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Capítulo I: Nada de Errado por Enquanto

Foto do escritor: Soraia de Paula Mesquita
Soraia de Paula Mesquita
17 de fev.
18 min de leitura

Atualizado: 22 de ago.

O Escuro não pertencia a lugar algum. Era um vazio absoluto entre os planos, um limbo que servia simultaneamente como tribunal do pós-vida, corredor dimensional e ponto de interseção entre as realidades do Planoverso. Ali não existia chão verdadeiro nem céu, apenas uma vastidão negra onde estruturas surgiam como ilhas improvisadas no meio do nada. No meio daquela imensidão flutuava uma porta alçapão solitária. Uma simples porta de madeira clara, aparentemente absurda naquele oceano de escuridão infinita. Mas quem a abrisse encontraria algo completamente diferente do que o exterior sugeria.


Do outro lado, acontecia uma reunião. Uma reunião extremamente peculiar. Era ali que, toda semana, se reunia o Congresso dos Bolozeras. A sala era gigantesca. Um espaço perfeitamente branco, iluminado por uma luz suave que parecia emanar das próprias paredes. O teto era alto como uma catedral, e no centro do salão havia uma mesa circular colossal, larga o suficiente para acomodar dezenas de participantes. À frente da mesa erguia-se um pequeno palco, equipado com um púlpito de mármore branco destinado aos discursos oficiais. Sentados ao redor da mesa estavam cem criaturas idênticas. Ou quase idênticas. Todas possuíam o mesmo formato básico. Uma grande almôndega de carne, redonda e gordurosa, da qual surgiam bracinhos curtos e perninhas igualmente curtas. O aspecto geral era sempre o mesmo, uma bola de carne viva andando e falando. Mas cada um carregava uma peculiaridade própria.


Ali estava o Bolozera Ruivo, coberto por fios de cabelo cor de cobre que brotavam diretamente da carne. Ao lado dele, o Bolozera de Cerâmica, cuja superfície era lisa e branca como porcelana rachada. Mais adiante, o Bolozera Azul, cuja carne tinha uma coloração estranhamente oceânica. Havia também o Bolozera Calvo, completamente polido e brilhante. E assim por diante. Ao todo, cem versões alternativas. Cada uma proveniente de um plano diferente do Planoverso. Esses cem indivíduos haviam sido escolhidos pessoalmente por Pit Mangueira para cumprir uma missão singular.


Encontrar o Bolozera de carne pura. O único. O verdadeiro. O Bolozera destinado a cumprir a profecia. Por essa razão, os cem eram conhecidos coletivamente como a Ordem dos Cem. Mas naquele momento, a reunião estava longe de ser organizada. A sala estava tomada por uma verdadeira algazarra. Bolozeras discutiam, gritavam, batiam na mesa e gesticulavam com seus pequenos braços gordurosos. A confusão dentro do Congresso dos Bolozeras já havia atingido um nível quase insustentável.


Todos falavam ao mesmo tempo. Braços curtos de carne engordurada batiam furiosamente na enorme mesa circular, produzindo um som gorduroso e irregular que ecoava pela sala branca como um tambor parlamentar completamente descontrolado. No meio da gritaria, o Bolozera Azul ergueu o dedo indicador com a postura de um grande revolucionário intelectual. Ele se levantou da cadeira com dramaticidade.


— Gente, pelo amor de Pit Mangueira, qualquer textura no mundo é melhor do que camurça!


A frase caiu como uma bomba. Do outro lado da mesa, o Bolozera Cromado, cuja superfície metálica refletia a luz branca da sala, levou lentamente a mão ao rosto. Ele parecia devastado.


— Você perdeu as estribeiras? — disse ele, incrédulo.


O cromado se levantou também, indignado.


— Precisa ter o intelecto muito avançado para entender a particularidade e a beleza que só a camurça oferece!


Ele apontou dramaticamente para o Bolozera Azul.


— E você não entende!


Uma pausa.


— Porque você é burro!


Um coro de reações exageradas surgiu ao redor da mesa. Alguns Bolozeras começaram a vaiar. Outros começaram a gritar ainda mais alto. Entre os dois, um terceiro Bolozera se levantou. Ele usava um enorme sombrero e ostentava um bigode perfeitamente curvado para cima. Com um ar diplomático, ele levantou as mãos tentando acalmar a situação.


— Chicos, por favor… — disse ele com serenidade. — Mantengamos la calma.


Ele ajeitou o sombrero.


— Todos sabemos que la mejor textura es la plisada.


Silêncio. Por meio segundo. Então explodiu. Os cem Bolozeras começaram a gritar simultaneamente. Punhos de carne oleosa batiam na mesa. Alguns levantavam de suas cadeiras. Outros rolavam para frente tentando discutir mais de perto. A algazarra tomou conta da sala. Até que no alto do palco uma nova figura apareceu. Era um outro Bolozera. Fisicamente ele era igual aos demais. Mas havia algo diferente nele. Seu olhar era mais firme. Sua postura era mais imponente. Sua presença carregava autoridade.


Ele vestia uma manta verde profunda que caía sobre seu corpo redondo como uma toga cerimonial. Em uma das mãos ele segurava um cetro dourado, cuja ponta era formada por um cristal transparente que capturava e refratava a luz da sala. Era ele. O Bolozera do Plano 1. O primeiro. O original entre os cem. Conhecido por todos como o Bolozera Alfa. Ele caminhou lentamente até a ponta do palco. Observou o caos que acontecia ao redor da mesa. Então levantou o cetro. Sua voz saiu firme, grave e calma ao mesmo tempo.


— Bolinhos, por favor!


O som atravessou a sala inteira.


— Vamos manter a disciplina.


Ele fez uma breve pausa.


— Precisamos iniciar a reunião semanal.


O efeito foi imediato. Como se um interruptor tivesse sido desligado. Os cem Bolozeras se calaram. Todos. Instantaneamente. Nenhum deles ousava desrespeitar a autoridade do Bolozera Alfa. O silêncio que se seguiu foi quase cerimonial. Cem pares de olhos almôndegados estavam voltados para o palco. O Bolozera Alfa apoiou o cetro no chão com delicadeza, deixando o cristal da ponta emitir um brilho suave que atravessava a sala branca. Então ele abriu um sorriso paciente.


— Muito obrigado, bolinhos. — disse ele, com a calma de quem já havia presidido milhares de reuniões iguais àquela. — Temos muitas coisas na pauta da semana.


Um dos Bolozeras levantou a mão imediatamente. O Alfa inclinou levemente a cabeça.


— Pode dizer, Bolozera de Mel.


O Bolozera de Mel tinha uma coloração dourada e viscosa, como se sua carne tivesse sido mergulhada em um barril de apiário celestial. Ele pigarreou.


— Senhor Bolozera Alfa, desculpe interromper. — disse ele com educação. — Mas parece que temos um intruso de novo.


Algumas cabeças se viraram. Ali, sentado entre dois membros da Ordem dos Cem, estava um Bolozera aparentemente normal. Bracinhos cruzados, perninhas cruzadas, e uma postura irritantemente relaxada. O Bolozera Alfa olhou para ele com um olhar cansado. Muito cansado. Como quem já havia lidado com aquilo muitas vezes. Ele levou a mão à testa.


— Vai ser toda semana assim? — disse, suspirando.


Ele apontou o cetro na direção do sujeito.


— Você sabe que não faz parte da Ordem dos Cem.


Uma pausa.


— Pode se retirar educadamente, por favor?


O Bolozera de braços cruzados respirou fundo. Seu rosto assumiu a expressão de alguém que havia preparado a resposta perfeita. Então ele disse, com toda a convicção do mundo:


— Eu não sou o Bolozera.


Silêncio.


— Eu sou o Bittencourt.


Vários Bolozeras fecharam os olhos. Alguns começaram a massagear a testa. O Bolozera Alfa levou novamente a mão ao rosto, claramente exausto.


— Eu não vou prolongar isso de novo… — murmurou ele.


Ele olhou para os lados.


— Estou com pressa.


Então apontou com o cetro.


— Podem tirar ele daqui, por favor?


Dois Bolozeras se levantaram imediatamente. Um deles era o Bolozera Ruivo, cujos cabelos de carne avermelhada balançavam dramaticamente. O outro era o Bolozera Cirurgião Plástico, cuja superfície tinha cortes suturados perfeitamente alinhados, como se tivesse sido redesenhado esteticamente dezenas de vezes. Eles caminharam até o intruso. Cada um segurou um dos braços.


— Vamos lá.


O Bolozera impostor começou a se debater.


— Me soltem! Me soltem!


Ele chutava o chão enquanto era arrastado.


— Eu sou o Bittencourt! Eu sou o Bittencourt! Me soltem!


Os dois Bolozeras o arrastaram até a porta do alçapão, abriram, e o jogaram para fora. A porta se fechou logo depois com um estrondo pesado que ecoou pela sala inteira. O Congresso inteiro ficou em silêncio novamente. Um silêncio desconfortável. Alguns Bolozeras olharam uns para os outros. Outros apenas encaravam a mesa. No palco, o Bolozera Alfa soltou um longo suspiro.


— O Bolozera Falsificador Ideológico precisa de limites urgentemente…


Ele esfregou a testa por um segundo. Depois, endireitou a postura. Começou a caminhar lentamente de um lado para o outro no palco. Como alguém que finalmente iria conduzir a reunião. O cetro dourado fazia pequenos estalos no chão branco enquanto ele andava. E então ele parou diante da mesa. A reunião da Ordem dos Cem estava oficialmente prestes a começar. O Bolozera Alfa suspirou profundamente. Era o suspiro de alguém que liderava cem versões alternativas de si mesmo, o que, por si só, já era um exercício diário de paciência transcendental. Ele ajeitou a manta verde sobre o corpo redondo, apoiou o cetro no chão e finalmente retomou a palavra.


— Bom… — disse ele, com um cansaço contido. — Acho que finalmente podemos começar.


Ele levantou um dedo com autoridade.


— Bolozera Secretário, tome nota.


À direita da mesa, um Bolozera magro, usando óculos redondos e segurando uma prancheta, imediatamente começou a escrever com uma caneta presa entre dois pequenos dedos de carne.


— Anotando, senhor Alfa.


O Bolozera Alfa então ergueu o queixo com uma certa solenidade.


— Bolinhos… — começou ele. — Eu começo com uma notícia empolgante.


Antes que ele pudesse continuar, um barulho irritante começou a ecoar pela sala. Era um sensor de ré. Todos os olhares lentamente se voltaram para um dos lados da mesa. Ali estava o Bolozera Móvel. Ele tinha o formato de uma almôndega montada sobre quatro rodas cromadas, com faróis pequenos e uma placa traseira. Seu corpo-carro estava lentamente dando ré, fazendo aquele barulho mecânico irritante. O Bolozera Alfa apertou os olhos com irritação.


— Bolozera Móvel!


Ele apontou o cetro diretamente para o carro.


— Pare de dar ré na reunião!


O Bolozera Móvel freou imediatamente. O sensor se calou. Silêncio. O Bolozera Secretário levantou a cabeça da prancheta.


— É pra anotar essa parte?


Por um segundo ninguém respondeu. Então a mesa inteira explodiu em gargalhadas escandalosas. Cem Bolozeras começaram a rir ao mesmo tempo. Alguns batiam na mesa. Outros rolavam para trás nas cadeiras. O Bolozera de Sombrero chegou a tirar o chapéu para enxugar lágrimas de tanto rir.


— Anota sim! — gritou o Bolozera Bagaço de Laranja. — Anota no meio do seu cu!


A sala virou novamente uma bagunça. No palco, o Bolozera Alfa fechou os olhos lentamente. Seu rosto se contraiu com a expressão de alguém que estava à beira de perder a sanidade. Ele esfregou a testa com dois dedos. E respirou fundo. Com a paciência finalmente esgotada, o Bolozera Alfa ergueu o cetro dourado. Sem aviso. Ele bateu a ponta de vidro do cetro contra o chão branco com tanta força que um estrondo profundo reverberou pela sala inteira, como se o próprio Escuro tivesse sido sacudido. O som ecoou pelas paredes. Instantaneamente, os Bolozeras ficaram em silêncio. Nem um pingo de gordura se moveu. O Alfa respirou fundo.


— Bolozeras, devemos manter o foco! — declarou ele, com autoridade absoluta. — A profecia está cada vez mais se tornando realidade!


Ele caminhou lentamente pelo palco.


— É isso aí! — gritaram vários Bolozeras ao mesmo tempo.


Imediatamente começaram a bater na mesa com entusiasmo.


— Pela Ordem dos Cem!


Punhos de carne batiam na mesa. Alguns até davam pequenos pulos de empolgação. A vibração coletiva ficou tão intensa que um som seco atravessou a sala. A enorme mesa circular rachou no meio. As duas metades afundaram alguns centímetros. Todos olharam para baixo. O Bolozera Alfa levou lentamente a mão à testa.


— Meu Santo Hambúrguer…


Ele suspirou.


— Eu já falei que essas atitudes não levam a nada…


Ele observou a rachadura com um olhar profundamente cansado. Depois apontou o cetro para um dos lados da mesa.


— Bolozera Mestre de Obras, pode dar uma mãozinha?


Um Bolozera robusto se levantou. Ele usava um capacete de obra minúsculo e carregava uma caixa de ferramentas pendurada no corpo gorduroso. Caminhou até a rachadura com a seriedade de um verdadeiro profissional da construção civil. Ajoelhou-se. Passou a mão pela fissura da mesa. Observou a textura da quebra. Bateu levemente na madeira.


— Eu já vi isso antes.


Ele analisou novamente. Depois assentiu com convicção.


— Acho que isso precisa de argamassa.


Ele puxou de sua caixa uma pequena espátula metálica e um pote de massa cinza. Com movimentos extremamente precisos, começou a aplicar a argamassa na rachadura, espalhando a substância como um restaurador experiente.


— Segura aí, Bolozera Alfa.


Ele alisou a superfície. Passou a espátula novamente. Deu duas batidinhas finais.


— Pronto.


A mesa estava inteira novamente. Os outros Bolozeras olharam impressionados. Por um segundo houve silêncio. Então começaram os aplausos.


— Isso sim é competência!


O Bolozera Mestre de Obras tirou o capacete e fez uma pequena reverência modesta. No palco, o Bolozera Alfa suspirou novamente. Mas dessa vez, com um leve sinal de esperança de que talvez, apenas talvez, a reunião finalmente pudesse continuar.


— Muito bem, bolinhos — disse o Bolozera Alfa, retomando o centro do palco com a autoridade de quem finalmente tinha algo relevante a apresentar. — O meu cetro encontrou duas versões prováveis do Bolozera de Carne Pura.


Ele ergueu o cetro dourado, cuja ponta de vidro brilhou suavemente.


— O do Plano 44 e o do Plano 88.


Um murmúrio irritante percorreu toda a mesa. Alguns Bolozeras se inclinaram para frente. Outros começaram a cochichar entre si.


— Com certeza, um deles é o verdadeiro… — continuou o Alfa, com solenidade. — O escolhido para realizar a profecia.


Um Bolozera de aparência delicada levantou a mão. Sua superfície era lisa, branca e brilhante como uma peça de porcelana recém-saída de um forno imperial.


— Você se refere àquela profecia em que um ser puro enfrentará aquele outro de coração corrompido?


O Bolozera Alfa sorriu com aprovação.


— Isso mesmo.


Ele fez um pequeno gesto elegante com o cetro.


— Obrigado pela clareza, Bolozera do Plano 27.


O Bolozera de Porcelana pigarreou educadamente.


— Na verdade… — disse ele, ajeitando seus pequenos óculos de leitura — eu sou o Bolozera do Plano 843.


Ele apontou com o bracinho para outro lado da mesa.


— Aquele é o Bolozera do Plano 27.


Todos os olhares se voltaram imediatamente. Sentado alguns lugares adiante estava uma figura bastante peculiar. O Bolozera do Plano 27. Sua carne estava deformada, escurecida e parcialmente apodrecida, como se tivesse passado por algum tipo de colapso biológico interdimensional. Partes do corpo pareciam derreter lentamente, formando pequenas bolhas de carne instável. Ele não estava sentado em uma cadeira comum. Estava montado em uma cadeira voadora antigravitacional, que zumbia levemente enquanto flutuava alguns centímetros acima do chão. O Bolozera do Plano 27 ergueu um bracinho magro e fez um aceno tímido.


— Olá.


Um pedaço de carne caiu do seu ombro enquanto ele acenava. Por um segundo houve silêncio. Então a mesa inteira começou a rir.


— Olha o estado dele! Isso aí já passou do ponto!


Até o Bolozera Alfa soltou uma pequena risada involuntária antes de recuperar a compostura. O Bolozera do Plano 27 apenas continuou acenando desajeitadamente, aparentemente feliz por participar da reunião. No meio das gargalhadas, o Alfa ergueu novamente o cetro, chamando a atenção da mesa inteira. As gargalhadas cessaram pouco a pouco. Cem pares de olhos almôndegados voltaram-se para o palco. Ele então fez um gesto firme com a mão.


— Bolozera Arco-Íris e Bolozera Pizzaiolo.


Os dois imediatamente se levantaram de suas cadeiras. O Bolozera Arco-Íris era uma visão impossível de ignorar. Sua carne brilhava em faixas vibrantes de todas as cores do espectro, como se tivesse sido atravessada por um prisma interdimensional. Ao lado dele estava o Bolozera Pizzaiolo, vestindo um avental manchado de molho de tomate, um chapéu alto de mestre-cuca e uma mochila de entregador de pizza presa às costas. O Alfa continuou.


— Enviei para os seus BoloPads a localização do Bolozera do Plano 44.


Ele deu dois passos pelo palco.


— Que, por algum motivo estranho, está atualmente no Plano 88.


Alguns Bolozeras trocaram olhares curiosos. O Alfa apontou o cetro para os dois designados.


— Quero que tragam ele, e também o Bolozera do Plano 88…


Uma pausa dramática.


— Até mim.


Os dois Bolozeras caminharam até a frente da mesa, posicionando-se diante do palco com postura quase militar. O Bolozera Arco-Íris cruzou os braços. O Bolozera Pizzaiolo ajustou o chapéu de cozinheiro com orgulho. Os dois assentiram em perfeita sincronia.


— Entendido.


O Bolozera Alfa abriu um sorriso largo. Então ergueu o cetro como se estivesse discursando para um exército.


— Vamos atrás desse bolinho!


Ele apontou dramaticamente para o teto.


— Como se fosse o último hambúrguer do mundo!


A reação foi imediata. O Congresso inteiro explodiu em aplausos, assobios e gritos de incentivo.


— Vai, Ordem dos Cem! Pelo Bolozera de Carne Pura! Pela profecia!


Alguns batiam na mesa. Outros levantavam os braços. O Bolozera Pizzaiolo deu um giro empolgado como se estivesse arremessando uma massa de pizza imaginária. O Bolozera Arco-Íris abriu um sorriso confiante. A missão estava definida. Enquanto os gritos ecoavam pela enorme sala branca do Congresso dos Bolozeras, uma nova busca começava. Uma busca que poderia finalmente levar ao verdadeiro Bolozera de Carne Pura.


Alguns anos se passaram. No Plano 88, a vida havia encontrado um ritmo surpreendentemente tranquilo, ao menos dentro dos padrões daquele grupo. Com o dinheiro da indenização obtida após Vinícius exercer com autoridade seu diploma absolutamente falso de direito, a turma havia tomado uma decisão inédita em sua história coletiva. Comprar uma nova casa. E não era qualquer casa. Eles agora moram em um condomínio fechado em Porto Legal, numa região arborizada onde as ruas eram limpas, os vizinhos mantinham jardins organizados e ninguém, pelo menos teoricamente, tentaria explodir o imóvel com cenouras de Mangital.


A casa era linda. Construída inteiramente em madeira nobre, com vigas largas e um telhado inclinado coberto por telhas escuras. Grandes janelas de vidro permitiam que a luz da manhã invadisse todos os cômodos, e uma varanda elegante contornava a fachada frontal. Nos fundos havia um quintal enorme. Um gramado verde se estendia até uma cerca branca no fundo da propriedade. Algumas árvores frutíferas cresciam espalhadas pelo terreno. Mangueiras, goiabeiras e até um pé de jabuticaba. Perto da cerca havia um pequeno lago artificial, onde um peixinho preguiçoso nadava lentamente entre folhas de vitória-régia. Era, sem dúvida, o lugar mais civilizado que o grupo já havia habitado.


Dentro da casa, porém, o caos continuava o mesmo. Na cozinha, Bolozera Phillips estava completamente imerso em seu próprio momento de felicidade matinal. Ele dançava, girava, e rebolava. Tudo isso enquanto preparava o café da manhã. Vestia seu chapéu-coco, suas sandálias verdes, luvas brancas e um avental de cozinha amarrado sobre o corpo redondo de almôndega. Seus dentinhos dentuços apareciam sempre que ele sorria, o que naquele momento era praticamente constante. Sobre o fogão havia uma frigideira onde várias panquecas estavam sendo preparadas. Ou melhor, estavam sendo queimadas. Em um momento particularmente entusiasmado da dança, Bolozera girou a frigideira e lançou uma panqueca para o alto com um movimento exageradamente heroico. A panqueca subiu. Subiu mais do que deveria. E então grudou diretamente no teto da cozinha. Bolozera parou no meio do passo. Olhou para cima.


— Nossa! — exclamou, com sincera admiração.


Ele cruzou os braços e analisou a panqueca colada no teto como se fosse uma obra de arte moderna. Nesse momento, a porta da frente se abriu. Vinícius, o rinoceronte de cinco patas, entrou na casa carregando sua maleta de trabalho. Seu rosto tinha a expressão típica de alguém que havia passado o dia inteiro discutindo com pessoas incompetentes. Ele esticou os braços, alongando os ombros cansados.


— Cheguei, pessoal!


Bolozera virou a cabeça imediatamente.


— Oi, Vini! — disse ele, alegre. — Quer uma panquequinha?


Vinícius olhou para a frigideira. Depois para o prato. Depois para as panquecas. Todas estavam totalmente queimadas, com uma coloração insalubre que variava entre carvão e asfalto. Ele balançou a cabeça lentamente.


— Passo.


Ele colocou a maleta sobre a mesa.


— Onde está o Bittencourt?


Bolozera suspirou profundamente. Ele tirou o avental com um ar teatral e pegou um prato com uma pilha de dezesseis panquecas completamente carbonizadas. Segurou o prato com as duas mãos.


— Nossa, Vini… por favor, né!


Ele começou a caminhar em direção ao corredor.


— Até parece que eu tenho que saber de tudo! Um bolinho que nem eu não pode ter um segundo de paz?


Ele passou pela porta da cozinha.


— Agora me dá uma licencinha que eu vou alimentar o patinho.


Vinícius ficou parado observando a almôndega sair. Ele esfregou a testa.


— Eu só fiz uma pergunta… — murmurou para si mesmo.


Enquanto isso, Bolozera caminhava pelo corredor da casa, segurando o prato de panquecas queimadas. Bolozera chegou até a porta do quarto de Nathan e bateu duas vezes. Ele esperou exatamente meio segundo. Então abriu a porta mesmo assim.


— Nathan? — disse, colocando a cabeça para dentro.


O quarto era peculiar. Nos últimos dias, a esquizofrenia de Nathan havia piorado consideravelmente, e o ambiente refletia isso de forma quase clínica. Todas as paredes estavam cobertas por grossos estofados brancos, acolchoados como em uma sala de isolamento psiquiátrico. O teto também havia sido parcialmente revestido com o mesmo material, e até as quinas dos móveis eram arredondadas. A iluminação era fria, branca, quase hospitalar. O cômodo tinha pouquíssimos objetos. Apenas uma cama branca, com lençóis igualmente brancos e perfeitamente esticados. E uma poltrona branca, posicionada no canto, voltada para a parede como se alguém tivesse tentado criar um lugar para reflexão, ou de vigilância. O resto do quarto era vazio.


No chão, sentado no meio do cômodo, estava Nathan. O pato permanecia completamente imóvel, encarando a parede estofada com os olhos abertos e sem expressão, como se estivesse assistindo a algum espetáculo imperdível e invisível. Bolozera entrou devagar.


— Oi, patinho…


Ele caminhou até o centro do quarto carregando o prato de panquecas. Nathan não reagiu. Não piscou. Não respirou de forma perceptível. Nada. Bolozera se aproximou e se agachou ao lado dele. Colocou o prato de panquecas no chão. Nathan então, lentamente, levou o bico até a própria perna e começou a roer a própria pata, distraído, como se fosse um gesto completamente normal. Bolozera arregalou os olhos.


— Patinho… você está bem?


Nathan continuava olhando fixamente para a parede. Silêncio. Um silêncio longo. Muito longo. Cinco minutos se passaram. Bolozera ficou sentado ao lado dele, com as mãos no colo, tentando manter a calma enquanto olhava alternadamente para Nathan e para as panquecas queimadas. Então, sem aviso algum, Nathan começou a gorfar violentamente. Uma torrente de vômito jorrou para frente. Depois outra. E outra. O pato tremia enquanto vomitava descontroladamente no chão branco do quarto.


— Eu não aguento mais!


Bolozera soltou um grito de puro desespero.


— Patinho?!


Ele saltou para trás, horrorizado. Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto redondo da almôndega.


— Socorro!


Sem conseguir lidar com a situação, Bolozera saiu correndo do quarto em completo pânico, atravessando o corredor da casa com os braços levantados.


— O patinho está morrendo! — ele gritava, chorando desesperadamente.


Bittencourt, o hippie desprovido de pênis, estava passando pelo corredor naquele exato momento, com sua expressão habitual de serenidade quase irritante. Vestia uma bata colorida, sandálias gastas e carregava consigo o aroma leve de incenso e ervas aromáticas. Ele viu Bolozera correndo pelo corredor em completo desespero, lágrimas escorrendo pelo rosto redondo de carne. Bittencourt franziu levemente o cenho.


— Bolinho?


Ele se aproximou calmamente e colocou uma mão no ombro da almôndega, tentando acalmá-lo.


— Calma… respira, irmão.


Bolozera fungava alto, tentando recuperar o controle. Bittencourt inclinou a cabeça com tranquilidade quase filosófica.


— Eu e o gordo imenso vamos ir comer no Rei da Chapa.


Ele abriu um pequeno sorriso pacífico.


— Quer vir com a gente?


Foi como se alguém tivesse apertado um interruptor dentro da cabeça de Bolozera. Os olhos dele se iluminaram instantaneamente. As lágrimas pararam. Ele limpou o rosto com as luvas brancas.


— Nossa, eu quero!


O desespero evaporou completamente. Momentos depois, os três já estavam saindo da casa. O portão automático do condomínio se abriu lentamente enquanto Bolozera, Vinícius e Bittencourt caminhavam pela calçada ensolarada de Porto Legal. O ar da manhã era fresco. Os pássaros cantavam. Os vizinhos regavam plantas. Era uma cena surpreendentemente pacífica. Os três seguiam conversando distraidamente enquanto caminhavam em direção ao restaurante. Uma manhã comum. Uma manhã despreocupada. Sem imaginar que, em algum lugar do Planoverso, forças antigas e sombrias já estavam se movendo lentamente em direção a eles.


Nathan estava deitado na cama, o corpo pequeno encolhido entre os lençóis brancos. As penas arrepiadas e os olhos marejados denunciavam o estado psicológico em que ele se encontrava. O quarto acolchoado parecia ainda mais silencioso agora que Bolozera havia saído correndo em pânico. Ele chorava baixinho. Foi então que ele ouviu algo. Uma respiração pesada. Ofegante. Vinda de algum lugar muito próximo. Nathan congelou. Lentamente, virou a cabeça. No colchão auxiliar ao lado da cama, havia alguém deitado. Um homem magro, de expressão severa, sobrancelhas arqueadas e olhar profundamente cansado observava Nathan como quem encara um experimento fracassado. Seus olhos tinham um brilho de julgamento implacável. Ele falou sem qualquer cerimônia.


— Você não vai fazer nada?


Nathan deu um salto na cama.


— Porra!


O coração do pato disparou.


— Quem é você?! — perguntou, completamente assustado.


O homem soltou uma risada curta e seca, cheia de desdém.


— Não seja tolo, Nathan.


Ele apoiou a cabeça na mão, olhando o pato como um professor decepcionado.


— Sou Arthur Schopenhauer, sua voz interior.


Nathan piscou várias vezes. Tentou processar aquilo.


— Então você é tipo a minha consciência?


Schopenhauer arregalou os olhos. Então soltou outra risada, desta vez carregada de impaciência.


— Não, seu filho de uma puta!


Ele sentou no colchão com irritação.


— Não seja tolo!


Apontou para o canto do quarto.


— Atma é sua consciência.


Nathan virou a cabeça. Na poltrona branca, completamente relaxada, estava Atma, uma pequena poodle de pelagem impecavelmente aparada. Ela estava sentada com a postura tranquila de quem não tem absolutamente nada a ver com aquela conversa. Nas patas, segurava uma maçã. Ela mastigava lentamente. Sem demonstrar qualquer interesse no drama existencial do pato. Nathan piscou novamente.


— Então você é só…


Schopenhauer cruzou os braços.


— Sua voz interior.


Ele inclinou a cabeça, analisando Nathan.


— E devo dizer que você está fazendo um péssimo trabalho ouvindo a si mesmo.


Atma deu outra mordida na maçã e continuou completamente indiferente. Arthur Schopenhauer se inclinou lentamente para frente no colchão auxiliar, apoiando os cotovelos nos joelhos. Seus olhos escuros e cansados se fixaram em Nathan com uma intensidade quase opressiva.


— Você tem que ir atrás dele, pato… — disse o filósofo em um tom grave, pesado de urgência.


Nathan esfregou os olhos, ainda atordoado, tentando organizar os pensamentos que pareciam embaralhados dentro de sua cabeça.


— Você não vai me enganar! — protestou ele, apontando o dedo trêmulo para o filósofo. — Eu sei que você é apenas um fruto da porra da minha esquizofrenia!


Por um segundo, o quarto ficou em silêncio. Então, de repente, Atma começou a latir violentamente da poltrona. Schopenhauer reagiu no mesmo instante. Ele se levantou num movimento brusco e agarrou Nathan pelo pescoço, puxando o pato para perto de seu rosto. O olhar dele agora estava mais sério do que nunca.


— Caralho! — rosnou ele. — Você não entende a gravidade da situação?!


Nathan ficou completamente paralisado, a respiração curta e irregular. Schopenhauer apertou mais o pescoço dele.


— Você está grávido, Nathan!


O pato arregalou os olhos.


— E precisa cobrar o pai da sua criança, ou vai se arrepender amargamente.


Nathan tremia. Atordoado, com o cérebro girando como um liquidificador quebrado, ele mal conseguiu formular a próxima pergunta.


— E quem é o pai?


Schopenhauer estreitou os olhos. Então levantou a mão e deu um tapa seco na cara do pato.


— Não finja que não sabe! — gritou o filósofo.


Ele apontou o dedo para a testa de Nathan.


— Busque nas suas memórias, pato imbecil!


A respiração de Nathan ficou pesada.


— E assim que lembrar… — continuou Schopenhauer, com voz ameaçadora — vá atrás dele.


O quarto mergulhou em silêncio. Atma voltou a mastigar sua maçã calmamente. Nathan ficou parado por alguns segundos. Então algo aconteceu. Uma lembrança. Um clarão mental. Um fragmento esquecido emergindo das profundezas da sua mente. Os olhos dele se arregalaram.


— Eu vou atrás dele! — exclamou Nathan, levantando-se de um salto.


Sem pensar duas vezes, ele saiu correndo do quarto. Passou pelo corredor. Desceu as escadas. E abriu a porta da frente da casa com violência. Nathan saiu disparado pela rua do condomínio, correndo o mais rápido que suas pequenas patas permitiam. Ele atravessou o portão. Seguiu pelas imensas ruas de Porto Legal, completamente determinado. Enquanto corria, sua mente repetia uma única ideia. Ele precisava encontrar o pai da criança. E cobrar o que era devido.

 
 
Capítulo II: Alguém Está Chamando Nathan

Na base da famigerada Sociedade dos Fungos, erguida entre os escombros da antiga cidade de Sete Chaves, o silêncio era pesado como mofo antigo. O Laboratório Esporádico parecia um campo de batalha aba

 
 

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