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Capítulo III: A porta da rua é a serventia da casa

  • Foto do escritor: Vincente R. da Silva
    Vincente R. da Silva
  • 26 de fev.
  • 8 min de leitura

Bittencourt entrou em seu quarto e fechou a porta atrás de si com um suspiro pesado, daqueles que parecem carregar o cansaço de um dia inteiro nas costas. O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca que entrava pela janela. Ele caminhou até o espelho. Devagar. Começou a tirar o pijama, peça por peça, com movimentos lentos, quase mecânicos, como se cada pedaço de tecido estivesse impregnado com o peso do dia que havia acabado de atravessar. A camisa caiu primeiro. Depois a calça. Por fim, ele ficou completamente nu diante do espelho. Bittencourt ergueu o olhar para o próprio reflexo. Seu rosto estava rígido. Os olhos escuros e cansados desceram lentamente pelo próprio corpo até pararem onde sempre paravam. Logo abaixo do abdômen. Ali estava a cicatriz. Uma marca pálida e circular, atravessando a pele como um lembrete permanente do pênis que já esteve ali e que agora existia apenas como memória.


A pele ao redor parecia normal, mas aquela pequena região carregava um silêncio pesado, quase simbólico. Era uma cicatriz relativamente antiga. Mas ainda parecia recente na cabeça dele. Bittencourt respirou fundo. Os pensamentos começaram a girar dentro da mente como sempre acontecia quando ele ficava sozinho. Ele passou a mão sobre a cicatriz. A textura irregular e enrugada da pele. O vazio que ela representava. E então falou, não para ninguém, apenas para o reflexo no espelho. Um ritual que parecia se repetir em noites como aquela.


— É isso, né, Bittencourt?


A voz saiu baixa. Cansada.


— Aqui estamos nós outra noite.


Ele inclinou levemente a cabeça, olhando o próprio rosto como se estivesse analisando um estranho.


— Enquanto o Vinícius, o otário do Vinícius, tá lá fora dizendo que pelo menos ele tem um pênis.


Um sorriso amargo apareceu no canto da boca. Ele voltou a tocar a cicatriz.


— Eu tenho isso aqui.


A mão deslizou lentamente sobre a marca.


— Essa droga de lembrança.


O silêncio do quarto parecia absorver cada palavra. Ele respirou fundo novamente, como se estivesse tentando reorganizar os próprios pensamentos.


— Mas talvez… — murmurou — talvez eu não precise disso pra ser quem eu sou.


Os olhos voltaram ao espelho.


— Certo?


Ele ficou parado. Esperando. Como se o reflexo pudesse responder.


— Certo.


A palavra saiu mais firme desta vez. Quase como uma tentativa de convencer a si mesmo.


— Quem precisa de um pênis pra ser alguém decente, afinal?


O quarto permaneceu silencioso. As palavras pairaram no ar escuro, amargas e frias, enquanto Bittencourt continuava ali diante do espelho, encarando o próprio reflexo como alguém que ainda estava tentando entender exatamente quem era, e quem ainda podia se tornar. Um impulso repentino atravessou o corpo de Bittencourt como um curto-circuito emocional. Sem pensar, ele fechou a mão em um punho e desferiu um soco contra a parede.


A dor explodiu imediatamente nos nós dos dedos, irradiando pelo braço como uma faísca elétrica. O impacto fez o quadro torto na parede tremer levemente. Bittencourt não recuou. Ficou ali, com o punho ainda encostado na parede, respirando pesado. Os olhos começaram a arder. E então vieram as lágrimas. Primeiro silenciosas. Depois mais pesadas. Ele abaixou a cabeça e finalmente se permitiu desabar, como se toda a tensão acumulada do dia, talvez de muito mais tempo do que apenas um dia, estivesse escapando de uma vez. Por alguns minutos ele permaneceu ali, curvado, segurando a mão machucada enquanto respirava fundo, tentando reorganizar os pensamentos. A dor no punho latejava. O choro foi diminuindo aos poucos. Até virar apenas um murmúrio cansado de tristeza.


Depois de algum tempo, Bittencourt se recompôs. Caminhou até o armário e abriu uma das gavetas, procurando entre alguns frascos antigos até encontrar a velha pomada que sempre mantinha ali. Ele voltou até o espelho. Com cuidado, aplicou o produto sobre a cicatriz abaixo do abdômen. O frescor anestésico da pomada se espalhou pela pele, trazendo um leve alívio físico, talvez mais simbólico do que real. Ele respirou fundo. De forma quase automática, terminou seu pequeno ritual noturno de cuidado consigo mesmo, massageando e posteriormente lustrando o próprio saco escrotal, como alguém tentando preservar um mínimo de dignidade no meio do caos emocional. Depois fechou o frasco. Vestiu novamente o pijama. A luz do quarto foi apagada por completo. Bittencourt caminhou até a cama e se deitou lentamente, os músculos finalmente começando a ceder ao cansaço. Seus olhos estavam pesados. Mas a mente ainda vagava. As lembranças do dia giravam lentamente dentro da cabeça. Ele virou o rosto para o lado do travesseiro. Fechou os olhos. Desejando apenas um pouco de paz no sono.


No meio da madrugada, o apartamento estava mergulhado em silêncio. As luzes estavam apagadas. O prédio inteiro parecia adormecido. Apenas alguns ruídos ocasionais, o vento passando pela janela, e um cano distante vibrando dentro das paredes quebravam a quietude. No quarto de Bittencourt, ele dormia profundamente. O cansaço do dia havia finalmente vencido sua mente inquieta. Ele estava deitado de lado, o rosto parcialmente enterrado no travesseiro, respirando pesado, a boca levemente aberta, um fio de saliva brilhando discretamente à luz fraca que entrava pela janela. Ele não fazia ideia do que estava prestes a acontecer.


A porta do quarto rangeu suavemente. A abertura foi lenta. Cuidadosa. E então uma pequena silhueta entrou. Era Nathan. O pato caminhou até a cama com passos estranhamente silenciosos. Seus olhos tinham aquela mesma expressão vazia, distante, quase sonâmbula que às vezes aparecia quando ele parecia estar funcionando em algum tipo de piloto automático mental. Sem dizer nada. Sem qualquer hesitação. Ele subiu na cama. E ficou parado por um instante, olhando para Bittencourt adormecido. Então a tragédia aconteceu. Nathan começou a defecar dentro da boca de Bittencourt. O contato foi imediato. O gosto amargo. A sensação quente e inesperada. O cérebro de Bittencourt levou apenas uma fração de segundo para sair do sono profundo e entrar em estado de pânico absoluto. Ele acordou de forma brutal.


— Mas que porcaria é essa?!


Bittencourt se levantou se debatendo na cama, cuspindo freneticamente enquanto tentava limpar a boca com as mãos, completamente tomado por uma mistura de nojo, horror e incredulidade. Foi então que ele percebeu. Nathan. Em cima da cama. O entendimento veio como um choque elétrico. O reflexo foi imediato. Bittencourt desferiu um soco instintivo. O golpe acertou Nathan em cheio. O pato foi lançado para fora da cama e caiu no chão com um impacto seco. Nathan rolou pelo piso do quarto, batendo as asas de forma descoordenada enquanto soltava um grasnado agudo e dolorido. Ele se contorcia no chão, tentando recuperar o ar. As asas batiam contra o chão. O som ecoava pelo quarto escuro. Bittencourt ficou sentado na cama, completamente paralisado de horror. Ele levou as mãos ao rosto, tentando limpar qualquer vestígio do que havia acabado de acontecer.


O estômago se revirava violentamente. A mente ainda lutava para aceitar aquela sequência absurda de eventos. Ele cuspia repetidamente, quase em desespero. No chão, Nathan continuava grasnando, rolando de um lado para o outro em um pequeno caos de penas e dor. O som ecoava pelo apartamento silencioso. Um lembrete grotesco e surreal da situação. Bittencourt permaneceu ali por alguns segundos que pareceram uma eternidade. Entre a repulsa. O choque. E a crescente sensação de que a sanidade daquele lugar estava finalmente se aproximando do limite absoluto.


O grasnado agonizante de Nathan ecoava pelo apartamento como um alarme absurdo no meio da madrugada. O som atravessou o corredor. Segundos depois, a porta do quarto de Bittencourt se escancarou. Ali estava Bolozera. Ele vestia um pijama amassado e pantufas rosas, os olhos ainda meio fechados de sono, mas visivelmente arregalados de preocupação. Seu rosto tinha aquela expressão clássica de quem foi arrancado do sono profundo e ainda estava tentando entender se aquilo era um pesadelo ou apenas mais uma noite normal naquela casa. Atrás dele apareceu Apartamento. O coelho estava usando uma touca de cetim, e nas mãos segurava uma espingarda, apontada para dentro do quarto com a seriedade de quem estava pronto para enfrentar qualquer ameaça imaginável. Invasores, fantasmas, ou talvez mais um colapso mental coletivo. Bolozera olhou em volta. Bittencourt sentado na cama. Nathan contorcendo-se no chão.


— Galera? — murmurou ele, ainda tentando acordar. — O que está acontecendo?


Bittencourt virou lentamente a cabeça. O rosto dele ainda estava contorcido de nojo, os olhos vermelhos, a respiração pesada. Ele limpou a boca mais uma vez com a manga do pijama. E respondeu com um tom grave, carregado de humilhação.


— Esse pato maldito cagou na minha boca.


Um silêncio estranho pairou no quarto.


— Foi isso que aconteceu.


Bolozera piscou. Uma vez. Duas vezes. Ele olhou para o chão. Nathan ainda estava deitado ali, emitindo pequenos grasnados doloridos enquanto tentava voltar a se recompor. Imediatamente, Bolozera correu até ele. Ajoelhou-se no chão. Pegou o pato com cuidado e o acomodou nos braços, como se estivesse segurando um animal ferido.


— Calma, Nathan… — murmurou ele, acariciando as penas do amigo.


Bolozera levantou o olhar lentamente para Bittencourt. A expressão dele mudou. Agora havia indignação.


— Olha só o que você fez com o Nathan! — disse ele. A voz estava cheia de reprovação. — Ele só é um patinho, Bitt!


Ele abraçou Nathan um pouco mais forte.


— Como é que você teve coragem de machucar ele desse jeito?


Bittencourt arregalou os olhos.


— Mas ele cagou na minha boca, Bolozera!


Ele levantou as mãos, ainda incrédulo.


— O que você queria que eu fizesse?!


A voz dele subiu.


— Mandasse um cartão de agradecimento?!


Ele apontou para Nathan.


— Esse pato maluco passou dos limites!


Bolozera apertou Nathan contra o peito, protegendo-o como se Bittencourt fosse um predador prestes a atacar novamente. Os dois se encararam. Olhares furiosos. A tensão no quarto voltou a crescer. A discussão explodiu. Não foi uma conversa elevada. Foi um colapso emocional em forma de gritaria. Bittencourt e Bolozera falavam ao mesmo tempo, um por cima do outro, cada frase mais áspera que a anterior. A tensão acumulada do dia inteiro. Do shopping, das tortas, da humilhação, e do cansaço, parecia finalmente encontrar uma saída.


— Você não entende nada sobre empatia, Bitt! — Bolozera acusou, apertando Nathan nos braços. — Nathan é parte da família! Ele te ama, mesmo você sendo um grosso!


— Parte da família?! — Bittencourt rebateu, a voz carregada de incredulidade. — Esse pato é literalmente o sete-pele, Bolozera!


Ele apontou para Nathan, ainda contorcido nos braços de Bolozera.


— Ele cagou na minha boca!


A frase ecoou pelo quarto como algo impossível de ignorar.


— Se você não quer ver do que ele é capaz, o problema é seu! — continuou Bittencourt. — Mas eu não vou mais ser a vítima desse maldito pato!


Bolozera bufava e respirava pesado. Os olhos vermelhos de choro agora estavam cheios de raiva. Ele fez uma pausa. Inspirou fundo. E então falou. A voz saiu fria.


— Pelo menos o Nathan tem pênis.


O quarto ficou em silêncio. A frase caiu no ar como um golpe seco. Bittencourt não respondeu. Por um momento, ele apenas ficou parado ali. O rosto completamente neutro. Mas os olhos mostravam algo diferente. Não era raiva. Era cansaço. Um cansaço profundo, antigo. Sem dizer uma palavra, Bittencourt se levantou da cama. Passou por Bolozera. Passou por Nathan. Passou por Apartamento, que ainda segurava a espingarda na porta, completamente imóvel diante daquela cena.


Bittencourt foi até o seu guarda-roupa. Abriu a porta. Pegou uma mala velha. Começou a colocar roupas dentro dela. Sem pressa. Sem drama. Apenas movimentos silenciosos e metódicos. Ninguém disse nada. Depois de alguns minutos, ele fechou a mala. Saiu do quarto. Caminhou pelo corredor até a sala. Ali, deixou a mala ao lado do sofá. Deitou-se. E ficou olhando para o teto por um longo tempo antes de finalmente adormecer.


A madrugada passou lentamente. O apartamento voltou ao silêncio. Quando o relógio marcou as seis da manhã, a primeira luz do amanhecer entrou pela enorme janela da sala. Bittencourt abriu os olhos. Ele se levantou, pegou a mala, vestiu a jaqueta, e caminhou até a porta do apartamento. Por um momento, ficou parado ali. Talvez esperando ouvir algum som. Alguma voz conhecida. Alguma razão para ficar. Mas o apartamento permanecia em silêncio. Então ele abriu a porta. Saiu. E a fechou atrás de si. Sem olhar para trás.

 
 

© 2018 Planoverso — Vincente R. da Silva. Todos os direitos reservados. Guarulhos, SP, Brasil.

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