top of page

Capítulo II: Alguém Está Chamando Nathan

Foto do escritor: Soraia de Paula Mesquita
Soraia de Paula Mesquita
16 de fev.
15 min de leitura

Atualizado: 22 de ago.

Na base da famigerada Sociedade dos Fungos, erguida entre os escombros da antiga cidade de Sete Chaves, o silêncio era pesado como mofo antigo. O Laboratório Esporádico parecia um campo de batalha abandonado. Mesas de metal estavam tombadas, frascos quebrados espalhavam líquidos viscosos pelo chão e alguns corpos de cogumelos cientistas ainda jaziam no chão, parcialmente esmagados ou rasgados pela violência recente. No centro da sala, sobre uma maca de metal, estava deitado Sarapote de Calgude. O cogumelo monstruoso dormia profundamente. Seu peito subia e descia lentamente enquanto um ronco pesado ecoava pelo laboratório devastado.


Mesmo em repouso, sua presença era ameaçadora. O enorme chapéu vermelho manchado, o bigode grosso e o cavanhaque cuidadosamente aparado contrastando com o corpo musculoso e grotesco que parecia pulsar com uma energia obscura. Sentado em um banco de plástico azul, ao lado da maca, estava Fábio. O cogumelo mantinha uma vigília silenciosa havia horas. Ele observava Sarapote dormir com uma mistura de nervosismo e fascínio, como alguém que vigia um animal selvagem capaz de arrancar sua cabeça a qualquer momento. O único som era o ronco do líder. Então, de repente, os olhos de Sarapote se abriram. Brilharam com uma intensidade brutal. Antes mesmo de Fábio perceber o que estava acontecendo, o punho de Sarapote acertou diretamente o nariz de Fábio. Fábio foi jogado para trás, cambaleando. Ele levou as mãos ao rosto.


— Parou, caralho! — berrou ele, com lágrimas de dor nos olhos.


O grito ecoou pela base. E, em questão de segundos, a porta do laboratório foi arrombada. Uma dúzia de cogumelos da Sociedade dos Fungos invadiu o local de forma completamente desorganizada, tropeçando uns nos outros enquanto tentavam entender o que estava acontecendo. Sarapote já estava sentado na maca, esfregando o rosto com irritação. Ele olhou ao redor, confuso e ainda meio atordoado de sono.


— Quem vocês pensam que são para invadir o meu cafofo?! — rugiu ele.


Seus olhos estavam vermelhos de irritação. Virgílio, sempre tentando manter algum resquício de diplomacia naquele ambiente hostil, aproximou-se rapidamente e ajudou Fábio a se levantar. O nariz do cogumelo estava sangrando. Virgílio falou com respeito exagerado.


— Mestre, na verdade você não está em seu cafofo.


Ele apontou discretamente para o chão.


— E o senhor matou diversos cientistas da Sociedade dos Fungos.


Sarapote franziu o cenho. A informação claramente não lhe interessava. Ele cruzou os braços.


— Então como vocês se atrevem a estar em um lugar que não seja o meu cafofo?!


O silêncio caiu novamente. Ninguém sabia exatamente como responder aquilo. Foi nesse momento que o cogumelo genérico de número 7356 entrou em ação. Ele se aproximou cuidadosamente carregando duas canecas fumegantes de leite azedo com cevada quente, tentando demonstrar hospitalidade. Com um sorriso nervoso, estendeu as bebidas.


— Bom dia, grandioso Sarapote de Calgude!


Ele ofereceu as canecas com entusiasmo. Sarapote olhou para as bebidas. Depois olhou para o cogumelo. Sem mudar a expressão. Ele simplesmente bateu nas canecas. Uma caiu no chão. Depois a outra. O líquido quente e curiosamente espesso se espalhou pelo piso do laboratório. Sarapote encarou o cogumelo com absoluto desprezo.


— Vai se foder, bicho asqueroso!


O cogumelo genérico congelou. Sarapote então olhou para todos os presentes.


— Quem são vocês, afinal?!


Thales, mantendo a compostura apesar do clima tenso, aproximou-se devagar. Ele puxou um banco metálico rangente e sentou-se em outra maca ao lado de Sarapote, como alguém que tenta conversar com um animal selvagem sem fazer movimentos bruscos. Ele limpou a garganta.


— Nós somos a Sociedade dos Fungos — disse, com voz respeitosa. — Nosso único objetivo é proteger vossa grandiosa magnitude.


O laboratório ficou em silêncio. Sarapote ficou parado, olhando para frente, processando a informação com a lentidão de alguém que acabou de acordar e ainda não decidiu se vai matar alguém ou voltar a dormir. Alguns segundos se passaram. Então ele levantou lentamente uma sobrancelha.


— Estão todos presentes?


A pergunta ecoou pelo laboratório. Os cogumelos trocaram olhares entre si. Foi Virgílio quem respondeu. Ele deu um passo à frente, juntando as mãos com nervosismo.


— Na verdade ainda falta o Gustavo.


Sarapote soltou um suspiro longo, pesado e profundamente irritado. Ele passou a mão pelo rosto.


— Inacreditável…


Seus olhos então se fixaram em dois cogumelos presentes na sala. Um deles era o próprio Virgílio. O outro era Saulo, que continuava usando seus óculos escuros desnecessariamente dramáticos, mesmo estando dentro de um laboratório mal iluminado. Sarapote apontou para eles.


— Então vá atrás dele.


Ele estalou o pescoço.


— Você… — disse, apontando para Virgílio.


Depois apontou para Saulo.


— E o de óculos escuros ridículos.


Saulo endireitou a postura, ofendido.


— Eu quero esse tal de Gustavo aqui em instantes!


Virgílio e Saulo assentiram imediatamente.


— Sim, mestre! — disseram quase ao mesmo tempo.


Os dois se viraram e saíram correndo apressadamente pelo laboratório. Passaram pela porta arrombada. Desceram os corredores de pedra úmida da base. E, sem qualquer planejamento prévio, saltaram para fora da estrutura destruída da Sociedade dos Fungos, iniciando uma missão improvisada para encontrar o misterioso Gustavo. Atrás deles, no laboratório devastado, Sarapote permanecia sentado na maca. Os outros cogumelos o observavam em silêncio absoluto. Ninguém queria ser o próximo a levar um soco.


Após alguns instantes de silêncio constrangedor no laboratório devastado, a porta arrombada voltou a ranger. Glauber, o velho cantarelo de olhar calculista, entrou lentamente no recinto. Seu manto escuro se arrastava pelo chão coberto de estilhaços de vidro e resíduos de experimentos fracassados. Atrás dele vinham figuras que, juntas, formavam um conjunto difícil de ignorar. Justino Klépter, ainda com as mangas arregaçadas e o olhar febril de um cientista à beira de um colapso intelectual. Marvin Quebra-molas, o lobo acumulador, caminhando com as mãos nos bolsos e uma expressão entediada. Senhor Macaco, inquieto, segurando o próprio pênis e observando tudo com suspeita. E Charles Darwin, completamente silencioso, apenas ajustando seus óculos escuros enquanto acompanhava o grupo.


Glauber analisou rapidamente o estado do laboratório. Corpos de cientistas cogumelos espalhados, mesas destruídas, equipamentos quebrados. Ele assentiu, como se aquilo fosse perfeitamente aceitável. Então caminhou até Sarapote de Calgude. Sem qualquer cerimônia. Sentou-se no colo do gigantesco cogumelo. Colocou as mãos no rosto do líder com naturalidade quase paternal. E quebrou o silêncio.


— O que faremos agora?


Sarapote arqueou uma sobrancelha. Seu humor, como sempre, oscilava entre o sarcasmo e a ameaça. Um sorriso torto surgiu em seu rosto.


— Eu quero muito chupar um cuzinho cheio de merda.


Por um segundo, ninguém reagiu. Glauber, porém, não perdeu a compostura. Ele inclinou a cabeça com um ar debochado.


— Só se for o meu, meu senhor.


Sarapote abriu um sorriso surpreso. Claramente não esperava a resposta. Mas aceitou o jogo.


— Olha que eu aceito, viu.


Glauber ergueu uma sobrancelha.


— Quando pode ser?


Sarapote deu de ombros.


— De preferência, depois que você cagar.


Por alguns segundos, ninguém soube exatamente como reagir. Klépter olhou para Marvin. Marvin olhou para Darwin. Darwin apenas deu um pequeno grunhido. O Senhor Macaco coçou a virilha. Então, de repente, Sarapote começou a gargalhar. Uma risada alta. Maligna. Estrondosa. Logo depois, Glauber também começou a rir. Em seguida, Klépter. Depois Marvin. E então todos os presentes. As gargalhadas ecoaram pelo laboratório. Percorreram os corredores da base. Vibraram pelas paredes destruídas da antiga Sete Chaves. Era uma risada coletiva. Caótica. Quase um prenúncio. Porque, enquanto a Sociedade dos Fungos ria naquele laboratório devastado, o Planoverso inteiro estava cada vez mais próximo de sentir o peso de suas ações.


No Escuro, dentro da imensa sala branca do Congresso dos Bolozeras, o ar parecia parado. No centro do salão circular, o Bolozera Arco-Íris e o Bolozera Pizzaiolo empurravam uma cadeira giratória de escritório que rangia a cada movimento. Sentado nela estava um Bolozera com o rosto coberto por um saco de salgadinho amassado, ainda com um cheiro forte de queijo artificial. A cadeira parou no centro da sala. Cem pares de olhos almôndegados observavam. O Bolozera Arco-Íris puxou o saco.


— Prontinho.


O saco caiu no chão. Revelando o prisioneiro. Era o Bolozera do Plano 44. Conhecido entre eles como o Bolozera Tatuado. Seu corpo de carne estava coberto por tatuagens caóticas, algumas tribais, outras completamente sem sentido. Nos dedos, vários anéis metálicos reluziam sob a luz branca do salão, e uma barba desgrenhada dava a ele a aparência de alguém que havia passado anos discutindo em bares insalubres. Ele piscou algumas vezes. Olhou ao redor. Viu os cem Bolozeras. Cada um diferente do outro. O Bolozera Azul. O Bolozera Cromado. O Bolozera de Cerâmica. O Bolozera Inflável. O Bolozera Calvo. O Bolozera Transparente. Todos olhando para ele como jurados em um julgamento absurdo. O tatuado suspirou profundamente. E então explodiu.


— Pela milionésima vez, quantas vezes vou ter que dizer que eu não sei do que vocês estão falando, seu bando de filho da puta?!


A voz ecoou pela sala. O Bolozera Secretário, sentado à mesa com sua prancheta e óculos escorregando pelo nariz, levantou a mão educadamente. Ele respondeu com uma formalidade quase burocrática.


— Vamos nessa, vai ser mais fácil se você admitir.


Ele folheou algumas páginas.


— Já estamos nessa neura há mais de dois anos.


Ele apontou a caneta para o prisioneiro.


— Temos motivos para acreditar que você é o Bolozera de Carne Pura, Bolozera do Plano 44.


O tatuado franziu o cenho. Seu rosto alternava entre incredulidade e irritação.


— Eu já falei que não sei de que merda vocês tão falando!


Ele puxou as algemas da cadeira.


— Vocês são todos um bando de malucos!


Foi então que o Bolozera de Porcelana, com sua postura impecavelmente refinada e voz calma, interveio.


— Estamos falando da profecia.


O tatuado voltou a falar, irritado.


— Eu não acredito nesse monte de merda!


Ele olhou para todos os lados.


— E além disso, vocês realmente acham que o Bolozera de Carne Pura, um ser de pura bondade, falaria tantos palavrões que nem eu?!


Por um momento, a sala inteira ficou em silêncio absoluto. Os cem Bolozeras se entreolharam. O Bolozera Secretário ajustou os óculos. O Bolozera Cromado coçou o queixo metálico. O Bolozera de Porcelana inclinou levemente a cabeça. E então, lentamente, todos os olhares começaram a se voltar para o Bolozera Alfa, que estava parado no palco. Como se esperassem a resposta definitiva. De repente, rompendo o silêncio constrangedor, o Bolozera Degenerado se manifestou de sua cadeira. Era uma almôndega de olhar torto, com um sorriso viscoso e malicioso que parecia sempre estar prestes a sugerir algo terrível. Ele bateu as mãos na mesa.


— Ele está falando asneiras! — gritou com entusiasmo doentio. — Lincha ele!


Foi o suficiente. Sem qualquer discussão adicional, os cem Bolozeras se levantaram ao mesmo tempo. Cadeiras arrastaram. A mesa tremeu. E, em questão de segundos, todos se lançaram sobre o Bolozera Tatuado.


— Peguem ele! Mentiroso! Herético!


A cadeira giratória tombou para trás. O Bolozera do Plano 44 caiu no chão. Então começou a chuva de socos e chutes. Diversos braços de almôndega golpeavam sem coordenação. Perninhas chutavam. Alguém arremessou uma prancheta. Outro bateu com uma cadeira. O Bolozera Cromado tentou dar uma cabeçada. O Bolozera Inflável pulava em cima do amontoado. O Bolozera de Algodão gritava enquanto tentava acertar um golpe dramático. No meio da confusão, até o Bolozera Alfa havia acabado entrando na pancadaria. Ele desferiu duas pancadas reflexivas enquanto pensava. Depois de alguns segundos refletindo, decidiu que talvez fosse hora de restaurar a ordem.


— Bolozeras, parem! — ordenou ele.


Ninguém ouviu. A pancadaria continuou.


— Bolozeras, parem!


Ainda assim, ninguém parou. Alguém havia começado a puxar a barba do Bolozera Tatuado. Outro tentou morder. Exasperado, o Bolozera Alfa ergueu o cetro dourado. E bateu no chão com toda a força. O estrondo ecoou pelo enorme salão branco como um trovão.


— Bolozeras, parem!


Dessa vez funcionou. Um a um, os Bolozeras cessaram os golpes. Eles se afastaram lentamente do amontoado no chão. No centro do círculo estava o Bolozera Tatuado. A cadeira estava tombada ao lado dele. Ele estava estendido no chão, ofegante, cheio de marcas de pancada, com alguns anéis tortos nos dedos. A barba estava desgrenhada. Ele respirava com dificuldade. Enquanto todos tentavam recuperar a compostura, um som metálico ecoou. O Bolozera Fazendeiro, que segurava um enorme machado de lenhador, havia deixado a ferramenta escapar da mão no meio da confusão. O machado girou no ar e acertou diretamente o Bolozera de Porcelana. A lâmina partiu sua cabeça cerâmica inteira. O corpo se rachou como um vaso antigo. Por um segundo ele permaneceu parado. Depois desabou no chão em vários pedaços de porcelana branca. Silêncio. O Bolozera Fazendeiro olhou para o machado. Depois para os pedaços.


— Nossa.


O Bolozera Alfa observou a cena. O Bolozera Tatuado jogado no chão, a cadeira tombada, e os pedaços de porcelana espalhados que antes haviam sido um colega respeitável da Ordem dos Cem. Ele soltou um suspiro longo e profundamente impaciente.


— Não podemos confiar no Bolozera do Plano 27 — disse ele, massageando a testa com o polegar. — Sabemos que ele tem fama de mentiroso!


Do outro lado da sala, completamente alheio à gravidade da situação, o Bolozera Degenerado fez um barulho gutural, e levantou a mão fazendo um hang loose. O gesto ficou suspenso no ar. O Bolozera Alfa imediatamente virou a cabeça para ele, furioso.


— Bolozera do Plano 27!


Ele apontou o cetro na direção dele.


— Eu já falei milhares de vezes que nós não fazemos hang loose por aqui!


O degenerado abaixou a mão lentamente, como uma criança sendo repreendida. No meio da mesa, o Bolozera Justiceiro, que usava uma capa preta e mantinha sempre uma postura extremamente séria, levantou a mão educadamente.


— Então se não é o Bolozera do Plano 44…


Ele olhou para o líder.


— Qual é a outra opção?


O Bolozera Pizzaiolo já estava mexendo em seu BoloPad, deslizando a massa de pizza que usava como protetor de tela. Ele analisou os dados. Deu dois toques na tela. E então anunciou:


— Sobrou o Bolozera do Plano 88.


Ele girou o tablet para mostrar a imagem.


— E, segundo o meu BoloPad…


Ele franziu o cenho.


— Ele parece inofensivo.


O Bolozera Alfa abriu lentamente um sorriso. Um sorriso determinado. Ele bateu o cetro no chão uma vez.


— Então vamos atrás dele!


Ele levantou o cetro como um comandante.


— Mas desta vez…


Seus olhos percorreram a sala.


— Iremos todos juntos.


Por um segundo houve silêncio. Então a excitação explodiu. Os cem Bolozeras começaram a se mover ao mesmo tempo. Cadeiras caíram. O Bolozera Móvel deu ré novamente. O Bolozera de Sombrero começou a cantar. O Bolozera Inflável quicava de empolgação. O Bolozera Alfa caminhou à frente do grupo enquanto todos avançavam em direção à saída do galpão. A Ordem dos Cem marchava agora em uma formação completamente desorganizada, mas cheia de propósito. Uma marcha caótica, barulhenta e absurda. Determinados a encontrar o Bolozera do Plano 88. O possível Bolozera de Carne Pura. E confrontar, de uma vez por todas, a profecia que poderia decidir o destino do Planoverso.


Na cadeia de Porto Legal, o ambiente era abafado e impregnado de um cheiro constante de desinfetante barato e desespero humano. Guardas caminhavam pelo corredor de visitas com passos pesados enquanto algumas vozes ecoavam através das celas mais distantes. No meio desse cenário, Gustavo, o antigo Alfândega, era escoltado por dois agentes penitenciários. Algemas presas aos pulsos. Expressão cansada.


— Anda logo — resmungou um dos guardas.


Gustavo entrou dentro da sala de visitas, sem ter a mínima ideia de quem poderia ter ido vê-lo. Assim que cruzou a porta, ele viu. Sentado calmamente em um banco de concreto estava Nathan. O pato segurava um copo grande de vitamina de caqui com chocolate branco do Pura Polpa, bebendo lentamente pelo canudo, como se estivesse esperando alguém chegar para uma conversa civilizada. Assim que viu Gustavo, Nathan se levantou. Os olhos dele arderam de indignação. Sem pensar duas vezes, ele arremessou o copo. Mas errou completamente o alvo. A vitamina explodiu na cara de um presidiário aleatório sentado algumas mesas ao lado. O homem ficou ensopado de caqui e chocolate branco. Ele grunhiu alto.


— Qual foi, porra?!


Nathan nem olhou para ele. Seus olhos estavam cravados em Gustavo.


— Como você teve a coragem de ser preso depois de fazer o que fez?! — gritou o pato, cerrando os punhos.


Gustavo piscou duas vezes. Deu um passo para trás.


— Quem é você, maluco?


Nathan bufou indignado.


— Não finja que não sabe quem eu sou!


Ele apontou para o próprio peito.


— Você me fecundou!


A sala de visitas inteira ficou em silêncio. O presidiário ensopado parou de xingar. Os guardas se entreolharam. Gustavo abriu a boca e fechou de novo. Ele parecia genuinamente confuso.


— Eu não sei do que você tá falando, cara.


Nathan começou a tremer de raiva. As penas dele ficaram todas eriçadas.


— Seu cafajeste mentiroso!


Ele bateu o pé no chão.


— Você acha que pode simplesmente ser preso depois do que fez comigo?!


Gustavo olhava ao redor procurando algum tipo de explicação lógica. Ele apontou para o próprio peito.


— Eu nunca vi você na vida.


Nathan arregalou os olhos. Aquilo foi a gota d'água. A expressão dele se transformou completamente. Agora não era só raiva. Era uma indignação absoluta. Como se tivesse acabado de ouvir a maior mentira da história do Planoverso. Nathan tremia de raiva. As asas agitadas, as penas arrepiadas e o bico aberto em puro ódio.


— Você realmente achou que poderia me levantar para o cantinho, me passar a pica, e sair de boa, sem nada acontecer?! — berrou o pato, a voz ecoando pelas paredes frias da sala de visitas.


Gustavo já estava perdendo completamente a paciência.


— Eu não fiz nada, seu doente! — respondeu ele, irritado.


Nathan fechou os olhos com força, respirou fundo e então começou a berrar como um possesso.


— Filho da puta! Filho da Puta! Filho da puta!


O grito ecoou pelo salão. Alguns presos começaram a bater nas mesas. Outros apenas observavam a cena com curiosidade mórbida. O presidiário ainda sujo de vitamina de caqui limpava o rosto com a manga da camisa. Gustavo passou a mão no rosto, completamente frustrado.


— Para de me xingar, seu esquizofrênico do caralho!


Nathan apontou o dedo para ele com uma convicção quase religiosa.


— Schopenhauer jamais mentiria pra mim, seu desgraçado!


Ele deu um passo à frente.


— Quando você sair dessa cadeia, pode se preparar.


O olhar dele era puro ódio.


— Eu juro que vou fazer da sua vida um verdadeiro inferno!


Gustavo abriu a boca para responder. Mas não teve tempo. Um disparo ecoou pelo salão como um trovão. Por uma fração de segundo, ninguém pareceu entender o que havia acontecido. Então, a cabeça de Nathan explodiu. O projétil atravessou o crânio do pato com violência brutal. Fragmentos de osso, penas e massa cerebral foram lançados para trás em um jato grotesco que espirrou contra a parede de concreto.


O corpo do pato ainda permaneceu de pé por um instante. Os olhos vazios. O bico entreaberto. Depois caiu. O corpo tombou no chão frio da sala de visitas. O sangue começou a se espalhar rapidamente pelo piso, misturado com pedaços de tecido cerebral e penas encharcadas. Uma poça vermelha crescia lentamente sob o cadáver. O presidiário coberto de vitamina olhou para o corpo. Depois para a parede salpicada.


— Caralho.


Gustavo estava completamente imóvel. Os guardas sacaram as armas. Mas Nathan já estava morto. Instantaneamente. A única coisa que restava dele era o corpo sem vida no chão e o eco de sua última ameaça pairando no ar pesado da prisão.


— Que porra é essa, caralho?! — gritou Gustavo, completamente atordoado.


A sala de visitas mergulhou no caos. Guardas corriam em todas as direções tentando entender de onde tinha vindo o disparo. No meio da confusão, uma porta lateral metálica se abriu com violência. De lá surgiu Saulo. O shitake avançava com passos firmes, segurando uma metralhadora fungi, um armamento pesado cujo cano era coberto por tubos orgânicos que pulsavam liberando pequenas nuvens de esporos. Ele caminhou direto até Gustavo. Sem pressa. Sem emoção. Parou diante dele. Abaixou os óculos escuros alguns centímetros.


— Gustavo, vamos embora.


Ele fez um gesto rápido com a cabeça.


— Anda.


Gustavo ainda estava em choque. Ele apontou para o corpo de Nathan, que agora era apenas um amontoado grotesco de penas ensanguentadas e tecido espalhado pelo chão.


— Então foi você que matou ele?!


Saulo revirou os olhos com profundo desprezo.


— Eu vim te resgatar, não pra fazer uma sessão de perguntas óbvias.


Ele apontou a metralhadora para o corredor.


— Anda logo.


Gustavo hesitou apenas um segundo. Então começou a correr atrás dele. Assim que saíram da sala de visitas, dois guardas armados apareceram no corredor.


— Parem já!


Tarde demais. Saulo puxou o gatilho. A metralhadora fungi cuspiu uma rajada brutal. Os projéteis orgânicos atravessaram os dois guardas com violência grotesca. Um deles teve o peito completamente rasgado, pedaços de carne e osso explodindo contra a parede. O outro levou disparos no pescoço e no rosto, a mandíbula foi arrancada em uma nuvem de sangue antes que o corpo desabasse no chão.


— Continua andando, Gustavo… — disse Saulo calmamente.


Alarmes começaram a soar pela prisão. Mais dois guardas apareceram na escada. Saulo nem diminuiu o passo. Um deles levou um tiro direto no olho, a parte de trás do crânio abriu como uma fruta esmagada. O outro tentou reagir, mas um disparo atravessou seu abdômen, espalhando intestinos pelo corrimão da escada. Gustavo corria atrás dele completamente apavorado.


— Caralho. Caralho. Caralho.


Eles atravessaram a porta de saída da prisão. Do lado de fora, no pátio cercado por muros altos, o helicóptero fungi já aguardava com o motor ligado. As hélices giravam violentamente levantando poeira. Na parte traseira da aeronave estava Fábio, segurando na porta aberta e acenando com impaciência.


— Entrem logo!


Gustavo correu e subiu no helicóptero. Saulo entrou logo atrás e se jogou no assento da cabine.


— Segura aí.


Ele puxou a alavanca. O helicóptero começou a subir. Nesse momento, vários guardas surgiram no pátio.


— Eles estão fugindo! Atirem!


Disparos começaram a subir em direção à aeronave. Fábio ainda estava na parte traseira quando um tiro o atingiu. O projétil entrou pelo lado da mandíbula e explodiu metade do rosto dele. Dentes e fragmentos de osso voaram para fora enquanto o impacto o jogava para trás. Outro disparo atravessou o peito dele. O projétil rasgou o pulmão e saiu pelas costas, abrindo um buraco grotesco de onde jorrou sangue em abundância.


O corpo de Fábio cambaleou. Seus olhos perderam o foco. E então ele caiu para trás. O cadáver deslizou para fora da aeronave. E despencou do helicóptero ainda subindo. O corpo bateu no chão do pátio com um estalo seco, espalhando sangue e ossos quebrados pelo concreto. Dentro da aeronave, Gustavo entrou em pânico.


— Porra! O seu colega foi atingido!


Ele olhou desesperado para baixo. Saulo nem virou a cabeça. Ele simplesmente continuou pilotando.


— Ele morreu.


Puxou o manche.


— Faz parte do rock.


O helicóptero subiu por cima dos muros altos da prisão. As balas começaram a ficar para trás. Porto Legal se espalhava abaixo deles. E enfim, o helicóptero fungi desapareceu no céu. Rumo à sede da Sociedade dos Fungos. Onde os próximos movimentos daquela conspiração começavam a se alinhar.

 
 
Capítulo I: Nada de Errado por Enquanto

O Escuro não pertencia a lugar algum. Era um vazio absoluto entre os planos, um limbo que servia simultaneamente como tribunal do pós-vida, corredor dimensional e ponto de interseção entre as realidad

 
 
Capítulo III: O Problema de Ser o Original

Após retornarem ao condomínio, a casa recém-comprada parecia viver uma rara manhã de tranquilidade. Na sala de estar, o clima era quase doméstico demais para aquele grupo. No centro do cômodo, uma mes

 
 

© 2018 Planoverso™ — Todos os direitos reservados.

bottom of page