Capítulo III: Justiça por Conta Própria

Atualizado: 22 de ago.
A noite havia caído sobre Porto Legal. As luzes da cidade brilhavam ao longe enquanto o zoológico municipal permanecia aberto em regime noturno, iluminado por refletores frios que criavam sombras longas entre as jaulas e passarelas. E era ali que o trio estava disfarçado. Ou pelo menos tentando. Perto do portão lateral de serviço, Bittencourt empurrava um carrinho de limpeza enferrujado. Ele vestia um uniforme de faxineiro que claramente não era dele. Calça larga demais, botas um número menor e um crachá pendurado no peito com o nome Roberto, da limpeza noturna.
Dentro de um balde de lixo no carrinho, completamente escondido sob uma tampa torta, estava Bolozera. E alguns passos atrás vinha Vinícius, vestido com roupas de uma senhora idosa. Vestido floral antigo, xale gasto e um chapéu de feltro torto. A imagem de um rinoceronte de quase duas toneladas andando como uma velhinha era perturbadora. Eles se esconderam atrás de uma cabine de manutenção. Bittencourt começou a explicar o plano em voz baixa.
— Seguinte… — disse ele, olhando ao redor para garantir que ninguém estivesse ouvindo. — Eu e o Bolozera vamos até a sala de controle.
Ele apontou para um prédio administrativo no centro do zoológico.
— Lá dentro com certeza deve ter um funcionário da vigilância que controla as portas das jaulas.
Ele fez um gesto simples com a mão.
— A gente mata o funcionário.
A tampa do balde levantou um pouco. A cabeça de Bolozera apareceu.
— Outro?
Vinícius virou a cabeça imediatamente.
— Calma… — disse ele, alarmado. — Como assim outro?
Bittencourt soltou um suspiro cansado.
— Onde você acha que eu consegui essa roupa?
Ele puxou o uniforme de faxineiro com os dedos. Vinícius arregalou os olhos.
— Cacete, isso não justifica ficar matando os funcionários como se não fosse nada!
Bittencourt cruzou os braços atrás das costas.
— Ah é?
Ele inclinou a cabeça.
— E onde foi que você conseguiu essas roupas de velha?
Vinícius respondeu imediatamente, como se fosse a coisa mais lógica do mundo.
— Fiz o mais lúcido.
Ele apontou para o próprio vestido.
— Eu entrei em um cemitério, cavei uma cova recém-enterrada, e roubei as vestes de um defunto de uma idosa.
Bittencourt olhou para Vinícius. Vinícius olhou para Bittencourt. Bolozera continuava com a cabeça para fora do balde. Os três se encararam. O vento da noite passou pelas árvores do zoológico. Nenhum deles disse nada. Finalmente, Bolozera quebrou o momento.
— Então… — disse ele calmamente. — Vamos libertar os bichinhos?
Bittencourt passou a mão pelo rosto, como se tentasse reorganizar os próprios pensamentos depois daquela sequência absurda de revelações. Ele respirou fundo.
— Enfim… — disse, voltando ao plano. — Entraremos na sala de controle, matamos o funcionário e abrimos todas as jaulas.
A tampa do balde balançou levemente enquanto Bolozera escutava. Vinícius arregalou os olhos.
— E eu, caralho?!
Bittencourt virou-se para ele com um gesto impaciente.
— Você chama atenção demais, Vini.
Ele apontou para o rinoceronte vestido de senhora idosa.
— Um rinoceronte de duas toneladas usando vestido floral não é exatamente discreto.
Vinícius olhou para o próprio corpo. Depois para o chapéu. Depois para a pata extra pendurada na costela. Ele não respondeu. Bittencourt continuou:
— Fica por aqui.
Ele apontou para um banco de ferro perto de um poste de iluminação.
— Qualquer coisa você avisa a gente.
Antes que Vinícius pudesse reclamar novamente, o hippie já estava correndo pelo caminho de serviço, empurrando o velho carrinho de limpeza que rangia alto nas rodas tortas. Dentro do balde, Bolozera levantou a tampa só o suficiente para olhar para trás.
— Boa sorte, Vini!
A tampa caiu novamente. O carrinho desapareceu pela trilha escura em direção ao prédio administrativo onde ficava a sala de controle do zoológico. Vinícius ficou sozinho. Ele olhou para um lado. Depois para o outro. Algumas jaulas próximas estavam silenciosas. Uma zebra dormia de pé. Uma coruja observava tudo de dentro de uma árvore. Suspirando, o rinoceronte caminhou até o banco indicado e se sentou com um peso que fez o metal gemer. Ele ajeitou o vestido da senhora morta. Ajustou o chapéu. E ficou ali. Esperando. Ansioso. Torcendo para que os dois amigos não demorassem, e que o plano deles não fosse tão idiota quanto parecia.
Bittencourt abriu a porta da sala de controle com cuidado. A luz fluorescente iluminava o pequeno cômodo cheio de monitores que exibiam as diversas jaulas do zoológico. O ar cheirava a doce artificial e açúcar industrial. Sentado diante da mesa estava o funcionário da vigilância, completamente distraído. Ele jogava no celular enquanto mastigava um pacote de Baunilhetes e bebia um copo gigantesco de vitamina da Pura Polpa. Sem sequer olhar para trás, respondeu automaticamente:
— Boa noite.
Bittencourt entrou empurrando o carrinho de limpeza.
— Boa noite.
Ele pegou o esfregão e começou a passar no chão com naturalidade, como se realmente fosse um funcionário da limpeza. Atrás dele, lentamente, a tampa do balde de lixo se levantou. Bolozera emergiu devagar, tomando cuidado para não fazer barulho. O pequeno bolinho saiu do balde e caminhou pelas pontas dos pés até a cadeira do vigilante. Com toda a delicadeza possível, começou a puxar a cadeira para trás. Quando o funcionário finalmente percebeu o movimento, virou a cabeça. Bolozera levantou o dedinho, sério.
— Sem um piu, mocinho!
O homem ficou olhando para ele. Silêncio. Então ele começou a gargalhar.
— Não é possível!
Apontou o dedo para Bolozera, completamente incrédulo.
— Que porra é essa?!
Bolozera ficou magoado. Ele abaixou um pouco a cabeça. Foi então que Bittencourt agiu. Sem pressa. Sem hesitação. Ele puxou uma sacola plástica do carrinho de limpeza e, num movimento rápido, enfiou-a na cabeça do funcionário, puxando para trás ao mesmo tempo que aplicava um mata-leão firme. O vigilante entrou em pânico imediatamente. As mãos começaram a se debater. As pernas bateram na mesa. Os monitores balançaram.
— Socorro!— abafou ele através do plástico.
Bolozera observava tudo com curiosidade.
— Bitt… — perguntou ele, perplexo. — O que ele tá fazendo?
Bittencourt apertou mais o braço ao redor do pescoço do homem. Com um tom frio e tranquilo, respondeu:
— Ele está dançando, bolinho.
O vigilante se debatendo violentamente.
— Como se fosse a última dança da vida dele.
Os olhos de Bolozera brilharam.
— Nossa!
Ele bateu palmas.
— É a minha dança favorita!
Empolgado, o bolinho se jogou no chão e começou a imitar os movimentos, se contorcendo e chutando o ar como se estivesse participando da coreografia. Enquanto isso, atrás da mesa, a luta foi diminuindo. Os movimentos do vigilante ficaram mais fracos. As mãos caíram. O corpo ficou pesado. Bittencourt manteve o aperto por mais alguns segundos. Até sentir o último suspiro. Ele soltou o corpo. O funcionário caiu mole na cadeira e depois escorregou para o chão. Silêncio. Bittencourt olhou para Bolozera ainda dançando no chão. Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca.
— Pronto.
A sala de controle agora estava livre. E todas as jaulas do zoológico estavam a um comando de distância de se abrir. Os dois se aproximaram do grande, e confuso, painel de controle. Era um console cheio de botões coloridos, telas piscando, alavancas metálicas e indicadores luminosos. Cada botão tinha etiquetas técnicas completamente incompreensíveis. Bittencourt ficou olhando para aquilo. Bolozera também. Depois de alguns segundos, Bittencourt coçou a cabeça.
— Bolinho, você sabe usar isso?
Bolozera olhou atentamente para o painel. Piscou duas vezes.
— Não.
Bittencourt suspirou.
— Nem eu.
Ele começou a apertar alguns botões aleatórios. Nada aconteceu. Bolozera tentou puxar uma alavanca. Também nada. Foi então que Bittencourt viu um pequeno botão com um ícone de microfone. Ele apertou. Uma luz azul acendeu no topo do painel. Uma voz robótica ecoou na sala.
— Comando por voz ativado.
Bittencourt abriu um sorriso confiante.
— Beleza.
Ele apontou para o teto como um general dando ordens.
— Libera a galera!
Silêncio. Por um segundo nada aconteceu. Então, o teto da sala se abriu e começou a despejar dezenas de panelas metálicas que caíram violentamente sobre Bittencourt.
— Sai fora, cacete!
Panelas bateram na cabeça dele. Nos ombros. Nas costas. Uma frigideira atingiu diretamente sua testa. Bolozera observava horrorizado enquanto o hippie era soterrado por utensílios domésticos. O sistema anunciou calmamente:
— Panelas liberadas.
Bittencourt emergiu da pilha de panelas completamente machucado.
— Que porra foi essa, sua desinteligência artificial do caralho?!
Bolozera imediatamente ficou ofendido. Ele deu um tapinha no braço de Bittencourt.
— Bitt, que falta de respeito! Você não é assim!
Bittencourt respirava pesado, completamente frustrado. Sem saber o que fazer, ele olhou para o cadáver do funcionário no chão. Então teve um acesso de raiva. Ele pegou o funcionário morto pelos braços, puxou até perto, e esfregou o próprio ânus no rosto do cadáver.
— Tá gostando, seu filho de uma puta?!
Bolozera decidiu intervir. Ele caminhou calmamente até o console. Colocou as mãos nas costas com educação. E falou com voz gentil.
— Desculpe por ele, senhor computador. Você poderia soltar os animais, por favor?
O sistema respondeu imediatamente.
— Soltando os animais.
Pelo zoológico inteiro, travas eletrônicas destravaram. Portões se abriram. Grades se levantaram. Jaulas deslizaram. Em poucos segundos, todas as jaulas do zoológico estavam abertas ao mesmo tempo. Lá fora, o caos começava. Na praça central do zoológico de Porto Legal, Vinícius permanecia sentado no banco de ferro, inquieto. As luzes amarelas dos postes iluminavam os caminhos de pedra enquanto o som distante de animais noturnos ecoava pelo parque. Impaciente, ele se levantou e ajeitou o vestido floral da senhora morta, puxando o xale sobre os ombros. O chapéu estava torto.
— Tomara que esses dois não façam nenhuma merda… — murmurou.
Foi então que um garoto adolescente passou correndo pelo caminho. Ao ver aquela velhinha enorme ao lado do banco, o jovem abriu um sorriso malicioso. E deu um tapa no traseiro de Vinícius.
— E aí, coroa rabuda!
Vinícius congelou por meio segundo. Depois se transformou de uma vez. Virou-se com o rosto vermelho de indignação e, mantendo a voz da personagem, respondeu furioso:
— Seu moleque de merda!
Ele apontou o dedo para o garoto.
— Eu sou uma porra de uma senhora de idade! Eu exijo mais respeito, seu crápula!
O garoto começou a rir. Mas Vinícius parou de falar de repente. Algo estranho estava acontecendo. Portões metálicos começaram a se abrir ao redor da praça. Grades subiram. Travas se destravaram. As jaulas do zoológico estavam abrindo uma após a outra. Vinícius arregalou os olhos.
— Conseguiram…
Ele voltou a olhar para o garoto. Sem dizer mais nada, deu um chute brutal na virilha do adolescente.
— Respeite os idosos!
O jovem caiu no chão chorando. Vinícius se virou e rapidamente saiu correndo. E então o caos começou. De todas as direções, os animais começaram a sair das jaulas. Zebras dispararam pelas trilhas. Macacos saltaram pelos postes. Um grupo de flamingos invadiu uma lanchonete. Um tigre atravessou correndo a praça, derrubando uma máquina de pipoca. Funcionários gritavam. Visitantes corriam desesperados. Carrinhos de pipoca tombaram. Bancos foram derrubados. Um alce atravessou uma loja de brindes. E no meio daquela fuga em massa, Vinícius corria pelo zoológico vestido de senhora idosa, enquanto a maior libertação de animais da história de Porto Legal acontecia ao redor dele.
Na confusão generalizada do zoológico, um orangotango enorme escapou de sua jaula e saiu correndo pela praça principal como um furacão de pelos alaranjados. Ele batia no peito e berrava para todos os lados:
— Putaria! Putaria! Putaria!
Visitantes gritavam e se jogavam atrás de bancos e lixeiras. O símio saltou sobre um quiosque de algodão-doce, derrubando tudo, e então avistou uma mulher empurrando um carrinho de bebê tentando fugir da multidão. Num salto violento, ele aterrissou na frente dela. A mulher mal teve tempo de reagir. O orangotango desferiu um soco que a derrubou no chão. Ela caiu de lado, atordoada, enquanto o símio cuspia em sua direção com desprezo. Ele então se inclinou sobre o carrinho. Olhou para dentro. Parou. Dentro estava apenas um bebê recém-nascido. Os olhos do orangotango se arregalaram. Ele pegou o bebê pelo pé, levantou-o acima da cabeça e arremessou-o contra o chão, matando a criança em um único impacto. Sem demonstrar o menor remorso, ele agarrou o carrinho vazio. O símio começou a bolinar o carrinho de forma descontrolada, berrando novamente:
— Putaria!
A mulher, ainda tonta, tentou se levantar e atacá-lo em desespero. Mas o orangotango era muito mais forte. Com um empurrão brutal ele a derrubou novamente no chão, deixando-a sem forças para continuar reagindo. Logo depois, o animal abandonou o carrinho destruído e saiu correndo novamente pelo parque, desaparecendo entre as árvores enquanto continuava a gritar para o caos do zoológico.
— Putaria! Putaria! Putaria!
Ao redor dele, o zoológico inteiro havia se transformado em um cenário de fuga e destruição, com animais correndo livres, visitantes desesperados e funcionários completamente incapazes de controlar a situação. No meio do zoológico em colapso, a porta da sala de controle se abriu. Bittencourt saiu primeiro, ainda com o uniforme de faxineiro amassado e alguns hematomas das panelas que haviam caído sobre ele. Logo atrás veio Bolozera. O pequeno bolinho parou no meio do caminho e olhou ao redor. A cena era muito diferente do que ele havia imaginado. Jaulas abertas. Animais correndo em todas as direções. Visitantes gritando. Funcionários tentando fugir. Um grupo de ursos esfomeados cercava um homem idoso perto de um quiosque destruído, enquanto outras pessoas tentavam escapar do caos. Bolozera ficou imóvel. Seus olhos começaram a se encher de lágrimas.
— O que é isso?
A voz dele tremia.
— Era para estar todo mundo feliz…
Bittencourt olhou ao redor com expressão cansada, como quem já esperava que aquilo acontecesse. O som de passos pesados se aproximou. Era Vinícius, agora sem o vestido de senhora idosa. Ele vinha correndo entre os caminhos do zoológico, respirando forte.
— Vocês abriram tudo mesmo?! — perguntou ele.
Bolozera não respondeu. Ele continuava olhando a destruição ao redor. Vinícius percebeu o estado do amigo. Bittencourt também. O hippie suspirou e colocou uma mão no ombro do bolinho.
— Vamos, bolinho.
Ele falou com um tom mais gentil.
— Sei como te deixar feliz.
Bolozera enxugou os olhos. Vinícius também colocou a mão no ombro dele.
— A gente tentou ajudar… — disse o rinoceronte. — Às vezes as coisas ficam meio bagunçadas.
Os três começaram a caminhar em direção à saída do zoológico. Atrás deles, o caos continuava crescendo. Animais correndo. Sirenes começando a tocar ao longe. Vários Funcionários tentando fechar os portões. Mas ninguém no trio percebeu algo importante. Entre as árvores próximas da praça, dois olhos brilhavam na escuridão. Era o orangotango. O símio os havia visto. Ele estava escondido atrás de um tronco grosso, observando com atenção.
Quando Bolozera passou por um feixe de luz do poste, o orangotango inclinou a cabeça. O cheiro de carne. De gordura. De alimento. A saliva começou a escorrer lentamente pelo canto de sua boca. O animal sorriu. Em silêncio absoluto, ele começou a seguir os três pelas sombras, movendo-se entre árvores e cercas quebradas. Ele estava esperando, observando, e planejando. E sem que percebessem, aquela pequena almôndega viva agora havia se tornado uma presa.