olhos arregalados. As mãos arranhando o asfalto. Mas então, num ato completamente desesperado, o orangotango urinou diretamente no rosto de Darwin. O líquido quente escorreu pelos olhos do naturalista. Darwin perdeu o aperto por um instante. Foi o suficiente. O símio se libertou e rolou para longe. Os dois se levantaram. Ofegantes. Cobertos de sangue. Eles se encararam. Sem dizer uma palavra. Então correram um na direção do outro. O choque foi brutal.


O orangotango saltou primeiro. Com um movimento violento, enfiou a mão dentro do peito de Darwin, rasgando carne e costelas com força selvagem. O naturalista arquejou, e o símio arrancou o coração ainda pulsante, levantando-o no ar enquanto sangue espirrava pelo asfalto. Mas Darwin ainda estava vivo. Com a última força que lhe restava, ele puxou algo do bolso do paletó. Uma seringa metálica de cianureto. Ele a cravou diretamente no peito do orangotango. O símio ainda segurava o coração de Darwin quando o veneno começou a agir. Espuma branca surgiu na boca. Os músculos travaram. Os olhos ficaram vidrados. Darwin caiu primeiro. O peito aberto despejando sangue.


O orangotango cambaleou por dois passos, e desabou logo ao lado dele. O coração arrancado ainda estava em sua mão. Os dois ficaram imóveis. Mortos. O asfalto da rua estava coberto de sangue. O silêncio que se seguiu foi pesado. E agora restava apenas a Sereia da Montanha diante do trio. Enquanto o corpo de Darwin e do orangotango ainda se contorcia nos últimos espasmos no asfalto ensanguentado, a luta principal começava. Bittencourt e Vinícius avançaram contra a Sereia da Montanha. Infelizmente, ambos possuíam habilidades de combate equivalentes a absolutamente nada. Vinícius tentou um soco, mas obviamente, errou completamente. Bittencourt tentou acertá-la com o carrinho de transporte que ainda carregava. A Sereia simplesmente desviou e o empurrou contra a lateral da picape.


— Patéticos — sibilou ela.


Mas então seus olhos se voltaram para o chão. Para o corpo de Darwin. Imóvel. O coração arrancado ainda perto da mão do orangotango. Por um instante, silêncio. Então algo mudou. O rosto da Sereia se contorceu. Seus olhos começaram a brilhar com um ódio profundo.


— Vocês mataram Darwin.


Seu corpo começou a se transformar. Os ossos estalaram. A pele se abriu em enormes fissuras. Das costas e dos lados começaram a surgir tentáculos viscosos, que se contorciam como serpentes. Seu torso se expandiu grotescamente, revelando três seios deformados, pulsando com veias escuras. A mandíbula se abriu além do que seria possível para um humano. E então ela soltou um grito ensurdecedor, um som monstruoso que ecoou pela rua inteira. Vinícius recuou.


— Que porra é essa?!


Bittencourt tentou avançar novamente. Um tentáculo o acertou no peito. Ele foi arremessado contra um poste. Vinícius tentou agarrar um dos tentáculos. Outro tentáculo o acertou no rosto. O rinoceronte caiu de joelhos. A criatura avançava, completamente imparável. Bolozera observava horrorizado. A Sereia virou a cabeça. E viu algo. Apartamento. O pequeno coelho ainda estava dentro da caixa de papelão na calçada. Um sorriso cruel surgiu na face monstruosa. Ela pegou uma pedra grande do chão.


— Vamos ver quanto amor realmente existe nessa almôndega…


E arremessou a pedra com força brutal.


— Apartheid!


Bolozera gritou. Ele correu. Se jogou na frente da caixa. Empurrou Apartamento para longe com as duas mãos. O coelho rolou pela calçada. Mas a pedra atingiu Bolozera em cheio. O pequeno bolinho foi esmagado contra o chão com um som seco. Seu corpo ficou imóvel no asfalto. A pedra parada sobre ele. A rua ficou silenciosa por um instante. E Apartamento, tremendo a poucos metros de distância, assistia. Bittencourt viu a pedra esmagar Bolozera. Por um segundo ele ficou imóvel. O cérebro demorou a processar. Depois veio a raiva.


— Eu vou te matar, sua vagabunda!


Ele correu, deu dois passos e saltou no ar, girando o corpo em um movimento completamente improvisado e falho. O calcanhar de Bittencourt acertou o rosto da Sereia da Montanha, fazendo sua cabeça grotesca girar violentamente para o lado. Mas aquilo só a deixou mais furiosa. Um tentáculo grosso chicoteou o ar. Bittencourt foi atingido no peito e lançado vários metros pela rua, rolando pelo asfalto até parar perto de Vinícius e da picape amassada.


Enquanto isso, Vinícius tentava se levantar. A Sereia avançava. Mas então algo estranho aconteceu. Debaixo da pedra, os restos de Bolozera começaram a se mover. Primeiro veio um brilho. Uma luz quente, dourada e avermelhada, como o reflexo de um pôr do sol passando por molho espesso. Pequenos fragmentos de carne começaram a se puxar uns aos outros, deslizando pelo chão como se fossem atraídos por uma incrível força invisível. A pedra começou a vibrar. Ela se partiu. Os pedaços de Bolozera se juntaram no centro da rua. Molho escuro começou a se condensar no ar como partículas luminosas. Então, lentamente, Bolozera se levantou.


Mas não era exatamente o mesmo. Seu corpo agora brilhava suavemente, como se uma energia viva pulsasse dentro dele. O molho que escorria de sua superfície parecia incandescente, formando veios luminosos que percorriam seu pequeno corpo. Seus olhos estavam firmes. Determinados. Ele levantou um braço. O molho começou a girar ao redor do braço como um tornado viscoso de energia culinária. O ar vibrou. Uma pressão invisível tomou conta da rua. Então Bolozera disparou. Uma rajada colossal de molho de carne concentrado saiu de seu braço como um jato explosivo, atravessando o ar com força absurda. O impacto atingiu a Sereia da Montanha diretamente no peito. O molho brilhoso queimava como ácido quente. Os tentáculos da criatura se contorceram, e ela caiu de joelhos.


— Torresminho! — gritou ela desesperada. — Não me mate antes de procriar comigo!


Bolozera avançou lentamente. Ainda brilhando. A energia do molho pulsava ao redor dele como uma aura. Ele respondeu com calma.


— Eu não vou matar você.


Ele estendeu a mão. A energia aumentou.


— Mas vou te devolver para o lugar de onde você veio.


O molho ao redor dele se condensou em uma onda massiva de força.


— E nunca mais venha nos perturbar!


Com um gesto simples, a onda de energia explodiu para frente. A Sereia foi lançada pelo ar como um projétil, atravessando carros estacionados e placas da rua enquanto era empurrada pela rajada viscosa. Ela rapidamente desapareceu no horizonte como um ponto distante. E, por uma coincidência absurda do destino, foi arremessada de volta para o Deserto de Gergelim, explodindo em uma nuvem de molho no meio das dunas e montanhas.


Na rua, o silêncio voltou. Bolozera ainda brilhava suavemente. Vinícius olhava boquiaberto. Bittencourt, caído perto da picape, murmurou:


— Bolinho, que porra foi essa?


O brilho que envolvia Bolozera começou a enfraquecer. A aura de molho luminoso que antes girava ao redor de seu corpo foi se dissipando lentamente, evaporando no ar como vapor quente. As veias brilhantes desapareceram uma a uma, e a energia que o sustentava pareceu abandonar seus músculos. Ele cambaleou. Deu dois passos incertos, e então caiu de joelhos no asfalto quebrado. Seu pequeno corpo tremia de exaustão. O esforço havia drenado tudo dele. Do outro lado da rua, Bittencourt se levantava com dificuldade, esfregando o peito dolorido. Vinícius também conseguiu ficar de pé, ainda zonzo depois do golpe dos tentáculos. Os dois correram até o amigo.


— Ei, bolinho! — perguntou Vinícius, preocupado. — Você está bem?


Bolozera respirou fundo algumas vezes. Então se levantou devagar. Sem responder de imediato, ele apenas bateu duas palmas. E soltou um assobio curto e peculiar. Por alguns segundos nada aconteceu. Então um pequeno vulto branco e felpudo surgiu correndo pela calçada. Apartamento. O coelhinho saltou no ar e pousou direto nas mãos de Bolozera.


— Oi, Apartamento… — murmurou ele, abraçando o animal com carinho.


O coelho tremia, mas parecia feliz por estar seguro. Bolozera se sentou no meio da rua, ainda ofegante, enquanto Bittencourt e Vinícius se acomodavam ao lado dele. Os três ficaram em silêncio, apenas observando o cenário.


A rua parecia um campo de guerra. O asfalto estava rachado em várias partes. Carros estavam tombados de lado. Andaimes de obras estavam tortos, pendendo perigosamente. Janelas dos prédios estavam trincadas. E espalhados pela rua estavam os corpos dos inimigos que haviam acabado de enfrentar. Vinícius coçou a cabeça. Ele olhou para a picape vermelha, completamente amassada mas ainda inteira. O rinoceronte inclinou a cabeça, analisando a situação.


— Gente… — disse ele, pensativo.


Bittencourt olhou para ele.


— O quê?


Vinícius apontou para o veículo.


— Se a gente arrumar uma coisa aqui, e outra ali…


Ele cruzou os braços.


— Acho que dá pra ficar com essa picape.


Silêncio. Bolozera olhou para a picape. Bittencourt também. Parecia plausível. Mas naquele exato momento, um rangido metálico ecoou acima deles. Os três levantaram a cabeça. O andaime torto de uma obra próxima começou a balançar lentamente. O andaime inteiro despencou sobre a picape. A estrutura de metal esmagou o veículo com violência absurda. A carroceria se dobrou no meio. O motor saltou para fora. E a picape ficou literalmente partida em duas metades. Silêncio absoluto. Vinícius olhou para os destroços. Piscou. Suspirou profundamente.


— É, acho que agora não dá mais.


O resto daquele dia foi um inferno burocrático. A destruição na rua de Porto Legal atraiu rapidamente polícia, fiscais urbanos, peritos do Ministério da Ordem Pública, auditores da prefeitura e até um representante do Departamento de Catástrofes Incomuns da Pangeia, órgão responsável por incidentes que envolviam explosões inexplicáveis, criaturas monstruosas ou eventos classificados como absolutamente absurdos. Em poucas horas, o caso já havia virado um processo administrativo gigantesco. Testemunhas foram ouvidas. Relatórios foram escritos. Fotos foram tiradas. E, inevitavelmente, alguém perguntou:


— Quem causou isso tudo?


Foi então que Vinícius tomou uma decisão. Na manhã seguinte, ele apareceu no tribunal municipal vestindo um terno apertado, óculos de leitura falsos e segurando uma pasta cheia de papéis igualmente falsos. Dentro da pasta havia um diploma de Direito completamente falsificado, emitido pela prestigiosa e totalmente inexistente "Universidade Jurídica de Bertioga & Associados". E assim nasceu o Doutor Vinícius Bertioga Ramalho. Durante horas, Vinícius conduziu a defesa de Bolozera com uma convicção surpreendente.


— Meritíssimo — declarou ele em determinado momento, batendo a pata na mesa — meu cliente não pode ser responsabilizado.


O juiz olhou por cima dos óculos.


— Por quê?


Vinícius abriu um documento.


— Porque tecnicamente ele não tem nem um ano de idade.


Silêncio no tribunal. O promotor piscou algumas vezes. O juiz folheou os papéis. De fato, nos registros recém-criados do pequeno bolinho, constava que Bolozera era biologicamente equivalente a uma criança. O juiz suspirou.


— Então o réu é menor de idade.


— Exatamente — confirmou Vinícius, sério.


Após mais algumas horas de discussões jurídicas extremamente confusas, o veredito finalmente foi anunciado. Bolozera estava oficialmente inocentado de responsabilidade criminal. Mas algumas condições foram impostas. Devido ao potencial destrutivo demonstrado, Bolozera deveria tomar calmantes cinco vezes ao dia para evitar novos episódios de explosões de poder. O trio deveria pagar uma multa de duas mil unipanges pelos danos causados à rua, aos carros, aos andaimes e a uma placa de sinalização que havia sido arremessada para dentro de uma padaria.


Vinícius e Bittencourt receberam a guarda compartilhada de Bolozera, sendo oficialmente registrados como seus responsáveis legais. Bolozera recebeu um documento oficial de residente da Pangeia, com direito a moradia, alimentação e acesso ao transporte público. Quando o julgamento terminou, os três saíram do prédio do tribunal juntos. Bolozera segurava Apartamento nos braços.


— Então agora eu moro aqui de verdade? — perguntou ele, curioso.


Bittencourt acendeu um cigarro.


— Agora mora.


Vinícius ajustou o falso paletó de advogado.


— E aparentemente eu sou advogado agora.


Bolozera sorriu.


— Eu gostei disso.


Eles caminharam juntos pela rua. O sol começava a se pôr sobre Porto Legal. E apesar de monstros, explosões, tribunais e multas. A vida do trio improvável seguia estranhamente normal. Um dia depois, Porto Legal já parecia ter esquecido o caos dos dias anteriores. Operários recolocavam placas, guinchos removiam carros destruídos e equipes da prefeitura fingiam que aquilo tudo era apenas mais um incidente urbano comum.


Para Bolozera, porém, a vida já havia voltado completamente ao normal. Naquela manhã, ele caminhava animado pela Rua Dezesseis, até chegar novamente à unidade do Rei da Chapa onde tudo havia começado. Ele empurrou a porta do restaurante com determinação.


— Hoje eu vou falar com a Kimberly — murmurou para si mesmo.


Ele ainda estava levemente ofendido. Afinal, ela tinha recebido o convite para o open house, e mesmo assim não apareceu. Mas ao entrar no restaurante, algo chamou sua atenção. Um cartaz improvisado estava preso no balcão anunciando uma vaga de atendente. Bolozera inclinou a cabeça.


— Ué…


Ele olhou ao redor procurando por Kimberly. Nada. A barracuda gótica simplesmente não estava mais ali. No balcão havia apenas um funcionário entediado, limpando copos com um pano sujo. Bolozera pensou por alguns segundos. Então teve uma ideia mirabolante. Talvez, se ele conseguisse trabalhar ali, talvez também conseguisse um moicano incrível como o dela. Determinado, ele caminhou até o balcão e colocou sobre ele um papel. Era um currículo completamente vazio. Sem nome. Sem experiência. Sem nada. O funcionário pegou o papel. Olhou. Virou de cabeça para baixo. E então simplesmente o jogou de lado sem dizer absolutamente nada. Em seguida, ele pegou Bolozera com as duas mãos.


— Vem cá.


Antes que o pequeno bolinho entendesse o que estava acontecendo, ele já estava sendo levado para a cozinha. A porta se abriu. Calor. Gordura. Barulho de chapa. O funcionário ergueu Bolozera e o colocou diretamente sobre a chapa quente. Fumaça começou a subir ao redor dele. Mas Bolozera não parecia incomodado. Pelo contrário.


— Nossa! Que quentinho!


Ele olhou ao redor, curioso com o ambiente da cozinha. Então percebeu algo pela pequena janela que conectava a cozinha ao salão da lanchonete. Sentados em uma mesa, estavam Pablo e Antônio. Bolozera arregalou os olhos. Ele saltou da chapa e saiu correndo pela cozinha. Empurrou a porta. E atravessou o restaurante em disparada. Os dois mal tiveram tempo de reagir antes que Bolozera pulasse nos braços deles em um abraço apertado. Pablo riu.


— Bolinho!


Antônio também o abraçou, feliz.


— Que surpresa!


Os três começaram a conversar animadamente, rindo como velhos amigos que não se viam havia muito tempo. Mas, do outro lado da lanchonete, duas figuras observavam tudo em silêncio. Sentadas em uma mesa no canto mais escuro do salão. Ambas encapuzadas. Uma delas apontou discretamente para Bolozera.


— Veja, Alfândega. É ele.


A segunda figura levantou o braço e apontou diretamente para o pequeno bolinho.


— Aquele ali, papai?


O primeiro encapuzado deu um leve tapa na mão dele.


— Sim, Alfândega. É ele.


Ele olhou ao redor com cuidado.


— E pare de apontar, idiota.


Alfândega abaixou o braço imediatamente.


— Tá bom, papai.


Os dois permaneceram nas sombras. Observando. Sem desviar os olhos de Bolozera nem por um segundo. Enquanto isso, no centro da lanchonete, o pequeno bolinho ria junto de seus amigos, completamente alheio aos olhares que o seguiam. Mas algo estava claro. Alguém estava interessado nele. E o que quer que estivesse começando ali, ainda estava longe de terminar.

 
 
Capítulo III: Justiça por Conta Própria

A noite havia caído sobre Porto Legal. As luzes da cidade brilhavam ao longe enquanto o zoológico municipal permanecia aberto em regime noturno, iluminado por refletores frios que criavam sombras long

 
 

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